O tempo em trânsito na poesia de Rafael Tahan

por: Aryanna Oliveira

Poeta, crítico literário, editor e pesquisador na Universidade de São Paulo, o interesse pela linguagem é proeminente no cotidiano e na trajetória de vida do paulistano Rafael Tahan. De família árabe, ouvia em casa as conversas do avô e da mãe no idioma de origem, de modo que seu primeiro arrebatamento com a língua se deu pelo estranhamento provocado pelos sons, pelos burburinhos secretos que ouvia entre paredes. Esse desconforto causado pelo desconhecido foi crucial no despertar de um interesse não só pela língua, mas pela linguagem e seus muitos modos de uso.

Logo veio seu primeiro contato com a poesia, na leitura de “A estrela”, de Manuel Bandeira. E as repetições sonoras aumentaram aquilo que o poeta define como uma tentativa, ainda que primitiva, de tentar descobrir o “sentido concreto das palavras”. Na repetição dos sons do poeta pernambucano, percebeu as “camadas” do texto, as articulações entre som e sentido: “Foi semelhante à descoberta de que toda a areia da praia era rocha sedimentada: poeira da glória”, explica.

Rafael Tahan

O poeta Rafael Tahan. Foto: Arquivo pessoal.

Da consciência da poesia em camadas, que extrapolam uma organização harmônica e evidente, da percepção da linguagem, com seus “jogos” e movimentos, surgiram os primeiros versos do poeta. Mas, anos depois, a forma surgiu, e com ela seu primeiro livro, Diálogo, publicado pela Scortecci Editora, em 2015. Trinta poemas que discutiam as impossibilidades da linguagem, incomunicabilidades, inacessibilidades, mas de forma direta. Em seus poemas, Tahan descortina as dificuldades de comunicação de forma clara, o que propicia a identificação do leitor. É uma racionalidade poética sobre a linguagem e seus usos (ou impossibilidades de).

FABULAÇÃO

 

“O caminho de casa é sempre
o mais difícil o chão de
pedra é pra andar.

 

Se uma flor rebenta no arrimo
do carroceiro, que é parente
de Deus, eis que sua sorte
revela um pequeno milagre.

 

(Caminho difícil é
o que fazem os olhos
vão sem perícia
entre o que vive)

 

Flor de carroça
é carregada na
qualidade de flor.

 

Do encarregado o orgulho
de sua natureza domada,
e caminham juntos,
o jardim e o jardineiro
por hoje, não mais carregador.

 

Ainda é o seu destino
ir de encontro às
coisas, se não fosse,
a denúncia permaneceria
nas marcas do corpo.

 

Mais dia menos dia a
carroça para, o transporte
de tração esgota o animal
que puxa.

 

O homem abandonado a sua
sorte, deixa a natureza
pelo caminho, exausto,
sobre a calçada, despenca e
morre.

 

Os outros animais
examinam com cuidado
o corpo: descobrem
que a carroça anda sozinha

 

e mais! Que a gérbera
da carroceria é
flor de supermercado.”

 

(Poema de Diálogo, de 2015)

Atualmente, o poeta divide seu tempo entre a arte que brota em forma de uma competente e translúcida poesia, e o árduo e incompreendido ofício de pesquisador, enquanto se especializa em estética e lírica contemporânea. As duas frentes se unem não só pelo amor à poesia, mas pelo interesse constante que seus processos e temas lhe despertam. O estranhamento de criança ainda é seu motor. “Se há algo que, apesar do veredicto parece inverossímil esse será o algo é eleito para nota”, explica.

O contato com a academia alimenta a própria criação e as possibilidades de divulgação de seu trabalho. Recentemente Tahan recebeu o convite de verter ao inglês alguns dos seus poemas para a revista californiana SACCADES (publicação sobre poesia brasileira contemporânea).

