O livro não morreu: entrevista com o coletivo PUBLICA!

por: Samanta Esteves

Com o intuito de incentivar o estabelecimento de vínculos entre editoras, autores e produtores de conteúdo, o coletivo Publica! busca aproximar o leitor do mercado editorial de forma dinâmica por meio da realização de trabalhos e atividades em torno do universo editorial independente, como a organização do evento Publica!. Realizado pela primeira vez em maio de 2016, a iniciativa acontece para espalhar a literatura por meio palestras, mesas, e atividades que incentivam o contato com o livro.  É assim que a equipe do Publica!, composta por cinco universitários do curso de Editoração das Faculdades Integradas Rio Branco, vem promovendo um importante espaço de diálogo sobre o mercado editorial e contribuindo para a democratização do acesso à leitura. Neste ano de 2018, o evento Publica! aconteceu no dia 17 de março e estivemos presente durante a Feira Retalho | Feira de publicações independentes. Confira a entrevista concedida pelo Publica à Malha Fina Cartonera, comentando sobre a iniciativa e alguns de seus projetos:

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Logo do Coletivo PUBLICA! Fonte: Facebook.

MF: Qual a proposta do coletivo Publica! ?

O Publica!, assim como o Literatura em Pauta, é realizado pela Equipe Publica!, formada por cinco alunos do curso de Editoração das Faculdades Integradas Rio Branco, que compartilham o amor por histórias bem contadas e grandes xícaras de café.

O Publica! é um evento literário, criado em 2015, para debater e refletir sobre o mercado editorial de maneira consciente e criativa. Buscamos criar um espaço no qual leitores, editores, produtores de conteúdo e todos os envolvidos na produção do livro se conectem e espalhem esse amor pela literatura.

O Literatura em Pauta funciona como um clube do livro, um espaço para debates literários para, inicialmente apenas para os alunos e ex-alunos da faculdade.

MF: Qual a importância de iniciativas editoriais independentes no cenário de publicação contemporânea?

O mercado editorial é competitivo e, como consequência, alguns autores acabam tendo dificuldade na hora de publicar seu livro em grandes editoras. Nesse momento, as editoras pequenas ou independentes ganham destaque, por serem acessíveis e demonstrarem interesse na obra.

MF: Que tipo de trabalhos o coletivo realiza?

O intuito é realizar trabalhos relacionados com nossa área (produção editorial), como as diagramações feitas especialmente para a Malha Fina Cartonera.

Em relação aos eventos, trabalhamos com a criação do material de divulgação e informativos do projeto.

MF: Como foi a experiência de editar as publicações da Malha Fina Cartonera?

Foi uma das primeiras experiências com a edição de livros sem envolvimento da faculdade. Uma grande oportunidade para colocar nossos aprendizados em prática, agradecemos por isso.

MF: Como se deu o processo de edição dos livros?

Para a edição de um livro, precisamos ler do que ele fala, para fazer um trabalho de acordo com a proposta do autor e da editora. Percebemos que existe uma dedicação para trabalhos manuais, então não podíamos fazer uma diagramação, por exemplo, extremamente rebuscada, pois não coincidiria com os princípios apresentados a nós pela editora. Providenciamos uma obra que dialogasse com o leitor, fosse aceita pelo autor e representasse a editora.

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Banner da Página do Coletivo Publica!. Fonte: Facebook.

Agradecemos ao coletivo por conceder esta entrevista e desejamos que a parceria da Malha Fina Cartonera com o Publica! seja duradoura. Além disso, estamos ansiosos pelo próximo evento Publica!

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RETROSPECTIVA – 1º semestre de 2018

por: Samanta Esteves

Apesar de breve, o primeiro semestre de 2018 foi marcado por um calendário repleto de atividades. Com a importante tarefa de promover a criação poética e literária caribenha através do processo de publicação cartonero, a equipe da Malha Fina esteve envolvida na participação de feiras e eventos literários.

Desde março, estivemos no Fazetório de Ficções (Sesc Pinheiros), na 2ª edição da Feira Desvairada, de poesia, e na Feria Relámpago (Instituto Cervantes), voltada à divulgação da produção poética hispano-americana.

 

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Além disso, compromissada com a relevância do fenômeno cartonero para o Brasil e o mundo, a Malha Fina entrou em contato com ideias e projetos de diferentes lugares. Em 19 de março, nossa equipe teve o prazer de se reunir com dois pesquisadores da University of Surrey e Durham University, quando entramos como colaboradores do projeto de extensão universitária coordenado por eles, que pretendem promover exposições e disponibilizar coleções cartoneras em bibliotecas e espaços universitários ingleses, como a Biblioteca Nacional da Inglaterra e a Biblioteca das Universidades de Londres.

