Retrospectiva Malha Fina Cartonera – 1º semestre/2017

por: Cristiane Gomes, Larissa Pavoni Rodrigues,
Mariana Costa Mendes e Pacelli Dias Alves de Sousa

Olhar para trás é essencial para construir o futuro. Nós, da Malha Fina Cartonera, ao final de cada semestre realizamos uma retrospectiva dos nossos passos. Passe um café e acompanhe nossa trajetória nesse primeiro semestre de 2017.

Além da produção dos livros, participamos de alguns eventos literários e editoriais. Começamos o ano no espaço La Marca, em Havana (Cuba), onde exibimos as vídeo-performances do poeta e ensaísta cubano Omar Perez, editadas por João Krefer, que podem ser conferidas na playlist do nosso canal no Youtube. Um relato desse momento pode ser acessado em “‘Cajón em São Paulo’: uma experiência habanera”, escrito por Tatiana Faria e Idalia Morejón Arnaiz. A performance foi gravada em São Paulo, em junho de 2016, no Estúdio Lâmina. Os poemas apresentados por Omar farão parte de Cubanologia, antologia a ser lançada ainda esse ano, como parte de uma coleção voltada para a poesia e performance.

Em São Paulo, nos dias 24 e 25 de março, participamos da Desvairada – Feira de livros de Poesia de São Paulo, no espaço Aldeia 445. O evento organizado por Marília Garcia, Fabiano Calixto, Leonardo Gandolfi e Tiago Marchesano contava com uma diversificada programação que abrangia mesas de debate, leituras de poemas, oficinas, concurso de vídeo-poemas, performances e atividades para crianças.

Nós, da Malha Fina, além de comercializarmos nossos livros, ministramos uma oficina cartonera, que abordou desde a edição de livros artesanais até a construção de um catálogo. A coordenadora do projeto, Tatiana Faria, os monitores Larissa Pavoni e Pacelli Dias, e a designer gráfica Iara Pierro de Camargo falaram sobre as várias etapas do fazer cartonero. O público, formado principalmente por pessoas ligadas ao universo editorial, compartilhou conosco suas experiências e sugestões. Em Uma Desvairada Coletiva & Independente, matéria escrita pela Larissa Pavoni Rodrigues, você pode conferir mais como foi a Feira.

 

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Ainda na Desvairada, com o objetivo de colaborar com a difusão do trabalho das editoras independentes, Caroline Pereira Costa gravou e Mariana Costa Mendes editou uma série de vídeos com os responsáveis pelas editoras presentes. Esses vídeos podem ser acessados no nosso canal no Youtube. Chayenne Orru Mubarack e Pacelli Dias Alves de Sousa escreveram sobre esse material, clique aqui para conferir.

Já em maio, no dia 18, lançamos dois livros de poemas no evento Chama(da) Cartonera, realizado no auditório do prédio de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Mauro Augusto de Souza, estudante de filosofia, e Elvio Fernandes Gonçalves Junior, estudante de Letras/Linguística, vencedores da nossa primeira convocatória (2015-2016), publicaram seus primeiros livros de poesia: Crisântemo é um nome bom e O coração em si, respectivamente. Na reportagem Chama(da) Cartonera, de Larissa Pavoni Rodrigues e Bruno Fernandes, você pode conferir esse evento e para conhecer o trabalho dos autores acesse as entrevistas feita por Aryanna Oliveira: “Inspirações para O Coração em si: Entrevista com Elvio Fernandes Gonçalves Junior” e “Sobre a grandeza das pequenas coisas: nas entrelinhas de Crisântemo é um nome bom, de Mauro Souza”. Está disponível também uma resenha de “O coração em si de Elvio Fernandes“, escrita por Gonzalo Dávila.

Durante o lançamento, a professora Idalia Morejón Arnaiz, diretora da Malha Fina, divulgou a Segunda Convocatória de Narrativa e Poesia. Dessa vez contamos com a parceria da Unifesp e tanto os estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), quanto os da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) podem se inscrever e dois alunos(as) de cada faculdade serão publicados pela Malha Fina Cartonera. Confira aqui a Segunda Convocatória de Narrativa e Poesia e inscreva-se, ou convide seu amigo escritor a participar.

 

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A Macrofonia é um encontro mensal de poesia, som e imagem ao vivo, realizado no espaço cultural Casa da Luz, no centro de São Paulo. O núcleo conta com a formação de quatro artistas: Reuben da Rocha (ou cavaloDADA ou Reubendê), Jeanne Callegari, Raul Costa Duarte e Guilherme Pinkalsky (Pink). Estivemos presentes em duas datas, a primeira no dia 26 de abril e a segunda, no dia 31 de maio, rendeu uma postagem escrita por Bruno Alexandre Fernandes, que pode ser acessada aqui. A Malha Fina estará presente na edição de junho da Macrofonia, que acontece hoje, 28. Confira o evento.

 

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Ainda em junho participamos da I Feira de Edições Independentes da Letras/USP, realizada entre os dias 5 e 8, e do evento Escrita e separação: uma jornada. No dia 6, na Feira da Letras, os autores Elvio Fernandes Gonçalves Junior e Mauro Souza participaram da mesa “Conversa com Autores” juntamente com escritores da Editora Patuá e escritores independentes. Confira um trechinho do evento clicando aqui. Por fim, no dia 17 de junho estivemos no evento Escrita e separação: uma jornada, na Casa Tombada, em Perdizes, e a programação incluiu oficinas, leitura de poemas e performances.

