Nova poesia, nova saúde: conversa com Pedro Marqués de Armas

por: Bruno Alexandre Fernandes

O poeta cubano radicado em Barcelona, fala sobre a formação do grupo Diáspora(s), a importância que teve para sua poesia a sua experiência como médico rural em Cuba, o  teor deleuziano de sua escrita, e muito mais. De brinde, um poema inédito.

Pedro Marqués de Armas

Pedro Marqués de Armas

Você poderia falar sobre o processo de formação do grupo Diáspora(s)? por exemplo, as atividades culturais que vocês realizaram, a recepção dos materiais poéticos pelo público e as edições da revista.

Diáspora(s) surgiu no fim de 1993, em torno de uma proposta de Rolando Sánchez Mejías de realizar algumas leituras que mostraram certos processos de escrita, textos de poesia, ficção e etc. As quais resultaram, ao mesmo tempo, em intervenções que questionavam os meios culturais, sem contar a própria instituição literária.

A ideia amadureceu entre um grupo de amigos escritores com os quais partilhávamos certas chaves. Um mesmo propósito de renovação das letras nacionais, menos de um posicionamento estético, como de outras bases comuns: a escrita como prática do pensar, como abertura a outras literaturas, inclusa ao mesmo tempo em ato público através da dissonância propriamente dos textos, ou também por meio de manifestos, performances, ensaios e etc.

Se tratava, em boa medida, de resgatar a função civil do escritor em um contexto dominado pela passividade das instituições e submetido a uma política cultural e de Estado que impedia qualquer iniciativa.

O projeto gerou diversas reações: estupefação, temor, incompreensão, censura, etc., mas nunca produziu indiferença. Ao contrário, gerou cada vez mais curiosidade e cumplicidade.

Como revista, Diáspora(s) foi publicada entre 1997 e 2002, e contou com a colaboração de poetas, críticos e artistas plásticos locais e exilados. É o registro do trabalho de criação dos membros do grupo, mas também de alguns eventos na época, ao publicar os ensaios mais questionadores do momento, os quais, sem dúvidas, não eram publicáveis em revistas oficiais, sem contar a divulgação de escritores proibidos, de Padilla, Cabrera Infante e García Verga a Brodsky, Kundera e Enzensberger. Soma-se a isso um notável trabalho de tradução que trouxe ao público diferentes autores, não só inéditos em Cuba, mas em língua espanhola.

Diáspora(s) teve certamente uma circulação clandestina, em boa parte apoiada por leitores que ajudaram a distribuí-la tanto na ilha como no exterior.

 

Sua formação acadêmica foi em medicina psiquiátrica, como isso influi em seu trabalho como poeta? Ou melhor, como o fazer poético se presentifica em seu trabalho como médico psiquiatra?

Comecei a escrever e ler poesia – e não só poesia – em 1982, isto é, antes de começar a estudar medicina. O linguajar clínico e hospitalar me permeou de imediato, o que reflete nos cadernos dos finais dos anos oitenta: Fondo de Ojo e Los altos manicomios. Desde então me interessava a psicanálise, ainda que, por razões óbvias, não mais do que a literatura. Li Freud, Lacan e Foucault, e outros mais, principalmente os pós-estruturalistas, antes de me dedicar à psiquiatria.

O que mais influenciou nas mudanças que delineariam com o tempo o meu modo de fazer poesia, talvez tenha sido a experiência como médico rural – já graduado – nas montanhas do Oriente. Essa paisagem selvagem, posso dizer assim, e sua “tradução” a posteriori, nos anos 1990, sob outras leituras e aquela noite vazia do estômago que foi o Período Especial, pode ter marcado a minha escrita, a qual tende desde então ao econômico e a certo conceitualismo.

A psiquiatria, como tal, influi em tópicos como a precariedade da linguagem, o silêncio e a opressão sobre o sujeito. Talvez, em certa medida, me levou também à história, a explorar a violência exercida sobre os corpos, a partir, sobretudo, de um “archivo cubensis” que é menos afetivo e ligado mais a uma prática material que simbólica.

 

Você é conhecido por inúmeras colaborações em periódicos e suplementos literários. Em uma publicação na revista online Sibila, seu poema Claro de Bosque (semiescrito) é analisada sob o conceito de devir na obra de Deleuze. Poderia nos contar um pouco sobre seu processo de escrita (ou semiescritos)?

