O tumulto das palavras: a poesia e sua função social em “Drástico”, de Reuben da Rocha

por: Aryanna Oliveira

A poesia performática vem ganhando cada vez mais espaço em centros culturais e nas noites das grandes cidades. Naquilo que Ricardo Aleixo – um dos grandes nomes do movimento performático – chamou de “poesia expandida” tem-se levantado o debate sobre a circulação da palavra a partir da verbalização da poesia, outrora vista apenas como uma composição em versos, normalmente rimados e dispostos em folha de papel. Como um grande desafio, os artistas da performance buscam decifrar o significado da obra de arte para além do que superficialmente está contido nela, fazendo emergir de um contexto mais intrínseco um complexo de possibilidades para a palavra.

Assim os slams, competições de poesia performática, tem sido espaços de grande difusão do movimento performático, no jogo das palavras orais, que em jogo, ganham contornos sociais, em uma função quase política nas rodas culturais das grandes e pequenas cidades. Surgidos nos anos 1980, nos guetos dos Estados Unidos, ganhou hoje espaço nos guetos de muitos países, extrapolando o papel poético de acordo com o contexto.

Entretanto, para além das competições – e considerando que nem todo poeta performático é um competidor em slams – a poesia performática incorporou novos elementos transformando-se numa arte híbrida, hoje chamada intermídia, em que além da palavra, da voz e do corpo, novos meios – como luzes, sons eletrônicos, cores – reforçam outros sistemas semióticos, atualizando os procedimentos tradicionais. Nessa poesia intermídia são entrecruzados signos de diferentes códigos, ganhando novos contornos e ampliando as possibilidades de expressão.

Um dos grandes destaques desse novo cenário é Reuben da Rocha, ou CavaloDADA – codinome que para ele já representa um aspecto de sua poética, o fazer poético a partir de uma degradação linguística –, que recentemente publicou seu Drástico pelo selo da Malha Fina Cartonera. O poeta já publicou diversos livros em que a palavra se mostra para além do impresso, como se saltasse aos olhos, num tumulto vertiginoso de intenções. Segundo ele, que se define como um “artista experimental do terceiro mundo, um nordestino, brasileiro, latino-americano, maranhense que se situa no campo do experimental”, para entender a poesia performática é necessário compreender a palavra poética para além do convencional, retificando uma ideia ultrapassada que as manifestações poéticas atuais se mostram em detrimento às formas clássicas impressas. Sobre isso falou-nos, “a poesia não tem uma linguagem preferencial, não tem uma mídia preferencial, ela se manifesta em qualquer meio. Os meios são relativos A palavra, o veículo primordial da poesia é um meio semiótico por natureza. A palavra é imagem, som e ideia, e se manifesta em todos os meios. A palavra tem essa fugacidade. É uma ilusão pensar uma coisa em detrimento à outra. São meios autônomos que acontecem ao mesmo tempo. Não existe um contexto privilegiado”.

Leitor de Dostoiévski em tempos de escola, viu a performance invadir sua vida em sua experiência universitária na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), nas enriquecedoras trocas que se estabeleciam com colegas e professores. “A velocidade da informação criativa era assombrosa, todo mundo tinha tempo disponível”, explica. Foi nesse momento que percebeu a necessidade exceder os limites da poesia, de percebê-la percorrer o corpo, como que ganhando forma física. “Preciso repetir mil vezes a palavra nos lábios, de ter um jeito de pronunciar as coisas. Isso sempre teve de uma maneira acentuada na minha vida. Então as duas coisas, poesia e performance, estavam intimamente ligadas para mim”, completa.

Em 2012, viveu uma grande experiência no World Event Young Artists, festival realizado em Nottingham, interior da Inglaterra. Lá, apresentou “CAIXAPREGO” na Backlit Gallery, vendo ali, que sua língua, por ele chamada de “pretoguês”, precisava ser traduzida através da forma, da performance, percebeu a necessidade de estudar o seu fazer poético. “Eu estava num país de língua inglesa, como um poeta brasileiro que fala um certo tipo de português, o “pretoguês”, com uma acentuação africana muito forte, que é a língua que eu falo, uma invenção que passa pelo sotaque, pelos ritmos específicos de muitos Brasis. E era isso que eu gostaria de levar para lá. Não queria traduzir meus poemas para o inglês. Então precisei encontrar um modo de traduzir pelo timbre, pela melodia, pela pronúncia aquilo que eu queria dizer. A partir dali eu comecei uma pesquisa, que é a base do que eu faço em performance”.