 

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Neste semestre, mais uma vez, o blog mostrou-se uma ferramenta importante de divulgação, não só dos eventos organizados ou nos quais a Malha Fina foi convidada, mas também de questões relativas ao universo das editoras independentes e ao fazer cartonero. Começamos as publicações com uma entrevista com a precursora do movimento cartonero no Brasil: Lúcia Rosa, do Coletivo Dulcineia Catadora, que este ano completa 10 anos de atividade no centro de São Paulo, em conjunto com a Cooperglicério. O catálogo da Dulcineia Catadora conta com 114 títulos publicados, além de um sólido trabalho de divulgação do saber cartonero através de oficinas. Leia a entrevista feita por Cristiane Gomes clicando aqui.

No “Passo a passo cartonero da Malha Fina”, detalhamos todo o nosso processo de produção de livros, com a descrição dos modos de fazer e uma lista dos materiais necessários. Os vídeos demonstrativos foram produzidos por Júlia Izumino e Larissa Pavoni, a edição ficou por conta de Mariana Costa Mendes. Esperamos que o Passo a Passo seja um convite para impulsionar a prática cartonera. Clique aqui para conferir o post; abaixo você pode conferir os vídeos:

Na última semana de maio lançamos Sangria, uma nova seção do blog que objetiva a divulgação de novos autores. Segundo o editorial: “Não nos alimentamos de cadáveres, brindamos à literatura com sangue morno e vinho doce”. A poeta Ellen Juanini, paulista de 28 anos, foi a primeira a ser publicada pela seção. Você pode ler a entrevista e os poemas da Ellen clicando aqui. Em 21 de junho publicamos La Chica del Barrio, do poeta, dramaturgo e ator equato-guineense Recaredo Silebo Boturu, inédito no Brasil. O conto pode ser lido aqui. Comandada por Cristiane Gomes, a Sangria está buscando divulgar novos autores. Caso queira ver seu trabalho nesta seção do blog da Malha Fina, envie pelo menos 3 (três) poemas ou uma narrativa curta e uma breve biografia para o e-mail crix.gomes@gmail.com.

Por fim, gostaríamos de lembrar da resenha feita por Pacelli Dias Alves de Sousa da coleção Traiciones cartoneras, editada pela La Sofia Cartonera, de Córdoba (Argentina). Composta até o momento por oito livros, a coleção traz à luz textos de autores já pertencentes ao domínio público em novas e cuidadas traduções. Confira a resenha clicando aqui. Recordamos também a tradução da crônica “A cidade e o bosque”, de Edgardo Rodríguez Juliá, também realizada por Pacelli Dias Alves de Sousa em conjunto com Chayenne Orru Mubarack. O autor portorriquenho, inédito no Brasil, é um dos expoentes da crônica na América Latina e esta é a sua primeira tradução no Brasil.

A Malha Fina termina o primeiro semestre com oficinas cartoneras em Portugal, ministradas por Tatiana Faria que você poderá acompanhar no blog em meados de julho. Para o segundo semestre continuaremos a expandir nosso catálogo com o lançamento de novas antologias de poesia, além de outras atividades.

Fechando essa retrospectiva, gostaríamos de agradecer a todos que contribuíram com a Malha Fina Cartonera neste primeiro semestre de 2017, lendo as matérias do blog, divulgando, comprando nossos livros, concedendo entrevistas ou ainda através de convites para eventos. O apoio de vocês têm sido fundamental para o andamento de nossos trabalhos. Um abraço cartonero, nos vemos em breve!

La Chica del Barrio – Recaredo SILEBO BOTURU

por: Cristiane Gomes

Nessa segunda postagem da seção Sangria, do Blog da Malha Fina Cartonera, vamos conhecer o trabalho de Recaredo Silebo Boturu (Bareso, 1979). Poeta, ator, dramaturgo, diretor e cofundador da companhia de teatro Bocamandja. Autor dos trabalhos Luz en la noche (2010) e Crónicas de Lágrimas anuladas (2014), ambos de poesia e teatro, publicados pela Editorial Verbum, Recaredo também ministra palestras e conferências sobre a cultura de seu país na Colômbia, EUA, Espanha, França, Áustria e Nigéria. Seu trabalho já foi publicado em antologias e revistas. Uma das grandes conquistas deste escritor equato-guineense foi ter sido um dos 39 autores mais promissores da África subsaariana com menos de 40 anos escolhidos para participar da Africa39, em Port Harcourt, Nigéria, eleita pela UNESCO Capital Mundial do Livro para o ano de 2014.

Fiquem com o encantamento de La Chica del Barrio como um convite para conhecer o trabalho do Recaredo e a literatura produzida na Guiné Equatorial.

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Recaredo Silebo Boturu

LA CHICA DEL BARRIO
Recaredo SILEBO BOTURU

Tenía la cabeza rapada. Se vestía de pantalones vaqueros, de camisetas de todos los colores; en su guardarropa, ninguna falda, ningún vestido y en el barrio en seguida la señalaron con el dedo acusón en una sociedad acostumbrada a estigmatizar y a ver lo diferente como algo anormal. En cuanto a la educación social, era diferente de las chicas de su barrio acostumbradas al pepesoup, a las alitas con picante, a las cervezas y a la buena vida sin antes aprender a hacer algo. En aquel barrio había más de lo mismo: las mismas peleas facticias, las mismas discusiones ociosas, el mismo ambiente virulento.

Los niños y las niñas crecían viendo cómo Papá y Mamá lapidaban las horas sentados en los bares del barrio. ¿Qué tanto hacían los padres y algunas madres en aquel lugar, y qué ingerían para que después salieran de allí embriagados? Te embargaban sentimientos cruzados al ver a algunos niños imitar a sus progenitores cuando salían de aquellos bares. Los niños acertaban, eran verdaderos artistas en revestir los personajes de sus padres borrachos.

