Sangria – Entrevista e Poemas de Elen Juanini

por: Cristiane Gomes

Elen Juanini

Elen Juanini. Foto: Hugo Bachiega.

Surgiu na Alameda Nothmann com uma cintilante camisa cor de rosa, pois estava “vestida de coxinha para testemunhar em uma ação trabalhista”. Elen Juanini tem 28 anos, foi criada no Jardim Miriam e começou a trilhar seu caminho na literatura com a publicação do independente poemas simples e domésticos (2015), escrito enquanto moradora do Bixiga. Agora, vivendo nos arredores do metrô Marechal Deodoro, a poeta prepara seu próximo trabalho: pedra filosofal.

Conversamos sobre a vida real, as dificuldades de se manter em São Paulo, fugas da polícia em manifestações, a política higienista do Dória, saraus constrangedores e também sobre escrever poesia, que é a parte da conversa que você pode acompanhar abaixo, seguida pelos poemas Eles e nós, Apelo, Loja de Artigos Femininos e Juno.

Cristiane Gomes: Elen, quando você se percebeu poeta?

Elen Juanini: Sempre escrevi de tudo, desde pequena, nem sempre poesia, mas aos 22, mais ou menos, não faz tanto tempo assim, comecei a escrever só poesia.

CG: Eu percebi uma presença muito forte de um modelo feminino tradicional no poemas simples e domésticos, no qual há rachaduras, mas elas são expostas sutilmente. A mulher do seu livro, apesar de ser uma mulher livre, está presente na família, na cozinha, na cama. Um ser doméstico. O que é muito interessante, pois na vida você não é exatamente uma representante desse modelo.

EJ: Deixa eu pensar sobre a minha vida… Percebi muito cedo que existia esse modelo e resolvi romper com ele de diversas formas possíveis. Eu tinha um comportamento mais masculino, mas percebi que exaltar o padrão da masculinidade é exaltar o preconceito contra a mulher, é negar a si mesma. O livro surge a partir disso, como tentativa desesperada de romper com esse modelo, desconstruí-lo, sem saber exatamente como, ou quais os limites; de querer entender o que é ser mulher, sem tentar ser homem, mas como o padrão é muito forte, é difícil romper completamente com tudo. Talvez os poemas desse livro tenham sido uma tentativa de romper com os padrões criando um lugar que chamo “sem lugar”. No “sem lugar” você não precisa necessariamente ser mulher, homem, nada. Ele é. Simplesmente. Ele não cria um modelo novo, porque não responde a nada. A arte não responde a nada, é uma inquietação, uma vontade de não querer ser.

CG: Sua poesia, é a poesia de uma mulher trabalhadora. Do trabalhador dessa nova classe, que teve acesso à educação, que escreve e que se coloca politicamente. Como você vê a poesia contemporânea brasileira nesse sentido?

EJ: A poesia contemporânea brasileira me deixa bastante triste, no geral. Tenho tentado analisar se não estou sendo preconceituosa, se não é uma implicância minha. Eu vejo muita técnica, muita academia, mas pouco o que dizer, pouco espírito, pouca alma.

A questão do trabalho, pra mim, sempre esteve ausente da poesia. Se faz poesia sobre o trabalho, mas de fora, na terceira pessoa. Eu como sou uma trabalhadora, pertenço mais ao mundo do trabalho e menos ao mundo acadêmico. Não que sejam excludentes, eles formam o que eu sou nesse mundo, meu jeito de ser, ideias, poemas. Acredito que a minha poesia não é exatamente periférica, trabalhista e também não é uma poesia acadêmica. Assim como eu, ela transita por esses dois mundos, representa a ideia desse intelectual orgânico, e, nesse sentido, talvez ela seja mais intuitiva do que profissional. Com certeza ela é mais intuitiva que profissional. Com certeza ela não é profissional. Gosto muito do que a Clarice fala da escrita amadora, que é escrever com amor.

