Retrospectiva – 2º Semestre de 2017

por: Cristiane Santos Gomes, Larissa Pavoni Rodrigues e Mariana Costa Mendes

Foi um semestre de muito trabalho e dedicação para nós da Malha Fina Cartonera. Participamos, com nossa oficina de produção de livros cartoneros, da VI Jornada da Pós-Graduação em Espanhol na FFLCH, apresentamos o trabalho de 4 poetas na Sangria e preparamos nossos novos lançamentos: a antologia Caribe Oriental, Cubanologia, de Omar Pérez, Drástico, de Reuben da Rocha, Não Escrever de Paloma Vidal, Todo o Silêncio de José Luís Peixoto e Ficções, de Bernardo Carvalho, além dos selecionados na convocatória FFLCH/EFLCH.

Representados por Tatiana Lima Faria e com produção da autora portuguesa Nisa Paula, durante o mês de julho ministramos oficinas em Portugal onde as participantes puderam produzir os livros Ficções, de Bernardo Carvalho, Todo o Silêncio, de José Peixoto e O que é ser criança, da própria Nisa Paula. No blog, iniciamos o semestre com a chamada para a oficina de confecção de livros cartoneros durante a VI Jornada da Pós-Graduação em Espanhol, ministrada por Pacelli Dias Alves de Sousa, Chayenne Mubarack e Larissa Pavoni. O evento ocorreu no dia 24 de agosto, na sala 263 da Letras e contou com a participação 15 pessoas aproximadamente. Na ocasião, além de vendermos nossos livros na banquinha, realizamos o pré-lançamento da antologia Diáspora(s), e os participantes puderam confeccionar suas próprias capas do livro e levar seu exemplar para casa.

Por falar em Diáspora(s), a nova antologia da Malha Fina viajou até Campinas em mais uma participação em uma feira de publicação independente, nas mãos dos colaboradores Chayenne Orru Mubarack e Pacelli Dias Alves de Sousa, que escreveram sobre esse evento no post “Feira SUB: Projetos Independentes em Ação“. A Feira SUB ocorreu durante todo o dia 16 de setembro, na Biblioteca Pública Municipal “Professor Ernesto Manoel Zink”, no centro de Campinas e esteve recheada de programação diversa e pessoas de muitos lugares.

Podemos, na ocasião, apresentar e vender o nosso lançamento do semestre, que conta com uma coletânea bilíngue de poemas de autores cubanos como Rolando Sánchez Mejías, Carlos A. Aguilera, Rogelio Saunders, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer, Ricardo Alberto Pérez, José Manuel Prieto e Radamés Molina. O grupo foi responsável por diversos eventos literários ocorridos em Cuba desde o começo dos anos 1990, quando começaram a articular-se, além da edição independente de uma revista homônima veiculada entre 1997 e 2002. Para conhecer mais sobre o grupo de escritores e a antologia, veja a resenha de Pacelli Dias Alves de Sousa em “Diáspora(s)”: vanguarda finissecular em Cuba” e os dois textos de Aryanna Oliveira intitulados “Grupo Diáspora(s): uma poética de ruptura”, divididos em parte I e parte II, em que a autora escreve mais detalhadamente sobre a obra poética de cada um dos escritores reunidos.

A organização da antologia ficou por conta de Idalia Morejón Arnaiz, que também assinou o prólogo do livro em “Notas sobre Diáspora(s)”. As traduções ficaram a cargo de Ellen Maria Vasconcellos, Clarisse Lyra, em trabalhos individuais e Caroline Costa Pereira, Liliana Marlés, Gabriel Bueno, Adriana Silva, Robson Hasmann, Ramiro Caggiano Blanco e Yedda Blanco, em traduções colaborativas.

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Além das três publicações em nosso blog sobre Diáspora(s), publicamos ainda duas entrevistas com autores da antologia cubana. A primeira, em 11 de outubro, feita por Larissa Pavoni em entrevista a Carlos A. Aguilera, falou sobre temas como o início de seu processo de escrita, o papel da poesia no mundo atual, os desafios do mercado editorial, seu poema publicado em Diáspora(s) e seus próximos lançamentos como escritor. Para saber mais sobre a obra deste poeta, confira a entrevista clicando aqui. A segunda entrevista, encerrando o ciclo de Diáspora(s), foi realizada por Bruno Alexandre Fernandes ao escritor Pedro Marqués de Armas, e tratou de temas sobre a formação do grupo que inspirou a nova antologia, a importância que esse grupo teve para sua poesia, a sua experiência como médico rural em Cuba, o teor deleuziano de sua escrita e, ainda, nos brindou com um poema inédito que você pode conferir aqui.