En el barrio no había ni campo de fútbol ni parques, por lo que los niños, junto a las niñas, tenían que ingeniárselas jugando en la carretera principal. Los otros lugares eran entresijos llenos de lodo pringoso que cuando llovía y se quedaba empantanado en la suela de los zapatos, tenías que ir a descargarlo en aquella carretera donde después jugarían los niños. Todos los días jugaban en la carretera principal cuando el sol ya casi se escondía detrás de los árboles. Y para el cabreo de los niños, tenían que interrumpir sus partiditos para dejar pasar los coches que no cesaban de circular y no tenían otro lugar más que ese.

El barrio era un conjunto de barracones. Los barracones son construcciones hechas muchas veces de material permanente y otras de material no permanente, alineadas y con estructura rectangular, compuestas de una o dos habitaciones, una cocina a veces, y otras veces se reconvertiría una de las esquinas del salón para el servicio nutritivo. Algunas eran una verdadera tristeza observarlas, porque tenían la estructura de grandes helicópteros hechos de madera o papel a punto de estallarse. Y luego te dabas cuenta que dentro de aquellas “viviendas” (porque hay que llamarlas de alguna manera), había personas haciendo de papá y mamá que traían a hijos, muchos hijos, al mundo. Niños preciosos y feos que eran la alegría de aquel barrio. También, había pequeños chalets de configuración colonial. Yo creo que era un barrio colonial y que cuando todos olieron la humarada del petróleo, todos salieron de sus pueblos para asentarse en aquella ciudad, creando cada familia mecanismos para construir aquellos helicópteros.

¿Ya os dije que muchos de los chavales se cabreaban por tener que interrumpir su partidillo? Pues claro. Se cabreaban y mucho.

Y sobre todo cuando eran coches de alta gama con dos tubos de escape que cuando pasaban, y a gran velocidad, por donde jugaban los niños, soltaban un ruido estremecedor. Y los niños y todos los que se encontraban en aquel lugar metían los dedos en los tímpanos para evitar que explotasen porque, ciertamente, sentían que se les iban a explotar. Y los Bugattis, Ferraris, Porsches y Chevrolets pasaban y daba la impresión que tenían la intención manifiesta de fastidiar o provocar a los niños que jugaban en aquella carretera, porque no tenían otro espacio donde poder practicar ese deporte que tanto les gustaba.

Era impresionante ver desfilar tantos coches –mejor dicho, tantos cochazos— en aquel barrio sin iluminación en su calle principal y sin agua corriente en las casas. Los niños se enojaban, y también se quedaban estupefactos ante las estructuras de aquellos automóviles que solo habían visto en las películas de Hollywood.

Los niños ocupaban la carretera y sus madres las aceras. Os explico: algunas madres, que tenían todas la responsabilidad casera de dar de comer a tantas bocas que tenían en casa, colocaban mesas, sí, mesas, en las aceras y sobre ellas colocaban para la venta diferentes productos: cebollas, aguacates, ajos, tomates, caldos, harina, perejil… Aquellas mesas hacían de mercadillos para los naturales de aquel lugar que tampoco tenían la posibilidad de ir a los grandes mercados ni supermercados para poder costearse los precios de los productos mínimos.

Lo de los barracones y los coches de última gama que transitaban en aquel barrio era un contraste impresionante. A ella, la chica del barrio, siempre le vino la pregunta de ¿por qué si las personas podían comprarse este tipo de coches no podían colaborar en la mejora de la vida de las comunidades abrazadas a una injusta pobreza?

En aquel lugar se notaba el cambio climático que habían anunciado muchos seres visionarios, aunque otros, “líderes”, no hacían caso de aquella amenaza que ya hacía estragos en aquella parte del mundo. Algunos días y algunas noches el calor era terrible y era, a veces, imposible conciliar el sueño. Sí, ella sabía que la deforestación que sufría su territorio era causante de la inestabilidad del tiempo. Era como si a muchos le hubieran tomado la medida de saquear toda la madera para beneficio de sus estómagos, y de sus familias, evidentemente.

Ella estaba ya cansada y no pudo más. Y no era porque precisamente había caído un calor aterrador, no.

Al comienzo de aquella semana, ella había tenido un fuerte dolor de cabeza que le había hecho ir al hospital regional para chequearse. ¿Cómo es que ella no se fue como los otros vecinos a la pequeña clínica del barrio que había montado un ciudadano chino? Como os dije antes, ella se fue al hospital regional, un lugar desconfiado por muchos por los cuestionables servicios que ofrecían a los ciudadanos y sobre todo, por la precariedad de sus instalaciones. ¿Os imagináis ver cucarachas, ratones, termes en un hospital público?

Ella prefirió ir a aquel lugar sin más, y porque tampoco se fiaba del chino. Desde que el chino llegó a abrir aquel espacio para la salud para todos, ella estuvo observando los servicios que dispensaba y después de mucho tiempo se preguntaba cómo podría prescribir un médico un medicamento a un paciente sin antes hacerle unos exámenes para conocer lo que le adolecía?

El amigo chino, que así le llamaban, apenas entendía el castellano, ni mucho menos una lengua local, pero una vez que veía a un paciente entrar en su “Consultorio Chino” adolecido de algo, le decía primeramente el precio de la consulta, para luego llevarle a una pequeña habitación donde el enfermo le explicaba lo que sentía y de escucharle sin entender nada, iba a un mostrador donde sacaba jeringas y le perforaba el culo. El chino le perforaba el culo y le decía que debía pasar el día siguiente, el siguiente y el día siguiente para perforarle el culo para sanarle de una enfermedad que uno no conocía.