Apresentação de “CAIXAPREGO/NAILBOX” (Backlit Galery, WEYA, 2012)

Reuben, como CavaloDADA, no Macrofonia. (Casa da Luz, São Paulo, 2017)

Para além do performer talentoso, ganhamos um estudioso do movimento performático que atua no campo de experimental, trabalhando com e interpretando códigos. “Sou um pesquisador da linguagem. Meu campo está em constante movimento. Dialogo com outros campos que respeito e me interesso, mas eu acho que o que eu faço se situa no campo do experimental. E o experimental brasileiro tem uma relação muito forte com a poesia, que para mim tem uma relação muito forte com figuras como Hélio Oiticica, com José Agrippino de Paula, Rogério Sganzerla, que é um cineasta, mas faz um cinema de poesia, como o Julio Bressane”, explica. Nesse estudo, percebe a poesia como um estado de linguagem, “de experimentação, de uma invenção que não se limita a uma única expressão, como a arte de fazer versos. Percebo a poesia como uma abordagem que você pode levar a qualquer linguagem. Godard, Tarkovski, cineastas de poesia. Tudo me interessa, essa malha de criação”, conclui.

Isso se evidencia nas páginas de Drástico, o único de seus livros em que não trabalha a linguagem visual. Segundo ele, sempre procurou elaborar um trabalho visual que lhe permitisse a passagem de um código para o outro, como evidenciando, por exemplo, a arte sonora, que não é somente poesia sonora. Porém, em sua publicação mais recente, os códigos se condensam nas palavras tumultuadas e urgentes, marcadas pela oralidade. Nele, as moças magrelas, os operadores de telemarketing, a noite, os animais e os corpos mortos, ganham vida em uma ressonância subversiva e latente. Em seu “Melô do Telemrkt”, a precisa ligação “das 5 todo dia”, é pano de fundo para reflexão, que culmina, como em outros poemas, em uma agonia persistente, que ouve o que range dentro da gente.

Capa de Drástico, publicado pela Malha Fina Cartonera. Foto: Aryanna Oliveira.

A menina magrela e o telemarketing retratados em Drástico. Foto: Aryanna Oliveira.

Em “Nem sempre lembro de aparar as unhas”, o ato rotineiro é acompanhado do cheiro da cerveja nas ruas pela manhã, como lembrando a vida em contínuo movimento, marcada pelo ritmo da morte, “o ritmo q a morte rompe”. O tempo que passa, aliás, é constantemente relembrado, mas sem cobrança, apenas como um aviso das palpitações da vida e morte a cada segundo, do corpo humano que se danifica e tantas vezes se aproxima em sentido, dos animais e dos restos e entulhos.

“Nem sempre lembro de apanhar as unhas”, em Drástico. Foto: Aryanna Oliveira.

A raiva, talvez uma já curtida raiva dos tempos de escola que o incitava a isso, é relembrada em “As mais pedidas”, nas palavras ruidosas e diretas de Reuben, “mas meu calor me leva aa alegria hábil em rir na raiva e na angústia”.

Palavras que gritam, em “As mais pedidas”. Foto: Aryanna Oliveira.

Nas marcas da oralidade, no exercício de trazer para o papel o cotidiano, a vida mais ordinária e marginal, a poesia se extrapola e se multiplica em funções. A palavra em Reuben é imagem, é som, é pensamento, tudo condensado nas palavras impressas que tanto querem dizer. A palavra poética, e em constante performance, do poeta maranhense que tão bem traduz as ruas e os dias de tantos Brasis, nos reconecta com as forças mais intrínsecas dos anseios do ser humano, o que justifica sua missão social enquanto artista da palavra. Em suas tão fortes e aqui harmonizadas palavras, sua função se estabelece no fazer poético. “O papel do que eu faço é reenergizar o planeta. Tudo que eu faço em qualquer meio tem a intenção de dialogar com nossas forças primitivas, a força das águas, da terra, com o canto dos pássaros, com os insetos, mamíferos, peixes, com a brisa, com o movimento das nuvens no céu, a gradação da luz ao longo do dia. Tudo isso são forças de poesia que nos ensinam a viver, mas são ignoradas pela sociedade com a qual nos organizamos hoje. Essa sociedade que não deixa nenhum espaço para o sonho, para a contemplação, para atividades que desafiam o tempo linear da produtividade”, explica. E, por fim, completa, “a tarefa da poesia é nos reconectar com essas forças e reequilibrar o planeta, que hoje é doente. A arte é então uma força de saúde. E os artistas são trabalhadores da saúde do planeta, do inconsciente coletivo, da espécie humana, que não existe, porque o que existe é a vida, se expressando através de diversas formas, dentre elas essa forma mamífera humana, mas a poesia não é um privilégio dos humanos, ao meu ver é uma força da vida.”.