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Com relação à seção Sangria, tivemos um semestre repleto de postagens, sob coordenação de Cristiane Gomes. A primeira, em 23 de agosto, contou com um poema de Adélia Danielli, publicado no livro Bruta. Em 27 de setembro, publicamos três poemas (Permanece o Mito, O Decifrador e O Sátiro) de César Vicente, aluno de Letras e mais novo colaborador da Malha Fina, já participando das produções cartoneras que virão em 2018. Depois, em 25 de outubro, publicamos Precipitação, poema de Zainne Lima da Silva, também estudante de Letras, colaboradora da Coletiva Literária Entre Irmãs e participante da Antologia Jovem Afro, um projeto do Quilombhoje. Encerrando o semestre e as publicações de estudantes de Letras da nossa faculdade, o último Sangria divulgou um poema do livro Estilhaço, de Samanta Esteves, pesquisadora de literatura feita por mulheres, em especial da obra de Ana Cristina Cesar. Para ter seu trabalho divulgado na seção Sangria, siga as instruções contidas no editorial.

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Este também foi um semestre importante para outras cartoneras, como a Mariposa Cartonera, com o lançamento dos livros Aquarius e Joaquim. Cristiane Gomes fez um post contando mais sobre estes livros e você pode acessá-lo clicando aqui. A Dulcineia Catadora também publicou um livro importante esse semestre, o Dulcinéia, de Thiago Honório, que comemora os 10 anos de existência da Dulcineia Catadora. Fizemos uma breve divulgação do lançamento do livro em um post em nosso perfil no Facebook.

Quanto às feiras e eventos, em outubro, estivemos na II Jornada do Curso Letras/Espanhol de Alunos da Graduação: Diálogos/Interdisciplinaridade e em dezembro na 19ª Festa do Livro da USP, mais um ano em parceria com o grupo GMarx, que disponibilizou em seu estande nossos livros. Além disso, durante todo o semestre estivemos presentes na Macrofonia, um evento mensal de poesia, som e imagem que acontece na Casa da Luz, no centro de São Paulo.

No final de outubro, recebemos a visita de Darío Ares, argentino natural de Rosário que veio a São Paulo com a mala recheada de tecidos de seda e ideias inovadoras para nos ajudar com o novo projeto de capas de Caribe Oriental, a antologia de poesia cubana orientalista que lançaremos no primeiro semestre de 2018. Darío Ares, apresentado por Idalia Morejón e Larissa Pavoni é um multiartista que transita pela vídeo arte, design, literatura, performance, artes plásticas e indumentária. Com toda essa abrangência, participa de vários projetos em Rosário, como o Grupo de Acción Cultural (GAC – Grupo de Ação Cultural), que promove práticas de arte colaborativa desde 2015, e a Rita Cartonera, de quem já falamos em nosso blog aqui. Além desses projetos, existe a Escuela de Diseño de Indumentaria, que funciona hoje em todos os distritos de Rosário. Filiada à Secretaria de Cultura e Educação da cidade, existe como uma escola alternativa e inclusiva, na qual participam alunos de 13 a 70 anos, de distintos níveis socioeconômicos. Nesse projeto, Darío Ares desenvolveu, como professor, junto aos seus alunos e colegas, o projeto “Trece”, uma marca coletiva de moda jovem com referências na arte urbana e no hip-hop, que levanta a bandeira do desarmamento. Em sua companhia, realizamos algumas oficinas para pensar, aprender e produzir as capas de Caribe Oriental, que chegará no início de 2018 com muitas novidades: serigrafia, bordados feitos pela equipe Malha Fina e por Darío, colagens e outras ideias mais.

