“Diáspora(s)”: vanguarda finissecular em Cuba

por: Pacelli Dias Alves de Sousa

A ideia de diáspora é antiga e tem sido rearticulada ao longo do tempo. Utilizado especialmente para falar das dispersões populacionais grega, judaica, armênia e africana, o conceito encorpou-se aplicado à perda das origens do povo hebreu, quando também tornou-se um problema teológico, possivelmente concepção mais utilizada até hoje. Trata-se, contudo, de um conceito que pode ser aplicado a diversos povos e, em conjunto, analisado desde distintas perspectivas, seja como problema histórico, geopolítico, antropológico ou, inclusive, poético.

Com aproximadamente 20% da população vivendo fora de ilha, a concepção de diáspora também pode ser utilizada para tratar do povo cubano (e das populações caribenhas em geral, como analisado por Stuart Hall). Para o historiador Rafael Rojas, é especialmente interessante pensar o conceito em comparação com a ideia de “exílio”, há séculos utilizada para tratar da população cubana no exterior, majoritariamente nos Estados Unidos – vivendo nas mais que conhecidas entrañas del monstruo, nos termos do patrono das letras cubanas José Martí, exilado. Este conceito já lhe parecia saturado e a contraposição é frutífera na medida em que traz para o jogo as mediações culturais, as hibridações e a agência da comunidade nestes novos espaços. Se a passagem de uma leitura a outra é interessante para pensar a tradição cubana, é também para melhor esboçar o papel de Diáspora(s) na história literária e intelectual de Cuba.

Ilustração: Abstration, de Rafael Cruz Azaceta.

Ilustração: Abstration, de Rafael Cruz Azaceta.

Composto por Rolando Sánchez Mejías, Carlos A. Aguilera, Rogelio Saunders, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer, Ricardo Alberto Pérez, José Manuel Prieto e Radamés Molina, o grupo promoveu diversos eventos literários desde o começo dos anos 1990, quando começaram a articular-se, além da edição independente de uma revista homônima veiculada entre 1997 e 2002. Sobre o nome escolhido, diz Idalia Morejón Arnaiz (em prólogo à edição brasileira):

“Que tal termo apareça como nome de um grupo literário e, posteriormente, como título de sua revista, com uma letra ‘s’ ao final entre parêntesis, denota, em primeiro lugar, que as zonas de acolhimento a que se submete a literatura são múltiplas e, em segundo lugar, que em tais traços se hospeda uma marca plural, de dissensão escritural, heterogênea”

O termo passa a ser tomado metaforicamente e aplicado como reivindicação à própria produção literária, que passa a reivindicar novas rotas desde sua autonomia; novas políticas para a escritura apoiadas em leituras críticas ao nacionalismo, ao cânone e à política cultural do governo revolucionário castrista. Se seguirmos a lógica da metáfora, é importante atentar aos fatores envolvidos no deslocamento, o que afinal é constitutivo de toda diáspora. Em termos estéticos, há uma forte preocupação no grupo em distanciar-se da poética (ou da constelação em torno da poesia e do nacionalismo) formulada pelos autores de Orígenes, revista editada entre 1944 e 1956, por José Lezama Lima.

Se, como apontava o título, não se pensava em uma só origem, tampouco aqui se pensa em só um lugar de chegada para a diáspora. Neste deslocamento proposto, que não é humano, mas da língua literária, há um vetor de rompimentos rizomáticos no fazer poético em direção a outros gêneros e possibilidades de expressão (daí o recorrente uso da poesia visual, da poesia performática e, de modo geral, da poesia conceitual pelo grupo), baseadas também em leituras outras, deslocadas do Góngora-Mallarmé de Lezama, para as traduções de John Ashberry, Robert Creeley, John Cage, Ernst Jandl, Deleuze & Guattari, Derrida e Joseph Brodsky, entre outros.

A reiterada evocação de Orígenes, contudo, menos que efetivamente apagá-la, reforça sua presença como arquivo na memória dessas novas diásporas, talvez como possível nação (imaginária, como toda nação), de onde partiu a dispersão, essa vista positivamente, em suas possibilidades para trocas culturais, e não como despojo originário. Em plena crise do Período Especial, a produção de Diáspora(s) pode ser lida como um processo dinâmico de interatuação da língua cubanensis com as (pós)vanguardas do século XX, desafio à identidade cubana e um questionamento da soberania nacional, desde o espaço reivindicado da literatura.

