CUBANOLOGIA: O Ritmo da Ilha

por: Samanta Esteves

Omar Pérez nasceu e cresceu em Cuba, onde se formou em Língua e Literatura Inglesa pela Universidade de Havana, em 1987. Com vinte e tantos, já participava ativamente das multifacetadas cenas culturais que emergiam na cidade em que se firmou como autor, tradutor e ensaísta. Desde então, desponta em diversas antologias que se debruçam à produção poética da ilha, configurando-se como poeta de referência no cenário cultural e contemporâneo cubano.

Entre suas produções, encontra-se Cubanologia, antologia traduzida para o português por Idalia Morejón Arnaiz e Tatiana Faria, e publicada pelo selo editorial Malha Fina Cartonera em 2017. Os poemas que compõem a obra revelam a singularidade poética de Omar Pérez, que encontra nas tradições musicais e na poesia popular cubana – marcada pelo cajón, através do punto guajiro que evolui para la controversia (semelhante ao repente brasileiro) e pelos toques de palo (próximos da capoeira) – o ritmo capaz de atribuir a corporeidade particular de seus poemas.

Como peculiaridade, Cubanologia traz as principais linhas de força que sustentam a produção de Omar Pérez, possibilitando ao leitor vislumbrar um projeto poético que tem Algo de lo Sagrado como ponto de partida. Revela igualmente a influência sempre presente do contexto cubano dos anos 1950, momento em que o movimento Filin lança por meio da música falada o espaço ambíguo entre melodia e poema de que tanto se vale a poesia de Omar Pérez.

Segundo Idália Morejón, em posfácio à antologia Ninguna Magia, da edição de La Sofia Cartonera, “su poesia ha ido acercandose cada vez más a un centro de contencíon rayano en el ascetismo verbal, a veces, pero también en la sonoridad de la música popular cubana, reflejo de una profunda transformmación espiritual, que passa por las experiencias religiosas afrocubanas y el budismo zen.

De chegada, essa poesia se apresenta ao leitor como espaço de resistência através de formas de dificuldade que se oferecem aos seus olhos, tirando-o do lugar de passividade histórica que a produção literária o reservou e refletindo o cenário de diversos escritores do período. Influenciado pelo zen-budismo dos anos 1990, as nuances filosóficas da poesia de Pérez, que tem acompanhado sua produção, estão presentes na antologia, revelando um forte campo de influência que, ao lado da cultura popular cubana, compõe uma convivência de raro (des)equilíbrio.

Algo de lo Sagrado, seu primeiro livro, publicado em 1996, é recebido com entusiasmo no contexto cultural da poesia insular contemporânea, adiantando aspectos que seriam explorados por Pérez nas produções seguintes. Em Oíste hablar del gato de pelea, lançado por Letras Cubanas em 1999, a ressonância da filosofia zen-budista extrapola os limites do verso para adentrar à vida, coincidindo com os passos do poeta, posteriormente ordenado como monge.

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No encalço de uma estética cubana capaz de oferecer-se enquanto resistência poética e cultura popular, a antologia em questão coloca em prática a tarefa iniciada em Lingua Franca de fazer do papel lugar de experimento, laboratório de criação. Como resultado de um processo de amadurecimento poético perpetrado por Pérez, é possível observar a presença de diversas facetas estilísticas coexistindo em Cubanologia, através da mescla de elementos díspares: filosofia zen-budista, produção multilíngue e cultura popular cubana; aspectos que integram a busca utópica por uma poesia de expressão nacional capaz de incorporar música como letra, ritmo como performance, tradução como processo criativo.

Ao atentar para o multifacetado fazer poético que anima os versos de Cubanologia, compreende-se que a força da poesia de Omar Pérez reside justamente numa aguçada percepção de que a poesia é um ponto fugidio na curva do tempo. Em Pérez, a poética funciona como ilhas de utopia que, suspensa na lacuna dos séculos, irrompem de repente, inaugurando poemas que se assemelham a sismógrafos ansiosos que buscam o menor sinal de movimento.