imageQuem é: Reuben da Cunha Rocha, ou CavaloDADA, é maranhense do dia 28 de junho de 1984. Artista intermídia, tradutor, colaborador nas mais diversas frentes culturais e crítico de artes. Entre suas publicações, sempre em selos independentes, estão a série Siga os sinais na brasa longa do haxixe (Pitomba Livros e Discos, 2016) e Drástico,  publicado este ano pela Malha Fina Cartonera.

(Imagem: Arquivo pessoal de Reuben Rocha)

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Lembrar no Presente: Sobre a publicação de Todo o Silêncio, de José Luís Peixoto

por: Chayenne Orru Mubarack
colaboração: Mariana Costa Mendes

A Malha Fina Cartonera surgiu como um projeto de cultura e extensão da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP) em 2015. Quando surgimos, alguns objetivos nos guiavam (e guiam-nos até hoje): somos a possibilidade de inserção de estudantes no mundo editorial dentro da própria universidade. Através da Malha Fina, os estudantes podem experimentar algumas tarefas como tradução, revisão, diagramação, entre outras, que dizem respeito à confecção do miolo de um livro. Além, claro, da confecção deste objeto em sua forma cartonera: coleta e corte de papelão, costura do miolo, pintura da capa.

Somada à materialidade livresca, a Malha Fina também chama a atenção pelo desenvolvimento de algumas linhas editoriais específicas ao longo desses anos. Debutamos com uma coleção de literatura brasileira, na qual publicamos quatro autores brasileiros alunos de programas de pós-graduação da própria FFLCH. Nosso carro forte é a linha de literatura caribenha, na qual publicamos escritores cubanos e porto-riquenhos, além de termos antologias de poesia haitiana e venezuelana em desenvolvimento. Por estarmos dentro da universidade, também vimos a possibilidade de disseminar e publicar textos inéditos de estudantes da graduação e da pós-graduação, o que temos realizado por meio de nossas convocatórias. Outra linha seria a de poesia e performance, composta pela publicação do poeta maranhense Reuben da Rocha, por exemplo.

Os espaços e eventos que frequentamos ao vendermos nossos livros ou darmos oficinas de confecção de livros cartoneros costumam ser feiras de publicações independentes. Em novembro de 2016, participamos da LER – Salão Carioca do Livro, em um stand compartilhado com a Mariposa Cartonera. O objetivo de nossa participação era expor nosso catálogo e compartilhar com os presentes um pouco sobre nosso modo de publicação. Durante a feira, uma de nossas colaboradoras, Mariana Costa Mendes, reconheceu o escritor português José Luís Peixoto e iniciou um diálogo com o autor, o qual demonstrou grande interesse em publicar em nosso formato editorial.

Mariana e José Luís Peixoto

A colaboradora Mariana Costa Mendes com o escritor José Luís Peixoto na LER – Salão Carioca do Livro (nov. 2016).

Em julho de 2017, quando a então coordenadora do projeto, Tatiana Lima Faria, foi a Portugal ministrar oficinas cartoneras em Trás-os-Montes, o contato com Peixoto foi retomado e preparamos, então, uma edição do livro Todo o Silêncio para ser confeccionada lá.  Em agosto do mesmo ano, decidimos publicar o livro também aqui no Brasil e incluí-lo em nosso catálogo. Todo o Silêncio é, portanto, o primeiro livro em que a Malha Fina Cartonera entra no território da literatura portuguesa. A escolha da palavra “território” não é aleatória, pois a obra nos apresenta uma viagem por diferentes lugares e acontecimentos através da memória.

Todo o Silêncio - Capas

Capas dos livros de José Luís Peixoto confeccionadas pela Malha Fina Cartonera no Brasil.