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Como parte da coleção dedicada à literatura caribenha, a Malha Fina publica a antologia bilíngue Diáspora(s). A organização ficou por conta de Idalia Morejón Arnaiz, pesquisadora que tem se dedicado à poesia do grupo e que também assinou o prólogo do livro em “Notas sobre Diáspora(s)”. As traduções, por sua vez, ficaram a cargo de Ellen Maria Vasconcellos, Clarisse Lyra, em trabalhos individuais e Caroline Costa Pereira, Liliana Marlés, Gabriel Bueno, Adriana Silva, Robson Hasmann, Ramiro Caggiano Blanco e Yedda Blanco, em traduções colaborativas.

O livro vai estar em pré-venda na 2ª edição da Feira SUB de arte impressa e edições independentes, dia 16 de setembro, das 11hs às 21hs na Biblioteca Municipal Professor Ernesto Manoel Zink, em Campinas/SP.

Realizada pelo The Mix Bazar, a feira é gratuita e pretende ser um espaço dedicado a publicações que circulam fora do meio editorial tradicional. Para os interessados, além das bancas com diversas editoras do Brasil, o evento conta ainda com uma agenda de debates e palestras sobre o universo editorial independente. Esperamos todos lá!

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Feira Sub – Arte Impressa e Publicações Independentes. Dia: 16/09/2017. Horário: Das 11hs às 21hs. Local: Biblioteca Pública Municipal “Profº Ernesto Manoel Zink” – Campinas/SP.

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Grupo Diáspora(s): uma poética de ruptura (parte II)

por: Aryanna Oliveira

Na quarta-feira passada (30) apresentamos três dos autores que compõem a mais recente antologia da Malha Fina, Diáspora(s), a saber: Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders e Ricardo Alberto Pérez. Seguindo a ordem de aparição na coletânea, hoje elucidamos trechos da poesia de Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer e Carlos A. Aguilera.

Pedro Marqués de Armas é poeta e ensaísta, que atualmente reside em Barcelona. Entre suas publicações estão Fondo de ojo, Los altos manicomios, Cabezas, Óbitos e Fascículos sobre José Lezama Lima. Figura constante em jornais e publicações literárias, sua poesia se caracteriza por uma abstração, à primeira vista, como uma latente intangibilidade. Entretanto, essa característica funciona como um recurso de ironia, com uma consequente rispidez disparate. Na própria definição do poeta, em uma das edições da revista Diáspora(s), sua literatura estaria no entremeio de tipos, resultando em sua especificidade. “Ni vanguardia ni nueva fundación. Ni arqueología ni tabula rasa. Acaso un poco de todo eso: procesos que retoman la escritura como ilusión y a la vez como simulacro que enmascara sus propios límites. […] En fin, una literatura que se despliega como maquinita de guerra sin caer en posiciones roñosas o partidistas”.

A escrita de Marqués de Armas é densa, provocativa e apurada, por isso exige releituras, para que o leitor desvende cada uma de suas muitas camadas poéticas, escritas em uma sintaxe complexa. As características de seu estilo podem ser percebidas já nos primeiros trechos de “Claro de bosque (semiescrito)”, poema apresentado na coletânea da Malha Fina, em que se percebe uma aparente abstração, que vai se resolvendo em seu desenvolvimento poético. Sua obra diz muito sem saturação, alcança o leitor na supressão das palavras, no pouco que muito diz.

Claro de bosque (semiescrito)

Trecho de “Claro de bosque (semiescrito)”, de Pedro Marqués de Armas. Poema trazido como “Clareira de Bosque (semiescrito)” por Clarisse Lyra.

Ismael González Castañer nasceu em Havana, onde até hoje reside. Poeta, ensaísta e narrador, escreveu as obras Canciones del amante todavía persa, Mercados verdaderos, La Misión, e Disfuerza. Com seus trabalhos ganhou prêmios como o David de Poesía, em 1997; o Dador del Instituto Cubano del Libro e o Nacional de la Crítica, em 1999; o Nacional de Ensayo Vidimia, de 2003; entre outros. Reconhecido internacionalmente, teve suas publicações traduzidas para o inglês, francês e português, tendo, além disso, sido convidado a importantes eventos como o Festival de Poesía de Medellín, na Colômbia, e a Bienal Internacional de Poetas em Val-de-Marne, na França. Assim como Marqués de Armas, é figura constante em jornais e outras publicações literárias cubanas especializadas.