Com a rotina atribulada e atrelada a muitas questões do âmbito universitário, seu método de preparação e escrita se resumo a não deixar as ideias se perderem, aproveitando qualquer tempo para escrever, já que em tempos de superexposição a tantos meios e mensagens, o trabalho do poeta, sua inspiração, acaba sendo não se permitir distrair. “Sobre inspiração acho que talvez Heráclito possa dizer de maneira mais sucinta, que, a sabedoria ou consciência sobre o mundo vem do empenho em lançar a nossa atenção sobre ele”, explica. Para Tahan, a inspiração primeira do poeta está em perceber o mundo, estranhá-lo e dele tirar o substrato para a criação.

Capa - Rafael Tahan - Diálogo

Capa de Diálogo, a primeira obra publicada pelo poeta. Foto: Arquivo pessoal de Rafael Tahan.

Capa - Rafael Tahan - Diálogo

Capa de Diálogo, a primeira obra publicada pelo poeta. Foto: Arquivo pessoal de Rafael Tahan.

Na produção de seu mais novo livro, o Memória de avarias, que é um projeto em desenvolvimento e a longo prazo, a percepção do mundo se evidencia na passagem do tempo, na necessidade de não pensar no amanhã. “Compartilho com o poeta pernambucano Alerto da Cunha Melo a ideia de que: Amanhã não é propriamente/ uma palavra que te salve./ É um sonho que busca outro sonho/ longínquo para esganar-te. Por enquanto é o hoje”, reflete Tahan.

As três primeiras partes desse trabalho, que compõe o livro, serão publicadas ainda nesse ano. Memória apresenta uma unidade não-linear (antieuclidiana), afirma ele, e isso tem a ver com a relação que as temáticas estabelecem com o tempo. “Os poemas dividem-se em 3 partes: I. algo, logos; III. Cadeia de enganos úteis; V. cinefacta e tratam de temáticas ligadas ao eixo passado-presente enquanto as partes trabalhadas separadamente: II. tráfego aéreo, IV. pedra de toque e seis tratam de temas, digamos, mais extemporâneos”, antecipa o poeta.

Em Memória de avarias, assim como visto em Diálogos,o tempo é essencial, pois é um tempo de urgência, sempre em uma perspectiva de conflito. Para o poeta Tahan, “o tecido da vida, como quis Antonio Candido, tem se tornado cada vez mais volátil e isso parece ter provocado (ou ter sido consequência das) mudanças abruptas na relação entre o homem e a natureza. Se por um lado desejamos sujeitar o tempo pela técnica por outro ele nos escapa: toda ação está contida no tempo e, portanto, vinculada de alguma maneira à consciência trágica que se esconde nas entrelinhas de sua condição inescapável, fixando-se a todo e qualquer horizonte”, explica o poeta.

Os poemas a seguir, prévia da obra no prelo, exemplificam essa relação, o tempo em conflito, clarificando as intenções da poesia de Rafael Tahan: o tempo em trânsito, pois, parafraseando Heráclito, “nada é permanente, exceto a mudança”, do tempo, do homem.

alguma fisionomia

 

A Aline Bei e Vagner Camilo

 

antes de ganhar a natureza
(conforme sua própria índole)
desçamos primeiro das árvores equilibrando
o corpo ainda sobre duas patas
(articulado o mais delicado toque conquistamos os polegares)
colher fruto a fruto: ganhar o tato: sentir à ponta dos dedos qualquer superfície que revele as extremidades: vida ou morte:

 

um pássaro que tem de conquistar seu voo a cada instante
e tem a asa amputada: é feio, vivo e inútil
devemos ainda nomeá-lo pássaro?

 

sobre o corpo desplumado
(polegar em riste)
devolvemos
ao pássaro alguma fisionomia apenas arrancando-
lhe abruptamente a última asa

a fé dos tolos

 

o amarelo pálido da vista convida ao espanto: do cinza:
preto no branco: a plumagem – espaço entre uma cicatriz e
outra – brota insegura como cãibra sobre o
músculo fatigado do asfalto
ali nem o dilúvio ou a iminência dos automóveis
comovem a ave meditativa: o pasto repisado entre a guia e o passeio –
limbo de transeuntes – já não revolve na memória os ramos e as flores
pouco antes devoradas pela fome civil dos apóstolos:
terra-nova sob o imenso cárcere da rodovia?

