Feira SUB: Projetos Independentes em Ação

por: Chayenne Orru Mubarack e Pacelli Dias Alves de Sousa

Chegamos na Feira SUB às 9h30, precisamente na Biblioteca Pública Municipal “Professor Ernesto Manoel Zink”, no centro de Campinas. O espaço era grande e contava com um enorme jardim em frente à biblioteca, o qual posteriormente seria ocupado por food trucks, discotecagem e jovens frequentadores, conhecedores ou curiosos da cena editorial independente. Na parte de dentro, a área da biblioteca reservada à feira ocupava dois salões. O primeiro, com o estande dos organizadores da Feira e alguns selos editoriais. O segundo, maior, preenchido com quatro enormes fileiras de mesas, cada uma compartilhada por dois expositores. Esse era o cenário que nos aguardava no sábado, 16 de setembro.

Nos assignaram a mesa 42. Do nosso lado esquerdo, estava a editora L-Dopa, projeto curitibano voltado à publicação especialmente de livros anarquistas e libertários, nos quais se englobam também as obras de seu fundador, Nils Skare. Do lado direito, a editora Incompleta, com sua interessante revista Puñado, dedicada à publicação da literatura de mulheres latino-americanas e que já conta com textos de Elena Poniatowska, Mayra Santos-Febres, Lina Meruane e Inés Fernández Moreno.

Mesa da Malha Fina e companheiros de jornada

Mesa da Malha Fina e companheiros de jornada. Foto: Chayenne Mubarack e Pacelli Dias.

A Feira começou às 11 horas. Os expositores provinham de diversas partes do Brasil e trabalhavam não só com livros, mas também com pinturas, pôsteres, desenhos, camisetas, cartões postais, ecobags e qualquer outro material que possa integrar a categoria de artes visuais impressas. A proposta de colocar esse nicho junto com editoras é muito interessante porque não nos categoriza pelo objeto que produzimos em si (como o livro, no caso da Malha Fina) mas pela maneira artística com que ele é produzido, bem como pela lógica independente.

Feira Sub

Cartaz de divulgação da Feira SUB.

A Feira, obviamente, lotou. Pessoas de distintas cidades passavam por nossa mesa, conversavam conosco, se interessavam pelo projeto. Muitas perguntas surgiam: “vocês fazem mesmo todo o processo?”, “como selecionam o catálogo?”, “quem pensa o projeto das capas?”, “é muito trabalhoso confeccionar uma a uma?”. O formato cartonero segue intrigando o público por sua unicidade e autogestão. Além dessas perguntas, também fomos interpelados por jovens fascinados, que passavam minutos contemplando nossas capas, individualmente, sem perguntar nada, apenas observando e sorrindo. O formato cartonero fascina.

O Coletivo Dulcineia Catadora também estava por lá. A cartonera idealizada por Lúcia Rosa, cujo stand estava no primeiro espaço da biblioteca, separado de nós, que estávamos na segunda parte, também representava esse formato. Muitos visitantes comentavam que haviam se deparado com o projeto dela e ficaram igualmente encantados.

Foto do primeiro salão da Feira SUB

Primeiro salão da Feira SUB. Foto: Chayenne Mubarack e Pacelli Dias.

Segundo salão da Feira SUB

Segundo salão da Feira SUB. Foto: Chayenne Mubarack e Pacelli Dias.

Somado aos expositores, o evento também contou com palestras, oficinas e lançamentos. A programação não se restringiu ao dia 16 e os eventos relacionados à SUB ultrapassaram a data da feira em si. Quanto aos lançamentos, a Malha Fina debutou seu novo livro, a antologia Diáspora(s), cuja resenha você pode ler aqui.

Expositores da Feira SUB

Expositores da Feira SUB. Foto: Chayenne Mubarack e Pacelli Dias.