Eu vejo a academia hoje como uma fábrica de poetas, uma produção em série de poetas, que pressupõe uma série de paradigmas, como por exemplo que um poeta de verdade tem que ler e escrever em várias línguas, o que não tá em conformidade com a realidade da população. Outro dia assisti a uma entrevista do Mia Couto em que ele falava que escrever em português é uma resistência cultural contra o imperialismo da cultura americana.

CG: E sobre a simplicidade estética, sua escolha por um vocabulário reduzido, do texto ter uma leitura fácil, sem intrincamento, pedantismo cultural ou exibicionismo.

EJ: É uma escolha consciente, ligada à necessidade de transmitir, de chegar aos lugares. É engraçado que quando eu escrevo um poema meu critério de avaliação é: a minha mãe entenderia esse poema? as minhas tias entenderiam esse poema? Isso eu acho interessante, que embora meu trabalho não seja conhecido, pessoas que não são leitoras de poesia e chegaram a ele conseguem sentir a poesia disso.

Pra mim, a simplicidade é um valor muito importante. Eu também gosto dos escritores que usam palavras comuns e isso também faz parte da minha formação e faz com que eu valorize uma visão de mundo que enxerga nas coisas comuns, cotidianas e simples as coisas misteriosas, profundas e cheias de significado.

CG: E que escritores são esses que fazem parte da sua formação?

EJ: A Clarice Lispector, que não é o que seria pressuposto de eu gostar […] como exemplo dessa simplicidade, eu gosto muito do Murakami, que tem uma escrita simples, e do Tchekov, que tem uma simplicidade invejável dentro de uma visão de mundo profunda.

O título do meu livro vem do Murakami, porque eu não leio em outras línguas, e nas traduções da Lica Hashimoto ela usa muito a palavra “simples”. No Murakami a palavra “simples” é usada como adjetivo em vários momentos, uma coisa que aparece muito são jantares simples que as pessoas preparam pra comer sozinhas, um cotidiano autêntico, de roupas simples. E um cotidiano autêntico pra mim não é barroco, ele é simples. Pensei nesse doméstico como simples, não burguês, comum.

Uma inquietação que eu tive depois que escrevi esse livro foi que os poemas que escrevi imediatamente depois e por algum tempo depois se pareciam muito com poemas simples e domésticos. Eles eram todos poemas simples e domésticos e, de alguma forma, isso me deixou feliz e triste. Fiquei feliz, porque eu talvez pensasse que finalmente havia descoberto um estilo pessoal, uma forma muito minha de me expressar por palavras. E o que me deixou triste, foi chegar a conclusão, por exemplo, de que quando eu escrevia sempre olhava pra dentro, mesmo tendo interesse pelas coisas que me cercavam, meus poemas eram sobre o mundo, mas eram sobre mim. Fiquei pensando se o que eu estava fazendo era poesia ou se eu estava me masturbando em público.

A partir daí eu comecei a fazer o esforço consciente de olhar pra fora, ao invés de olhar pra dentro. A partir desse esforço e de outras coisas, como novas referências poéticas, que percebi que comecei a fazer um trabalho novo que se chama pedra filosofal, que reflete sobre a questão do crack na sociedade.

CG: Por que trabalhar esse tema?

EJ: Esse tema surgiu, quando eu deixei de morar no Bixiga, que muitas vezes foi o cenário do Poemas Simples, e é um bairro que o pessoal do oficina costuma chamar de periferia central. Um bairro de centro, com características periféricas que são: ter gente pobre vivendo, manifestações culturais populares. E eu, sendo da periferia, me sentia muito à vontade naquele bairro. É um bairro extremamente alegre. Eu vejo um bairro formado, por nordestinos, italianos e quilombolas, que são culturas alegres, expressivas e musicais, que fazem o Bixiga ser um bairro muito alegre, apesar da pobreza, das pessoas em situação de rua, de partes mais violentas, perigosas. Eu me sentia muito em casa no Bixiga. Era como se meu bairro da periferia tivesse sido transportado pro centro com todas as características culturais. Depois eu vim morar na Santa Cecília, e aqui me deparei com uma realidade muito dura, que eu não consegui e nem quis ignorar que é a realidade dos moradores de rua, e o que é pior, é a realidade dos moradores de rua vivendo dos restos desprezados por Higienópolis.