A primeira narrativa, que leva o mesmo nome do título do livro, remete ao primeiro livro publicado do autor, Morreste-me. Nele, Peixoto escreve sobre um filho que perdeu o pai, coincidindo com o momento de luto vivido pelo próprio autor. No conto que publicamos, o narrador versa sobre noites de apresentação de seus livros em bibliotecas e livrarias nas quais, muitas vezes, a referência ao seu pai é indispensável. Em dado momento, dirige-se diretamente a ele: “Sim, pai, às vezes vou à televisão falar dos meus livros”. O conto adquire, então, outro tom. O leitor pode revisá-lo a partir da perspectiva da ausência e da perda eterna de um ente querido que, ao mesmo tempo, eterniza-se e reaparece por meio da escrita.

A segunda narrativa que comento nesta resenha coincide com a segunda do livro publicado. Em “Conta lá a história das bibliotecas itinerantes”, viajamos para Galveias, no Alto Alentejo, em Portugal, lugar de nascimento do escritor. A narrativa apropria-se de uma nostalgia, memórias do já vivido que se unem ao presente da escrita: “As crianças de Galveias são iguais às de antes”. Na infância do narrador penetram histórias da infância de seus filhos. Um encontro entre passado e presente, inclusive no nível da escrita, que utiliza o presente do indicativo para referir-se a coisas que pertencem ao passado. Afinal, ao revisitar o passado com o intuito de alterá-lo ou analisá-lo, logramos mantê-lo no presente: “Eu, que estou aqui neste instante, também estava lá […]”.

Mais adiante, saímos de Portugal e viajamos para a ilha de Cabo Verde. Em “O povo”, os sentidos se misturam com o intuito de contar-nos um pouco sobre os cabo-verdianos. Sons da música da telenovela numa versão cigana, as calças e a barriga de um homem, o sol ácido, um passeio na Feira do Relógio. Ao fim, um senhor que conversa com o narrador em crioulo cabo-verdiano e cujo diálogo, para além do conteúdo, traz consigo uma sensação de pertencimento. Novamente, memórias passadas que se mesclam ao presente da escritura.

As viagens não param por aí. O narrador também nos leva para a Guiné-Bissau, ao mercado de Bandim. Depois, para Patong, na ilha de Phuket, Tailândia. Passamos pelo interior de Rondônia, aqui no Brasil. O material da narrativa está sempre em acontecimentos passados. Em uma entrevista concedida ao programa Agenda, da Rede Minas, em 2015, o autor fala que “escrever é retirar ideias que existem de forma abstrata, em forma sem forma, e colocá-las no papel para que elas sobrevivam ao tempo”. Entretanto, também é preciso ter a noção de que o esquecimento chegará e que isto não deve ser triste. A memória, apesar de imaterial e invisível, nos forma e nos constitui. A matéria da escrita pode ser, portanto, uma memória, ou até mesmo uma desmemoria. Em “As palavras invisíveis”, por exemplo, o narrador confessa: “Conformo-me, estou cansado de procurar, mas tenho pena. Nesse bloco, tinha anotado a ideia que ia desenvolver neste texto. Não consigo lembrar como era, só recordo que me entusiasmou, pareceu-me boa ideia, fiquei contente quando a tive”.

Convidamos o leitor a embarcar nessa viagem por territórios, memórias e desmemorias. Esperamos que as reflexões de Peixoto sobre o passado e o presente mobilizem nosso público a revisitar momentos do passado que ainda fazem parte do presente. Da mesma maneira, aproveitamos esta publicação para revisitarmos um pouco de nossa história como selo editorial e lembrarmos de como nossa trajetória passada ecoa em nossas escolhas e lançamentos presentes.

Paloma Carbajal e o ABC das Editoras Cartoneras

por: Chayenne Mubarack e Larissa Pavoni Rodrigues

Na quarta-feira passada, 2 de maio, recebemos para uma conversa a pesquisadora e bibliotecária Paloma Carbajal, da Universidade de Wisconsin-Madison (EUA). Durante aproximadamente doze anos, Paloma realizou uma pesquisa e um acompanhamento de edições cartoneras em vários países do mundo. Ela também é coeditora do livro Akademia Cartonera: un ABC de las editoriales catoneras de América Latina.

Abaixo selecionamos trechos da conversa que durou toda uma tarde, com muita troca de experiências e ideias riquíssimas do universo cartonero. Paloma nos contou mais profundamente sobre como surgiu a ideia do encontro Libros cartoneros: Reciclando el paisaje editorial en América Latina, realizado em 2009 na Universidade de Wisconsin-Madison para cartoneras de vários países da América Latina, e do livro Akademia Cartonera, fruto de um Manifesto escrito pelas próprias cartoneras para esse evento. Você pode conferir o livro aqui.