Para quem afirma categoricamente que o livro morreu, somos obrigados a discordar. Esses espaços nos fortalecem e nos dão vontade de seguir em frente. Ao conversarmos com outros selos editoriais e artistas, vemos que o tipo de livro que fazemos, o que acreditamos e temos como concepção para este objeto, se afirma cada vez mais. A lotação da feira também nos faz acreditar que estamos no caminho certo. Avante!

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“Diáspora(s)”: vanguarda finissecular em Cuba

por: Pacelli Dias Alves de Sousa

A ideia de diáspora é antiga e tem sido rearticulada ao longo do tempo. Utilizado especialmente para falar das dispersões populacionais grega, judaica, armênia e africana, o conceito encorpou-se aplicado à perda das origens do povo hebreu, quando também tornou-se um problema teológico, possivelmente concepção mais utilizada até hoje. Trata-se, contudo, de um conceito que pode ser aplicado a diversos povos e, em conjunto, analisado desde distintas perspectivas, seja como problema histórico, geopolítico, antropológico ou, inclusive, poético.

Com aproximadamente 20% da população vivendo fora de ilha, a concepção de diáspora também pode ser utilizada para tratar do povo cubano (e das populações caribenhas em geral, como analisado por Stuart Hall). Para o historiador Rafael Rojas, é especialmente interessante pensar o conceito em comparação com a ideia de “exílio”, há séculos utilizada para tratar da população cubana no exterior, majoritariamente nos Estados Unidos – vivendo nas mais que conhecidas entrañas del monstruo, nos termos do patrono das letras cubanas José Martí, exilado. Este conceito já lhe parecia saturado e a contraposição é frutífera na medida em que traz para o jogo as mediações culturais, as hibridações e a agência da comunidade nestes novos espaços. Se a passagem de uma leitura a outra é interessante para pensar a tradição cubana, é também para melhor esboçar o papel de Diáspora(s) na história literária e intelectual de Cuba.

Ilustração: Abstration, de Rafael Cruz Azaceta.

Ilustração: Abstration, de Rafael Cruz Azaceta.

Composto por Rolando Sánchez Mejías, Carlos A. Aguilera, Rogelio Saunders, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer, Ricardo Alberto Pérez, José Manuel Prieto e Radamés Molina, o grupo promoveu diversos eventos literários desde o começo dos anos 1990, quando começaram a articular-se, além da edição independente de uma revista homônima veiculada entre 1997 e 2002. Sobre o nome escolhido, diz Idalia Morejón Arnaiz (em prólogo à edição brasileira):

“Que tal termo apareça como nome de um grupo literário e, posteriormente, como título de sua revista, com uma letra ‘s’ ao final entre parêntesis, denota, em primeiro lugar, que as zonas de acolhimento a que se submete a literatura são múltiplas e, em segundo lugar, que em tais traços se hospeda uma marca plural, de dissensão escritural, heterogênea”

O termo passa a ser tomado metaforicamente e aplicado como reivindicação à própria produção literária, que passa a reivindicar novas rotas desde sua autonomia; novas políticas para a escritura apoiadas em leituras críticas ao nacionalismo, ao cânone e à política cultural do governo revolucionário castrista. Se seguirmos a lógica da metáfora, é importante atentar aos fatores envolvidos no deslocamento, o que afinal é constitutivo de toda diáspora. Em termos estéticos, há uma forte preocupação no grupo em distanciar-se da poética (ou da constelação em torno da poesia e do nacionalismo) formulada pelos autores de Orígenes, revista editada entre 1944 e 1956, por José Lezama Lima.

Se, como apontava o título, não se pensava em uma só origem, tampouco aqui se pensa em só um lugar de chegada para a diáspora. Neste deslocamento proposto, que não é humano, mas da língua literária, há um vetor de rompimentos rizomáticos no fazer poético em direção a outros gêneros e possibilidades de expressão (daí o recorrente uso da poesia visual, da poesia performática e, de modo geral, da poesia conceitual pelo grupo), baseadas também em leituras outras, deslocadas do Góngora-Mallarmé de Lezama, para as traduções de John Ashberry, Robert Creeley, John Cage, Ernst Jandl, Deleuze & Guattari, Derrida e Joseph Brodsky, entre outros.