A obra do poeta, que abandonou a engenharia mecânica para dedicar-se à escrita, se caracteriza por um estilo que se mescla entre o estilista dedicado e o popular. Suas obras são verdadeiras performances desenhadas em pares antagônicos que garantem a profundidade das intenções e dos sentimentos, como se constata no trecho a seguir, do curto e vigoroso “Vaho que sentí yo el sábado”:

Vaho que sentí yo el sábado

Trecho de “Vaho que sentí yo el sábado”, de Ismael González Castañer. Poema traduzido por Gabriel Bueno e Adriana Silva como “Bafo que senti no sábado”.

Fechando a antologia, Carlos A. Aguilera, poeta, ensaísta e narrador, é apresentado através de “Mao”, poema que se destaca pela forma e pelo uso de ideogramas. Sua poesia, aliás, se distingue no entrecruzamento da poesia experimental, do teatro, da escrita e das artes conceituais, o que atesta que Aguilera seja considerado um dos grandes expoentes da poesia performática entre os autores cubanos do final do século XX.

Trecho de “Mao”, de Carlos A. Aguilera

Trecho de “Mao”, de Carlos A. Aguilera. Poema traduzido por Robson Hasmann e Ramiro Caggiano Blanco.

Nascido em Havana, o escritor, que hoje reside em Praga, é autor de obras como Retrato de A. Hooper y su esposa, Das Kapital, Teoría del alma china, Discurso de la madre muerta, e El imperio Oblómov, além das antologias Memorias de la clase muerta, Intelectuales e Estado en Cuba. Por esses e outros trabalhos foi contemplado com prêmios como o David de Poesía, em 1995 e, com a bolsa da Fundación Cintas, em Miami, em 2015.

A poesia de Aguilera apresenta-se em perfeita consonância com as características do Grupo Diáspora(s), pronunciadas em posfácio à antologia da Malha Fina Cartonera, organizada por Idalia Morejón Arnaiz. O grupo, que iniciou suas atividades entre 1993 e 1994, apresentou-se sempre ligado à performatividade, à arte conceitual e ao experimentalismo, demandando uma renovação crítica e uma poesia de pensamento. Esse experimentalismo é percebido na obra de Aguilera de forma expandida.

Em entrevista a La Habana Elegante, o poeta de Mao define sua obra poética, mas acaba por definir muito do exercício de criação de todo o grupo, uma criação vanguardista, performática e de difíceis definições, que convida a adensamentos pela releitura que sempre apresenta novas sensações. “Creo que mis textos, igual el género en que finalmente hayan sido escritos― tienen detrás cierta stimmung del teatro, cierto devenir teatral; y por eso son a veces tan exagerados o lúdicos (o exagerados y caricaturescos). No concibo casi nada que no haya pasado previamente por, como decía antes, cierta cuchillita teatral, cierta ‘disección’ que sólo te da la escena. Incluso, mis poemas, a veces tan difíciles para algunos, siempre tan abstractos, pasan por esto que vengo diciendo, por ese drama que para mí fluye por debajo de todo”.

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Grupo Diáspora(s): uma poética de ruptura

por: Aryanna Oliveira

Na última quinta-feira, 24, em oficina realizada pela Malha Fina Cartonera, durante a VI Jornada do Programa de Pós-graduação em Língua e Literaturas Espanhola e Hispano-americana (DLM/FFLCH/USP), ocorreu o pré-lançamento da antologia poética do grupo Diáspora(s), com título homônimo, em edição bilíngue. Na atividade oferecida pela Malha Fina, os participantes puderam, além de conhecer o ofício e a trajetória da cartonera, confeccionar as primeiras capas da publicação que apresenta o grupo poético-literário cubano.

Fundado em 1993, o movimento que se manteve ativo até o ano de 2002, previa um projeto de escrituras alternativas, para além de um caráter de busca de unidade nacional, como consolidação do cânone, por exemplo. Do grupo fizeram parte Rolando Sánchez Mejías, Carlos A. Aguilera, Rogelio Saunders, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer, Ricardo Alberto Pérez, José Manuel Prieto e Radamés Molina.