Malha Fina Cartonera: Como era a estrutura do evento? E a questão do Manifesto foi algo vinculado ao evento?

Paloma Carbajal: A ideia desse evento surgiu através de duas pessoas que tinham muito interesse nas editoras cartoneras: eu, por conta da coleção que estava organizando desde 2006, e a professora Ksenija Bilbija, que era a principal pesquisadora na Universidade de Wisconsin sobre editoras cartoneras. O estudo dela se concentrava na Eloísa Cartonera, mas ela também se interessava em conhecer as demais cartoneras. Também somos as coeditoras desse livro (Akademia Cartonera: Un ABC de las editoriales cartoneras en América Latina). Em nossas viagens, aproveitávamos para conhecer as cartoneras, porque sabíamos que não tínhamos dinheiro para ir a todos esses países. Então pensamos: ao invés de nós duas viajarmos, por que não as convidamos para vir? Por isso não chamamos o evento de congresso, porque um congresso é acadêmico, e foi um encontro. A proposta foi convidá-las, explicar que a ideia era que as cartoneras se conhecessem. Ou seja, criar um evento no qual durante dois dias fosse um espaço de intercâmbio de experiências e de ideias entre as cartoneras, mas também entre nós, para que aprendêssemos com elas. Era uma proposta menos hierárquica, então propomos que as cartoneras, ao aceitar o convite, se preparassem para falar em um painel. No primeiro dia havia três painéis, não acadêmicos, já que as pessoas acadêmicas interessadas estavam no público, e as cartoneras falaram sobre o que quiseram. Como não tínhamos muito dinheiro para lidar com o problema da barreira da linguagem – porque nem todos os participantes entenderiam o espanhol ou português –, a proposta foi que as cartoneras participantes escrevessem um Manifesto, entendendo a palavra Manifesto como eles quisessem, então não havia alinhamentos, e desse modo iríamos publicá-lo e traduzi-lo ao inglês. Daí surgiu a Akademia Cartonera e, assim como vocês da Malha Fina, o processo de tradução foi colaborativo, então uma vez por semana, nos reuníamos para revisar e comentar a tradução. Esse livro saiu no momento do encontro, e a ideia era tirar cópias e distribuir gratuitamente para o público. No momento do painel, não necessariamente os participantes falavam sobre o que estava no texto, mas pelo menos quem não entendia o que estava sendo falado, teria uma ideia do que se tratava. E o nome Akademia é um jogo de palavras, porque era a “academia” que estava se juntando nesse evento, e colocamos o “K” para romper um pouco com isso.     

MFC: E no momento em que organizavam esse evento já haviam recompilando edições cartoneras?

PC: Sim. Comecei a coleção em 2006, nesse ano conheci Eloísa Cartonera. Fui à Feira de Livros em Buenos Aires, e uma colega me convidou para a oficina da Eloísa Cartonera. Eu já conhecia um pouco sobre essa cartonera, e fomos em três bibliotecários acadêmicos dos Estados Unidos. Javier Barilaro estava lá, e todos os primeiros integrantes da cartonera. Todos ficaram fascinados com o catálogo muito bem pensado da cartonera, com a representação da literatura contemporânea que não existia em mais nenhum lugar, apenas nessa forma. Levei alguns exemplares para mostrar a outros professores que estudavam literatura contemporânea, e ver se os interessava. Depois, cataloguei aproximadamente quinze edições e fiz todo o processo complexo de preservá-las e colocá-las na estante da biblioteca.

MFC: Como se desenvolveu essa base de dados?

PC: Uma professora coincidentemente ia à Argentina e se ofereceu para trazer os primeiros cem volumes. Eu não tinha ideia de que já existiam mais livros cartoneros. A coleção inicialmente se chamava “Eloísa Cartonera”, depois mudamos o nome da base de dados para “Base de datos editoriales cartoneras”, esse é o nome atual. Antes era “editoriales cartoneras latinoamericanas”, mas tiramos o “latinoamericanas” porque agora existem cartoneras europeias e de outras partes também. Então, temos a coleção física e a base de dados. E no momento do evento, em 2009, isso já existia, e havia algo como 300 livros. Agora há 1400 no total. Alguns são duplicados para poder documentar as variações de capas, mas temos aproximadamente 900 títulos. São muitos. E só atualizamos a base de dados uma vez por ano, então não reflete exatamente como está a coleção. Agora estou levando 130 livros da Eloísa Cartonera, porque desde 2010 não conseguia buscar seus livros, 70 da Sofía Cartonera, que Cucurto nos colocou em contato, de Dulcineia levo 70 aproximadamente e mais o de vocês.