CG: E você acredita que como poeta tem um papel social, político a fazer?

EJ: Eu acredito que sim. Não acredito na arte pela arte, nem que o meu papel seja ser porta-voz de nenhum tipo de movimento ou tendência específica e que eu tenha que abrir mão das minhas opiniões pessoais ou poéticas para transmitir uma mensagem específica. Eu acredito, como no poema do Ferreira Gullar, que o meu poema nasce junto com meu povo, e se eu sou poeta, sou também uma cidadã, um ser político, uma mulher. Eu vim da periferia, e  nunca vou conseguir desvincular meu olhar disso, porque essas coisas fazem parte de quem sou. E eu nunca vou conseguir olhar o outro com indiferença. Outra coisa que eu não vou conseguir é deixar de criticar as coisas, se eu critico tudo, até a poesia, como eu não vou criticar os problemas sociais?

CG: Elen, obrigada por compartilhar seus pontos de vista e poemas conosco. Quais são suas considerações finais?

EJ: Temos que fugir da academia o quanto pudermos, a vida tá na rua e a poesia tá na vida. E temos que, como artistas, fazer o máximo que pudermos para tornar a arte popular. O que eu mais gostaria de fazer pela poesia é torná-la uma arte popular, e a poesia se tornar mais popular não é um defeito, ser popular é uma qualidade, pois a partir de quando você traz mais pessoas pra entrar, discutir a poesia, você a enriquece com essa leitura, com a leitura dessas pessoas. Criar um público cada vez maior leitor de poesia é fundamental para que a poesia cresça.

Contato da Elen: juaninielen@gmail.com

Eles e nós

O homem dá o nó
na gravata
o homem dá o nó
O homem dá uma
gravata
O homem dá o nó
e aperta o pescoço
As mãos do homem
tecem nós apertados
As mãos do homem
são brancas
são limpas
são limpas?
mas são brancas
e não tem manchas
que se possam ver
As mãos do homem
branco dão nós
e carregam pastas
só pastas carregaram
nenhum peso maior
Nos seus dedos, anéis
que ficam enquanto
vão-se os dedos
que dedos?
As mãos do homem
que tecem nós
que tramam nós
que apertam o pescoço
que sufocam
que enforcam
que pescoço?
Diante do espelho
o homem e seus homens
homens e brancos
apertam nós
apertam nós
apertam.

Apelo
(Em desacordo com a nova ortografia)

Cabeluda,
a buceta cospe gente no mundo
e gente é mamífero e tem pêlo
e tem macho e tem fêmea
e tem algo dos dois
em cada um.
O cabelo da buceta não mente:
é de verdade
e o corpo anexo à buceta
é de verdade.
Mulheres, como homens,
têm pele, têm pêlo
e o pêlo eriçando na pele
quando a pele roça na pele
e a pele roça no pêlo
e o pêlo roça no pêlo.
Beijo na boca, língua no pêlo,
pêlo lá fundo na garganta
que a mulher pode aceitar
sem nojo
então sem nojo
o homem pode aceitar
o pêlo na garganta
o dedo no cu
o gozo na cara
(eu gosto e ele convém gostar)
Roçar o pau na minha barbicha
de lisos, lustrosos pêlos
que certa vez um escandinavo
Avança a civilização,
marcha o progresso
pelo corpo humano
desmatando a mata
Amazônia a baixo
tornando tudo
padrão código
série plástico
mas minha buceta
não é de plástico
embora algumas de plástico
tenham estranhos pêlos, veja bem
é quente e pulsa viva,
criativa minha buceta
e sem ela eu não seria eu.
Cada pau, cada genital é único
A minha buceta é cabeluda,
selvagem por direito natural
e quem não quiser,
não come,
normal.

