Sobre a grandeza das pequenas coisas: nas entrelinhas de “Crisântemo é um nome bom”, de Mauro Souza

por: Aryanna Oliveira

Há alguns dias a Malha Fina Cartonera apresentou o autor de O coração em si, Elvio Fernandes Gonçalves Junior, um dos vencedores da Primeira Convocatória de Narrativa e Poesia para autores inéditos, e, hoje, é dia de conhecer melhor Mauro Souza, autor do outro livro que será lançado na próxima quinta-feira, 18, na FFLCH (link do evento).

O estudante de filosofia da USP, traz em Crisântemo é um nome bom ― coletânea de poesias especialmente reunida para a convocatória ― um lirismo ácido do cotidiano, uma poesia com gosto das coisas pequenas e simples, com um tom de contar história que flui, mas que faz refletir e que permite ao leitor se reconhecer nas linhas do outro. E não é de se estranhar, pois conversar com Mauro é como reencontrar um velho amigo, sempre uma boa conversa, um sorriso no rosto, um chamado à identificação, características que refletem com maestria em seu trabalho, desde as primeiras linhas.

Mauro Souza. Foto: Aryanna Oliveira.

E, nesse “contar a vida que segue”, o ciclo começa com “Nasci e chorei as 24 horas do dia”, que, como um abre alas da obra, funciona também como o início de um fluxo (do livro, ou da vida), um princípio que causa desespero, que é chorado, vigiado e febril.

NASCI E CHOREI AS 24 HORAS DO DIA
para desespero de freiras frias
tudo de mim escapava
quase até a vida ainda cedo
no sarampo
mais a pneumonia
tudo me escapava
menos o céu
onde os olhos afundavam
me roubava as horas
cresci meio triste com o quê?
vigiando sem sono janelas
o menor dos ruídos
imberbe
e um 38 dormia dentro da mala com fotografias
gastei a vista desenhando em nuvens
a sola do pé nas ruas de terra
e a paciência esperando a madrinha
um brinquedo
esqueci seu nome.
fui batizado às pressas
lembra?
febril
fervendo a água da pia
escapei de boas
e a lembrança mais antiga que tenho de mim.
não é minha.

Mauro fala de tudo em suas poesias, “até garrafa térmica”, isso porque segundo ele há uma espécie de encontro metafísico entre o “eu” do autor e a “coisa” a ser escrita, e esse encontro permite uma sintonia com o múltiplo e com as mínimas coisas: “Você pode falar de crisântemos ou daquelas azedinhas que nascem em qualquer pé de muro e o valor poético significar igualmente para as duas” ― filosofa o autor.

Entretanto, essa aparente simplicidade do cotidiano nas linhas de sua escrita é tratada com a laboriosidade que o ofício merece, pois ainda que a inspiração venha de tudo e qualquer coisa, há para ele um “porém” a ser considerado durante o processo de composição.  “É preciso trabalhar o texto, caso contrário, posso dizer que é muito difícil que saia algo que valha a pena”, reitera.

Em seu trabalho o cotidiano é pensado para além da observação de pormenores, atingindo um estudo social mais elaborado e evidente em certos momentos. “Penso que existe uma certa preocupação política, social, que perdura. Isso vem desde o começo, desde os primeiros textos que escrevi”, explica Mauro. Essa característica pode ser percebida em “Estivemos Ombro a Ombro”.

ESTIVEMOS OMBRO A OMBRO
defendendo as linhas da velha comuna,
ouvindo o assovio do chumbo
e seu baque seco nas barricadas.

estivemos ombro a ombro
enquanto nosso sangue se misturava
sobre a terra sempre prometida

estivemos ombro a ombro
distraídos nas linhas de montagem
sonhando melhores dias
e máquinas nos devoravam
ora uma mão, um braço, muitas vidas.

ao meu lado, oprimido contra o muro,
e a sanha dos capitães-do-mato
em seus uniformes calcinantes

(…)

ombro a ombro chorando nossos companheiros
insepultos e vaporizados, misturados ao ar
os respiramos, todos os respiram,
mais que ao lado, agora e adiante,
em toda parte, unidos.

A paixão do Mauro pela música (ele canta no Coral da USP), assim como  a participação e importância da mãe em seu desenvolvimento como escritor, também são lembrados em suas linhas. Da mãe, inclusive, conta que ela fora, em muito tempo, seu único público. “Eu costumava ler meus poemas para minha mãe enquanto ela preparava o arroz, ou lavava uma louça. Ela sempre dizia que gostava… mãe só tem uma (risos)”.

MINHA MÃE NO TANQUE
lava, na água mais que fria,
as roupas do dia.

Para o escritor ― que cresceu ouvindo Cartola, Milton, Chico e Elis, e, que acredita que todo mundo uma vez na vida deveria ler Machado, Dostoiévski, Clarice, Pessoa, Victor Hugo, Drummond, Raduan e Rimbaud ― projetos como o da Malha Fina Cartonera são muito importantes não só por apresentar novos talentos, mas pelo poder de combate das palavras trazidas a público. “Caramba, eu acho que projetos assim deveriam conquistar o mundo! (risos) Isso é muito necessário, precisamos ler mais gente como o Elvio e tantos outros que a Malha Fina edita e revela. Desengavetar essas produções e trazer à luz com essas edições tão legais, artesanais, é muito bonito. Eu diria que isso é guerrilha, com tudo o que essa palavra implica”, finaliza o autor que em Crisântemo é um nome bom encerra o ciclo da obra com o envelhecer: da casa, como metáfora da vida.

CASA ENVELHECIDA,
vizinhos idos e a chuva,
a mesma da infância.

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“Crisântemo é um nome bom”, de Mauro Souza. Foto: Aryanna Oliveira.

Desvairada & Independente

por: Chayenne Orru Mubarack e Pacelli Dias Alves de Sousa

Nos dias 24 e 25 de março, a Malha Fina teve o prazer de ser uma das editoras participantes da Desvairada – Feira de Livros de Poesia de São Paulo. A feira teve como objetivo agrupar editoras do cenário independente, reunindo-as no espaço Aldeia 445, em Pinheiros.