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E 2018 já desponta como um ano de muita produção, iremos lançar Cubanologia, de Omar Pérez, que você pode conhecer através de um trecho da entrevista feita por Pacelli Dias, em ocasião de sua presença no Brasil para uma série de eventos em parceria com a Malha Fina, e a antologia Caribe Oriental, organizada por Idalia Morejón e Pacelli Dias em traduções de Aryanna Oliveira, Bruno Alexandre, Caroline Costa Pereira, Chayenne Orru Mubarack, Clarisse Lyra, Cristiane Gomes, Pacelli Dias Alves de Sousa, Ramiro Caggiano Blanco, Yedda Blanco e apresentada por Aryanna Oliveira em duas postagens, a primeira a respeito do trabalho de Regino Pedroso, Nicolás Guillén, Rodolfo Häsler, Reina María Rodríguez e Raúl Hernández Novás e a segunda apresentando os trabalhos de Lezama Lima, Virgílio Piñera e Severo Sarduy. Além destes, também lançaremos Ficções, de Bernardo de Carvalho e Todo o silêncio, do escritor português José Luís Peixoto, além dos livros dos estudantes da FFLCH/EFLCH selecionados na II Convocatória de Narrativa e Poesia. Por fim, também iremos publicar o inédito Drástico, de Reuben da Rocha e Não Escrever, de Paloma Vidal.

Quanto aos eventos, em março participaremos do Festival Fazetório, no SESC Pinheiros, oferecendo oficinas de produção de livros cartoneros. Além disso, iremos à Feira Relâmpago, a ser realizada em maio no Instituto Cervantes. Também ministraremos uma Oficina Cartonera no Campus da Unifesp, ainda sem data definida.

Nosso muito obrigada a todos os colaboradores da Malha Fina neste semestre voraz e também a todos aqueles que acompanharam nosso trabalho, participaram das nossas oficinas e compraram nossos livros. Lembrando que nosso trabalho não tem fins lucrativos e o que nos ajuda a publicar cada vez mais autores é a venda dos livros. Para adquirir os títulos da Malha Fina, envie um e-mail para malhafinacartonera@gmail.com.br ou entre em contato pelo nosso perfil ou página no Facebook.

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Nova poesia, nova saúde: conversa com Pedro Marqués de Armas

por: Bruno Alexandre Fernandes

O poeta cubano radicado em Barcelona, fala sobre a formação do grupo Diáspora(s), a importância que teve para sua poesia a sua experiência como médico rural em Cuba, o  teor deleuziano de sua escrita, e muito mais. De brinde, um poema inédito.

Pedro Marqués de Armas

Pedro Marqués de Armas

Você poderia falar sobre o processo de formação do grupo Diáspora(s)? por exemplo, as atividades culturais que vocês realizaram, a recepção dos materiais poéticos pelo público e as edições da revista.

Diáspora(s) surgiu no fim de 1993, em torno de uma proposta de Rolando Sánchez Mejías de realizar algumas leituras que mostraram certos processos de escrita, textos de poesia, ficção e etc. As quais resultaram, ao mesmo tempo, em intervenções que questionavam os meios culturais, sem contar a própria instituição literária.

A ideia amadureceu entre um grupo de amigos escritores com os quais partilhávamos certas chaves. Um mesmo propósito de renovação das letras nacionais, menos de um posicionamento estético, como de outras bases comuns: a escrita como prática do pensar, como abertura a outras literaturas, inclusa ao mesmo tempo em ato público através da dissonância propriamente dos textos, ou também por meio de manifestos, performances, ensaios e etc.

Se tratava, em boa medida, de resgatar a função civil do escritor em um contexto dominado pela passividade das instituições e submetido a uma política cultural e de Estado que impedia qualquer iniciativa.

O projeto gerou diversas reações: estupefação, temor, incompreensão, censura, etc., mas nunca produziu indiferença. Ao contrário, gerou cada vez mais curiosidade e cumplicidade.

Como revista, Diáspora(s) foi publicada entre 1997 e 2002, e contou com a colaboração de poetas, críticos e artistas plásticos locais e exilados. É o registro do trabalho de criação dos membros do grupo, mas também de alguns eventos na época, ao publicar os ensaios mais questionadores do momento, os quais, sem dúvidas, não eram publicáveis em revistas oficiais, sem contar a divulgação de escritores proibidos, de Padilla, Cabrera Infante e García Verga a Brodsky, Kundera e Enzensberger. Soma-se a isso um notável trabalho de tradução que trouxe ao público diferentes autores, não só inéditos em Cuba, mas em língua espanhola.

Diáspora(s) teve certamente uma circulação clandestina, em boa parte apoiada por leitores que ajudaram a distribuí-la tanto na ilha como no exterior.