Loja de Artigos Femininos

Juno

ela / ele
elu : elo

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Estamos selecionando material para a seção Sangria do blog da Malha Fina Cartonera. Se você quer ver seu trabalho publicado aqui, envie pelo menos 3 poemas ou uma narrativa curta e uma breve biografia para: crix.gomes@gmail.com

Chama(da) Cartonera

por: Larissa Pavoni Rodrigues e Bruno Fernandes

A Malha Fina Cartonera lançou a segunda chamada para envio de originais, e realizou o lançamento dos livros de poemas de dois estudantes da FFLCH, selecionados na Convocatória de Narrativa e Poesia (2015-2016).

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Elvio Fernandes Gonçalves Junior, Idalia Morejón Arnaiz e Mauro Augusto de Souza. Foto: Aryanna Oliveira e Cristiane Gomes.

Na última quinta-feira, 18 de maio, a Malha Fina Cartonera realizou, no auditório do prédio de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, o lançamento de dois livros de poemas há muito aguardados. Também foi aberta a Segunda Convocatória de Narrativa e Poesia Malha Fina Cartonera, apresentada neste evento pela professora Idalia Morejón Arnaiz, diretora do projeto, e que, como gostamos sempre de lembrar, visa estimular a vida literária dentro da Universidade, possibilitando que alunos de graduação e pós-graduação publiquem seus livros inéditos em formato cartonero.

Foi assim que o Mauro Augusto de Souza, estudante de filosofia, e o Elvio Fernandes Gonçalves Junior, estudante de Letras/Linguística, publicaram seus primeiros livros de poesia: Crisântemo é um nome bom e O coração em si, respectivamente. Recentemente, publicamos no blog entrevistas com os dois autores, feitas por Aryanna Oliveira. Lá os autores falam mais sobre o processo criativo, o início da escrita, a relação com a família, e outros assuntos que podem ser acessadas aqui: Sobre a grandeza das pequenas coisas: nas entrelinhas de “Crisântemo é um nome bom”, de Mauro Souza e Inspirações para “O Coração em si”: Entrevista com Elvio Fernandes Gonçalves Junior.

Durante o evento desta quinta-feira, houve o lançamento dos dois livros, apresentados pela coordenadora do projeto, Tatiana Faria, que aproveitou para comentar brevemente sobre os dois autores e seus modos, tão raros e distintos, de escrever poesia. Segundo Faria “Mauro coloca toda sua vivência e expressão pela família e por seus sentimentos nos poemas escritos”, já Elvio, complementa, “ao mesmo tempo tão jovem e tão denso em sua escrita, que tornava-se estranho pensar como cabe tanto n’O Coração em si’’. Antes de lerem alguns dos poemas, os autores se disseram gratos e contentes pelo momento, agradeceram a ajuda de amigos da faculdade que lhes mostraram a Convocatória, incentivando-os a participarem.

Com um clima descontraído na mesa do lançamento, Elvio falou mais sobre a importância dos amigos e familiares para sua escrita: “Acredito que a experiência foi imprescindível para a escrita do livro”, e brinca: “quando entreguei os papéis preenchidos nem havia percebido que o prazo tinha passado, mas estava tão seguro que era o dia certo que consegui entregar”, culpando a própria “procrastinação” pelo atraso, porém, ficou mais aliviado quando soube que não tinha sido o único a fazê-lo.

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Mesa do lançamento com autores: Mauro Augusto de Souza, Tatiana Faria e Elvio Fernandes Gonçalves Junior. Foto: Aryanna Oliveira e Cristiane Gomes.