Aqui, a unidade poética se constitui como movimento, ritmo inspirado na dança, como o mambo e o guaguancó, bem como outras influências afro-cubanas. Afastando-se da perspectiva essencialista, o poeta inaugura um modo de enunciar a identidade cubana que afasta o compartilhamento estático dos sentidos de um povo para compreendê-lo enquanto devir; processo que incorpora a fuga como possibilidade. Em sua poesia, a performance é prática de liberdade, utopia tão necessária a uma ilha onde as promessas de liberdade, por vezes, não se revelaram suficientes para implodir limites, como se percebe no tom melancólico do poema que dá nome ao livro:

Disseram que a ilha não estava fixada
nem ao fundo nem ao céu
e que nasceria uma nova criatura
saborosa manga sem chupar
e então, até quando o amor
será instrumento d vingança
e a doçura objeto para o lucro.
Disseram que a ilha era infinita
e agora que cheguei aqui
tudo está cheio d limites.

Se a poesia é a arma da revolução, em Omar Pérez ela nunca esteve tão presente enquanto pólvora que nos permite insistir na poética anárquica que reconhece como único teorema uma canção.

 

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O tumulto das palavras: a poesia e sua função social em “Drástico”, de Reuben da Rocha

por: Aryanna Oliveira

A poesia performática vem ganhando cada vez mais espaço em centros culturais e nas noites das grandes cidades. Naquilo que Ricardo Aleixo – um dos grandes nomes do movimento performático – chamou de “poesia expandida” tem-se levantado o debate sobre a circulação da palavra a partir da verbalização da poesia, outrora vista apenas como uma composição em versos, normalmente rimados e dispostos em folha de papel. Como um grande desafio, os artistas da performance buscam decifrar o significado da obra de arte para além do que superficialmente está contido nela, fazendo emergir de um contexto mais intrínseco um complexo de possibilidades para a palavra.

Assim os slams, competições de poesia performática, tem sido espaços de grande difusão do movimento performático, no jogo das palavras orais, que em jogo, ganham contornos sociais, em uma função quase política nas rodas culturais das grandes e pequenas cidades. Surgidos nos anos 1980, nos guetos dos Estados Unidos, ganhou hoje espaço nos guetos de muitos países, extrapolando o papel poético de acordo com o contexto.

Entretanto, para além das competições – e considerando que nem todo poeta performático é um competidor em slams – a poesia performática incorporou novos elementos transformando-se numa arte híbrida, hoje chamada intermídia, em que além da palavra, da voz e do corpo, novos meios – como luzes, sons eletrônicos, cores – reforçam outros sistemas semióticos, atualizando os procedimentos tradicionais. Nessa poesia intermídia são entrecruzados signos de diferentes códigos, ganhando novos contornos e ampliando as possibilidades de expressão.

Um dos grandes destaques desse novo cenário é Reuben da Rocha, ou CavaloDADA – codinome que para ele já representa um aspecto de sua poética, o fazer poético a partir de uma degradação linguística –, que recentemente publicou seu Drástico pelo selo da Malha Fina Cartonera. O poeta já publicou diversos livros em que a palavra se mostra para além do impresso, como se saltasse aos olhos, num tumulto vertiginoso de intenções. Segundo ele, que se define como um “artista experimental do terceiro mundo, um nordestino, brasileiro, latino-americano, maranhense que se situa no campo do experimental”, para entender a poesia performática é necessário compreender a palavra poética para além do convencional, retificando uma ideia ultrapassada que as manifestações poéticas atuais se mostram em detrimento às formas clássicas impressas. Sobre isso falou-nos, “a poesia não tem uma linguagem preferencial, não tem uma mídia preferencial, ela se manifesta em qualquer meio. Os meios são relativos A palavra, o veículo primordial da poesia é um meio semiótico por natureza. A palavra é imagem, som e ideia, e se manifesta em todos os meios. A palavra tem essa fugacidade. É uma ilusão pensar uma coisa em detrimento à outra. São meios autônomos que acontecem ao mesmo tempo. Não existe um contexto privilegiado”.

Leitor de Dostoiévski em tempos de escola, viu a performance invadir sua vida em sua experiência universitária na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), nas enriquecedoras trocas que se estabeleciam com colegas e professores. “A velocidade da informação criativa era assombrosa, todo mundo tinha tempo disponível”, explica. Foi nesse momento que percebeu a necessidade exceder os limites da poesia, de percebê-la percorrer o corpo, como que ganhando forma física. “Preciso repetir mil vezes a palavra nos lábios, de ter um jeito de pronunciar as coisas. Isso sempre teve de uma maneira acentuada na minha vida. Então as duas coisas, poesia e performance, estavam intimamente ligadas para mim”, completa.