Vale lembrar também da conversa com a pesquisadora e profissional de biblioteconomia Paloma Carbajal, da Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), realizada em 2 de maio, em nossa sala. Coeditora de Akademia Cartonera: un ABC de las editoriales catoneras de América Latina, ela contou a Idalia Morejón, Chayenne Mubarack, Larissa Pavoni e Pacelli Dias um pouco sobre sua pesquisa e o acompanhamento de edições cartoneras que realiza em vários países do mundo. O contato com Paloma facilitou a circulação global dos livros da Malha Fina Cartonera através do sistema de dados existente em sua biblioteca.

 

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Em meio a tantos eventos, o compromisso com a produção poética hispano-americana nos levou ao III Congreso Internacional “El Caribe en sus literaturas y culturas”, realizado na Universidad Nacional de Córdoba. O evento aconteceu nos dias 5, 6 e 7 de abril e reuniu pesquisas em torno das manifestações literárias de países do Caribe hispanófono, anglófono, francofono e holandês. Chayenne Mubarack e Pacelli Dias Alves de Sousa, integrantes da Malha Fina, estiveram no congresso para apresentar nossa antologia de poesia cubana orientalista, organizada por Idalia Morejón Arnaiz e Pacelli, que propõe uma perspectiva ainda pouco explorada pela crítica.

 

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Em 16 de maio, realizamos, finalmente, o tão esperado lançamento de Caribe Oriental: Antologia de Poesia Cubana Orientalista, no Instituto Cervantes. A data, que contou com a apresentação de Idalia Morejón Arnaiz, Guillermo Loyola e Pacelli Dias Alves de Sousa, marcou também a inauguração da exposição de capas cartoneras de Caribe oriental com projeto artístico de Darío Ares e Marga Steinwasser.

 

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Entre tantas surpresas, destacamos com alegria a divulgação do resultado da Segunda Convocatória de Narrativa e Poesia Selo Editorial Malha Fina Cartonera, realizada em parceria com a Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Unifesp e a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Em 18 de maio, realizamos uma conversa com Hildon Vital de Melo (USP) e Mayra Martins Guanaes (Unifesp), autores de Anotações para o livro do ventreAfetos e ficções – originais escolhidos pelo Comitê de Seleção composto por Bruno Zeni, Paloma Vidal, Diana Klinger e Idalia Morejón Arnaiz.

Hildon Vital de Melo e Mayra Guanaes

Hildon Vital de Melo, Samanta Esteves e Mayra Guanaes. Foto: Leonardo Chagas.

Durante esses meses, o blog também não parou. Entre tantas postagens, destacamos a matéria sobre o processo de publicação de Todo o Silêncio, de José Luís Peixoto, escritor português que produz uma prosa poética de caráter lusófono e sobre Drástico, de Reuben da Rocha, poeta performático-experimental que vê na criação poética o campo por excelência das experimentações possíveis. Tivemos também a resenha crítica sobre Ficções, de Bernardo de Carvalho, composto por seis pequenos contos de caráter existencial e misterioso. Por fim, tivemos também a resenha de Cubanologia, de Omar Pérez, antologia traduzida para o português por Idalia Morejón Arnaiz e Tatiana Faria.

 

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Na Sangria, entrevistamos Cesare Rodrigues, livreiro e autor de Caso fossem ursos (Empório do Osório, 2016) e apresentamos alguns poemas de Luana Claro – jovem pesquisadora de poesia contemporânea e autora do livro de poemas Diadorim (Patuá) – e de Clarisse Lyra – licenciada em Letras com ênfase em Língua Espanhola pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e Mestra em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado em andamento pela mesma instituição.

 

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Com a idealização de tantos projetos, a equipe da Malha Fina termina o primeiro semestre de 2018 em clima de comemoração, visualizando agosto como promessa de muitas realizações e novas publicações, sendo o livro de Paloma Vidal e as obras de Mayra Guanaes e Hildon Vital os lançamentos aguardados.

Aproveitamos também para lembrar a todos que nosso trabalho não tem fins lucrativos e o que nos ajuda a publicar cada vez mais autores é a venda dos livros. Para adquirir os títulos da Malha Fina, envie um e-mail para malhafinacartonera@gmail.com.br ou entre em contato pelo nosso perfil ou página no Facebook.

CUBANOLOGIA: O Ritmo da Ilha

por: Samanta Esteves

Omar Pérez nasceu e cresceu em Cuba, onde se formou em Língua e Literatura Inglesa pela Universidade de Havana, em 1987. Com vinte e tantos, já participava ativamente das multifacetadas cenas culturais que emergiam na cidade em que se firmou como autor, tradutor e ensaísta. Desde então, desponta em diversas antologias que se debruçam à produção poética da ilha, configurando-se como poeta de referência no cenário cultural e contemporâneo cubano.