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Imagem de divulgação da Desvairada. Fonte: Desvairada.

Mais do que um espaço para a venda das publicações, por si só importante devido à marginalização deste nicho no mercado, a feira, organizada por Marília Garcia, Leonardo Gandolf, Fabiano Calixto e Tiago Marchesano, buscou abrir caminhos para os diálogos entre as editoras e o público. Realizaram-se leituras de poemas das obras de poetas convidados e de poetas diversos, como Walt Whitman e Stela do Patrocínio e oficinas abertas ao público. A programação incluiu ainda mesas de debate que versavam sobre o cenário editorial independente e a publicação de poesia. O público também presenciou exposições performáticas de especialistas, como as leituras realizadas por Maurício Salles Vasconcelos e também realizou-se um concurso de vídeo-poesia. Tratou-se de um espaço privilegiado para o encontro e a discussão de poesia, de caminhos alternativos para publicações e, ao cabo, de fermento do meio cultural.

Na tarde do dia 25, a Malha Fina ofereceu uma oficina intitulada A edição de livros artesanais e a construção de um catálogo editorial, na qual Tatiana Lima Faria e Larissa Pavoni Rodrigues trataram não somente da história do selo, mas também de temas importantes para o campo, como a materialidade dos livros, especialmente o caso cartonero, e a formação de um catálogo.

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Oficina “A edição de livros artesanais e a construção de um catálogo editorial”, oferecida pela Malha Fina no segundo dia do evento. Foto: Julia Izumino.

Os monitores e colaboradores Caroline Costa Pereira, Chayenne Orru Mubarack, Larissa Pavoni Rodrigues, Mariana Costa Mendes e Pacelli Dias Alves de Sousa aproveitaram a oportunidade para conversar com as editoras presentes sobre os projetos que embasam suas publicações e, em alguns casos, também a materialidade dos livros. As entrevistas estão disponíveis em nosso canal do Youtube, a filmagem/fotografia foi feita pela Caroline e a edição dos vídeos foi feita pela Mariana. O conjunto servirá como um pequeno painel do atual cenário editorial independente. A partir deste conjunto, ainda que represente somente o fragmento de um agitado e rico movimento resistente, o leitor poderá conferir a variedade e originalidade oferecidas por esse caminho editorial. Entre as editoras entrevistadas estão Córrego, Jabuticaba, treme~terra, Chão da feira, Lote 42, Alpharrabio, Circuito, Cozinha Experimental, Pitomba, Urutau, Grumo, Dobradura, Quelônio e Garupa.

Os cruzamentos e laços que as conectam vão além da condição independente: muitas compartilham uma história fundadora, começando como revistas antes de se consolidarem enquanto editoras, é o caso de Córrego, Grumo e Garupa. Em relação à formação de catálogo, Córrego, Chão da Feira, Pitomba, Alpharabio Urutau comentaram de distintas maneiras sobre algo bem sintetizado por Tiago Fabris (Urutau) como “mercado de relações mais humanas” para se referir a um projeto mais afetivo de seleção, em que começaram (e permanecem) publicando amigos, a si mesmos (no caso dos editores) ou projetos de gosto próprio. Embora se tratasse de um feira com foco na poesia, o catálogo das editoras presentes não se resumiu à literatura. A filosofia, a arte contemporânea e a teoria literária são temas de títulos de Chão da feira, Circuito, Córrego Cozinha Experimental.

Caminhando pelo evento, percebeu-se um cuidado generalizado pelas edições, característico deste tipo de editora. Entretanto, em suas entrevistas, treme~terra, Garupa e Quelônio mencionaram a importância da concepção de “livro-objeto” em seus projetos. De fato, essas editoras apresentaram projetos mais radicais: a Garupa, por exemplo, trouxe uma edição digital intermidiática em pen-drive contido dentro de uma singela garrafa de vidro. Bruno Zeni, da editora Quelônio, enfatizou a recuperação de técnicas tradicionais de impressão na confecção de seus livros, além do uso de fotografias.

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O livro Caderno de Segunda Mãe, de Guilherme Conde, editado pelo Coletivo Editorial Garupa.

Espaços de venda e discussão, como a Desvairada, são muito relevantes para a vitalidade do meio cultural e, especialmente, literário, no qual nosso selo se insere. Em tempos de recrudescimento das políticas culturais, gostaríamos de terminar este editorial lembrando as palavras de Dalila Veras da editora Alpharrabio: “fazer uma feira dessas é um ato político”, de fato.

Playlist Desvairada Independente:

Editora Fada Inflada

Editora Córrego

Editora Cozinha Experimental

Editora Alpharrabio

Edições Jabuticaba

Editora treme~terra

Editora Chão da Feira

Editora Lote 42

Editora Circuito

Editora Urutau

Projeto Grumo

Pitomba Livros e Discos

Dobradura Editorial

Editora Quelônio

Coletivo Editorial Garupa

Inspirações para “O Coração em si”: Entrevista com Elvio Fernandes Gonçalves Junior

por: Aryanna Oliveira

Em abril de 2016, a Malha Fina Cartonera publicou seus primeiros livros e, no mesmo evento, divulgou os vencedores da Primeira Convocatória de Narrativa e Poesia desta cartonera, que, através de uma seleção de estudantes de graduação e pós-graduação da FFLCH (nunca antes publicados) chegou aos nomes de Mauro Augusto de Sousa, aluno do curso de Filosofia e Elvio Fernandes Gonçalves Junior, aluno do curso de Letras, com habilitação em Linguística.

A previsão era de que seus livros fossem publicados já no segundo semestre do mesmo ano, todavia, como já bem exposto em relatos de Mariana Costa Mendes e Tatiana Faria, o fazer cartonero encontra muitas barreiras diante das dificuldades impostas pelo mercado editorial e, com isso, os livros estão sendo carinhosamente produzidos agora. Em novo formato e com uso de novos materiais, as obras deverão ser lançadas no próximo mês.