Em posfácio à edição, a Profª Drª Idalia Morejón Arnaiz, diretora editorial da Malha Fina e organizadora da coletânea, explica o título do grupo, como um elemento relevante de seu viés político e vanguardista. “O termo diáspora (em grego antigo, διασπορά – dispersão) define o deslocamento forçado ou incentivado de grandes massas populacionais originárias de uma zona determinada para diversas áreas de acolhimento. Que tal termo apareça como nome de um grupo literário e, posteriormente, como título de sua revista, com uma letra “s” ao final entre parêntesis, denota, em primeiro lugar, que as zonas de acolhimento a que se submete a literatura são múltiplas e, em segundo lugar, que em tais traços se hospeda uma marca plural, de dissensão escritural, heterogênea”. Ou seja, tendo na poesia uma arma de combate contra o totalitarismo, o grupo buscava não só dar continuidade aos aspectos essenciais da vanguarda cubana, como também reivindicar a projeção política contra o nacionalismo de Estado, por meio da atribuição de valor em zonas periféricas, abandonadas pela pelo fazer literário, em Cuba.

As primeiras capas de Diápora(s), produzidas na oficina cartonera da Malha Fina

As primeiras capas de Diápora(s), produzidas na oficina cartonera da Malha Fina . Foto: Cristiane Gomes.

Diáspora(s) consolidou-se, desse modo, como um grupo de ruptura, rompendo principalmente com os modos unilaterais do fazer literário, apoiando-se em um enfrentamento à política cultural da ilha, delineado pelo estado castrista, a partir de 1959. “Assim, a ruptura com o modo predominante de praticar a literatura torna a ser outro dos gestos que Diáspora(s) passa a praticar, e sobre o qual deixou textos poéticos, ficcionais e ensaísticos que constituem valiosas contribuições à releitura e reescritura da tradição. Diáspora(s) buscou na diferença seus próprios precursores, e seu trabalho modificou tanto nossa concepção do passado quanto às possibilidades futuras de escrever”, explica Idalia Morejón no mesmo prefácio, em tradução de Ramiro Caggiano Blanco e Yeda Blanco.

A coletânea, publicada pela Malha Fina, traz poemas de cada um dos membros fundadores do grupo, em versão original e em português, como forma de apresentar ao público brasileiro um momento tão importante da literatura cubana de vanguarda, de um dos mais importantes movimentos literários de Cuba, pós-Orígenes.

Entre os escritores do grupo, a coletânea apresenta um pouco da produção de Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders, Ricardo Alberto Pérez, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer e Carlos A. Aguilera. E dos três primeiros apresentamos hoje alguns excertos do que o leitor irá encontrar em Diáspora(s).

Em “Jardín Zen de Kyoto”, é possível conhecer a escrita de Rolando Sánchez Mejías, que hoje reside em Barcelona e é autor de narrativas e antologias poéticas.  Seu trabalho já foi publicado em países como Espanha, Cuba, Alemanha, Estados Unidos, Suíça e República Checa. Em 1993 e 1994 ganhou o Premio Nacional de la Crítica .

Alrededor del jardín

Trecho de “Jardín Zen de Kyoto”, traduzido para o português como “Jardim Zen de Kyoto” por Ellen Maria Vasconcellos,

Já em “Vater Pound”, conhecemos a atmosfera literária de Rogelio Saunders, poeta, narrador e ensaísta, que também reside em Barcelona e ganhou o prêmio de Poesia Luis Rogelio Noguera com a plaquette “Observaciones”.

Vater Pound

Trecho de “Vater Pound”, traduzido por Clarisse Lyra.

E, em “Los Tuberculosos”, é possível perceber as marcas de vanguarda em Ricardo Alberto Pérez, poeta e ensaísta, que nasceu e reside em Havana. Autor de muitas publicações, o escritor foi bolsista do Parlamento Internacional de Escritores e, ganhador do Premio Nacional de Poesía Nicolás Guillén, em 2007.

Los Tuberculosos

Trecho de “Los Tuberculosos”, traduzido como “Os Tuberculosos” por Caroline Costa Pereira e Liliana Marlés.

 

Os escritores Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders e Ricardo Alberto Pérez, membros do grupo Diápora(s).

Os escritores Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders e Ricardo Alberto Pérez, membros do grupo Diápora(s). Fonte: Divulgação online.

 

Na próxima semana apresentaremos os outros três poetas que compõem a antologia Diáspora(s).

“O coração em si” de Elvio Fernandes Gonçalves Junior

por: Gonzalo Dávila

O livro de poesia prestes a ser lançado pela editora Malha Fina Cartonera O coração em si, do estreante e veterano Elvio Fernandes Gonçalves Junior (o digo porque ele tem outros livros prontos ainda não publicados), palpita nas mãos do leitor. É pungente, não despreza a emoção, é cheio de imagens que, sem deixarem de ter camadas simbólicas ocultas, conseguem chocar no primeiro encontro.