 

se a superfície treme ainda abaixo de nós é porque o trem
se aproxima e o suposto espanto nos olhos do pássaro
revela-se na fé (trânsito em repouso) dos tolos confinados no subsolo

 

ton sur ton

 

a prata semioxidada da vigília
despista os olhos do pássaro e
tinge – diante dele – a lâmina
do espelho tom sobre tom

 

narciso atormentado
reflete um instante retornando à
órbita perplexo:

 

negativa a negativa
extinguem-se gradativamente
os contornos da face: êxtase, medo, remorso:
as marcas do corpo, as rotas da memória

 

buscando refúgio no horizonte – negativa a negativa – a ave esfacelou-se na janela.

Sobre o autor: Rafael Tahan (1989) é poeta, crítico literário, editor da Oficina Irritada (revista eletrônica de literatura e cultura) e colaborador da Mallarmagens (revista eletrônica de poesia e arte contemporânea). Paulistano, graduou-se em letras pela USP, onde atualmente realiza estudos de Mestrado em estética e lírica contemporânea. Publicou Diálogo (Scortecci, 2015) além de alguns poemas em antologias nacionais e periódicos literários. Além disso, teve alguns poemas traduzidos para a revista SACCADES (Califórnia, EUA), periódico internacional de literatura brasileira contemporânea.

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Desconstruindo o Veneno: uma Conversa com Darío Ares

Recentemente, a Casa de Artes Cubano-Brasileira realizou o lançamento de seu primeiro projeto editorial: Veneno o del hábito del prejuicio, do poeta, ensaísta, tradutor e músico cubano Omar Pérez (La Habana, 1964), de quem Malha Fina Cartonera publicou em 2017 seu livro de poemas, Cubanología. Para esta edição cartonera de Veneno, a Casa de Artes contou com o apoio do Centro de Estudios Latinoamericanos Ernesto ‘Che’ Guevara (CelChe), de Rosario, Argentina, e com um projeto artístico de capas/portadas criado pelo multiartista argentino Darío Ares, colaborador permanente de nosso selo editorial, para o qual já preparou, junto com Marga Steinwasser, as capas da antología de poesía Caribe Oriental (2018).

Organizado em torno de textos poéticos, ensaísticos, autobiográficos, políticos, legais, televisivos, Veneno comenta com seriedade e humor, algumas das formas de demonização do uso da maconha que circulam em Cuba desde os anos 30 do século passado, assim como a relação entre poesia e droga, de José Martí à Geração Beat.

A seguir, em espanhol, apresentamos a conversa de Darío Ares com a equipe da Malha Fina, a respeito de seu projeto de desconstrução das caixinhas de cigarro, como conceito que dialoga com o texto de Omar.

Darío Ares (DA): Esta primera serie de portadas se llama H. Upmann, que es una marca de cigarrillos cubana, país de residencia de Omar Pérez. Comencé a trabajar esta serie en la otra visita a São Paulo, cuando organizamos los talleres con Malha Fina Cartonera. Ahí surgió la idea de hacer las tapas de esta edición cartonera con cajitas de cigarrillos. Aquí en San Pablo realicé una cosa mucho más formal, que fue como un medio de empezar a maquinar, a experimentar qué tipo de papel tenía, si había una paleta de colores y algún tipo de forma. En verdad lo que hice fue una especie de despliegue en el cartón, de las posibilidades que tenía de trabajar con una cajita de cigarrillos desarmada, utilizando la mayor parte de ella, o sea, desde la etiqueta hasta el papel plateado del interior, como ésta, por ejemplo.