Com esse tempinho gasto a mais na produção, ganhamos também um tempinho a mais para conhecer melhor e lhes apresentar os talentosos meninos, como o futuro linguista Elvio Fernandes Gonçalves Júnior. Um rapaz tímido, que transborda sentimento e poesia em O coração em si. Na correria diária entre o trabalho e a faculdade, Elvio nos contou um pouco soube sua inspiração e processo criativo.

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Elvio Fernandes Gonçalves Junior. Foto: Aryanna Oliveira.

MFC: Como começou a escrever?

EFGJ: Tomei gosto pela escrita ainda criança, por causa de uma conversa que ouvi entre duas tias minhas. Meu avô paterno costumava escrever poemas e, certo dia, enquanto eu brincava numa pequena sala que elas utilizavam como escola de reforço, onde havia vários livros, elas arrumavam os livros e acabaram encontrando um dos poemas dele datilografado. Lembro-me de ouvir a frase “O pai era poeta” e, de certa forma, isso me marcou. Mas só comecei a escrever mesmo lá pela oitava série, por conta de um trabalho de artes na escola, em que devíamos desenvolver um tema através de uma forma artística. Acabei escrevendo um pequeno poema sobre o tema “Olhar”. A partir de então não parei mais.

MFC: O que você já escreveu? Já publicou antes da convocatória?

EFGJ: Escrevo predominantemente poemas, embora já tenha experimentado um pouco de prosa. Já publiquei textos em blogs, em uma publicação que considero especial, com o grupo de poesia do qual participei, os “Facas na Manga”, no Portal Cronópios, do saudoso poeta e militante literário Pipol.

deuses teorizam o amor

mas amor de covardia

de dor e de espasmo

amor onde fica vazio

o pulso que abraça o estilhaço

amor onde os mortos soluçam

“murmúrio do mundo”, in: O coração em si. Malha Fina Cartonera, 2017.

MFC:  Elvio, como surge sua inspiração criativa? Percebe um processo?  Sobre o que costuma escreve?

EFGJ: A inspiração surge – acredito piamente nisso – e disso resulta que, na surpresa do momento, na maioria das vezes não tenho um tema a priori sobre o qual me debruço para desenvolvê-lo no poema. Nesse sentido, o tema acaba por se tornar resultado da experiência, e não seu motivador.

MFC: Quais são seus hábitos de leitura? E quais são seus seus escritores preferidos?

EFGJ: Costumo ler bastante poesia, crítica literária e um pouco de filosofia. Meus autores preferidos, do meu coração mesmo, são: Manoel de Barros, Hilda Hilst, Roberto Piva, Orides Fontela, Claudio Willer, e tantos outros.

MFC: Como soube da convocatória Malha Fina? Como se preparou para o processo? O livro foi feito especialmente para a convocatória?

EFGJ: Meu amigo e poeta Diogo Cardoso deu o toque, e acabei indo ler o cartaz nos corredores da Letras. Não me preparei, fui adiando… já estava com o livro pronto e, na minha procrastinação, acabei entregando não em cima, mas depois da hora, no departamento. Felizmente, pelo que soube, tive a sorte de não ser o único.

MFC: Como analisa a importância de projetos como o da Malha Fina Cartonera?

EFGJ: Acho esse tipo de projeto de extrema importância, tanto dentro quanto fora da USP. Dentro, por incentivar e promover o espaço para a publicação dos alunos e alunas que, muitas vezes, acabam tendo a verve poética oprimida ou desvalorizada no meio acadêmico; fora, por demonstrar mais uma vez que agora é a vez das editoras independentes ou “alternativas”. Digo mais uma vez por acreditar que a Malha Fina é mais uma força somada ao trabalho de outras editoras que não apenas publicam livros, mas militam através de suas publicações, de suas escolhas editoriais. Estão aí incluídas não só editoras Cartoneras, como a Dulcineia Catadora e a Malha Fina, mas também a Patuá, a Córrego, Demônio Negro, Azougue, e tantas outras espalhadas por aí.

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“O Coração em Si”, de Elvio Fernandes Gonçalves Junior. Foto: Aryanna Oliveira.

Malha Fina Cartonera Entrevista Lúcia Rosa do Coletivo Dulcineia Catadora

por: Cristiane Gomes

A Malha Fina Cartonera conversa com a artista plástica Lúcia Rosa, criadora do Coletivo Dulcineia Catadora, espaço de convergência entre literatura, artes visuais e trabalho social. Lúcia é a precursora do fazer cartonero no Brasil. O Dulcineia Catadora este ano completa 10 anos de atividade no centro de São Paulo, em conjunto com a Cooperglicério, com 114 títulos publicados e um sólido trabalho de divulgação do saber cartonero através de oficinas.

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Cristiane Gomes: Lúcia, quem são as integrantes do coletivo Dulcineia Catadora?

Lúcia Rosa: Andreia Emboava, Maria Aparecida Dias da Costa, Emineia Santos, Agatha Emboava e Lúcia Rosa.

CG: Você é artista plástica e nas editoras cartoneras o trabalho visual e editorial são correlatos. Na cartonera os livros são encadernados artesanalmente, as capas são pintadas individualmente, o que abre uma série de possibilidades visuais e os torna objetos únicos e irreproduzíveis. Além dessa característica inerente ao trabalho cartoneiro, o Dulcineia tem um vasto catálogo de livros de artista. Me conta um pouco sobre a sua relação com as artes plásticas. Qual é a sua formação, qual era a sua atuação antes da criação do Dulcineia e como você chegou nesse formato de livro cartonero?