Entre suas produções, encontra-se Cubanologia, antologia traduzida para o português por Idalia Morejón Arnaiz e Tatiana Faria, e publicada pelo selo editorial Malha Fina Cartonera em 2017. Os poemas que compõem a obra revelam a singularidade poética de Omar Pérez, que encontra nas tradições musicais e na poesia popular cubana – marcada pelo cajón, através do punto guajiro que evolui para la controversia (semelhante ao repente brasileiro) e pelos toques de palo (próximos da capoeira) – o ritmo capaz de atribuir a corporeidade particular de seus poemas.

Como peculiaridade, Cubanologia traz as principais linhas de força que sustentam a produção de Omar Pérez, possibilitando ao leitor vislumbrar um projeto poético que tem Algo de lo Sagrado como ponto de partida. Revela igualmente a influência sempre presente do contexto cubano dos anos 1950, momento em que o movimento Filin lança por meio da música falada o espaço ambíguo entre melodia e poema de que tanto se vale a poesia de Omar Pérez.

Segundo Idália Morejón, em posfácio à antologia Ninguna Magia, da edição de La Sofia Cartonera, “su poesia ha ido acercandose cada vez más a un centro de contencíon rayano en el ascetismo verbal, a veces, pero también en la sonoridad de la música popular cubana, reflejo de una profunda transformmación espiritual, que passa por las experiencias religiosas afrocubanas y el budismo zen.

De chegada, essa poesia se apresenta ao leitor como espaço de resistência através de formas de dificuldade que se oferecem aos seus olhos, tirando-o do lugar de passividade histórica que a produção literária o reservou e refletindo o cenário de diversos escritores do período. Influenciado pelo zen-budismo dos anos 1990, as nuances filosóficas da poesia de Pérez, que tem acompanhado sua produção, estão presentes na antologia, revelando um forte campo de influência que, ao lado da cultura popular cubana, compõe uma convivência de raro (des)equilíbrio.

Algo de lo Sagrado, seu primeiro livro, publicado em 1996, é recebido com entusiasmo no contexto cultural da poesia insular contemporânea, adiantando aspectos que seriam explorados por Pérez nas produções seguintes. Em Oíste hablar del gato de pelea, lançado por Letras Cubanas em 1999, a ressonância da filosofia zen-budista extrapola os limites do verso para adentrar à vida, coincidindo com os passos do poeta, posteriormente ordenado como monge.

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No encalço de uma estética cubana capaz de oferecer-se enquanto resistência poética e cultura popular, a antologia em questão coloca em prática a tarefa iniciada em Lingua Franca de fazer do papel lugar de experimento, laboratório de criação. Como resultado de um processo de amadurecimento poético perpetrado por Pérez, é possível observar a presença de diversas facetas estilísticas coexistindo em Cubanologia, através da mescla de elementos díspares: filosofia zen-budista, produção multilíngue e cultura popular cubana; aspectos que integram a busca utópica por uma poesia de expressão nacional capaz de incorporar música como letra, ritmo como performance, tradução como processo criativo.

Ao atentar para o multifacetado fazer poético que anima os versos de Cubanologia, compreende-se que a força da poesia de Omar Pérez reside justamente numa aguçada percepção de que a poesia é um ponto fugidio na curva do tempo. Em Pérez, a poética funciona como ilhas de utopia que, suspensa na lacuna dos séculos, irrompem de repente, inaugurando poemas que se assemelham a sismógrafos ansiosos que buscam o menor sinal de movimento.

Aqui, a unidade poética se constitui como movimento, ritmo inspirado na dança, como o mambo e o guaguancó, bem como outras influências afro-cubanas. Afastando-se da perspectiva essencialista, o poeta inaugura um modo de enunciar a identidade cubana que afasta o compartilhamento estático dos sentidos de um povo para compreendê-lo enquanto devir; processo que incorpora a fuga como possibilidade. Em sua poesia, a performance é prática de liberdade, utopia tão necessária a uma ilha onde as promessas de liberdade, por vezes, não se revelaram suficientes para implodir limites, como se percebe no tom melancólico do poema que dá nome ao livro:

Disseram que a ilha não estava fixada
nem ao fundo nem ao céu
e que nasceria uma nova criatura
saborosa manga sem chupar
e então, até quando o amor
será instrumento d vingança
e a doçura objeto para o lucro.
Disseram que a ilha era infinita
e agora que cheguei aqui
tudo está cheio d limites.

Se a poesia é a arma da revolução, em Omar Pérez ela nunca esteve tão presente enquanto pólvora que nos permite insistir na poética anárquica que reconhece como único teorema uma canção.