Ella decidió ir al hospital, sacaron muestra de su sangre, que examinaron. Cuando fue a recoger el resultado de los análisis. – – – – – – – – – – – muchos negativos que ella no entendió, porque le seguía doliendo la cabeza. El médico le recetó “Paracetamol” y la recomendó descansar y beber mucha agua.

Ella hizo caso al médico, compró los comprimidos a disgusto, porque no entendía por qué aquellos resultados fueron “negativos”. Era un dolor de cabeza que no cesaba, pero por suerte no tenía fiebre y tenía la hemoglobina alta. Simplemente era un dolor de cabeza fastidioso. Tampoco el dolor de cabeza fue el causante de aquella decisión que tomó aquella mañana.

Ella se cansó y no pudo contenerse. ¿De qué?

No vayan a pensar que era violenta y que por eso se metió en un desaguisado que la hizo tener el problema que tuvo. Alguna vez se peleó verbalmente con algún vecino y alguna vecina. Eso hacía mucho, en su edad de pubertad. Y cuando se acordaba de aquellas peleas le entraba una enorme vergüenza. Pero le calmaba saber que eran en defensa propia y que si pudiera rebobinar el tiempo, lo gestionaría de otra manera.

Ella creció en el barrio que os describí anteriormente, pero era diferente. Por las tardes dedicaba su tiempo en dar clases particulares a todos los chavales del barrio que se acercaban a su habitación. No tenía amigos conocidos y andaba con un par de chicas que como ella tenían la cabeza rapada. Se ponían pantalones vaqueros y esa manera de vestir hizo que les llamasen lesbianas.

Ella y ellas, estaban acostumbradas a que se les llamara así. No se sentían ofendidas y simplemente aunque sin reconocer que lo eran decían que cualquier ser humano estaba en su derecho de hacer lo que le saliera de las narices siempre y cuando no atropellase los derechos y libertades de los otros. Ella y ellas las llamaban bolleras, lesbianas. Pero eso, no era lo que le hizo cabrearse. No.

Antes de acostarse le gustaba leer un libro y no tenía preferencias. Simplemente le gustaba leer y acostumbraba a explicar que leer antes de acostarse le permitía soñar y levantarse con energía llevadera. Pero por las mañanas también le gustaba echar una miradita al pequeño televisor que tenía sobre una mesita porque le gustaba informarse. Pero una semana antes de hacer lo que hizo ya estaba harta de mirar y ver lo que enseñan en aquellos canales, pura basura tóxica. Dijo.

Una semana antes de tomar aquella decisión, ya comenzaba con aquel dolor de cabeza que le llevó al hospital. Mirar la tele y escuchar noticias de muertes masivas, presumir de lanzar bombas madre de todas las bombas sobre seres humanos, de los desafíos nucleares, de discursos de presidentes eternos en el poder, de las noticias de los miles y millones de hombres, mujeres y niños que tenían que huir de sus hogares asediados por guerras, hambruna y desestabilizaciones políticas. Ella se cansó y por eso aquella mañana, cansada de no poder mirar nada agradable, prefirió ir a echar aquella tele en el contenedor de basura más cercano.

Sus amigas cuando llegaron y escucharon lo que les dijo ella, le dijeron que estaba LOCA.

Palavra, som e imagem

por: Bruno Alexandre Fernandes

Segunda edição de Macrofonia reuniu artistas e editoras independentes em noite de poesia no espaço cultural Casa da Luz.

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Cartaz do evento Macrofonia: edição de som palavra e imagem

Na noite de 31 de maio, quarta-feira, aconteceu a segunda edição do evento Macrofonia, encontro mensal de poesia, som e imagem ao vivo, realizado no espaço cultural Casa da Luz. Localizada na Rua Mauá, a casa de cultura, com o objetivo de expandir suas atividades, abriu um edital para projetos culturais no fim do ano passado, no qual, Macrofonia foi contemplado com o projeto de residência artística, incluindo a participação de editoras independentes.

O núcleo conta com a formação de quatro artistas: Reuben da Rocha (ou cavaloDADA ou Reubendê), poeta, artista visual e crítico brasileiro; Jeanne Callegari, poeta e jornalista; Raul Costa Duarte, músico e residente na Casa da Luz; e, Guilherme Pinkalsky (vulgo Pink), o poeta visual responsável pelo livepainting das performances.

A noite na Casa começou às sete horas, quando as editoras independentes que foram convidadas para integrar o evento começaram a dispor seus livros sobre as mesas iluminadas; dentre elas estavam a Malha Fina Cartonera, convidada pela segunda vez e convicta do Macrofonia, levou seus novos lançamentos: O coração em si, de Elvio Fernandes Gonçalves Junior e Crisântemo é um nome bom, de Mauro Souza.

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Equipe Malha Fina Cartonera: Caroline, Idalia, Miqueias, Chayenne e Bruno.

A editora Luna Parque também estava presente com o lançamento do autor estadunidense Frank O’ Hara (Meu coração está no bolso) e, por último, a editora Córrego, com destaque para uma edição do livro A verdadeira história do século 20, de autoria do poeta Claudio Willer.

 

Palavra incorporada

Passadas duas horas desse primeiro encontro em que os convidados puderam conversar com as editoras, trocar informações, conhecer os projetos, começou a apresentação de Reuben da Rocha, assinalada pelo próprio como dub poetry lo-fi índio futurista a quatro mãos comigo mesmo. Tudo isso em um ritmo que assimila tanto a herança de trabalho de spoken word com os ritmos inseridos pela própria voz do autor, criando ecos, repetições e estilizações da palavra falada: “É esse lugar intermídia da poesia, em que a palavra é um objeto intermídia em si”, comenta Rocha.