LR: Fiz minha primeira graduação em Letras. Sim, fiz Letras na FFLCH, USP. Trabalho como tradutora e desde 1986 atuo paralelamente nas Artes Plásticas. Em 2006, fui convidada a participar de uma mostra com trinta artistas. Eu trabalhava com sucata de ferro, mas no entorno do local onde aconteceria a mostra havia muitos catadores e resolvi trabalhar com papelão. Fiz trabalhos escultóricos com papelão comprado de catadores. Por sugestão de um conhecido procurei o Eloísa Cartonera, um coletivo de Buenos Aires, para saber melhor o que eles faziam. Meses depois o Eloísa foi convidado a participar da 27ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo. A produção me chamou para um trabalho colaborativo. Trabalhei com o grupo na montagem da instalação, na formação do grupo de filhos de catadores e na oficina-instalação montada na Bienal. Em janeiro de 2007 fizemos um trabalho no Sesc Pompeia com Javier Barilaro, um dos integrantes do Eloísa, e em fevereiro lançamos nosso primeiro livro, Sarau da Cooperifa.

CG: Em 2015, a Malha Fina Cartonera recebeu uma oficina do Wellington de Melo, da Mariposa Cartonera, que nos qualificou para iniciarmos os trabalhos do selo. O Wellington participou de uma oficina com você em Garanhuns, Pernambuco, que o preparou para criar a Mariposa. A atuação em rede é uma marca do trabalho cartonero, o conhecimento não é retido e sim compartilhado. O saber é divulgado e fomenta a criação de outras cartoneras. Além da Mariposa, que outras iniciativas surgiram das oficinas ministradas pelo coletivo Dulcineia Catadora?

LR: Em Garanhuns, 2012, iniciamos Severina Cartonera, com um grupo de catadoras da ASNOV, uma cooperativa de reciclagem local, e o poeta Helder. O aparecimento da Mariposa foi uma consequência desse trabalho em Garanhuns.

Sereia Ca(n)tadora, iniciada por Ademir Demarchi, poeta de Santos. Conheci Ademir em 2007 e, um ano depois, lançamos Do Sereno que Enche o Ganges. Ademir se entusiasmou com os livros e iniciou a Sereia Ca(n)tadora; formou um catálogo com muitos autores latino-americanos, entre eles o peruano Oscar Limache. Acho que o diferencial do Sereia foi a parceria com o Centro Camará, de São Vicente.

A partir de uma oficina dada no Sesc Vila Mariana, uma das participantes, Solange, formou um núcleo em Serra Negra, o Catapoesia. Fizeram um lindo trabalho com um núcleo indígena em Minas Gerais. Até 2015 estava funcionando; não tive notícias deles este ano.

Rubra Cartoneira Editorial (Londrina, Paraná), iniciada por Beatriz Bajo, em parceria com Marcelo Ariel, escritor residente em Cubatão que lançou seu primeiro livro com Dulcineia em 2007: Me Enterrem com a Minha AR 15. Beatriz já conhecia nosso trabalho, depois traduziu um livro nosso de Mario Papasquiaro, Respiração do Labirinto, e em 2012 iniciou o Rubra Cartoneira. O grupo acabou usando caixas de leite para fazer as capas e procurou, pelo que sei, artistas para pintar as capas.

De oficinas realizadas por mim em Porto Alegre em 2011, Cristiane Cubas, arte educadora, realizou a oficina de confecção de livros com capas de papelão em vários lugares e lançou a coletânea Boca de Rua em apoio ao projeto Mães Coruja do Boca de Rua, em parceria com a ONG Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação).

Em 2012 fui convidada a ir a Moçambique para trabalhar com um grupo de jovens universitários que desejavam abrir uma cartonera e para trocar experiências com um grupo recém formado, o Kutsemba Cartão. Ajudei Kutsemba a iniciar suas atividades ao longo de 2010 e 2011, passando orientações através de e-mails trocados com Luís Madureira e Saylín Álvarez Oquendo, atualmente residentes nos EUA. Kutsemba reuniu jovens para a feitura dos livros. Tinha livros com lendas africanas e alguns de autores contemporâneos, inclusive de um rapper conhecido em Maputo. Com os jovens universitários o trabalho foi intenso, dividido com uma integrante de Meninas Cartoneras (Espanha). Foram muitas as oficinas e conversas durante 13 dias. Eles iniciaram o Livaningo Cartão D’Arte, liderado por José dos Remédios.

Além desses grupos que nasceram direto de contato com o Dulcineia, acreditamos muito em parcerias, e foi o que eu propus a Idalia quando ela visitou a Cooperglicério, para conhecer nosso trabalho em novembro de 2014. Recebemos as pessoas que querem conhecer nosso trabalho lá na cooperativa e estamos sempre abertos a trocas e a compartilhar conhecimentos.

CG: Você acha que o retorno à produção manufaturada, artesanal e o engajamento social e ecológico podem salvar a literatura em meio à crise do mercado editorial?

LR: Salvar é um termo muito forte, que prefiro não usar. A produção independente tem o papel de abrir a possibilidade de veiculação de autores que não têm inserção no mercado. As cartoneras têm a liberdade de publicar autores dedicados ao experimentalismo, estão livres para publicar autores iniciantes no exercício do fazer literário justamente porque a existência e ação no meio cultural dos grupos cartoneros está vinculada a outros objetivos, que não o lucro e as vendas.

CG: Apesar do artesanal ser uma tendência, ainda percebo uma certa desvalorização da produção que opera através de uma lógica não capitalista, o que reflete na dificuldade de se estabelecer em um mercado mais amplo e se manter apenas através da venda dos livros. O pseudoartesanal ainda vende mais do que o artesanal de fato. Você acha que isso vai mudar? Quem é o leitor do Dulcineia Catadora hoje?

LR: Acho que a produção independente terá sempre um pequeno nicho de leitores; manterá esse público restrito. Não acredito que esse quadro mude. É difícil sobreviver da venda dos livros. As cartoneras têm um papel de resistência, firmam-se como alternativa perseguindo caminhos à margem do mercado editorial. É difícil definir com clareza o leitor de Dulcineia, mas penso que na maioria são escritores novos e jovens interessados em literatura não veiculada no mercado convencional. É um público curioso, que valoriza essa proposta diferente, alternativa, vibrante, que não é enlatada, não tem design massificado; traz a marca das pinceladas, carrega no papelão essa abordagem crítica à sociedade de consumo, fala do descarte e, no caso de Dulcineia, adiciona um tom político, une autores, artistas e catadores na luta contra a invisibilidade, o preconceito, a discriminação.