O poeta estreante Mauro falou sobre sua infância: “Alguns de meus poemas remetem às memórias dessa época, com meus pais e o bairro onde vivia”. Depois comentou o quão bom foi agrupar e enviar seus poemas para a Convocatória: “O trabalho de escritor nunca é terminado, já que sempre penso que algo está errado ou ruim […] Poder finalizar um livro é um alívio, já posso partir para os próximos escritos”.

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Mesa do lançamento com autores e Tatiana. Foto: Aryanna Oliveira e Cristiane Gomes.

Chegada a hora da leitura dos poemas, Tatiana leu dois de Mauro, intercalando sua leitura com o autor. Elvio convidou dois amigos para a leitura, e se formou um clima ainda mais alegre e divertido. Para encerrar os autores puderam escrever dedicatórias nos livros comprados pelos participantes.

Nossos próximos passos serão agora construir a Segunda Convocatória de Narrativa e Poesia, para que seja abrangente, com a participação de muitos estudantes. Nesta Convocatória, contamos com a parceria da UNIFESP. Nessa nova edição, o formato modificou-se: tanto alunos(as) da FFLCH quanto da EFLCH (Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) podem se inscrever e dois de cada faculdade serão os finalistas, com os livros inéditos publicados pela Malha Fina. Neste link, encontram-se os requisitos para participar da Segunda Convocatória de Narrativa e Poesia. Inscreva-se e convide um amigo escritor a desengavetar os textos!

A equipe Malha Fina agradece a todos e todas pela presença, e vamos seguir trabalhando pela difusão da literatura e publicação de novos escritores dentro e fora da Universidade de São Paulo. Essa é a chama de nossa cartonera!

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Equipe Malha Fina e autores. Foto: Aryanna Oliveira e Cristiane Gomes.

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Segunda Convocatória de Narrativa e Poesia do Selo Editorial Malha Fina Cartonera (USP-UNIFESP 2017)

Convidamos a todos os estudantes da graduação e da pós-graduação da FFLCH/USP e da EFLCH/Unifesp a inscreverem seus originais inéditos na Segunda Convocatória de Narrativa e Poesia do Selo Editorial Malha Fina Cartonera (USP-UNIFESP 2017)!

Você, estudante da FFLCH/EFLCH: não perca esta oportunidade de se tornar um(a) autor(a) publicado(a)!

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Acesse aqui o arquivo em pdf.

Sobre a grandeza das pequenas coisas: nas entrelinhas de “Crisântemo é um nome bom”, de Mauro Souza

por: Aryanna Oliveira

Há alguns dias a Malha Fina Cartonera apresentou o autor de O coração em si, Elvio Fernandes Gonçalves Junior, um dos vencedores da Primeira Convocatória de Narrativa e Poesia para autores inéditos, e, hoje, é dia de conhecer melhor Mauro Souza, autor do outro livro que será lançado na próxima quinta-feira, 18, na FFLCH (link do evento).

O estudante de filosofia da USP, traz em Crisântemo é um nome bom ― coletânea de poesias especialmente reunida para a convocatória ― um lirismo ácido do cotidiano, uma poesia com gosto das coisas pequenas e simples, com um tom de contar história que flui, mas que faz refletir e que permite ao leitor se reconhecer nas linhas do outro. E não é de se estranhar, pois conversar com Mauro é como reencontrar um velho amigo, sempre uma boa conversa, um sorriso no rosto, um chamado à identificação, características que refletem com maestria em seu trabalho, desde as primeiras linhas.

Mauro Souza. Foto: Aryanna Oliveira.

E, nesse “contar a vida que segue”, o ciclo começa com “Nasci e chorei as 24 horas do dia”, que, como um abre alas da obra, funciona também como o início de um fluxo (do livro, ou da vida), um princípio que causa desespero, que é chorado, vigiado e febril.