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El mensaje, la marca del cigarrillo y la cajita luego empezaron a construir una especie historia. Tampoco había leído en su totalidad el libro de Omar Pérez, como para poder empezar a trabajar más conceptualmente. Fue simplemente jugar un poco, hacer un despliegue.

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Idalia Morejón Arnaiz (IMA): Hay otro elemento en las tapas, los prospectos de medicamentos psicotrópicos, a los que también Omar Pérez se refiere en el libro. El otro día Caroline me preguntaba y ahora yo te transmito la pregunta: “¿si el libro abarca muchas más drogas por qué se han centrado en las cajetillas de cigarro?”.

DA: Primero porque era el material que teníamos a mano; después, cuando vi los prospectos de psicotrópicos había algo literario que me interesaba. Es cierto que lo que teníamos más a mano era la caja de cigarrillo, pero además, una vez que comenzás a desarmarla es interesante todo lo que se encuentra: los escudos nacionales, la misma ley antitabaco, una imagen actuada, una paleta de color —algo que tiene que ver más con la estética de la caja. También vas encontrando pequeñas cosas que parecen mucho más interesantes y que en definitiva están en el libro, como la idea de un Estado o de una determinada ley que censure determinado tipo de droga, que permite que se haga una propaganda en contra de determinado tipo de estupefacientes y de otras no. Entonces, me parece que la cajita de cigarrillo tenía todos los elementos de los que el libro habla, no en sí por el cigarrillo —por la droga cigarrillo— sino por todo el contenido simbólico que tiene la caja; ella también, de alguna manera tiene su glamour. Por eso la serie Marlboro que es la que continué cuando volví a la Argentina se centra solamente en las cajas y en las imágenes de ésta marca.

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Al mismo tiempo estuve de vacaciones por Bolivia, Chile y Perú, y empecé a juntar cajas de cigarrillos de esos países. Me llamó la atención la diversidad de representaciones de enfermedades a las que apelaban para concientizar sobre el consumo de tabaco (incluidos Brasil y Argentina); al mismo tiempo se disputaban, sin saberlo, diferentes grados de realismo. ¿Qué es más truculento?, ¿un niño tosiendo?, ¿una boca abierta con los dientes rotos?

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O sea, cuando empiezo a coleccionar las cajitas, empiezo a observar que había una especie de competencia entre la representación de imágenes que, de alguna manera, daban cuenta también de determinado tipo de cultura entre cuatro países distintos y que representaban el cáncer de maneras distintas.

Pacelli Dias Alves de Sousa (PDAS): ¿Cuál es el peor?

DA: Perú, es el que me pareció más humorístico. Las personas que aparecen en las cajitas están sobreactuando un infarto o un edema de pulmón, parecen malos actores interpretando Hamlet (risas).

IMA: Esa boca no necesariamente me hace pensar en el cáncer; los dientes están saludables, el blanco es perfecto, sólo que al hombre de la foto le faltan algunos. Cualquiera que no tenga dinero para ir al dentista anda así. Entonces hay algo más alegre y menos canceroso en la sonrisa del boliviano que aparecen en las cajitas de Bolivia.

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DA: Y las cajetillas brasileñas exhiben una sobreactuación, son hechas en estudios, por ejemplo, la de una mujer envejecida. Incluso cuando aparece lo truculento, lo que más salta a la vista es el efecto especial.

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IMA: ¿Y el pie podrido del que hablamos? Decías que te recordaba el pie del androide de “Terminator”. También podría ser una momia…

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DA: Esta imagen de la boca es de Argentina, tiene una cosa más gore y putrefacta, causa menos asco el pie roto “Terminator” que esa boca con pus.

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Chayenne Orru Mubarack (COM):Las imágenes que aparecen en los paquetes de tabaco para armar son siempre las mismas y son menos chocantes, como las niñas con tos, sólo eso. El pie nunca lo he visto.

IMA: Otra cosa que aparece en la serie Marlboro es el uso del rojo y el blanco, además de la cruz que sugiere tanto la muerte como lo prohibido.