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Fonte: Dulcineia Catadora.

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Fonte: Dulcineia Catadora.

CG: Nós sabemos que a quantidade de papelão reciclado para a produção de livros cartoneros é insignificante e que a importância social dos projetos cartoneros se dá realmente ao tirar o trabalho do catador da invisibilidade e proporcionar a fruição entre essas duas frentes, a dos profissionais que atuam no trabalho árduo da coleta e reciclagem e a dos que produzem arte. No coletivo Dulcineia essa fruição aparece muito claramente nas publicações do coletivo. Em 2010 foi publicado o livro de fotos Fabio Catador, do artista plástico Fabio Morais; em 2012 Catador, com relatos de catadores, produzido pelas integrantes do coletivo; em 2013, Por-sobre, a partir de fotografias da Cooper Glicério de Maria Aparecida Dias, com intervenções gráficas da artista visual Maíra Dietrich; em 2014, Só o que se pode levar, a partir de desenhos impressos em serigrafia feitos pelos integrantes do coletivo em colaboração com a artista visual Kátia Fiera; e em 2015, Passagem, um livro de desenhos da catadora Andreia Emboava, integrante do coletivo. Lúcia, fale um pouco sobre os artistas que surgiram através do trabalho nas cooperativas e sobre os próximos projetos em conjunto com os catadores.

LR: As parcerias com artistas foram decorrentes de nossa ligação com a Galeria Vermelho. A ideia surgiu em 2010, um ano depois que participamos da primeira feira de publicações independentes promovida no Brasil, a Tijuana. Fabio Morais havia feito uma chamada a artistas pedindo o envio de livros para a 30ª Bienal, para compor uma instalação de autoria dele e de Marilá Dardot. Convidei o Fabio a fazer um livro com o coletivo. E depois se seguiram os outros. Desde o início percebi que as catadoras respondiam com entusiasmo às propostas dos artistas. A possibilidade do grupo trabalhar junto com o artista na produção de conteúdo é um passo além. Na colaboração com escritores a participação do grupo se limita à pintura das capas e à costura do livro. Além disso, a partir dessas parcerias com artistas as integrantes do grupo começaram a propor seus próprios livros. Nossa intenção é fazermos livros criados por nós, coletivamente, além das parcerias com artistas. É uma forma de exercitarmos o fazer artístico. Nisso está a beleza da rede cartonera: cada grupo desenvolve características próprias, persegue formas originais de usar o papelão, escolhe sua linha de publicações, busca sua forma de trabalhar e imprime sua identidade. Não abro mão do trabalho com catadores e segmentos desprivilegiados da sociedade.

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CG: Em 2017 a Dulcineia Catadora completa 10 anos. Qual a retrospectiva que você faz dessa uma década de trabalho e quais são os planos da Dulcineia para 2017?

LR: Semana passada estava reorganizando parte de nosso material e me assusto com o volume de trabalho que realizamos: além dos 114 títulos, oficinas por todo Brasil e no exterior, intervenções no espaço público, participações em mostras de arte e em feiras de publicação independente. Realmente, foi uma longa trajetória que reuniu muita gente. Entre os autores publicados conseguimos identificar alguns que tiveram sua primeira publicação com Dulcineia e que hoje começam a se firmar como escritores. É o caso de Sheyla Smaniotto, que recebeu o Prêmio Sesc de Literatura em 2015, e do Marcelo Ariel, que hoje tem vários livros publicados. Por outro lado é muito prazeroso contar com escritores colaboradores, como Andrea Del Fuego, Joca Reiners Terron, Marcelino Freire, Glauco Mattoso, João Anzanello Carrascoza, Alice Ruiz e acompanhar suas carreiras, vibrando com eles a cada nova obra que lançam e comemorando seu reconhecimento público e premiações.

Sobre os planos, vez ou outra me fazem essa pergunta, e emendam com outra sobre nossas “aspirações”: Vocês não querem crescer? Têm medo de crescer? Tenho a clareza de que prefiro me pulverizar a crescer. A ideia de crescimento, pra mim, não se liga ao quantitativo, e sim ao crescimento pessoal e, nesse sentido, tenho essa gana de acompanhar o crescimento pessoal das mulheres que integram o grupo. Crescimento como pessoas, o refinamento do olhar, o sentimento de confiança ao se expressarem, ao trabalharem o sensível, ao lidarem com outros segmentos sociais. Não tenho aspirações, apenas sigo o trabalho dia a dia. Nosso trabalho diz mais respeito a processos. Dos encontros nascem ideias de trabalhos novos, novos projetos colaborativos.

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Fonte: Dulcineia Catadora.

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Fonte: Dulcineia Catadora.

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Fonte: Dulcineia Catadora.

Jorge Enrique Lage: como Bartleby, o corvo de Melville… Entrevista a Antonio José Ponte

Entrevista por: Jorge Enrique Lage publicada em Hypermedia Magazine.
Traduzida por: Pacelli Dias Alves de Sousa.