Paloma Carbajal, Larissa Pavoni Rodrigues, Idalia Morejón Arnaiz, Chayenne Orru Mubarack e Pacelli Dias Alves de Sousa

Em ordem de aparição, da esquerda para a direita: Paloma Carbajal, Larissa Pavoni Rodrigues, Idalia Morejón Arnaiz, Chayenne Orru Mubarack e Pacelli Dias Alves de Sousa.

MFC: Como circula a coleção de livros? Para onde vão os livros da Malha Fina Cartonera?

PC: Essa coleção de livros está toda situada em meio à coleção de livros especiais, que é onde estão todos os materiais que tenham algum valor. Este não é necessariamente comercial, mas pode ser um valor intelectual ou algo muito difícil de conseguir, livros raros, como se fala em inglês: “rare books”, pouco frequentes. Então, podem ser livros como esses, podem ser coisas caríssimas ou livros muito antigos, ou também panfletagens políticas, algo que nunca imaginaríamos conseguir e que consigamos por casualidade. Uma coleção muito variada. Quando as pessoas pensam em coleções especiais, pensam em livros caros, livros de artista ou muito reconhecidos, mas não é necessariamente isso. A respeito das características dessas coleções: toda a biblioteca, a parte das coleções especiais, está aberta ao público. Qualquer pessoa entra e pode ter acesso à coleção. É uma coleção grande. Na universidade há vinte bibliotecas. A biblioteca em que trabalho é a de ciências sociais e humanidades, que é onde se reúnem todas as coleções de livros publicados no estrangeiro, em todas as línguas estrangeiras. Agora temos aproximadamente seis milhões de livros apenas na área de coleções especiais, os quais não se pode levar para casa, mas sim consultá-los. Não é necessário o uso de luvas e é possível consultá-los pessoalmente. Tudo está aberto, inclusive as revistas. Também é possível realizar o empréstimo entre bibliotecas, ou seja, tudo que não está nas coleções especiais circula. Há uma coleção com quarenta livros cartoneros que circula, que é normalmente a que se utiliza nos cursos universitários.

MFC: Colocando em perspectiva o trabalho de sua biblioteca, como você o vê em relação às outras grandes bibliotecas da academia norte-americana? Aqui na USP, por exemplo, muitos pesquisadores viajam para consultar os acervos no Texas.

PC: A biblioteca do Texas é a maior de estudos latino-americanos nos Estados Unidos, depois da Biblioteca do Congresso. As duas são diferentes e na verdade, se complementam. Cada biblioteca se especializou historicamente dependendo de seus pontos fortes, de suas coleções. Essas, por outro lado, se desenvolveram de acordo com o interesse acadêmico. O que se lê e o que se pesquisa nessas instituições é, muitas vezes, o que dita por onde caminharão essas coleções. Também temos os especialistas, nós que cuidamos das coleções especiais e vamos nos especializando. Por exemplo, meu colega que é responsável pela mesma coleção que eu, mas na Universidade de Illinois, se especializou na coleção de esportes na América Latina. Esse é seu tema, sobre o qual escreve e sobre o qual pesquisa. Então, de alguma forma, além do grande acervo, há essa área. No meu caso, me especializei em editoras cartoneras e, portanto, em coisas que se aproximam à natureza dessas edições, como a literatura de cordel aqui no Brasil. Ela não é idêntica, mas complementa o estudo das cartoneras, seu contexto histórico e sua forma de publicação. As duas edições estão à margem da indústria editorial. Por esse mesmo viés, há muitas publicações independentes por aqui que me interessam muito.

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Agradecemos imensamente à Paloma pela entrevista concedida. É muito estimulante pensar os livros da Malha Fina Cartonera em uma perspectiva de circulação global. A conversa com uma especialista da biblioteconomia e das publicações independentes nas Américas proporcionou uma visão do livro não apenas em sua materialidade, mas também enquanto objeto de pesquisa e objeto circulante ao redor do mundo.