NASCI E CHOREI AS 24 HORAS DO DIA
para desespero de freiras frias
tudo de mim escapava
quase até a vida ainda cedo
no sarampo
mais a pneumonia
tudo me escapava
menos o céu
onde os olhos afundavam
me roubava as horas
cresci meio triste com o quê?
vigiando sem sono janelas
o menor dos ruídos
imberbe
e um 38 dormia dentro da mala com fotografias
gastei a vista desenhando em nuvens
a sola do pé nas ruas de terra
e a paciência esperando a madrinha
um brinquedo
esqueci seu nome.
fui batizado às pressas
lembra?
febril
fervendo a água da pia
escapei de boas
e a lembrança mais antiga que tenho de mim.
não é minha.

Mauro fala de tudo em suas poesias, “até garrafa térmica”, isso porque segundo ele há uma espécie de encontro metafísico entre o “eu” do autor e a “coisa” a ser escrita, e esse encontro permite uma sintonia com o múltiplo e com as mínimas coisas: “Você pode falar de crisântemos ou daquelas azedinhas que nascem em qualquer pé de muro e o valor poético significar igualmente para as duas” ― filosofa o autor.

Entretanto, essa aparente simplicidade do cotidiano nas linhas de sua escrita é tratada com a laboriosidade que o ofício merece, pois ainda que a inspiração venha de tudo e qualquer coisa, há para ele um “porém” a ser considerado durante o processo de composição.  “É preciso trabalhar o texto, caso contrário, posso dizer que é muito difícil que saia algo que valha a pena”, reitera.

Em seu trabalho o cotidiano é pensado para além da observação de pormenores, atingindo um estudo social mais elaborado e evidente em certos momentos. “Penso que existe uma certa preocupação política, social, que perdura. Isso vem desde o começo, desde os primeiros textos que escrevi”, explica Mauro. Essa característica pode ser percebida em “Estivemos Ombro a Ombro”.

ESTIVEMOS OMBRO A OMBRO
defendendo as linhas da velha comuna,
ouvindo o assovio do chumbo
e seu baque seco nas barricadas.

estivemos ombro a ombro
enquanto nosso sangue se misturava
sobre a terra sempre prometida

estivemos ombro a ombro
distraídos nas linhas de montagem
sonhando melhores dias
e máquinas nos devoravam
ora uma mão, um braço, muitas vidas.

ao meu lado, oprimido contra o muro,
e a sanha dos capitães-do-mato
em seus uniformes calcinantes

(…)

ombro a ombro chorando nossos companheiros
insepultos e vaporizados, misturados ao ar
os respiramos, todos os respiram,
mais que ao lado, agora e adiante,
em toda parte, unidos.

A paixão do Mauro pela música (ele canta no Coral da USP), assim como  a participação e importância da mãe em seu desenvolvimento como escritor, também são lembrados em suas linhas. Da mãe, inclusive, conta que ela fora, em muito tempo, seu único público. “Eu costumava ler meus poemas para minha mãe enquanto ela preparava o arroz, ou lavava uma louça. Ela sempre dizia que gostava… mãe só tem uma (risos)”.

MINHA MÃE NO TANQUE
lava, na água mais que fria,
as roupas do dia.

Para o escritor ― que cresceu ouvindo Cartola, Milton, Chico e Elis, e, que acredita que todo mundo uma vez na vida deveria ler Machado, Dostoiévski, Clarice, Pessoa, Victor Hugo, Drummond, Raduan e Rimbaud ― projetos como o da Malha Fina Cartonera são muito importantes não só por apresentar novos talentos, mas pelo poder de combate das palavras trazidas a público. “Caramba, eu acho que projetos assim deveriam conquistar o mundo! (risos) Isso é muito necessário, precisamos ler mais gente como o Elvio e tantos outros que a Malha Fina edita e revela. Desengavetar essas produções e trazer à luz com essas edições tão legais, artesanais, é muito bonito. Eu diria que isso é guerrilha, com tudo o que essa palavra implica”, finaliza o autor que em Crisântemo é um nome bom encerra o ciclo da obra com o envelhecer: da casa, como metáfora da vida.