Recentemente, a Malha Fina Cartonera publicou, em tradução de Clarisse Lyra, o livro 2 Ensaios [para saber mais sobre o livro, clique aqui], do poeta, narrador e ensaísta cubano Antonio José Ponte (Matanzas, 1964), num esforço por divulgar no Brasil a literatura contemporânea do Caribe, tendo como critério de seleção, o ineditismo do autor, a altíssima qualidade literária das suas criações, a incorporação destas obras ao currículo da literatura latino-americana dos cursos de letras nas universidades do Brasil, assim como a falta de interesse do mercado editorial por autores que não chegam ao país com as garantias de crédito dos cadernos de resenhas dos grandes jornais da Europa e dos Estados Unidos. Ponte é considerado um dos mais prestigiosos ensaístas cubanos do presente. Entre seus ensaios destacam Las comidas profundas (1997), Un seguidor de Montaigne mira La Habana (2001), El libro perdido de los origenistas (2002), assim como “El abrigo de aire” (2001) e “Historia de una bofetada”, estes dois últimos recolhidos em 2 Ensaios, e escritos contra as manipulações de José Martí por parte do poder político revolucionário. A entrevista, publicada recentemente em Hypermedia Magazine [clique aqui] e traduzida para Malha Fina por Pacelli Dias Alves de Sousa, apresenta aos leitores brasileiros um panorama da obra deste importante escritor cubano, comentada por ele mesmo, revela suas obsessões com a cidade de Havana, com os grandes mestres da tradição literária da Ilha, as difíceis relações entre o Estado cubano, as novas tecnologias e os intelectuais, recomenda autores e obras da literatura latino-americana e norte-americana recente, e, para não carecermos de nada, fala também sobre o livro que virá, o Libro de una sola mano de Nitza Villapol, uma sorte de “manual para aprender a comer sozinho”.

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“2 Ensaios” de Antonio José Ponte. Foto: Mariana Costa Mendes.

Converso por e-mail com Antonio José Ponte, que se encontra na Universidade de Princeton por estes meses, ocupado com trabalhos de docência. É um diálogo intermitente – que eu desejaria que fosse interminável, nunca falei com ele ao vivo – no qual às vezes imagino que minhas perguntas vão abrindo caminho em um campus muito agitado, intercalando-se a força na fila das perguntas que os estudante dirigem a ele.

Se me perguntassem, e por sorte não me perguntam, diria-lhes que dois dos melhores livros cubanos entre todos os publicados no que passou deste século, dois livros fundamentais, levam a assinatura do escritor à frente.

Em um destes livros, El libro perdido de los origenistas, encontramos esta declaração: “Eu me interesso menos pela obra intransferível de cada escritor que por suas figuras”. A atitude do autor é como aquela do “zelador de museu”, lemos, e explica assim sua “mania de perseguir emblemas – livro que se perde, casaco, sacola – para chegar a esses outros emblemas que são os escritores”.

Os ensaios que compõem El libro perdido de los origenistas se ocupam de escritores mortos. Mas, antecipando-nos o museu, é interessante como às vezes já é perceptível em certos escritores vivos essa figura literária, de importância singular, que funciona como impulso ativador de exibições históricas, estéticas, políticas, enfim. E são poucos aqueles dos quais se pode dizer algo semelhante.

Além da obra intransferível, algo do emblema está já, em minha opinião, em Antonio José Ponte dentro da literatura cubana. Um emblema in progress, ou latente, do qual nos tocou ser, por sorte, leitores contemporâneos. Oxalá sejam cada vez menos aqueles que não puderam, não souberam, ou não quiseram se dar conta do privilégio que isto significa.

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Antonio José Ponte. Fonte: Stanford.edu.

Acredito que para muitos dizer Ponte é como dizer Havana: um modo de pensar e registrar as ruínas. Mas você já está há mais de uma década vivendo na Europa e me interessa saber se há, ou pode haver, um Ponte cronista 2.0; como sua mirada de escritor explora, se o faz, a urbe do exílio. Parafraseando o Joaquim Sabina: pongamos que hablas de Madrid.

Estou há mais de dez anos vivendo fora, não voltei e Havana mudou muito desde então. Um dos cantos que me pareciam mais misteriosos da Habana Vieja está cheio agora, segundo me contam, de vida comercial, de pequenos negócios privados. Cirilo Villaverde fez deste canto o título de seu romance Cecília Valdés o La loma del ángel, que escreveu e publicou em versão definitiva em Nova York. No momento, viu-se necessitado de consultar detalhes topográficos ou de ambiente com alguns amigos que lhe restavam em Havana. Mas na intenção de Villaverde estava menos fazer da cidade um personagem que torná-la cenário de seus personagens. Nos meus livros, pelo contrário, Havana é protagonista. Para dizê-lo com um termo de romance psicológico: a Havana é um caso de consciência. E não poderia fazer esses trabalhos com a distância com que tinha Villaverde para escrever, sequer com a ajuda de amigos distantes.

Conheço Madri e um par a mais de cidades, mas nenhuma representa para mim o caso de consciência que é Havana.

Digo isto escaldado. Sem nostalgia e sem manhãs em que me desperte com a sensação de ter estado lá.

Lembro de uma frase sua em La fiesta vigilada: “Quando penso no futuro, meu desespero é urbanístico”. Sobre a modernização havaneira: gostaria de presenciá-la, vivê-la de perto? E narrá-la, te interessaria?

Viva onde viva, algo não mudou em minha relación com Havana, e é o entendimento dela como problema. Trata-se de uma capital paralisada por mais de meio século, que em algum momento começará a mudar abruptamente e a largos passos. Que tipo de cidade se estará fazendo? Creio que, junto com os especuladores imobiliários e as grandes construtoras, vão ter que ir a ela todos aqueles que, desde uma disciplina ou outra, pensam a cidade, sejam cubanos ou não. Serão necessários muitos especialistas e também muitos opinantes. E imagino que vai ser uma tremenda briga.

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“La fiesta vigilada”, de Antonio José Ponte. Fonte: Skoob.

Conjugando outro desespero no futuro: o desespero editorial. Revistas, selos editoriais e livrarias independentes, imprensa verdadeira… O que você deseja ver neste panorama em transição, nesta outra briga, quando o Estado cubano deixe de regular e fiscalizar tudo?

Em Havana sempre fui um leitor em caça por livros. Dos interessantes que podia encontrar em sebos, do interessante (mas muito pouco) que se publicava por essas datas, do que se achava em bibliotecas públicas e de tudo quanto podiam me emprestar os amigos. De modo que peço para os leitores cubanos variadas bibliotecas públicas livres de censura, boas edições recentes, sebos que os alegrem todos os dias e comércio eletrônico para que os livros cheguem desde as antípodas.