Reuben

cavaloDADA ou reubendê ou Reuben da Rocha. Fonte: Youtube.

A ideia começou com o diálogo entre as pesquisas de cada artista, iniciado no primeiro semestre do ano passado sob o nome de Botões, que seria apresentado na casa Mário de Andrade, mas que não ocorreu. Foi nesse ambiente que Jeanne Callegari, que já conhecia Raul Costa Duarte, se encontra com Guilherme Pinkalsky, através de seu trabalho de projeção livepainting, dando início ao projeto que seria enviado, pelo processo de abertura de edital, na Casa da luz, no final do ano de 2015.

Em cada edição, além do núcleo que organiza a curadoria, convidados que estão de passagem por São Paulo participam desse processo. “Os convidados vão variando. Na primeira edição foi a Bruna Beber e Gustavo Gallo, hoje foi o Dimitri Rebello que está de passagem pela cidade”, comenta Callegari. E complementa acerca do processo de criação: “Agora eu penso em compor pensando nisso. Mas também pego poemas dos meus livros quando nem pensava nessa forma de apresentação”.

Com a projeção de Pinkalsky e a música de Raul, as apresentações ampliam o seu diálogo. Na primeira edição a projeção foi feita com a imagem de uma revista Veja sendo derretida em solvente Thinner. “Tive que desenvolver uma série de coisas para mudar o fluxo, aí desenvolvi uma série de brinquedos para dialogar com o que acontecia no palco”, complementa Pinkalsky, que realiza há tempos esse trabalho de projeção, inclusive, em saraus, como o Dinossarau de Érica Alves.

Rocha acredita que o lugar da poesia se ampliou, desde o aumento dos slams de poesia pelos bairros da cidade, às formas de conceber no contexto atual a situação da palavra, do suporte do livro ao seu uso, suas formas de ação e suas manifestações em diferentes setores. Inclusive com participação de editoras independentes que redimensionam a própria forma de se divulgar e descentralizar a produção de autores que, muitas vezes, encontram dificuldades em divulgar seu trabalho com editoras já consolidadas no mercado literário.

A próxima edição de Macrofonia ocorre nesse mês no dia 28 de junho. Então se prepare, não deixe de participar com a voz e os ouvidos, e lembrar que a poesia é feita de carne e osso, por pessoas com biografias específicas em um contexto singular.

Para mais informações, a página da Casa da Luz se encontra aqui.

“A cidade e o bosque”, de Edgardo Rodríguez Juliá

Tradução de: Pacelli Dias Alves de Sousa e Chayenne Orru Mubarack

Em Piñones, depois do aeroporto Luis Muñoz Marín e esse largo trecho de praia que culmina o litoral marítimo, passando a ponte da Boca de Cangrejos, desde o qual se divide todo o perfil costeiro de San Juan, encontram-se os lugares sombreados, perto do manguezal, à vista essas lagoas secretas – a de Piñones e a de Torrencillas – que são o bosque aquático da cidade, seu destino esquecido. Piñones é o bosque de coqueiros e manguezais em que a cidade chegou, os pinheiros que semearam-se para domar os ventos do furacão, o lugar quase selvagem.

Piñones também é o lugar de Puerto Andín – “atrás do quartel a direita, e quando estiveres a ponto de cair do cano, aí está”… –, porque a cidade é consequente ao cultivar esses lugares na metade do caminho entre a clandestinidade e o rumo criminal, restaurantes, lojinhas e espeluncas, bancas e bares com salões para o adultério ou os amassos, a pista atrás de alguém da mesma maneira que a solidão te persegue.

Não queiras chegar até Vacía Talega ou a lagoa de Piñones, com suas águas cinzas e terrosas, com sua baixa maresia quase no nível da grama bem cuidada, com sua população ancestral de negros descendentes de escravos fugitivos. Hoje ficarias do lado de cá da cidade, não arriscarias à aventura da criança que vivendo em Piñones poderia estar na África, porque a cidade de San Juan, nessa distância bosque adentro, é um clarão diante do mar, um resplendor que alcança o céu.

Ficas do lado de cá e recordas a passagem de teu romance Mujer con sombrero panamá: “É como me dizia um velho fodedor: Puerto Andín é o lugar onde você traz a garotinha quando quer impressionar; é um lugar, se liga, com a natureza, e ela vai pensar: caralho, esse cara sim que sabe disso”. Mais à frente insistes em que é o lugar secreto: “É o lugar secreto, lugar para beber, com um amigo ou cúmplice, confidências incômodas. Um dos sitiozinhos, telhado de zinco e com paredes de placas de alumínio foi equipado com os móveis velhos da sala de alguma casa na Avenida Puerto Rico: estão forrados de plástico, porque passaram a funcionar melhor sob o solzão ardente, aí abandonados na escassa brisa do mangue cheio de miasmas. Só presto atenção nas coisas, as pessoas que estão perto nem as ouço”.

Então sentas na cadeira preferida de Manolo para passar a brisa da verdinha, o que hoje chamam cripy: “Também está aí, no sitiozinho do lado, essa cadeira de barbeiro, e me pergunto se devo me sentar nela um pouco para apaziguar os nervos e a nota – be cool, gardez votre calme, coge por la sombrita –. Chega-me a ideia súbita de minha própria insuficiência como facilitador. Esse sentimento me assalta, torna-se urgente, perturba-me. Não há lugar onde me sinta mais criança que em uma cadeira de barbeiro. Sentei-me. Chegou a catatonia”… Manolo poderia, no próximo romance, fumar o cripy da feroz adolescente a qual encomendaram-lhe quase como tutor, e ficar pressionado de torpor nessa cadeira de barbeiro, convencido de que o caldo de peixe que tem na pança é o Lago Titicaca… Justamente como te aconteceu no Flamingo da 65 da Infantaria sobre os tamboretes da Barra, depois de ter comido um tremendo ensopado de camarões…

Ou então poderias subir até The Reef e não comer esse bolinho de carne cúmplice para curar os munchies. E pensarias que na verdade há dois caminhos Mulholland, dois Mulholland Drives em San Juan; talvez não foram pintados por David Hockney, mas os dois são vistas quase aéreas desde a ponta ou do monte, e a cidade fica abaixo tão passiva, tão protagonista, ao fim tirada do traje cotidiano e convertida em personagem.