Descobri Deleuze pouco antes de terminar o curso, e o li naquela paisagem do oriente cubano, atravessado de máquinas de café e pelas ruínas de uma economia capitalista sobre a qual tinha se sobreposto a Granja Estatal comunista, que a barrou a pequena propriedade e impôs novas formas de escravidão e apagamento – antropológico e pela terra – que se expressava em loucuras, suicídios e, em última instância, em uma perfeita anomia.

Claro de bosque conjuga abertamente essa paisagem com uma fotografia de Sebastião Salgado que me impactou muito, a qual descobri em 1994 em um número da revista Unesco. O poema saiu como ditado e foi escrito sobre a própria imagem (negro sobre negro) e as páginas ao torso ou as seguintes. Dava vazão a uma maneira de pensar a “massa” e suas relações com a “terra” em termos deleuzianos, isto é, como uma sorte de máquina que extrai de tudo aquilo certa voluptuosidade do delírio, no sentido de sair dos sulcos para se conectar materialmente com o real, o que não deixa de ser uma pretensão.

 

A poesia/a escrita pode ser uma forma de inventar uma nova saúde?

Sim, um invento de saúde. Sempre que não obstrua por demais o imaginário, o pathos desmedido ou outras formas de neuroses. Se algo necessita tempo para coalhar é a poesia. Não escrevo poesia sem obstáculos. Em meu caso, necessito distância e ser surpreendido por aquilo que escrevo.

 

Há algum projeto novo de livro que poderia compartilhar conosco?

Ultimamente voltei a escrever poesia. Suponho que vai demorar, de qualquer modo, uns anos até que essa nova série se converta em algo assim como um livro.

 

Espejo de impaciencia

Comimos pata y panza, mazapán
en lo que alimentábamos el ánima de sabores
apenas recordados y alguna que otra etiqueta:
Maltina, Jupiña, Materva,
peras, manzanas.
Comimos tierra. Cable, sogas.
Y “de aquellas jicoteas de Masabo, que no las tengo
y siempre las alabo”.
Majúas, calandracas.
Memorándum enteros.

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Para um começo de conversa: Omar Pérez sobre poesia e tradução

por: Pacelli Dias Alves de Sousa

Omar Pérez

Omar Pérez. Foto: PBSNewHour.

Em junho de 2016, o poeta, tradutor e ensaísta Omar Pérez esteve em São Paulo para uma série de eventos com a Malha Fina Cartonera: conferências, performances, oficinas e produção de livros. Na ocasião, aproveitamos a sua presença e gravamos uma entrevista. Conversamos sobre as relações entre poesia e música, a performance e a poesia contemporânea em Cuba, entre outros temas que apareceram por ali. A entrevista completa vai ser publicada em 2018, mas deixamos aqui um pedacinho do que foi dito. No trecho, Pérez comenta um pouco de sua produção em Cuba nos anos 1980, Mantis, revista experimental que projetou, e, por fim, sua relação com a tradução. Considerem-no como um aperitivo de mais projetos que logo estarão disponíveis, basta dizer que terminamos 2017 com o inédito Cubanologia pronto para encadernação. Enquanto o livro de Omar Pérez não sai, ficamos com um começo de conversa.

Omar, empezaste a escribir en los años 80, ¿no es cierto? ¿Cómo fue este comienzo? ¿La primera publicación?

Bueno, así mismo como dices tú. Empecé a escribir, empecé a publicar. En esa época no era fácil divulgar libros, ni existían muchas iniciativas como ésta de Malha Fina Cartonera. En los 80, 81, 82 se publicaba en revistas.

Trabajaste antes como periodista, ¿fue eso?

No, después, después. Trabajé un año como periodista.

Tuviste una revista de poesía llamada Mantis, ¿cómo fue este proyecto? ¿Cuál era la idea?

La idea era una revista de poesía y traducción de poesía que fuera un poquito más allá de la concepción habitual que se les da a la poesía, es decir, la poesía como poema. Sino que a veces por ejemplo reflexionar acerca de la poesía también puede ser poesía. El tema de las traducciones: valorar el proceso de traducción como trabajo poético también, cosa sin precedente. En fin todo ese tipo de idea es lo que había en la revista Mantis. Y lo que pasa es que a veces hay saberes, conocimientos comunitarios antiguos, por ejemplo, vamos a decir la gente de la Amazonia, ¿no? En esa época, en Mantis, traduje unos cuentos de indígenas de la Amazonia.

¿Del Amazonas?

Si, del Amazonas, Yanomami. Y son leyendas muy poéticas. Todas esas leyendas originarias de cómo surgió el mundo, cómo surgió el cocodrilo, cuando nació la luna, son muy poéticas. Entonces trataba de relacionar todo ese tipo de saberes poéticos que se presentan de formas distintas, no se presentan como poema. Esa era la idea de revista.