A reiterada evocação de Orígenes, contudo, menos que efetivamente apagá-la, reforça sua presença como arquivo na memória dessas novas diásporas, talvez como possível nação (imaginária, como toda nação), de onde partiu a dispersão, essa vista positivamente, em suas possibilidades para trocas culturais, e não como despojo originário. Em plena crise do Período Especial, a produção de Diáspora(s) pode ser lida como um processo dinâmico de interatuação da língua cubanensis com as (pós)vanguardas do século XX, desafio à identidade cubana e um questionamento da soberania nacional, desde o espaço reivindicado da literatura.

***

Como parte da coleção dedicada à literatura caribenha, a Malha Fina publica a antologia bilíngue Diáspora(s). A organização ficou por conta de Idalia Morejón Arnaiz, pesquisadora que tem se dedicado à poesia do grupo e que também assinou o prólogo do livro em “Notas sobre Diáspora(s)”. As traduções, por sua vez, ficaram a cargo de Ellen Maria Vasconcellos, Clarisse Lyra, em trabalhos individuais e Caroline Costa Pereira, Liliana Marlés, Gabriel Bueno, Adriana Silva, Robson Hasmann, Ramiro Caggiano Blanco e Yedda Blanco, em traduções colaborativas.

O livro vai estar em pré-venda na 2ª edição da Feira SUB de arte impressa e edições independentes, dia 16 de setembro, das 11hs às 21hs na Biblioteca Municipal Professor Ernesto Manoel Zink, em Campinas/SP.

Realizada pelo The Mix Bazar, a feira é gratuita e pretende ser um espaço dedicado a publicações que circulam fora do meio editorial tradicional. Para os interessados, além das bancas com diversas editoras do Brasil, o evento conta ainda com uma agenda de debates e palestras sobre o universo editorial independente. Esperamos todos lá!

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Feira Sub – Arte Impressa e Publicações Independentes. Dia: 16/09/2017. Horário: Das 11hs às 21hs. Local: Biblioteca Pública Municipal “Profº Ernesto Manoel Zink” – Campinas/SP.

Grupo Diáspora(s): uma poética de ruptura (parte II)

por: Aryanna Oliveira

Na quarta-feira passada (30) apresentamos três dos autores que compõem a mais recente antologia da Malha Fina, Diáspora(s), a saber: Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders e Ricardo Alberto Pérez. Seguindo a ordem de aparição na coletânea, hoje elucidamos trechos da poesia de Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer e Carlos A. Aguilera.

Pedro Marqués de Armas é poeta e ensaísta, que atualmente reside em Barcelona. Entre suas publicações estão Fondo de ojo, Los altos manicomios, Cabezas, Óbitos e Fascículos sobre José Lezama Lima. Figura constante em jornais e publicações literárias, sua poesia se caracteriza por uma abstração, à primeira vista, como uma latente intangibilidade. Entretanto, essa característica funciona como um recurso de ironia, com uma consequente rispidez disparate. Na própria definição do poeta, em uma das edições da revista Diáspora(s), sua literatura estaria no entremeio de tipos, resultando em sua especificidade. “Ni vanguardia ni nueva fundación. Ni arqueología ni tabula rasa. Acaso un poco de todo eso: procesos que retoman la escritura como ilusión y a la vez como simulacro que enmascara sus propios límites. […] En fin, una literatura que se despliega como maquinita de guerra sin caer en posiciones roñosas o partidistas”.

A escrita de Marqués de Armas é densa, provocativa e apurada, por isso exige releituras, para que o leitor desvende cada uma de suas muitas camadas poéticas, escritas em uma sintaxe complexa. As características de seu estilo podem ser percebidas já nos primeiros trechos de “Claro de bosque (semiescrito)”, poema apresentado na coletânea da Malha Fina, em que se percebe uma aparente abstração, que vai se resolvendo em seu desenvolvimento poético. Sua obra diz muito sem saturação, alcança o leitor na supressão das palavras, no pouco que muito diz.