Em 2012, viveu uma grande experiência no World Event Young Artists, festival realizado em Nottingham, interior da Inglaterra. Lá, apresentou “CAIXAPREGO” na Backlit Gallery, vendo ali, que sua língua, por ele chamada de “pretoguês”, precisava ser traduzida através da forma, da performance, percebeu a necessidade de estudar o seu fazer poético. “Eu estava num país de língua inglesa, como um poeta brasileiro que fala um certo tipo de português, o “pretoguês”, com uma acentuação africana muito forte, que é a língua que eu falo, uma invenção que passa pelo sotaque, pelos ritmos específicos de muitos Brasis. E era isso que eu gostaria de levar para lá. Não queria traduzir meus poemas para o inglês. Então precisei encontrar um modo de traduzir pelo timbre, pela melodia, pela pronúncia aquilo que eu queria dizer. A partir dali eu comecei uma pesquisa, que é a base do que eu faço em performance”.

Apresentação de “CAIXAPREGO/NAILBOX” (Backlit Galery, WEYA, 2012)

Reuben, como CavaloDADA, no Macrofonia. (Casa da Luz, São Paulo, 2017)

Para além do performer talentoso, ganhamos um estudioso do movimento performático que atua no campo de experimental, trabalhando com e interpretando códigos. “Sou um pesquisador da linguagem. Meu campo está em constante movimento. Dialogo com outros campos que respeito e me interesso, mas eu acho que o que eu faço se situa no campo do experimental. E o experimental brasileiro tem uma relação muito forte com a poesia, que para mim tem uma relação muito forte com figuras como Hélio Oiticica, com José Agrippino de Paula, Rogério Sganzerla, que é um cineasta, mas faz um cinema de poesia, como o Julio Bressane”, explica. Nesse estudo, percebe a poesia como um estado de linguagem, “de experimentação, de uma invenção que não se limita a uma única expressão, como a arte de fazer versos. Percebo a poesia como uma abordagem que você pode levar a qualquer linguagem. Godard, Tarkovski, cineastas de poesia. Tudo me interessa, essa malha de criação”, conclui.

Isso se evidencia nas páginas de Drástico, o único de seus livros em que não trabalha a linguagem visual. Segundo ele, sempre procurou elaborar um trabalho visual que lhe permitisse a passagem de um código para o outro, como evidenciando, por exemplo, a arte sonora, que não é somente poesia sonora. Porém, em sua publicação mais recente, os códigos se condensam nas palavras tumultuadas e urgentes, marcadas pela oralidade. Nele, as moças magrelas, os operadores de telemarketing, a noite, os animais e os corpos mortos, ganham vida em uma ressonância subversiva e latente. Em seu “Melô do Telemrkt”, a precisa ligação “das 5 todo dia”, é pano de fundo para reflexão, que culmina, como em outros poemas, em uma agonia persistente, que ouve o que range dentro da gente.

Capa de Drástico, publicado pela Malha Fina Cartonera. Foto: Aryanna Oliveira.

A menina magrela e o telemarketing retratados em Drástico. Foto: Aryanna Oliveira.

Em “Nem sempre lembro de aparar as unhas”, o ato rotineiro é acompanhado do cheiro da cerveja nas ruas pela manhã, como lembrando a vida em contínuo movimento, marcada pelo ritmo da morte, “o ritmo q a morte rompe”. O tempo que passa, aliás, é constantemente relembrado, mas sem cobrança, apenas como um aviso das palpitações da vida e morte a cada segundo, do corpo humano que se danifica e tantas vezes se aproxima em sentido, dos animais e dos restos e entulhos.

“Nem sempre lembro de apanhar as unhas”, em Drástico. Foto: Aryanna Oliveira.

A raiva, talvez uma já curtida raiva dos tempos de escola que o incitava a isso, é relembrada em “As mais pedidas”, nas palavras ruidosas e diretas de Reuben, “mas meu calor me leva aa alegria hábil em rir na raiva e na angústia”.

Palavras que gritam, em “As mais pedidas”. Foto: Aryanna Oliveira.