¿Y cuánto tiempo duró la revista?

Poco. Un año, dos años. Son experimentos, si se quiere.

¿La tienes?

No. Nunca fui un buen bibliotecario. Lo bueno es que siempre se puede volver a hacer. Lo importante no es la revista Mantis como tal, lo importante es una experiencia que cuando tú la aprendes la puedes volver a hacer una y otra vez, le pones otro nombre. Esa fijación con los nombres, eso hace que perdamos mucho tiempo.

Hablando sobre la traducción como un modo de hacer poesía. ¿Empezaste la traducción junto con la escritura de poemas? ¿O vino después?

Vino después. En la medida en que fui aprendiendo el idioma inglés, que fue el primero que aprendí después del español naturalmente, poco a poco empecé a hacer traducciones.

¿Fue como un proceso natural de conocer otra lengua?

La traducción es un buen medio para entender la lengua. Incluso traducir es una manera óptima de comprender los poemas. Tú te metes ahí y ves otra cosa.

De ahí pensar en la categoría de los traductores profesionales, y de los traductores-autores.

Estas son solo palabras.

Tradujiste poesía holandesa también y llegaste a vivir en Ámsterdam, ¿cómo fue esa experiencia?

Sí, tres años aproximadamente. ¿Cómo fue? No sé decirte. No, fue bien, bien. Aprendí holandés, aprendí las reglas de vida del capitalismo desarrollado, eso es muy importante.

Igual, de conocer otras lenguas y de traducir a llegar a esta lengua franca de la poesía de que habla en tu libro es un camino. ¿Qué es esta lengua franca entre las traducciones?

Bueno, ahí hay un elemento. Está el elemento este del sueño del mundo pre babélico de que hablan poetas como Rimbaud, Martí. La lengua universal que supuestamente existía antes de Babel, ¿no? Este es un elemento. Está el elemento de la familia de lenguas, germánicas, romances, etc. Y cómo esas familias interactúan entre sí. Creo que entre esos dos elementos está el juego. Y claro está el elemento también del Esperanto, una lengua moderna que unifique, esa cosa democrática. El logos democraticus.

“Diáspora(s)”: Entrevista com Carlos A. Aguilera

por: Larissa Pavoni Rodrigues

O encerramento da antologia Diáspora(s), mais nova publicação da Malha Fina, conta com “Mao”, poema de Carlos A. Aguilera – em tradução inédita de Robson Hasmann e Ramiro Caggiano Blanco – o qual chama a atenção pelo uso de ideogramas. Grande expoente da poesia performática entre os autores cubanos do final do século XX, a poesia de Carlos A. Aguilera se encontra no entrecruzamento da escrita, da poesia experimental e do teatro.

Poeta, ensaísta e narrador, o entrevistado nasceu em Havana, e hoje reside em Praga, República Tcheca. É autor de obras como Retrato de A. Hooper y su esposa (La Habana: Ediciones Unión, 1996), Das Kapital (La Habana: Ediciones Abril, 1997), Teoría del alma china (México: Libros del umbral, 2006), Discurso de la madre muerta (Editorial: Baile del sol, 2012) e El Imperio Oblómov (Editorial: Espuela de plata, 2014).

Para dar as boas vindas a Diáspora(s), organizamos uma entrevista com o escritor cubano, que resultou em temas como o início de seu processo de escrita, o papel da poesia no mundo atual, os desafios do mercado editorial, seu poema publicado em Diáspora(s) e seus próximos lançamentos como escritor. Para saber mais sobre a obra desse poeta, confira a seguir:

Larissa Pavoni Rodrigues: Quando e como você começou a escrever? Teve algum tipo de estímulo?

Carlos A. Aguilera: Desde muito cedo. De adolescente, quase. Lembro que ainda tinha a cabeça maior que o corpo, tal como Gombrowicz descreve Bruno Schulz em seus diários. Estímulos, nenhum. Venho de uma família onde os livros não eram exatamente um fetiche.