Claro de bosque (semiescrito)

Trecho de “Claro de bosque (semiescrito)”, de Pedro Marqués de Armas. Poema trazido como “Clareira de Bosque (semiescrito)” por Clarisse Lyra.

Ismael González Castañer nasceu em Havana, onde até hoje reside. Poeta, ensaísta e narrador, escreveu as obras Canciones del amante todavía persa, Mercados verdaderos, La Misión, e Disfuerza. Com seus trabalhos ganhou prêmios como o David de Poesía, em 1997; o Dador del Instituto Cubano del Libro e o Nacional de la Crítica, em 1999; o Nacional de Ensayo Vidimia, de 2003; entre outros. Reconhecido internacionalmente, teve suas publicações traduzidas para o inglês, francês e português, tendo, além disso, sido convidado a importantes eventos como o Festival de Poesía de Medellín, na Colômbia, e a Bienal Internacional de Poetas em Val-de-Marne, na França. Assim como Marqués de Armas, é figura constante em jornais e outras publicações literárias cubanas especializadas.

A obra do poeta, que abandonou a engenharia mecânica para dedicar-se à escrita, se caracteriza por um estilo que se mescla entre o estilista dedicado e o popular. Suas obras são verdadeiras performances desenhadas em pares antagônicos que garantem a profundidade das intenções e dos sentimentos, como se constata no trecho a seguir, do curto e vigoroso “Vaho que sentí yo el sábado”:

Vaho que sentí yo el sábado

Trecho de “Vaho que sentí yo el sábado”, de Ismael González Castañer. Poema traduzido por Gabriel Bueno e Adriana Silva como “Bafo que senti no sábado”.

Fechando a antologia, Carlos A. Aguilera, poeta, ensaísta e narrador, é apresentado através de “Mao”, poema que se destaca pela forma e pelo uso de ideogramas. Sua poesia, aliás, se distingue no entrecruzamento da poesia experimental, do teatro, da escrita e das artes conceituais, o que atesta que Aguilera seja considerado um dos grandes expoentes da poesia performática entre os autores cubanos do final do século XX.

Trecho de “Mao”, de Carlos A. Aguilera

Trecho de “Mao”, de Carlos A. Aguilera. Poema traduzido por Robson Hasmann e Ramiro Caggiano Blanco.

Nascido em Havana, o escritor, que hoje reside em Praga, é autor de obras como Retrato de A. Hooper y su esposa, Das Kapital, Teoría del alma china, Discurso de la madre muerta, e El imperio Oblómov, além das antologias Memorias de la clase muerta, Intelectuales e Estado en Cuba. Por esses e outros trabalhos foi contemplado com prêmios como o David de Poesía, em 1995 e, com a bolsa da Fundación Cintas, em Miami, em 2015.

A poesia de Aguilera apresenta-se em perfeita consonância com as características do Grupo Diáspora(s), pronunciadas em posfácio à antologia da Malha Fina Cartonera, organizada por Idalia Morejón Arnaiz. O grupo, que iniciou suas atividades entre 1993 e 1994, apresentou-se sempre ligado à performatividade, à arte conceitual e ao experimentalismo, demandando uma renovação crítica e uma poesia de pensamento. Esse experimentalismo é percebido na obra de Aguilera de forma expandida.

Em entrevista a La Habana Elegante, o poeta de Mao define sua obra poética, mas acaba por definir muito do exercício de criação de todo o grupo, uma criação vanguardista, performática e de difíceis definições, que convida a adensamentos pela releitura que sempre apresenta novas sensações. “Creo que mis textos, igual el género en que finalmente hayan sido escritos― tienen detrás cierta stimmung del teatro, cierto devenir teatral; y por eso son a veces tan exagerados o lúdicos (o exagerados y caricaturescos). No concibo casi nada que no haya pasado previamente por, como decía antes, cierta cuchillita teatral, cierta ‘disección’ que sólo te da la escena. Incluso, mis poemas, a veces tan difíciles para algunos, siempre tan abstractos, pasan por esto que vengo diciendo, por ese drama que para mí fluye por debajo de todo”.