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Foto: Aryanna Oliveira.

Os poemas são curtos e se utilizam mais da associação mental entre imagens do que da narratividade. Estas são soturnas, funcionam a partir de sugestões, como pinceladas de um quadro expressionista e, dessa forma, são indescritíveis, assim como os próprios sentimentos. Podemos dizer, por exemplo, que para transmitir uma sensação de impotência∕impossibilidade, Elvio se usa no primeiro poema (“Término”) da palavra “até”, a qual de forma imperceptível vai colocando barreiras no poder do “incêndio”, da “fala” e da “língua”, os quais, por sua vez, podem se relacionar com outros sentidos.

término

 

o incêndio flui
até onde a sombra acaba

 

a fala segue
até onde o lábio sangra

 

o mar gesticula
à beira do tempo

 

a língua toca
até onde o corpo queima

 

a mão cobre e penetra
o primeiro instante

Ou então, para exprimir o início do sonho, da dissolução da realidade, Elvio começa assim o poema “Abertura do sonho”: “repetir a ordem do bosque ∕ onde o olho abandona as pálpebras”.  O bosque é confuso e rico de significados como o sonho; já o olho abandona as pálpebras, as quais seriam a sua parte material.

abertura do sonho

 

repetir a ordem do bosque
onde o olho abandona as pálpebras
e o sal desce ao cerne da palavra

 

esperar que a outra metade
do muro se desfaça em gotas
que levam consigo as sílabas

 

contemplar longamente as torres
onde  se forma o alfabeto
que ondula como o incêndio

Também há um escasso uso de “eu” no livro, característica que se harmoniza com o espírito da obra. A ausência explícita do “eu” dá a impressão de que o mundo interior, o coração, funciona por si mesmo, longe do próprio consciente.

A dor está em tudo. No poema “O coração em si”, que dá o título ao conjunto, vemos que “a paisagem” tem “corpos que escorrem”, as “despedidas” têm “janelas de lugares destruídas” e “o violento adeus dos pássaros que despertam” e também “sangue”. E mesmo as breves passagens que dão a impressão de esperança são negadas em seguida. Um exemplo claro é o primeiro verso de “Murmúrio do mundo”, “Deuses teorizam o amor”, que é seguido de “mas amor de covardia de dor e de espasmo”. O efeito de falta de esperança, de apocalipse interno é evidente, e outros poemas anteriores do poeta me reforçam isso, como o ainda inédito “A contrição de Deus”.

Também é importante ressaltar que os poemas em conjunto formam uma espécie de círculo, já que o primeiro se chama “término” e o último “início”. Nessa lógica, a obra pode ser lida sem fim, e por isso o próprio apocalipse pode ser circular.

Fazendo um cotejamento, talvez haja relação do livro com a obra “O coração dos outros”, de outro grande poeta, Celso de Alencar. Assim como ele, Elvio é soturno sem deixar de mostrar nas entrelinhas a compaixão e ternura.

Deixo aqui, para que estes comentários não fiquem no abstrato, um outro poema de O coração em si cedido pelo autor para o blog da Malha Fina Cartonera:

a necessidade dos passos

 

merecemos as nuvens
pois estamos rodeados de ouro
e rosas subterrâneas

 

merecemos
a disfarçada vontade
de aspirar ao mal
e à deflagração
de assassinatos
em basílicas

 

e por fim sozinhos
desde o princípio
merecemos o dilúvio

Clássicas Traiciones em versões cartoneras

por: Pacelli Dias Alves de Sousa

Chegaram à biblioteca da Malha Fina Cartonera os livros da coleção Traiciones Cartoneras, editados pela La Sofía Cartonera, selo editorial associado à Universidade Nacional de Córdoba (UNC) na Argentina. Composta até o momento por oito livros, a coleção traz à luz textos de autores já pertencentes ao domínio público, porém em novas e cuidadas traduções. Assina a coordenação Silvia Cattoni, professora de literatura italiana da UNC. No que se refere às edições, em Traiciones, o leitor tem acesso a livros com roupagens mais tradicionais, sem contudo perder o charme cartonero próprio deste tipo de publicação.