CASA ENVELHECIDA,
vizinhos idos e a chuva,
a mesma da infância.

crisântemo

“Crisântemo é um nome bom”, de Mauro Souza. Foto: Aryanna Oliveira.

O Passo a Passo Cartonero da Malha Fina

por: Larissa Pavoni Rodrigues

Por ser um espaço difusor de literatura e de publicação independente na Universidade de São Paulo, a Malha Fina Cartonera pretende estimular e dar visibilidade a autores inéditos em nosso meio e fora do ambiente acadêmico também.

O objeto livro, neste caso, é mais do que aquele já conhecido das estantes e bibliotecas. Os livros cartoneros são confeccionados de maneira relativamente simples e barata, com capas feitas à mão, individualmente, com papelão reciclado e folhas costuradas à mão: cada edição é peça única em si mesma e sustentável na mão do leitor. Sustentável na medida em que movimenta o trabalho e a renda de catadores e cooperativas – o quilo do papelão é comprado a um preço bem maior que os R$ 0,20 que normalmente vale.

O nome “Malha Fina” vem da lâmina que pretende desnudar outras faces, outros meios. Abre caminho ao novo, à formação e publicação de novos estudantes, novas traduções, revisões, projetos gráficos e etc. Materializa-se da necessidade de mais vida literária no nosso cotidiano, mais projetos formadores e transformadores.

Cartonera vem de cartón, palavra em língua espanhola que significa papelão. Significa também nosso material-base, fundamental. Trabalhar com ele é tão fácil e rápido que queremos incentivar mais autores, escolas (como já fizemos na EMEF Euclydes de Oliveira, na Escola Joycimara de Falchi e na IV Jornada Pedagógica), cursos, faculdades, a construírem projetos autônomos, difusores da ideia de um selo editorial que incentive a vida literária onde quer que esteja.

Por todas essas ideias, difundimos/demonstramos nesse espaço, o nosso processo de construção de um livro cartonero.

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Foto: Julia Izumino.

Materiais e modos de fazer

O Corte do Papelão

Das caixas de papelão coletadas extrai-se o nosso material de trabalho. O papelão ideal para capas de livros são aqueles mais finos, com uma única ondulação, ou uma só camada. Assim, ele torna-se mais maleável, e mais fácil de ser manuseado, dobrado, cortado, etc. Deve-se estar atento em utilizar o papelão disponível para fazer o máximo de capas, evitando o desperdício.

  • Corte:
  • Estilete grande
  • Placa de corte (usada para proteção da mesa e para maior segurança no manuseio do papelão).

As formas de vidro causam maior aderência ao papelão, e o tamanho delas variam de acordo com o tamanho de livro desejado:

  • Forma de vidro de 15 x 21cm (8 mm) lixada.
  • Forma de vidro 32 x 21cm (8 mm) lixada.
  1. Posicionar a prancha na mesa e, sobre ela, o papelão.
  2. Segurar com uma mão a forma de vidro bem rente ao material, tomando cuidado com os dedos, e com a outra mão cortar o papelão no formato do vidro.
  3. Repetir o processo para fazer a capa e contracapa.

Costura

  • Novelo de linha encerada (da cor de preferência)
  • Agulhas grandes (devem ter entre 7 e 10 cm, com furos grandes)
  • Furador de encadernação (ou agulhão)
  • Martelo
  • Presilhas
  • Régua com a marcação da distância exata entre os pontos que serão furados e costurados.

Neste passo a passo ensinaremos dois tipos de costura: a japonesa e a simples. Ambas seguem o mesmo processo: prender com presilhas (como na foto abaixo) o miolo ao papelão; com a régua marcar os pontos de furo desejados, com o martelo e agulhão furar o miolo e papelão. Após isso, iniciar a costura.