E, por favor, que sejam livros bonitos, para curar a vista de tanta miséria gráfica, pois os livros cubanos estão entre os mais espantosos do mundo.

Desejo revistas, claro. Editoras médias e pequenas. Desejo também que os grandes grupos editoriais desembarquem e abram ali suas filiais e lojinhas. E, já que trabalho em um jornal digital, desejo uma imprensa livre, entre a qual possa estar o Diario de Cuba.

Em Villa Marista en plata. Arte, política, nuevas tecnologías, você ensaiava a partir de uma série de eventos – a chamada guerrita de los e-mails, o ativismo dos blogueiros independentes, a aparição da Segurança de Estado na obra de alguns artistas – que marcaram uma época recente na vida intelectual dentro da ilha. Com a distância de uns poucos anos, pode se dar a impressão de uma fumaça que terminou se assentando, não tenho claro em cima do quê. Se um leitor te perguntasse hoje, com entusiasmo, em que parou tudo aquilo. O que diria a ele?

Bom, a primeira coisa que tentaria fazer é acalmar o entusiasmo deste leitor e me desculpar com ele caso esse meu livro tivesse alguma responsabilidade em seu entusiasmo. Mas, vejamos, em quê parou tudo aquilo? Em meu livro fiz que se notasse a aparição da figura do policial político, da Segurança de Estado na obra de alguns artistas. Era esperançador ver como esses artistas incluíam a vigilância e a repressão e a tortura em suas equações das circunstâncias cubanas.

Ali eu falava de Carlos Garaicoa, de Eduardo del Llano e do casal de artistas plásticos Yeny Casanueva e Alejandro González. Mas hoje pode-se comprovar que a grande maioria dos artistas e escritores, inclusive quando historicizam a vida cotidiana em Cuba, seguem sem se atrever a mencionar esse fator. Leonardo Padura, para citar um exemplo, alude à Segurança de Estado o menos possível e quando o faz, é pra eximí-la de responsabilidades e culpas. Não somente em seus romances: em Regreso a Ítaca, o filme de Laurent Cantet para o qual ele escreveu o roteiro, a repressora que impulsiona o protagonista ao exílio pertence, não à Segurança de Estado, mas ao Ministério de Cultura. Assim se diz várias vezes no filme: Ministério de Cultura.

E quando o protagonista tropeça em Madri com esta funcionária, que então tinha se exilado, tira a conclusão que ele já pode regressar a Cuba e voltar a viver em seu país. Porque o ataque que ele sofreu em Cuba deve ter vindo unicamente dela, que já não é um problema… Assim que na equação oportunista de Padura não é a Segurança de Estado, senão o Ministério de Cultura que se encarga de vigiar e reprimir, e nem sequer este ministério, mas uma funcionária tão hipócrita que acabou por se exilar… Tudo isto me leva a pensar no estranho de que seja tomado como novelista policial um escritor de conto de fadas como Padura.

Em Villa Marista em plata me ocupava da “guerrita de los e-mails”. Para não repetir a história aqui (os detalhes podem ser encontrados nas páginas do livro), aquela mobilização gremial serviu para que o grêmio de escritores e artistas renovasse os votos de fidelidade com as novas autoridades do pais, com Raúl Castro, que começava seu mandato. Vários Prêmios nacionais, como Reynaldo González, Antón Arrufat, Ambrosio Fornet e Eduardo Heras León, conseguiram salvar suas prebendas, e alguns sessentões como Arturo Arango e Desiderio Navarro fizeram méritos para, cedo ou tarde, receber o Prêmio Nacional.

Nesse livro me interessava também por outro traço de época, por como a telefonia móvel permitia difundir provas da violência de Estado. Dos atos de repúdio, das detenções, das destruições de interiores e as desocupações praticadas pela polícia política. Desde então podemos ver os rostos de muitos dos repressores. Em alguns casos, alcançou-se revelar suas verdadeiras identidades, para além do codinome de trabalho que utilizam. E é curioso ver como agora esses repressores usam espelhinhos para cegar com seus reflexos as filmagens e assim não ficarem expostos. Daí que inventaram a figura do capanga com pólvora, que antes não existia.

Mas bem, escrevi Villa Marista en plata sabendo que era um livro de época, cujas esperanças poderiam ser perfeitamente desmentidas. Era uma pequena crônica de uns pequenos dias, se me permitem apequenar o título de Octavio Paz, que por sua vez, tinha apequenado o título de Quevedo.

Mas então você crê que aquelas esperanças foram desmentidas? Como você vê os dias presentes?

Acredito que foram desmentidas sim. A aproximação que se vislumbrou entre intelectuais e ativistas políticos não teve mais consequências, não funcionou. A figura do intelectual que as instituições propõem em Cuba, ainda que estejam em mal momento e sejam puro cinismo, não sofreu muito dano, não tem contrapartida verdadeira. E surgiu um espaço de negociação entre artistas plásticos e comissários políticos sobre o qual me referi em um artigo publicado no El País: “La putinización del arte cubano” (clique aqui).

Depois de Contrabando de sombras, publicado em 2002, você voltou ao romance? La fiesta vigilada era melhor dizendo um material híbrido, uma espécie de ficção ou narrativa documental…

La fiesta vigilada foi publicado pelo seu editor espanhol em uma coleção de romances. O mesmo fez o editor alemão com a sua tradução. Suponhamos então que é um romance. Em todo caso, o que se aproxima vai estar mais perto de La fiesta… que de Contrabando…

Adiante para a gente algo sobre esse livro que virá.