Chegaste à The Reef de noite. Ouvem-se as bolas de bilhar, chocando com a insistência do lugar aonde irias antes do suicídio. Se Hunter Thompson tivesse conhecido The Reef, teria ficado aí como falador cantineiro até adorar Porto Rico e amar os portorriquenhos. The Reef é o bar na ponta desde o qual se observa o resplendor da cidade, a escuridão do mar que a acolhe, o grande litoral cheio de edifícios iluminados, um barco turístico que não se atreve a zarpar porque entrou nele uma mania de perseguição.

O outro lugar ao qual só é possível chegar de carro, e que sobes pela estrada tortuosa, é o setor La Lomita, em Los Filtros, Guaynabo City. Mas aí não moram os desesperados, tu o sabes, mas os ricos. Quando tiram suas Rodwheilers para passear e German Sheperds no entardecer, abaixo está a cidade como espaço de seu domínio, de sua ambição. De dia, olham-na e parece que trabalha para eles; à noite a contemplam e parece que eles a iluminam. La Lomita é o lugar onde mora a bem-soante filantropia e o “crack” nunca chega porque há guardas privados.

Em The Reef é tudo o contrário: observas a cidade desde lá em cima e não podes admitir que essas colmeias onde a cidadania se entrega ao traje cotidiano da alimentação e a eliminação, o asseio e a procriação, o amor e o desamor, seja uma verdadeira Sodoma. Com três gins na cabeça pensas na adolescência como uma busca incessante de prazer, o amadurecimento como uma tomada do poder e a velhice como um apetite louco de futuro, de imortalidade. Lá embaixo está o pecado, o mundo, e aqui em cima o desconsolo da filosofia, repetes. De cima, desde a colina, ou desde a ponta do profeta, todas as cidades são Sodomas ou Gomorras. As panorâmicas têm a maldição de converter a cidade em objeto de teu juízo. E sempre julga mal quem melhor fracassa. Isso também é certo e é o primeiro a admiti-lo. Que fiquem lá embaixo comendo e cagando, injetando cocaína e fumando crack, fodendo como um louco e parindo adoidado, mijando com Lasix antes de se dopar, chacoalhando ladrilhos e acendendo cigarros, morrendo, disparando, nascendo, lendo Coelho, ensinando Fucô, cantando salsa, rezando, pensando, estudando, praticando aeróbicos, visitando Plaza, sobretudo criando lixo, degustando sushis e elogiando Tego, nadando os cinquenta metros de pura merda. Deves abandonar The Reef. A vista de San Juan desde essas alturas, já não tens a equanimidade da filantropia bem pensante, converte-te em misantropo; logo te unirás a Hunter Thompson no desprezo do “medieval asylum” que restaurou Dom Alegria bomba é. Desce desse monte perigoso.

(de San Juan, ciudad soñada. San Juan de Puerto Rico: Editorial Tal Cual, 2005)

 

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¿Cómo son las cosas, compay?
Foto tirada do el país

Edgardo Rodríguez Juliá. Fonte: El País.

Se é verdade que nesta crônica não se narra nada, também é verdade que se constroem curiosas imagens sobre Porto Rico. Da capital San Juan ao Bosque de Piñones. Da capital San Juan à rua Los Filtros, em Guaynabo City. Da capital San Juan à San Juan literária de Hunter Thompson. O narrador se deixa descentralizar geograficamente, caminha em busca de outras perspectivas sobre a cidade e deste modo, empreende também a busca de uma perspectiva própria, entre memória pessoal, história e ideários outros. A vendável representação de um exótico, paradisíaco e turístico Caribe vai aos poucos se desfazendo: vêm à luz a herança africana sufocada pelo comércio, as desigualdades sociais e as questões que envolvem a vida callejera na ilha.

“A cidade e o bosque” é uma crônica, originalmente publicada em San Juan, ciudad soñada (2005), conjunto de textos sobre a capital portorriquenha, segunda capital mais antiga das Américas. Edgardo Rodríguez Juliá, nascido em 1946, é romancista, cronista, ensaísta e atualmente professor de literatura na Universidad de Puerto Rico, em Río Piedras, onde vive. Desde 1974, quando lançou La renuncia del héroe Baltasar, seu primeiro romance, já publicou mais de 20 obras, inclusive Mujer com sombrero panamá (2004), mencionado no texto. Em 1995 ganhou o prêmio internacional de narrativa Francisco Herrera Luque por Sol de medianoche. É um dos expoentes da crônica latino-americana.

Sangria – Entrevista e Poemas de Elen Juanini

por: Cristiane Gomes

Elen Juanini

Elen Juanini. Foto: Hugo Bachiega.

Surgiu na Alameda Nothmann com uma cintilante camisa cor de rosa, pois estava “vestida de coxinha para testemunhar em uma ação trabalhista”. Elen Juanini tem 28 anos, foi criada no Jardim Miriam e começou a trilhar seu caminho na literatura com a publicação do independente poemas simples e domésticos (2015), escrito enquanto moradora do Bixiga. Agora, vivendo nos arredores do metrô Marechal Deodoro, a poeta prepara seu próximo trabalho: pedra filosofal.