 

Sua formação acadêmica foi em medicina psiquiátrica, como isso influi em seu trabalho como poeta? Ou melhor, como o fazer poético se presentifica em seu trabalho como médico psiquiatra?

Comecei a escrever e ler poesia – e não só poesia – em 1982, isto é, antes de começar a estudar medicina. O linguajar clínico e hospitalar me permeou de imediato, o que reflete nos cadernos dos finais dos anos oitenta: Fondo de Ojo e Los altos manicomios. Desde então me interessava a psicanálise, ainda que, por razões óbvias, não mais do que a literatura. Li Freud, Lacan e Foucault, e outros mais, principalmente os pós-estruturalistas, antes de me dedicar à psiquiatria.

O que mais influenciou nas mudanças que delineariam com o tempo o meu modo de fazer poesia, talvez tenha sido a experiência como médico rural – já graduado – nas montanhas do Oriente. Essa paisagem selvagem, posso dizer assim, e sua “tradução” a posteriori, nos anos 1990, sob outras leituras e aquela noite vazia do estômago que foi o Período Especial, pode ter marcado a minha escrita, a qual tende desde então ao econômico e a certo conceitualismo.

A psiquiatria, como tal, influi em tópicos como a precariedade da linguagem, o silêncio e a opressão sobre o sujeito. Talvez, em certa medida, me levou também à história, a explorar a violência exercida sobre os corpos, a partir, sobretudo, de um “archivo cubensis” que é menos afetivo e ligado mais a uma prática material que simbólica.

 

Você é conhecido por inúmeras colaborações em periódicos e suplementos literários. Em uma publicação na revista online Sibila, seu poema Claro de Bosque (semiescrito) é analisada sob o conceito de devir na obra de Deleuze. Poderia nos contar um pouco sobre seu processo de escrita (ou semiescritos)?

Descobri Deleuze pouco antes de terminar o curso, e o li naquela paisagem do oriente cubano, atravessado de máquinas de café e pelas ruínas de uma economia capitalista sobre a qual tinha se sobreposto a Granja Estatal comunista, que a barrou a pequena propriedade e impôs novas formas de escravidão e apagamento – antropológico e pela terra – que se expressava em loucuras, suicídios e, em última instância, em uma perfeita anomia.

Claro de bosque conjuga abertamente essa paisagem com uma fotografia de Sebastião Salgado que me impactou muito, a qual descobri em 1994 em um número da revista Unesco. O poema saiu como ditado e foi escrito sobre a própria imagem (negro sobre negro) e as páginas ao torso ou as seguintes. Dava vazão a uma maneira de pensar a “massa” e suas relações com a “terra” em termos deleuzianos, isto é, como uma sorte de máquina que extrai de tudo aquilo certa voluptuosidade do delírio, no sentido de sair dos sulcos para se conectar materialmente com o real, o que não deixa de ser uma pretensão.

 

A poesia/a escrita pode ser uma forma de inventar uma nova saúde?

Sim, um invento de saúde. Sempre que não obstrua por demais o imaginário, o pathos desmedido ou outras formas de neuroses. Se algo necessita tempo para coalhar é a poesia. Não escrevo poesia sem obstáculos. Em meu caso, necessito distância e ser surpreendido por aquilo que escrevo.

 

Há algum projeto novo de livro que poderia compartilhar conosco?

Ultimamente voltei a escrever poesia. Suponho que vai demorar, de qualquer modo, uns anos até que essa nova série se converta em algo assim como um livro.

 

Espejo de impaciencia

Comimos pata y panza, mazapán
en lo que alimentábamos el ánima de sabores
apenas recordados y alguna que otra etiqueta:
Maltina, Jupiña, Materva,
peras, manzanas.
Comimos tierra. Cable, sogas.
Y “de aquellas jicoteas de Masabo, que no las tengo
y siempre las alabo”.
Majúas, calandracas.
Memorándum enteros.

Para um começo de conversa: Omar Pérez sobre poesia e tradução

por: Pacelli Dias Alves de Sousa

Omar Pérez

Omar Pérez. Foto: PBSNewHour.