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Grupo Diáspora(s): uma poética de ruptura

por: Aryanna Oliveira

Na última quinta-feira, 24, em oficina realizada pela Malha Fina Cartonera, durante a VI Jornada do Programa de Pós-graduação em Língua e Literaturas Espanhola e Hispano-americana (DLM/FFLCH/USP), ocorreu o pré-lançamento da antologia poética do grupo Diáspora(s), com título homônimo, em edição bilíngue. Na atividade oferecida pela Malha Fina, os participantes puderam, além de conhecer o ofício e a trajetória da cartonera, confeccionar as primeiras capas da publicação que apresenta o grupo poético-literário cubano.

Fundado em 1993, o movimento que se manteve ativo até o ano de 2002, previa um projeto de escrituras alternativas, para além de um caráter de busca de unidade nacional, como consolidação do cânone, por exemplo. Do grupo fizeram parte Rolando Sánchez Mejías, Carlos A. Aguilera, Rogelio Saunders, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer, Ricardo Alberto Pérez, José Manuel Prieto e Radamés Molina.

Em posfácio à edição, a Profª Drª Idalia Morejón Arnaiz, diretora editorial da Malha Fina e organizadora da coletânea, explica o título do grupo, como um elemento relevante de seu viés político e vanguardista. “O termo diáspora (em grego antigo, διασπορά – dispersão) define o deslocamento forçado ou incentivado de grandes massas populacionais originárias de uma zona determinada para diversas áreas de acolhimento. Que tal termo apareça como nome de um grupo literário e, posteriormente, como título de sua revista, com uma letra “s” ao final entre parêntesis, denota, em primeiro lugar, que as zonas de acolhimento a que se submete a literatura são múltiplas e, em segundo lugar, que em tais traços se hospeda uma marca plural, de dissensão escritural, heterogênea”. Ou seja, tendo na poesia uma arma de combate contra o totalitarismo, o grupo buscava não só dar continuidade aos aspectos essenciais da vanguarda cubana, como também reivindicar a projeção política contra o nacionalismo de Estado, por meio da atribuição de valor em zonas periféricas, abandonadas pela pelo fazer literário, em Cuba.

As primeiras capas de Diápora(s), produzidas na oficina cartonera da Malha Fina

As primeiras capas de Diápora(s), produzidas na oficina cartonera da Malha Fina . Foto: Cristiane Gomes.

Diáspora(s) consolidou-se, desse modo, como um grupo de ruptura, rompendo principalmente com os modos unilaterais do fazer literário, apoiando-se em um enfrentamento à política cultural da ilha, delineado pelo estado castrista, a partir de 1959. “Assim, a ruptura com o modo predominante de praticar a literatura torna a ser outro dos gestos que Diáspora(s) passa a praticar, e sobre o qual deixou textos poéticos, ficcionais e ensaísticos que constituem valiosas contribuições à releitura e reescritura da tradição. Diáspora(s) buscou na diferença seus próprios precursores, e seu trabalho modificou tanto nossa concepção do passado quanto às possibilidades futuras de escrever”, explica Idalia Morejón no mesmo prefácio, em tradução de Ramiro Caggiano Blanco e Yeda Blanco.

A coletânea, publicada pela Malha Fina, traz poemas de cada um dos membros fundadores do grupo, em versão original e em português, como forma de apresentar ao público brasileiro um momento tão importante da literatura cubana de vanguarda, de um dos mais importantes movimentos literários de Cuba, pós-Orígenes.