DA: Sí, primero empecé trabajando más con la geometría de Marlboro y después ya empecé hacer la cruz porque me remitió más al símbolo que se utiliza para marcar enfermedades, síntomas y diagnósticos en los formularios médicos, así como a la propia Cruz Roja Internacional. También en la Biblia, en el libro del Éxodo, cuando Dios manda las plagas sobre el pueblo de Egipto; el pueblo de Israel se salva porque en el dintel de sus puertas ponen una cruz con sangre para que la peste no entre a ese lugar.

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PDAS: Es más pop también. Ya he visto tatuajes con versiones de Marlboro.

DA: Sí, otras marcas de cigarrillos, como Parliament, son más elegantes. De las distintas marcas me pareció que Marlboro es la mayor representante de la truculencia. Al mismo tiempo fui a buscar publicidades exclusivamente de Marlboro de los años 60 y 70, cuando fumar era glamuroso: ganar chicas, chicos, o sea fumar era un modo de felicidad, de vivir la vida, de conquista.

Por otro lado, cuando empecé a trabajar con las imágenes me dio un poco de temor; se las mostré a algunas personas que me dijeron: “qué fuerte”, “son las portadas más horribles que he visto, son asquerosas”. No las podían ni mirar. Entonces, ¡eso es la publicidad! ¿No? (risas).

Porque lo único que hice fue poner en evidencia las imágenes de las cajas de cigarros. Las saqué de contexto.

Para mí es importante también poder visualizar la cuestión de la moral que hay sobre esas imágenes, porque la cajita comunica un mensaje específico, el fumador está todo el tiempo con esa caja y se acostumbra a ella o no, pero cuando la ve en otro contexto le resulta perturbadora o asquerosa.

COM: ¡Claro! “Quiero la niña”, “Dame la niña tosiendo”, “Dame esa vieja que está toda avejentada”. Creo que tiene mucho humor. Cuando la sacás del contexto termina siendo como una mala actuación y un mal efecto especial.

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DA: ¡Claro! “Quiero la niña”, “Dame la niña tosiendo”, “Dame esa vieja que está toda avejentada”. Creo que tiene mucho humor. Cuando la sacás del contexto termina siendo como una mala actuación y un mal efecto especial.

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Ese hombre no puede más porque su hija se va a casar, yo veo eso, no veo alguien que sufre una enfermedad por fumar. ¿Me entendés? O sea, puede ser un montón de cosas.

Otra cuestión interesante es que el libro de Omar tiene humor, que es lo que busco en esta segunda serie de portadas. Si bien Veneno es un libro riguroso en cuanto a la información que recopila, siempre tiene algunos giros de humor con respecto a cómo se posiciona su autor ante las drogas y ante lo que está prohibido. Algunos de los textos que él fue encontrando en Cuba, como los guiones del programa de radio donde hacían propaganda en contra la marihuana son muy divertidos, si miramos desde otra perspectiva.

Larissa da Silva Rosa (LSR): ¿Seguiste algún criterio para seleccionar el cartón de las portadas?

DA: Busqué las mismas cajas que ustedes están utilizando acá —las de papel Chamex. El equivalente en Argentina es la marca Ledesma, que se produce en un ingenio azucarero de Tucumán. Además, ahí dentro dice “papel hecho 100% con fibra de azúcar”. Entonces, me parecía que había algo ahí entre la caña de azúcar, Cuba como el país del autor de Veneno, y el gramaje de las hojas que son de 100mg, 80mg y que aparece en el interior de las portadas del libro, la idea de gramaje en miligramos y las dosis de nicotina me parecieron un buen detalle.

PDAS: ¿Cómo te imaginas una exhibición del conjunto de estas portadas?

DA: Yo ampliaría el proyecto, haría máscaras, instalaciones con tubos de oxígeno, y en la inauguración repartiría jarras de vino muy barato con Rivotril (risas).