Até o momento foram publicados os seguintes livros: La cabellera de Berenice y algunos poemas precoces de Catulo, em tradução de Silvio Mattoni, poeta e professor de estética na Universidad Nacional de Córdoba; El foso y el péndulo de Edgar Allan Poe, em tradução de Nancy Picón; Sobre Baudelaire, de Marcel Proust, com tradução de Virginia Garcia; dois volumes de contos (Cuentos I e Cuentos II) de Oscar Wilde, compostos por textos traduzidos por María Mercedes García, Marina Carrasco, Zaida Cabrera e Anabella Convers; Después de la línea de Ecuador do argentino-italiano Adrián N. Bravi; Poesías de Michelângelo, com tradução do italianista Sandro Abate e Un corazón simple, feito através de tradução colaborativa entre Ana Virginia Luna, Virginia Garcia, Pablo Luna, Virginia Ossana e Gabriela López.

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A tradução aqui tem papel fundamental, assumido desde o título da coleção. Traiciones é uma referência ao conhecido adágio italiano traduttore, traditore (tradutor, traidor). Se toda tradução é uma traição ao texto original, a coleção não só reclama seu papel como o usa com propriedade ao propor traduções que não busquem variantes das obras originais, senão modos de conservar as essências adaptando-as aos requisitos da língua de chegada e de um público vasto, como aponta o próprio editorial da coleção.

É no editorial ainda que a organizadora Silvia Cattoni lembra que a palavra traição tem a mesma origem da palavra tradição: se esta indica a transmissão de algo de uma geração a outra, aquela trata de uma transmissão ao grupo inimigo. No diálogo da traição, entra em jogo qual mensagem está sendo levada ao outro, nesse caso sem o tom despectivo do sentido original, mas visto como amigo e parceiro de conversas. Nesse sentido, a seleção dos livros é preciosa e buscou trazer textos ainda não traduzidos ao espanhol, ou de difícil acesso em edições.

Um exemplo é a obra Poesías, de Michelângelo. O livro traz uma seleção bilíngue de poemas do multiartista renascentista, explorando uma faceta menos conhecida de suas obras. Não somente, a coletânea, ainda que perpasse as diversas fases de sua escrita, tem um foco: os poemas escritos entre 1532 e 1547, em sua maioria dedicados ao amante Tomasso dei Cavalieri e à morte de sua mecenas Vittoria Colonna. Desde o prólogo, intitulado “Un homoerotismo distinguido: las rimas de Michelângelo” e assinado por Facundo Martínez Cantariño, o livro parece assumir um tom reivindicatório da imagem de Michelângelo, enquanto propõe um modelo de leitura mais pessoal e expressivo, enfrentando leituras retóricas.

Outras pérolas da coleção são certamente Un corazón simple, de Flaubert e Sobre Baudelaire, de Proust. Ambas escritas por renovadores da linguagem literária e do próprio modo de representar e ler o homem na modernidade. Na novela de Flaubert, o leitor encontrará diversas marcas de estilo do autor, traços que o consagraram e inspiraram diversos escritores contemporâneos e posteriores. Acompanhará ainda a história de Felicité, empregada doméstica: seus amores, seus problemas familiares e questões de trabalho, representadas sob o olhar irônico e só aparentemente distanciado de um narrador que, antes de tudo, tem seu foco na tensão entre a grandeza ética e a humildade tamanha que caracteriza essa personagem.

O texto de Proust, por sua vez, é uma exploração da poesia de Baudelaire. Originalmente publicado em La nouvelle Revue Française em 1921, o texto é uma boa aproximação à obra do poeta, assim como ao estilo de Proust. Nele, o autor de Em busca do tempo perdido analisa a posição de Baudelaire na tradição da poesia francesa, em especial em comparação com Victor Hugo, a relação entre As flores do mal e a história e, finalmente, esboça leituras de poemas.

Na coleção, podem ser encontrados ainda Catulo, um clássico da literatura latina, e dois autores fundamentais da língua inglesa, Edgar Allan Poe e Oscar Wilde. Vale apontar a cuidadosa seleção de contos de Oscar Wilde, que contém textos como o belo “El príncipe feliz”, fábula escrita em tom leve e ingênuo, mas que em suas entrelinhas traz uma forte alegoria do modo como se estrutura o poder econômico na sociedade.

Trata-se, em geral, de uma coleção de clássicos que, como tais, sempre voltam em novas leituras para novos leitores. Clássicos que ainda, como nos ensina Ítalo Calvino, servem para entender quem somos e onde chegamos. Para adiante, novos títulos serão acrescentados ao catálogo; aos leitores vale esperar.

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