Carretera Cartonera, os livros de papelão reciclado para contar a história da América do Sul em um documentário

Por: Alessia Telesca para o eHabitat

Retomando as postagens do blog, iniciamos o ano de 2019 publicando uma entrevista feita por Alessia Telesca e publicada há pouco mais de um ano no eHabitat, um portal italiano independente sobre meio ambiente e sustentabilidade. Nesta entrevista, aqui traduzida para o português com autorização do eHabitat, somos apresentados à Carretera Cartonera, um projeto de documentário acerca das editoras cartoneras, no qual as autoras Marta Mancusi e Anna Trento comentam sobre a viagem pela América do Sul que fizeram em 2015 para entrevistar algumas editoras cartoneras. Além disso, também explicam o que é uma editora cartonera, qual seu papel na América do Sul e qual a importância dos catadores de papelão neste contexto de publicação.

Tradução por: Mariana Costa Mendes | Revisão por: Rafaela Alves de Melo

Fonte: http://www.ehabitat.it/2018/03/15/carretera-cartonera/

Trailer: https://vimeo.com/124812308

Carretera Cartonera, os livros de papelão reciclado para contar a história da América do Sul em um documentário

Publicado em 15 de março de 2018 em Cinema|Cultura|Livros|Lixo por Alessia Telesca

Papelões coloridos, reciclados e misturados para contar uma história, a história da América do Sul. São as Editoras Cartoneras, um projeto inovador feito pelas ruas da Argentina, para dar uma nova forma aos objetos jogados fora e, principalmente, ao mundo. E da Argentina chegam ao Brasil, Chile e em toda a América do Sul, levando ao mundo o sabor da cultura. O projeto, que pode ser considerado um verdadeiro e próprio fenômeno social e cultural, foi filmado por Marta Mancusi e Anna Trento, videomaker e fotógrafa. Nasce assim a Carretera Cartonera, uma história das editoras feita por pessoas das ruas das cidades.

Carretera Cartonera, a entrevista.

As autoras Marta Mancusi e Anna Trento contaram ao eHabitat sobre seu projeto Carretera Cartonera.

O que é o projeto Carretera Cartonera?

Carretera Cartonera é um projeto de viagem e um documentário. Começa em 2015, quando decidimos abandonar nossa zona de conforto e ir para a América Latina, em particular para o Brasil, Uruguai e Argentina, para descobrir e contar a realidade das Editoras Cartoneras presentes naquela região. No caminho foi adicionada uma etapa no Chile, onde entrevistamos outras editoras de Santiago.

Marta Mancusi e Anna Trento, autrici di Carretera Cartonera (fonte: carreteracartonera.tumblr.com)

Marta Mancusi e Anna Trento, autoras de Carretera Cartonera (Fonte).

O que são as Editoras Cartoneras?

As Editoras Cartoneras são pequenas casas editoriais nascidas no início dos anos 2000 na Argentina e difundidas em todo o território latino-americano e não latino-americano.

As primeiras editoras deste tipo, Eloísa Cartonera na Argentina, Dulcineia Catadora no Brasil e Animita Cartonera no Chile, têm contato próximo com os catadores de papelão.

As Editoras Cartoneras nascem com a ideia de comprar o papelão dos catadores a um preço mais alto que o preço do mercado de recicláveis para encadernar os livros editados. Tendo passado mais de dez anos, o número de Editoras Cartoneras cresceu muito, sendo agora mais de 200, o que fez com que até as premissas das várias editoras mudassem com base no intuito dos fundadores e nas áreas em que se desenvolvem.

Que papel desempenham na sociedade da América do Sul?

Estas editoras, em particular, são quase sempre, na realidade, bem pequenas, ligadas à região em que se desenvolvem. Desempenham papel análogo à realidade da publicação independente: criar uma alternativa ao mercado tradicional.