***

Transcrição: Larissa da Silva Rosa

Carretera Cartonera, os livros de papelão reciclado para contar a história da América do Sul em um documentário

Por: Alessia Telesca para o eHabitat

Retomando as postagens do blog, iniciamos o ano de 2019 publicando uma entrevista feita por Alessia Telesca e publicada há pouco mais de um ano no eHabitat, um portal italiano independente sobre meio ambiente e sustentabilidade. Nesta entrevista, aqui traduzida para o português com autorização do eHabitat, somos apresentados à Carretera Cartonera, um projeto de documentário acerca das editoras cartoneras, no qual as autoras Marta Mancusi e Anna Trento comentam sobre a viagem pela América do Sul que fizeram em 2015 para entrevistar algumas editoras cartoneras. Além disso, também explicam o que é uma editora cartonera, qual seu papel na América do Sul e qual a importância dos catadores de papelão neste contexto de publicação.

Tradução por: Mariana Costa Mendes | Revisão por: Rafaela Alves de Melo

Fonte: http://www.ehabitat.it/2018/03/15/carretera-cartonera/

Trailer: https://vimeo.com/124812308

Carretera Cartonera, os livros de papelão reciclado para contar a história da América do Sul em um documentário

Publicado em 15 de março de 2018 em Cinema|Cultura|Livros|Lixo por Alessia Telesca

Papelões coloridos, reciclados e misturados para contar uma história, a história da América do Sul. São as Editoras Cartoneras, um projeto inovador feito pelas ruas da Argentina, para dar uma nova forma aos objetos jogados fora e, principalmente, ao mundo. E da Argentina chegam ao Brasil, Chile e em toda a América do Sul, levando ao mundo o sabor da cultura. O projeto, que pode ser considerado um verdadeiro e próprio fenômeno social e cultural, foi filmado por Marta Mancusi e Anna Trento, videomaker e fotógrafa. Nasce assim a Carretera Cartonera, uma história das editoras feita por pessoas das ruas das cidades.

Carretera Cartonera, a entrevista.

As autoras Marta Mancusi e Anna Trento contaram ao eHabitat sobre seu projeto Carretera Cartonera.

O que é o projeto Carretera Cartonera?

Carretera Cartonera é um projeto de viagem e um documentário. Começa em 2015, quando decidimos abandonar nossa zona de conforto e ir para a América Latina, em particular para o Brasil, Uruguai e Argentina, para descobrir e contar a realidade das Editoras Cartoneras presentes naquela região. No caminho foi adicionada uma etapa no Chile, onde entrevistamos outras editoras de Santiago.

Marta Mancusi e Anna Trento, autrici di Carretera Cartonera (fonte: carreteracartonera.tumblr.com)

Marta Mancusi e Anna Trento, autoras de Carretera Cartonera (Fonte).

O que são as Editoras Cartoneras?

As Editoras Cartoneras são pequenas casas editoriais nascidas no início dos anos 2000 na Argentina e difundidas em todo o território latino-americano e não latino-americano.

As primeiras editoras deste tipo, Eloísa Cartonera na Argentina, Dulcineia Catadora no Brasil e Animita Cartonera no Chile, têm contato próximo com os catadores de papelão.

As Editoras Cartoneras nascem com a ideia de comprar o papelão dos catadores a um preço mais alto que o preço do mercado de recicláveis para encadernar os livros editados. Tendo passado mais de dez anos, o número de Editoras Cartoneras cresceu muito, sendo agora mais de 200, o que fez com que até as premissas das várias editoras mudassem com base no intuito dos fundadores e nas áreas em que se desenvolvem.

Que papel desempenham na sociedade da América do Sul?

Estas editoras, em particular, são quase sempre, na realidade, bem pequenas, ligadas à região em que se desenvolvem. Desempenham papel análogo à realidade da publicação independente: criar uma alternativa ao mercado tradicional.