Conversamos sobre a vida real, as dificuldades de se manter em São Paulo, fugas da polícia em manifestações, a política higienista do Dória, saraus constrangedores e também sobre escrever poesia, que é a parte da conversa que você pode acompanhar abaixo, seguida pelos poemas Eles e nós, Apelo, Loja de Artigos Femininos e Juno.

Cristiane Gomes: Elen, quando você se percebeu poeta?

Elen Juanini: Sempre escrevi de tudo, desde pequena, nem sempre poesia, mas aos 22, mais ou menos, não faz tanto tempo assim, comecei a escrever só poesia.

CG: Eu percebi uma presença muito forte de um modelo feminino tradicional no poemas simples e domésticos, no qual há rachaduras, mas elas são expostas sutilmente. A mulher do seu livro, apesar de ser uma mulher livre, está presente na família, na cozinha, na cama. Um ser doméstico. O que é muito interessante, pois na vida você não é exatamente uma representante desse modelo.

EJ: Deixa eu pensar sobre a minha vida… Percebi muito cedo que existia esse modelo e resolvi romper com ele de diversas formas possíveis. Eu tinha um comportamento mais masculino, mas percebi que exaltar o padrão da masculinidade é exaltar o preconceito contra a mulher, é negar a si mesma. O livro surge a partir disso, como tentativa desesperada de romper com esse modelo, desconstruí-lo, sem saber exatamente como, ou quais os limites; de querer entender o que é ser mulher, sem tentar ser homem, mas como o padrão é muito forte, é difícil romper completamente com tudo. Talvez os poemas desse livro tenham sido uma tentativa de romper com os padrões criando um lugar que chamo “sem lugar”. No “sem lugar” você não precisa necessariamente ser mulher, homem, nada. Ele é. Simplesmente. Ele não cria um modelo novo, porque não responde a nada. A arte não responde a nada, é uma inquietação, uma vontade de não querer ser.

CG: Sua poesia, é a poesia de uma mulher trabalhadora. Do trabalhador dessa nova classe, que teve acesso à educação, que escreve e que se coloca politicamente. Como você vê a poesia contemporânea brasileira nesse sentido?

EJ: A poesia contemporânea brasileira me deixa bastante triste, no geral. Tenho tentado analisar se não estou sendo preconceituosa, se não é uma implicância minha. Eu vejo muita técnica, muita academia, mas pouco o que dizer, pouco espírito, pouca alma.

A questão do trabalho, pra mim, sempre esteve ausente da poesia. Se faz poesia sobre o trabalho, mas de fora, na terceira pessoa. Eu como sou uma trabalhadora, pertenço mais ao mundo do trabalho e menos ao mundo acadêmico. Não que sejam excludentes, eles formam o que eu sou nesse mundo, meu jeito de ser, ideias, poemas. Acredito que a minha poesia não é exatamente periférica, trabalhista e também não é uma poesia acadêmica. Assim como eu, ela transita por esses dois mundos, representa a ideia desse intelectual orgânico, e, nesse sentido, talvez ela seja mais intuitiva do que profissional. Com certeza ela é mais intuitiva que profissional. Com certeza ela não é profissional. Gosto muito do que a Clarice fala da escrita amadora, que é escrever com amor.

Eu vejo a academia hoje como uma fábrica de poetas, uma produção em série de poetas, que pressupõe uma série de paradigmas, como por exemplo que um poeta de verdade tem que ler e escrever em várias línguas, o que não tá em conformidade com a realidade da população. Outro dia assisti a uma entrevista do Mia Couto em que ele falava que escrever em português é uma resistência cultural contra o imperialismo da cultura americana.

CG: E sobre a simplicidade estética, sua escolha por um vocabulário reduzido, do texto ter uma leitura fácil, sem intrincamento, pedantismo cultural ou exibicionismo.

EJ: É uma escolha consciente, ligada à necessidade de transmitir, de chegar aos lugares. É engraçado que quando eu escrevo um poema meu critério de avaliação é: a minha mãe entenderia esse poema? as minhas tias entenderiam esse poema? Isso eu acho interessante, que embora meu trabalho não seja conhecido, pessoas que não são leitoras de poesia e chegaram a ele conseguem sentir a poesia disso.

Pra mim, a simplicidade é um valor muito importante. Eu também gosto dos escritores que usam palavras comuns e isso também faz parte da minha formação e faz com que eu valorize uma visão de mundo que enxerga nas coisas comuns, cotidianas e simples as coisas misteriosas, profundas e cheias de significado.

CG: E que escritores são esses que fazem parte da sua formação?

EJ: A Clarice Lispector, que não é o que seria pressuposto de eu gostar […] como exemplo dessa simplicidade, eu gosto muito do Murakami, que tem uma escrita simples, e do Tchekov, que tem uma simplicidade invejável dentro de uma visão de mundo profunda.

O título do meu livro vem do Murakami, porque eu não leio em outras línguas, e nas traduções da Lica Hashimoto ela usa muito a palavra “simples”. No Murakami a palavra “simples” é usada como adjetivo em vários momentos, uma coisa que aparece muito são jantares simples que as pessoas preparam pra comer sozinhas, um cotidiano autêntico, de roupas simples. E um cotidiano autêntico pra mim não é barroco, ele é simples. Pensei nesse doméstico como simples, não burguês, comum.