Libro de una sola mano de Nitza Villapol, vai se chamar. Livro de uma mão sozinha porque os franceses chamam assim os livros eróticos, mas é que os livros de cozinha também o são: com uma você sustenta o livro e com a outra busca os ingredientes, abre e fecha a geladeira, agitado. E Nitza Villapol, porque me interessava a figura de quem compôs o conjunto de receitas gastronômicas mais popular em Cuba. Popular a tal ponto que, vivendo ela em Cuba, seu livro, Cocina al minuto, foi profusamente pirateado no exílio. E até onde sei, é o único caso em que isso ocorreu.

O que começou por um verbete de dicionário sobre ela que me encargaram, terminou sendo um livro no qual Nitza Villapol é como essas mulheres de Edward Hooper, comendo sozinha em um balcão. Temo ao final que o que escrevi seja um manual para aprender a comer sozinho.

Asiento en las ruinas é, se não estou errado, seu único livro de poemas publicado até agora. Podemos esperar, em um futuro não muito distante, um livro com a sua poesia inédita?

Tenho um para ordenar. Alguns dos poemas fui publicando em revistas. Este livro ainda é um montão de registros que embaralho e desembaralho sobre uma mesa, em Madri. Porque o ordenamento é a grande questão quando não se escrevem livros temáticos nem séries, mas poemas soltos, às vezes com muito tempo de distância entre eles.

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“Un arte de hacer ruinas y otros cuentos”, de Antonio José Ponte. Fonte: Amazon.

Falemos de leituras. Literatura latino-americana – ou norte-americana, ou europeia – contemporânea. Que autores não deixaria de recomendar? Que livros, que gêneros você leu com maior prazer nos últimos tempos?

Li com prazer The night, do venezuelano Rodrigo Blanco Calderón, um romance que poderia ensinar muitos narradores cubanos sobre como tratar com blecautes, como fazer uma mais oblíqua (mas não menos efetiva) narrativa política.

Outro romance, Muerte súbita, do mexicano Álvaro Enrique, que reuniu Caravaggio e Quevedo em uma aposta de tênis em Roma e reúne também um dos penachos de Moctezuma e uma bola de tênis feita com pelos (assim se fabricavam na época) de Ana Bolena.

Del amor absoluto y otros poemas sín títulos, poemas escritos em Roma pelo peruano Jorge Eduardo Eielson, no fim de sua vida. Mais um de seus romances: El cuerpo de Giulia-no.

La mucama de Ominculé, romance da dominicana Rita Indiana, e espero ler seus anteriores rápido.

Os poemas de Italianisches Liederbuch do argentino J. R. Wilcock, escritos em italiano e com título goethiano.

Sobre a literatura norte-americana contemporânea, sou mais um leitor de poesia e ensaios que de narrativa:

Acabei de ler os ensaios recém aparecidos de Elliot Weinberger – The Ghosts of Birds – e voltei a outro livro velho seu, Outside Stories.

A correspondência entre David Markson e Laura Sims, porque conhecia já os romances de Markson, feitos de citações e especialmente um em que joga com o bloqueio, não do escritor, mas do leitor.

As poucas páginas dos diários de Guy Davenport que aparecem em The Guy Davenport Reader, depois de ter lido e relido seus contos e ensaios (mas não Objetos sobre una mesa que é frouxo). E as traduções dos poetas arcaicos gregos que fez Davenport: Six Greek Poets.

Uma obra teatral de Sarah Ruhl composta a partir de fragmentos das cartas que se cruzaram Elizabeth Bishop e Robert Lowell: Dear Elizabeth.

The Albertine Project da canadense Anne Carson, um livrinho de nada sobre a presença e ausência de Albertine nas novelas proustianas. Mais a tradução de Las Bacantes de Eurípides feita por ela. E quanta poesia chinesa e japonesa tenha traduzido Kenneth Rexroth.

Mas como a lista está ficando muito longa, digo esses autores europeus: Giorgio Agamben, Guido Ceronetti, Joseph Brodski, Sophia de Mello Breyner Andresen, Georges Didi- Huberman, Leonardo Scciascia, Karl Schlögel, o Pier Paolo Passolini cronista (e os demais Passolinis), Roberto Calasso, Tomas Tranströmer…

Neste outono você vai oferecer um curso em Princeton sobre a figura do intelectual na literatura e no cinema cubanos entre 1959 e 2010. Quais coisas te pareceram mais interessantes ou chamativas nesse curso de meio século?

Tem sido curioso explicar a poesia de Heberto Padilla, terminar a aula, caminhar uns poucos metros e me encontrar em Linden Lane, a rua onde ele viveu na sua chegada ao exílio estadunidense. A mesma rua que deu nome à revista que Belkis Cuza Malé ainda publica.

Que minha aula esteja tão perto dela me parece um eco. Mas, um eco de quê? Não sei, de modo que me tornei um passeante habitual de Linden Lane para ver se descubro.

O curioso também de estar em conferência na Universidade de Virginia e escutar de um catedrático que Guillermo Cabrera infante viveu ali um semestre, como professor convidado. Perguntar a ele se por acaso Cabrera Infante alugava a casa de um professor de literatura inglesa por sabático e descobrir então que foi ali onde, impulsionado por uma biblioteca alheia, Cabrera Infante deu aquela estranha e magnifica entrevista ao The Paris Review na qual se estendeu sobre o ensaísmo inglês do século XVIII.

Não sei que possam dizer estas notícias de Padilla e Cabrera Infante com que tropecei. As duas são como histórias que transcorrem em um sonho, às quais não se chega a encontrar sentido. Por isso falo de eco: falta o resto inicial da frase.

Suponho que deve estar neste curso, porque não pode faltar, uma das figuras mais memoráveis da literatura cubana recente: o narrador-personagem de La fiesta vigilada, este que entre outras coisas relata sua expulsão da UNEAC, o reino oficial dos intelectuais cubanos.

Agradeço que tenha pensado nesta inclusão, mas sobre ela não pensei duas vezes. Lecuona plays Lecuona, que disco! Roland Barthes por Roland Barthes, que livro! Mas Ponte explains Ponte… “I would prefer not to”, como sempre respondia Bartleby, o corvo de Melville.

Preferiria não fazê-lo.

Obrigado.