É difícil generalizar, enquanto nascem em áreas muito distintas entre si e com premissas diversas, por vezes facilitam a cultura partindo de baixo: vendendo um livro a um quinto do preço normal, publicando um autor que nunca seria publicado em uma editora tradicional ou criando laboratórios em que se desenvolve uma consciência acerca da escrita e da autopublicação.

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As Editoras Cartoneras são pequenas Casas Editoriais (Fonte)

Quem são os catadores? A tarefa deles é fundamental para o projeto?

Por “cartonero” (espanhol) ou “catador [de papelão]” (português) entende-se aquela pessoa que para viver recolhe material de papelão das ruas da cidade e o revende por quilo nos locais de reciclagem. Em algumas metrópoles sul-americanas, como São Paulo no Brasil ou Santiago do Chile, esta figura se expande em uma profissão reconhecida, enquanto em outras cidades o recolhimento dos materiais continua nas mãos da gestão autônoma do indivíduo, que depois revende aos locais de reciclagem.

A tarefa do catador se torna fundamental nos projetos estritamente ligados à sua figura, para todos os outros projetos permanece às margens. Quando a Editora Cartonera compra a matéria-prima diretamente do catador, quebra aquele mecanismo econômico em que o beneficiado é o intermediário, entre quem recolhe e quem recicla. O beneficiado, por sua vez, é o catador.

Escolher reutilizar o papelão para construir livros gera cultura e permite aproximá-la das classes sociais das quais os catadores provêm, que nem sempre têm acesso à cultura.

Há lugares ou cidades onde estão mais integrados?

Buenos Aires é, seguramente, o lugar em que o projeto de Eloísa Cartonera tem mais peso na região, vendendo alguns dos livros em livrarias tradicionais e possuindo um quiosque permanente na Avenida Corrientes. A realidade deles se tornou uma cooperativa capaz de sustentar economicamente alguns dos membros que ali trabalham e ao mesmo tempo levar adiante outros projetos sociais.

Na maior parte dos outros locais, os projetos nunca atingiram uma real autonomia e a venda dos livros cobre os custos de produção. Em alguns casos, isto acontece por escolha dos fundadores, que decidem não tornar comercial um projeto que nasceu com outros fins.

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A tarefa do catador torna-se fundamental nos projetos de Editoras Cartoneras ligadas estritamente a sua figura (Fonte).

A reciclagem do papelão pode ser uma metáfora para contar a realização de uma nova sociedade do velho para o novo?

Mais que a “realização de uma nova sociedade” diríamos a “reformulação da mesma”. É uma mudança de paradigma que se tem falado muito e em diversos campos ultimamente: o reuso. Trata-se de um modelo editorial muito interessante, mas totalmente às margens dentro da economia mundial e do mercado do livro.

Sim, a reciclagem do papelão poderia ser vista como uma metáfora para contar a realização de uma nova sociedade do velho para o novo. Mas ainda hoje permanece um desejo de realização de um modelo que impede a produção para reutilizar e reproduzir, no sentido de produzir novamente, com base naquilo que já existe. E ao mesmo tempo de um modelo de cultura de todo inclusivo e acessível a qualquer pessoa.

É banal falar de utopia, neste sentido, mas infelizmente parece ser assim, por ora…

O projeto das Editoras Cartoneras pode ser realizado também em outros lugares do mundo?

Claro, por que não? Aquilo que une muitas das Editoras Cartoneras no mundo é a tinta social que as caracteriza e as diferencia das editoras comuns.

A questão é traduzir os pontos-chave que estão na base de uma Editora Cartonera no que diz respeito aos diferentes lugares onde se quer realizá-la, calibrar as necessidades de um determinado local e depois agir.

Por exemplo: se em uma cidade do nordeste italiano há um determinado grupo social que não tem voz, então uma casa editorial de papelão poderia ser um bom meio para poderem se expressar, ainda que o papelão não seja comprado de um catador, mas recolhido pelos membros do projeto em frente a um supermercado.

Um projeto simples, um material simples para a cultura e história de um e de todos os países.