Uma inquietação que eu tive depois que escrevi esse livro foi que os poemas que escrevi imediatamente depois e por algum tempo depois se pareciam muito com poemas simples e domésticos. Eles eram todos poemas simples e domésticos e, de alguma forma, isso me deixou feliz e triste. Fiquei feliz, porque eu talvez pensasse que finalmente havia descoberto um estilo pessoal, uma forma muito minha de me expressar por palavras. E o que me deixou triste, foi chegar a conclusão, por exemplo, de que quando eu escrevia sempre olhava pra dentro, mesmo tendo interesse pelas coisas que me cercavam, meus poemas eram sobre o mundo, mas eram sobre mim. Fiquei pensando se o que eu estava fazendo era poesia ou se eu estava me masturbando em público.

A partir daí eu comecei a fazer o esforço consciente de olhar pra fora, ao invés de olhar pra dentro. A partir desse esforço e de outras coisas, como novas referências poéticas, que percebi que comecei a fazer um trabalho novo que se chama pedra filosofal, que reflete sobre a questão do crack na sociedade.

CG: Por que trabalhar esse tema?

EJ: Esse tema surgiu, quando eu deixei de morar no Bixiga, que muitas vezes foi o cenário do Poemas Simples, e é um bairro que o pessoal do oficina costuma chamar de periferia central. Um bairro de centro, com características periféricas que são: ter gente pobre vivendo, manifestações culturais populares. E eu, sendo da periferia, me sentia muito à vontade naquele bairro. É um bairro extremamente alegre. Eu vejo um bairro formado, por nordestinos, italianos e quilombolas, que são culturas alegres, expressivas e musicais, que fazem o Bixiga ser um bairro muito alegre, apesar da pobreza, das pessoas em situação de rua, de partes mais violentas, perigosas. Eu me sentia muito em casa no Bixiga. Era como se meu bairro da periferia tivesse sido transportado pro centro com todas as características culturais. Depois eu vim morar na Santa Cecília, e aqui me deparei com uma realidade muito dura, que eu não consegui e nem quis ignorar que é a realidade dos moradores de rua, e o que é pior, é a realidade dos moradores de rua vivendo dos restos desprezados por Higienópolis.

CG: E você acredita que como poeta tem um papel social, político a fazer?

EJ: Eu acredito que sim. Não acredito na arte pela arte, nem que o meu papel seja ser porta-voz de nenhum tipo de movimento ou tendência específica e que eu tenha que abrir mão das minhas opiniões pessoais ou poéticas para transmitir uma mensagem específica. Eu acredito, como no poema do Ferreira Gullar, que o meu poema nasce junto com meu povo, e se eu sou poeta, sou também uma cidadã, um ser político, uma mulher. Eu vim da periferia, e  nunca vou conseguir desvincular meu olhar disso, porque essas coisas fazem parte de quem sou. E eu nunca vou conseguir olhar o outro com indiferença. Outra coisa que eu não vou conseguir é deixar de criticar as coisas, se eu critico tudo, até a poesia, como eu não vou criticar os problemas sociais?

CG: Elen, obrigada por compartilhar seus pontos de vista e poemas conosco. Quais são suas considerações finais?

EJ: Temos que fugir da academia o quanto pudermos, a vida tá na rua e a poesia tá na vida. E temos que, como artistas, fazer o máximo que pudermos para tornar a arte popular. O que eu mais gostaria de fazer pela poesia é torná-la uma arte popular, e a poesia se tornar mais popular não é um defeito, ser popular é uma qualidade, pois a partir de quando você traz mais pessoas pra entrar, discutir a poesia, você a enriquece com essa leitura, com a leitura dessas pessoas. Criar um público cada vez maior leitor de poesia é fundamental para que a poesia cresça.

Contato da Elen: juaninielen@gmail.com

Eles e nós

O homem dá o nó
na gravata
o homem dá o nó
O homem dá uma
gravata
O homem dá o nó
e aperta o pescoço
As mãos do homem
tecem nós apertados
As mãos do homem
são brancas
são limpas
são limpas?
mas são brancas
e não tem manchas
que se possam ver
As mãos do homem
branco dão nós
e carregam pastas
só pastas carregaram
nenhum peso maior
Nos seus dedos, anéis
que ficam enquanto
vão-se os dedos
que dedos?
As mãos do homem
que tecem nós
que tramam nós
que apertam o pescoço
que sufocam
que enforcam
que pescoço?
Diante do espelho
o homem e seus homens
homens e brancos
apertam nós
apertam nós
apertam.

Apelo
(Em desacordo com a nova ortografia)

Cabeluda,
a buceta cospe gente no mundo
e gente é mamífero e tem pêlo
e tem macho e tem fêmea
e tem algo dos dois
em cada um.
O cabelo da buceta não mente:
é de verdade
e o corpo anexo à buceta
é de verdade.
Mulheres, como homens,
têm pele, têm pêlo
e o pêlo eriçando na pele
quando a pele roça na pele
e a pele roça no pêlo
e o pêlo roça no pêlo.
Beijo na boca, língua no pêlo,
pêlo lá fundo na garganta
que a mulher pode aceitar
sem nojo
então sem nojo
o homem pode aceitar
o pêlo na garganta
o dedo no cu
o gozo na cara
(eu gosto e ele convém gostar)
Roçar o pau na minha barbicha
de lisos, lustrosos pêlos
que certa vez um escandinavo
Avança a civilização,
marcha o progresso
pelo corpo humano
desmatando a mata
Amazônia a baixo
tornando tudo
padrão código
série plástico
mas minha buceta
não é de plástico
embora algumas de plástico
tenham estranhos pêlos, veja bem
é quente e pulsa viva,
criativa minha buceta
e sem ela eu não seria eu.
Cada pau, cada genital é único
A minha buceta é cabeluda,
selvagem por direito natural
e quem não quiser,
não come,
normal.

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Juno

ela / ele
elu : elo

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