É difícil generalizar, enquanto nascem em áreas muito distintas entre si e com premissas diversas, por vezes facilitam a cultura partindo de baixo: vendendo um livro a um quinto do preço normal, publicando um autor que nunca seria publicado em uma editora tradicional ou criando laboratórios em que se desenvolve uma consciência acerca da escrita e da autopublicação.

carretera cartonera

As Editoras Cartoneras são pequenas Casas Editoriais (Fonte)

Quem são os catadores? A tarefa deles é fundamental para o projeto?

Por “cartonero” (espanhol) ou “catador [de papelão]” (português) entende-se aquela pessoa que para viver recolhe material de papelão das ruas da cidade e o revende por quilo nos locais de reciclagem. Em algumas metrópoles sul-americanas, como São Paulo no Brasil ou Santiago do Chile, esta figura se expande em uma profissão reconhecida, enquanto em outras cidades o recolhimento dos materiais continua nas mãos da gestão autônoma do indivíduo, que depois revende aos locais de reciclagem.

A tarefa do catador se torna fundamental nos projetos estritamente ligados à sua figura, para todos os outros projetos permanece às margens. Quando a Editora Cartonera compra a matéria-prima diretamente do catador, quebra aquele mecanismo econômico em que o beneficiado é o intermediário, entre quem recolhe e quem recicla. O beneficiado, por sua vez, é o catador.

Escolher reutilizar o papelão para construir livros gera cultura e permite aproximá-la das classes sociais das quais os catadores provêm, que nem sempre têm acesso à cultura.

Há lugares ou cidades onde estão mais integrados?

Buenos Aires é, seguramente, o lugar em que o projeto de Eloísa Cartonera tem mais peso na região, vendendo alguns dos livros em livrarias tradicionais e possuindo um quiosque permanente na Avenida Corrientes. A realidade deles se tornou uma cooperativa capaz de sustentar economicamente alguns dos membros que ali trabalham e ao mesmo tempo levar adiante outros projetos sociais.

Na maior parte dos outros locais, os projetos nunca atingiram uma real autonomia e a venda dos livros cobre os custos de produção. Em alguns casos, isto acontece por escolha dos fundadores, que decidem não tornar comercial um projeto que nasceu com outros fins.

carretera cartonera

A tarefa do catador torna-se fundamental nos projetos de Editoras Cartoneras ligadas estritamente a sua figura (Fonte).

A reciclagem do papelão pode ser uma metáfora para contar a realização de uma nova sociedade do velho para o novo?

Mais que a “realização de uma nova sociedade” diríamos a “reformulação da mesma”. É uma mudança de paradigma que se tem falado muito e em diversos campos ultimamente: o reuso. Trata-se de um modelo editorial muito interessante, mas totalmente às margens dentro da economia mundial e do mercado do livro.

Sim, a reciclagem do papelão poderia ser vista como uma metáfora para contar a realização de uma nova sociedade do velho para o novo. Mas ainda hoje permanece um desejo de realização de um modelo que impede a produção para reutilizar e reproduzir, no sentido de produzir novamente, com base naquilo que já existe. E ao mesmo tempo de um modelo de cultura de todo inclusivo e acessível a qualquer pessoa.

É banal falar de utopia, neste sentido, mas infelizmente parece ser assim, por ora…

O projeto das Editoras Cartoneras pode ser realizado também em outros lugares do mundo?

Claro, por que não? Aquilo que une muitas das Editoras Cartoneras no mundo é a tinta social que as caracteriza e as diferencia das editoras comuns.

A questão é traduzir os pontos-chave que estão na base de uma Editora Cartonera no que diz respeito aos diferentes lugares onde se quer realizá-la, calibrar as necessidades de um determinado local e depois agir.

Por exemplo: se em uma cidade do nordeste italiano há um determinado grupo social que não tem voz, então uma casa editorial de papelão poderia ser um bom meio para poderem se expressar, ainda que o papelão não seja comprado de um catador, mas recolhido pelos membros do projeto em frente a um supermercado.

Um projeto simples, um material simples para a cultura e história de um e de todos os países.