Em junho de 2016, o poeta, tradutor e ensaísta Omar Pérez esteve em São Paulo para uma série de eventos com a Malha Fina Cartonera: conferências, performances, oficinas e produção de livros. Na ocasião, aproveitamos a sua presença e gravamos uma entrevista. Conversamos sobre as relações entre poesia e música, a performance e a poesia contemporânea em Cuba, entre outros temas que apareceram por ali. A entrevista completa vai ser publicada em 2018, mas deixamos aqui um pedacinho do que foi dito. No trecho, Pérez comenta um pouco de sua produção em Cuba nos anos 1980, Mantis, revista experimental que projetou, e, por fim, sua relação com a tradução. Considerem-no como um aperitivo de mais projetos que logo estarão disponíveis, basta dizer que terminamos 2017 com o inédito Cubanologia pronto para encadernação. Enquanto o livro de Omar Pérez não sai, ficamos com um começo de conversa.

Omar, empezaste a escribir en los años 80, ¿no es cierto? ¿Cómo fue este comienzo? ¿La primera publicación?

Bueno, así mismo como dices tú. Empecé a escribir, empecé a publicar. En esa época no era fácil divulgar libros, ni existían muchas iniciativas como ésta de Malha Fina Cartonera. En los 80, 81, 82 se publicaba en revistas.

Trabajaste antes como periodista, ¿fue eso?

No, después, después. Trabajé un año como periodista.

Tuviste una revista de poesía llamada Mantis, ¿cómo fue este proyecto? ¿Cuál era la idea?

La idea era una revista de poesía y traducción de poesía que fuera un poquito más allá de la concepción habitual que se les da a la poesía, es decir, la poesía como poema. Sino que a veces por ejemplo reflexionar acerca de la poesía también puede ser poesía. El tema de las traducciones: valorar el proceso de traducción como trabajo poético también, cosa sin precedente. En fin todo ese tipo de idea es lo que había en la revista Mantis. Y lo que pasa es que a veces hay saberes, conocimientos comunitarios antiguos, por ejemplo, vamos a decir la gente de la Amazonia, ¿no? En esa época, en Mantis, traduje unos cuentos de indígenas de la Amazonia.

¿Del Amazonas?

Si, del Amazonas, Yanomami. Y son leyendas muy poéticas. Todas esas leyendas originarias de cómo surgió el mundo, cómo surgió el cocodrilo, cuando nació la luna, son muy poéticas. Entonces trataba de relacionar todo ese tipo de saberes poéticos que se presentan de formas distintas, no se presentan como poema. Esa era la idea de revista.

¿Y cuánto tiempo duró la revista?

Poco. Un año, dos años. Son experimentos, si se quiere.

¿La tienes?

No. Nunca fui un buen bibliotecario. Lo bueno es que siempre se puede volver a hacer. Lo importante no es la revista Mantis como tal, lo importante es una experiencia que cuando tú la aprendes la puedes volver a hacer una y otra vez, le pones otro nombre. Esa fijación con los nombres, eso hace que perdamos mucho tiempo.

Hablando sobre la traducción como un modo de hacer poesía. ¿Empezaste la traducción junto con la escritura de poemas? ¿O vino después?

Vino después. En la medida en que fui aprendiendo el idioma inglés, que fue el primero que aprendí después del español naturalmente, poco a poco empecé a hacer traducciones.

¿Fue como un proceso natural de conocer otra lengua?

La traducción es un buen medio para entender la lengua. Incluso traducir es una manera óptima de comprender los poemas. Tú te metes ahí y ves otra cosa.

De ahí pensar en la categoría de los traductores profesionales, y de los traductores-autores.

Estas son solo palabras.

Tradujiste poesía holandesa también y llegaste a vivir en Ámsterdam, ¿cómo fue esa experiencia?

Sí, tres años aproximadamente. ¿Cómo fue? No sé decirte. No, fue bien, bien. Aprendí holandés, aprendí las reglas de vida del capitalismo desarrollado, eso es muy importante.

Igual, de conocer otras lenguas y de traducir a llegar a esta lengua franca de la poesía de que habla en tu libro es un camino. ¿Qué es esta lengua franca entre las traducciones?

Bueno, ahí hay un elemento. Está el elemento este del sueño del mundo pre babélico de que hablan poetas como Rimbaud, Martí. La lengua universal que supuestamente existía antes de Babel, ¿no? Este es un elemento. Está el elemento de la familia de lenguas, germánicas, romances, etc. Y cómo esas familias interactúan entre sí. Creo que entre esos dos elementos está el juego. Y claro está el elemento también del Esperanto, una lengua moderna que unifique, esa cosa democrática. El logos democraticus.