Nas marcas da oralidade, no exercício de trazer para o papel o cotidiano, a vida mais ordinária e marginal, a poesia se extrapola e se multiplica em funções. A palavra em Reuben é imagem, é som, é pensamento, tudo condensado nas palavras impressas que tanto querem dizer. A palavra poética, e em constante performance, do poeta maranhense que tão bem traduz as ruas e os dias de tantos Brasis, nos reconecta com as forças mais intrínsecas dos anseios do ser humano, o que justifica sua missão social enquanto artista da palavra. Em suas tão fortes e aqui harmonizadas palavras, sua função se estabelece no fazer poético. “O papel do que eu faço é reenergizar o planeta. Tudo que eu faço em qualquer meio tem a intenção de dialogar com nossas forças primitivas, a força das águas, da terra, com o canto dos pássaros, com os insetos, mamíferos, peixes, com a brisa, com o movimento das nuvens no céu, a gradação da luz ao longo do dia. Tudo isso são forças de poesia que nos ensinam a viver, mas são ignoradas pela sociedade com a qual nos organizamos hoje. Essa sociedade que não deixa nenhum espaço para o sonho, para a contemplação, para atividades que desafiam o tempo linear da produtividade”, explica. E, por fim, completa, “a tarefa da poesia é nos reconectar com essas forças e reequilibrar o planeta, que hoje é doente. A arte é então uma força de saúde. E os artistas são trabalhadores da saúde do planeta, do inconsciente coletivo, da espécie humana, que não existe, porque o que existe é a vida, se expressando através de diversas formas, dentre elas essa forma mamífera humana, mas a poesia não é um privilégio dos humanos, ao meu ver é uma força da vida.”.

imageQuem é: Reuben da Cunha Rocha, ou CavaloDADA, é maranhense do dia 28 de junho de 1984. Artista intermídia, tradutor, colaborador nas mais diversas frentes culturais e crítico de artes. Entre suas publicações, sempre em selos independentes, estão a série Siga os sinais na brasa longa do haxixe (Pitomba Livros e Discos, 2016) e Drástico,  publicado este ano pela Malha Fina Cartonera.

(Imagem: Arquivo pessoal de Reuben Rocha)

Lembrar no Presente: Sobre a publicação de Todo o Silêncio, de José Luís Peixoto

por: Chayenne Orru Mubarack
colaboração: Mariana Costa Mendes

A Malha Fina Cartonera surgiu como um projeto de cultura e extensão da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP) em 2015. Quando surgimos, alguns objetivos nos guiavam (e guiam-nos até hoje): somos a possibilidade de inserção de estudantes no mundo editorial dentro da própria universidade. Através da Malha Fina, os estudantes podem experimentar algumas tarefas como tradução, revisão, diagramação, entre outras, que dizem respeito à confecção do miolo de um livro. Além, claro, da confecção deste objeto em sua forma cartonera: coleta e corte de papelão, costura do miolo, pintura da capa.

Somada à materialidade livresca, a Malha Fina também chama a atenção pelo desenvolvimento de algumas linhas editoriais específicas ao longo desses anos. Debutamos com uma coleção de literatura brasileira, na qual publicamos quatro autores brasileiros alunos de programas de pós-graduação da própria FFLCH. Nosso carro forte é a linha de literatura caribenha, na qual publicamos escritores cubanos e porto-riquenhos, além de termos antologias de poesia haitiana e venezuelana em desenvolvimento. Por estarmos dentro da universidade, também vimos a possibilidade de disseminar e publicar textos inéditos de estudantes da graduação e da pós-graduação, o que temos realizado por meio de nossas convocatórias. Outra linha seria a de poesia e performance, composta pela publicação do poeta maranhense Reuben da Rocha, por exemplo.

Os espaços e eventos que frequentamos ao vendermos nossos livros ou darmos oficinas de confecção de livros cartoneros costumam ser feiras de publicações independentes. Em novembro de 2016, participamos da LER – Salão Carioca do Livro, em um stand compartilhado com a Mariposa Cartonera. O objetivo de nossa participação era expor nosso catálogo e compartilhar com os presentes um pouco sobre nosso modo de publicação. Durante a feira, uma de nossas colaboradoras, Mariana Costa Mendes, reconheceu o escritor português José Luís Peixoto e iniciou um diálogo com o autor, o qual demonstrou grande interesse em publicar em nosso formato editorial.

Mariana e José Luís Peixoto

A colaboradora Mariana Costa Mendes com o escritor José Luís Peixoto na LER – Salão Carioca do Livro (nov. 2016).