Entre os escritores do grupo, a coletânea apresenta um pouco da produção de Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders, Ricardo Alberto Pérez, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer e Carlos A. Aguilera. E dos três primeiros apresentamos hoje alguns excertos do que o leitor irá encontrar em Diáspora(s).

Em “Jardín Zen de Kyoto”, é possível conhecer a escrita de Rolando Sánchez Mejías, que hoje reside em Barcelona e é autor de narrativas e antologias poéticas.  Seu trabalho já foi publicado em países como Espanha, Cuba, Alemanha, Estados Unidos, Suíça e República Checa. Em 1993 e 1994 ganhou o Premio Nacional de la Crítica .

Alrededor del jardín

Trecho de “Jardín Zen de Kyoto”, traduzido para o português como “Jardim Zen de Kyoto” por Ellen Maria Vasconcellos,

Já em “Vater Pound”, conhecemos a atmosfera literária de Rogelio Saunders, poeta, narrador e ensaísta, que também reside em Barcelona e ganhou o prêmio de Poesia Luis Rogelio Noguera com a plaquette “Observaciones”.

Vater Pound

Trecho de “Vater Pound”, traduzido por Clarisse Lyra.

E, em “Los Tuberculosos”, é possível perceber as marcas de vanguarda em Ricardo Alberto Pérez, poeta e ensaísta, que nasceu e reside em Havana. Autor de muitas publicações, o escritor foi bolsista do Parlamento Internacional de Escritores e, ganhador do Premio Nacional de Poesía Nicolás Guillén, em 2007.

Los Tuberculosos

Trecho de “Los Tuberculosos”, traduzido como “Os Tuberculosos” por Caroline Costa Pereira e Liliana Marlés.

 

Os escritores Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders e Ricardo Alberto Pérez, membros do grupo Diápora(s).

Os escritores Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders e Ricardo Alberto Pérez, membros do grupo Diápora(s). Fonte: Divulgação online.

 

Na próxima semana apresentaremos os outros três poetas que compõem a antologia Diáspora(s).

Sangria com Adélia Danielli

por: Cristiane Gomes

No início do ano conheci a poesia da potiguar Adélia Danielli na Banca Tatuí. Folheei Bruta e parei na Conceição Discos, da Thalitha, que é uma casinha paulistana, e devorei com bolo de banana, café coado e Clara Nunes na vitrola.

Entrei em contato com Adélia, a mesma que habita o livro em brutos poemas, fotos de Pedro Andrade e um lindo e singelo trabalho gráfico lindo de Themis Lima, e ela topou compartilhar o seu trabalho aqui na Sangria.

Além de Bruta, lançado em 2016 pela editora Tribo, que pode ser adquirido por R$25,00 pelo e-mail adeliadmsouza@gmail.com, Adélia participou de alguns livros coletivos, como o Por Cada Uma (2012), da editora Una.

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Foto: Adélia Danielli.

sou dessas
sou daquelas
de quem falam mal
que xingam
que chutam
as canelas
incomodo
não me calo
não me conformo
não engulo
choro voz ou
ato
desfaço o papel
que me mandaram
interpretar
respaldo
em minha liberdade
o desejo de não ser
lapidada
sou bruta
mulher pedra flor
e luta

 

eu sou o surto de Piaf
pela morte de Marcel
a angústia de Elena
e o palco para sempre
vazio
sou o desejo
do esquecimento
de uma mente sem
lembranças
a Garota Interrompida
em Paris, Texas
o amor em coma
que não despertou
As Horas de uma loba
e duas mulheres
a necessidade da escrita
o Nome Próprio
o ventilador do Palhaço
e a esperança nas
Medianeras

 

minha poesia
não tem pompa
não anda
de salto alto
não tem garbo
de difíceis
palavras
caminha
com pés
descalços
desce
ladeira abaixo
cantando
assanhada e suada
não desfila
elegante
pelas calçadas
tem perfume delicado
mas por vezes que
entranha
invade, corta
e sangra sem
a menor cerimônia