L. P. R.: Para você, que importância tem a poesia no mundo de hoje? Ou, então, o que te motiva a escrever poesia hoje?

C. A. A.: A grande importância da poesia é o ouvido. Um narrador, um dramaturgo, um jornalista tem que ter o ouvido do poeta. Ou seja, a precisão do poeta, a tensão que o poeta concentra em seu ouvido. Sem esta tensão, é impossível escrever bem. Por outro lado, mas isso já é lugar comum, a poesia, a literatura em geral, não funciona dentro do mercado. Não dá dinheiro. Não produz economia. Não vende. E isso, que para muitos é motivo de queixa, é sua grande virtude. A literatura não deveria vender-se nunca. As editoras deveriam quebrar (sobretudo essas que pensam o literário como negócio). E a narrativa e a poesia deveriam circular sem nenhuma trava econômica ou mercantil. Fluir de maneira “limpa”, apenas guiada pelo gosto, as afinidades e a complexidade de cada um. Quando isso for alcançado haverá menos gente escrevendo e o céu estará mais claro, luminoso. A literatura não deveria ser negócio de ninguém.

L. P. R.: Como foi o processo de escrita do poema “Mao” publicado em Diáspora(s)?

C. A. A.: Mao era (é) um poema civil. Um poema que queria percorrer um estado de ânimo “especial” em um momento muito difícil para todos: o período especial, durante os anos 1990 em Cuba. Anos em que na ilha não havia nada (bom, segue sem haver muito). E por essa razão sua maquinalidade, seu neobarroco, seu sarcasmo, seu jogo com a história, com a Revolução Cultural Chinesa, com o castigo, com as analogias, etc… Um poema que queria ser um cruzamento entre os “Cantares” de Pound e aquele poema sobre Kant de José Kozer.

L. P. R.: De que forma este poema se relaciona com a Antologia Diáspora(s)?

C. A. A.: Bom, isso poderia ser perguntado à organizadora da antologia. O que posso dizer é que o poema foi publicado no primeiro número da revista, que fizemos no ano de 1997. E era um poema que eu lia em voz muito alta, naquele tempo, parodiando a voz de um líder qualquer em uma praça qualquer.

L. R.: É a primeira vez que publica em uma editora cartonera? Como você vê as cartoneras localizadas no mercado editorial atual, competitivo e lucrativo?

C. A. A.: Não. Já publiquei um relato longo em uma cartonera. Um relato que a posteriori cresceu e se converteu em um livro de cem páginas. Mas em sua primeira versão, está publicado em La Cleta, do México.

O grande ganho das cartoneras é que elas não têm que competir. Não tem que demonstrar nada. Não tem que vender. Apenas buscar bons textos e produzir livros únicos, livros que possam ser colecionáveis. Aí está sua virtude e ao redor desta “generosidade” é onde deveriam circular. A competência, a intriga, a mais-valia… há que deixá-los às editoras “grandes”, essas que se queixam constantemente que não vendem, coisa que, repito, me alegro infinitamente. Quem quiser ganhar dinheiro que abra um açougue ou roube um banco.

L. P. R.: O que escreve atualmente? Algum livro novo em um futuro próximo?

C. A. A.: Acabo de terminar Clausewitz y yo, um livro de relatos. E de colocar o ponto final em uma antologia de narrativa cubana transficcional. Uma antologia que terá por volta de 15 autores, cujo tema central já não é Cuba ou a miséria política cubana (tema recorrente na literatura da ilha desde Papaíto Mayarí), mas a escrita, a reflexão literária, o kitsch, a saída do referente nação.

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Imagem enviada por Carlos A. Aguilera.

A Malha Fina publica a antologia bilíngue Diáspora(s) dentro da coleção de literatura caribenha. A organização da antologia foi realizada por Idalia Morejón Arnaiz, as traduções individuais foram feitas por Ellen Maria Vasconcellos e Clarisse Lyra, e as traduções colaborativas por Caroline Costa Pereira, Liliana Marlés, Gabriel Bueno, Adriana Silva, Robson Hasmann, Ramiro Caggiano Blanco e Yedda Blanco.

Diáspora(s) traz, então, poemas dos membros fundadores do grupo homônimo como forma de apresentar ao público brasileiro esse importante momento literário cubano. Entre os escritores do grupo estão: Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders, Ricardo Alberto Pérez, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer e Carlos A. Aguilera, aqui entrevistado.

Você pode ler mais sobre os autores publicados em Diáspora(s) nas duas apresentações, Grupo Diáspora(s): uma poética de ruptura e Grupo Diáspora(s): uma poética de ruptura (parte II), escritas por Aryanna Oliveira. Além disso, também pode conferir a resenha da antologia, intitulada Diáspora(s): vanguarda finissecular em Cuba, escrita por Pacelli Dias Alves de Sousa.

Para adquirir a antologia Diáspora(s), entre em contato com a Malha Fina Cartonera através do nosso perfil no Facebook ou envie um email para malhafinacartonera@gmail.com.