Tanto a costura simples como a japonesa precisam de 4 furos: da base superior ao primeiro furo 3cm, deste ao segundo furo 6cm, deste ao terceiro 3cm, deste ao quarto furo 6cm e, por último, do quarto furo à base inferior 3cm. Na costura simples, os furos vão no interior e na metade do livro, aberto ao meio. Já na costura japonesa, com o refilamento, é importante furar deixando 1cm de distância com o dorso/lombada do livro.

A diferença é com o uso da linha. Em quase todos os furos da costura japonesa a linha passa pelo menos três vezes, já na simples apenas uma.

Outra diferença importante é que a costura japonesa é feita com o miolo do livro refilado, e duas capas de papelão no formato 15 x 21cm. Já a costura simples é feita com o miolo não refilado, e portanto, aberto ao meio junto ao papelão, e papelão no formato 32 x 21cm.

Costura simples: com um pedaço de linha de 30 cm aproximadamente, passe pelo buraco da agulha até restar 5cm mais ou menos, formando nesse pequeno trecho uma linha dupla. Nessa costura não se amarram as pontas da linha. Inicie no interior do livro, passando pelo furo superior, saindo e entrando novamente pelo segundo furo. Do segundo furo passar ao terceiro pelo interior do livro. Agora, você estará no lado de fora e passará para o quarto e último furo, terminando a costura no interior com um pequeno nó, cortando o que restar de linha.

Costura japonesa: essa é um pouco mais demorada e precisa de mais linha também. Corte 60 cm de linha aproximadamente, passe pela agulha e faça um nó nas duas pontas, assim ela ficará dupla. Comece por trás do livro, no furo inferior da contracapa, faça a volta, e dê outra volta passando pelo “pé” do livro. Neste primeiro furo a linha passará três vezes e a costura ficará como um formato de “L” virado para o furo. Vá para o segundo furo pela capa e faça a volta. Pela contracapa, passe ao terceiro e repita a volta. Nessa etapa, você estará na capa e, então, é só passar ao quarto furo repetindo o procedimento do primeiro: duas voltas, uma no dorso e outra na “cabeça” do livro.

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Foto: Julia Izumino.

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Colocar as presilhas, segurando o miolo à capa. Foto: Julia Izumino.

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Com uma régua e um furador, marcar o miolo com o espaçamento desejado. Foto: Julia Izumino.

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Com o martelo, furar o miolo e o papelão. Foto: Julia Izumino.

Pintura da Capa

  • Chapas de radiografia para o stencil
  • Pincéis chatos tamanhos 24, 22, 20, 16, 12
  • Tintas guache
  • Rolinhos de espuma
  • Tinta acrílica Acrilex (uma de cor escura e outra clara)
  • Caneta Uniposca
  • Spray de tinta

A pintura da capa é a etapa mais livre e criativa do processo. Ela pode ser feita de diversas maneiras: com tinta guache, pincéis e rolinhos de espuma; tinta acrílica e stencil para colocação dos títulos dos livros; ou usando spray e stencil. A caneta Uniposca serve para o contorno das letras nos títulos. Pode-se usar, também, técnicas de colagem de tecidos, papéis de distintas fontes como revistas, reutilizáveis, etc. Por fim, um dica é passar um pouco de cola tenaz com um pincel na capa. O resultado é um brilho especial e maior durabilidade das tintas.

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Foto: Julia Izumino.

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Foto: Julia Izumino.

E por fim: mãos à obra! Usando a criatividade e o sentimento cartonero, fluindo desde as mãos ao papelão, esperamos contribuir cada dia mais na difusão de uma literatura bem cuidada e acessível.

Os agradecimentos vão para a Cristiane Gomes pela participação no vídeo, a Mariana Costa Mendes pela edição e a Júlia Izumino pela filmagem.