Em julho de 2017, quando a então coordenadora do projeto, Tatiana Lima Faria, foi a Portugal ministrar oficinas cartoneras em Trás-os-Montes, o contato com Peixoto foi retomado e preparamos, então, uma edição do livro Todo o Silêncio para ser confeccionada lá.  Em agosto do mesmo ano, decidimos publicar o livro também aqui no Brasil e incluí-lo em nosso catálogo. Todo o Silêncio é, portanto, o primeiro livro em que a Malha Fina Cartonera entra no território da literatura portuguesa. A escolha da palavra “território” não é aleatória, pois a obra nos apresenta uma viagem por diferentes lugares e acontecimentos através da memória.

Todo o Silêncio - Capas

Capas dos livros de José Luís Peixoto confeccionadas pela Malha Fina Cartonera no Brasil.

A primeira narrativa, que leva o mesmo nome do título do livro, remete ao primeiro livro publicado do autor, Morreste-me. Nele, Peixoto escreve sobre um filho que perdeu o pai, coincidindo com o momento de luto vivido pelo próprio autor. No conto que publicamos, o narrador versa sobre noites de apresentação de seus livros em bibliotecas e livrarias nas quais, muitas vezes, a referência ao seu pai é indispensável. Em dado momento, dirige-se diretamente a ele: “Sim, pai, às vezes vou à televisão falar dos meus livros”. O conto adquire, então, outro tom. O leitor pode revisá-lo a partir da perspectiva da ausência e da perda eterna de um ente querido que, ao mesmo tempo, eterniza-se e reaparece por meio da escrita.

A segunda narrativa que comento nesta resenha coincide com a segunda do livro publicado. Em “Conta lá a história das bibliotecas itinerantes”, viajamos para Galveias, no Alto Alentejo, em Portugal, lugar de nascimento do escritor. A narrativa apropria-se de uma nostalgia, memórias do já vivido que se unem ao presente da escrita: “As crianças de Galveias são iguais às de antes”. Na infância do narrador penetram histórias da infância de seus filhos. Um encontro entre passado e presente, inclusive no nível da escrita, que utiliza o presente do indicativo para referir-se a coisas que pertencem ao passado. Afinal, ao revisitar o passado com o intuito de alterá-lo ou analisá-lo, logramos mantê-lo no presente: “Eu, que estou aqui neste instante, também estava lá […]”.

Mais adiante, saímos de Portugal e viajamos para a ilha de Cabo Verde. Em “O povo”, os sentidos se misturam com o intuito de contar-nos um pouco sobre os cabo-verdianos. Sons da música da telenovela numa versão cigana, as calças e a barriga de um homem, o sol ácido, um passeio na Feira do Relógio. Ao fim, um senhor que conversa com o narrador em crioulo cabo-verdiano e cujo diálogo, para além do conteúdo, traz consigo uma sensação de pertencimento. Novamente, memórias passadas que se mesclam ao presente da escritura.

As viagens não param por aí. O narrador também nos leva para a Guiné-Bissau, ao mercado de Bandim. Depois, para Patong, na ilha de Phuket, Tailândia. Passamos pelo interior de Rondônia, aqui no Brasil. O material da narrativa está sempre em acontecimentos passados. Em uma entrevista concedida ao programa Agenda, da Rede Minas, em 2015, o autor fala que “escrever é retirar ideias que existem de forma abstrata, em forma sem forma, e colocá-las no papel para que elas sobrevivam ao tempo”. Entretanto, também é preciso ter a noção de que o esquecimento chegará e que isto não deve ser triste. A memória, apesar de imaterial e invisível, nos forma e nos constitui. A matéria da escrita pode ser, portanto, uma memória, ou até mesmo uma desmemoria. Em “As palavras invisíveis”, por exemplo, o narrador confessa: “Conformo-me, estou cansado de procurar, mas tenho pena. Nesse bloco, tinha anotado a ideia que ia desenvolver neste texto. Não consigo lembrar como era, só recordo que me entusiasmou, pareceu-me boa ideia, fiquei contente quando a tive”.

Convidamos o leitor a embarcar nessa viagem por territórios, memórias e desmemorias. Esperamos que as reflexões de Peixoto sobre o passado e o presente mobilizem nosso público a revisitar momentos do passado que ainda fazem parte do presente. Da mesma maneira, aproveitamos esta publicação para revisitarmos um pouco de nossa história como selo editorial e lembrarmos de como nossa trajetória passada ecoa em nossas escolhas e lançamentos presentes.