As Dificuldades do Fazer Cartonero

por: Mariana Costa Mendes

Na última quinta e sexta-feira, 22 e 23 de setembro, estivemos vendendo nossos livros pelo prédio de Letras. Na quinta, em um evento em parceria com a Revista Cisma e na sexta, durante o II Encontro do Centro Interdepartamental de Línguas da FFLCH/USP.

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Cisma & Malha Fina. Foto por: Tatiana Lima Faria.

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Nossa mesa durante o II Encontro do Centro de Línguas. Foto por: Mariana Costa Mendes.

Nosso objetivo era que os alunos dos cursos da FFLCH entrassem em contato com o trabalho da Malha Fina Cartonera. Muitos demonstraram interesse ao se aproximaram de nossa banquinha, perguntarem como era o processo do fazer cartonero, mas, em seguida, iam embora. É, infelizmente não vendemos muitos livros.

Estando nessa situação, começamos a refletir sobre o funcionamento do mercado editorial. O que faz alguém comprar ou não um livro? Será que é o fato de já ter ouvido falar daquele(a) autor(a)? Será que o livro ser feito com capa de papelão o torna mais interessante? A sustentabilidade é importante? Ou ainda, o preço é o que realmente importa?

Nós, como editora cartonera, produzimos o livro de maneira artesanal a um preço muito abaixo do que é praticado entre as grandes editoras. Algo que contribui para isso é que nossos livros não possuem ISBN, logo, não podem ser comercializados em livrarias – o que, de certa forma, é até bom para os leitores, afinal, segundo o site Editoras.com, as livrarias cobram cerca de 50% do preço de capa! Isso mesmo, um livro que custa R$ 40, R$ 20 vão apenas para a livraria e a outra metade é dividinda entre editora (tradutor, diagramador, revisor e etc), gráfica e autor. Um detalhe: o autor costuma ficar com apenas 5% desse valor, logo, R$ 2 por exemplar. Chega até a ser estranho pensar que o proprietário intelectual da obra receba a menor parcela do valor da venda do livro.

Além disso, por fazemos o livro com capa de papelão, contribuímos para que a distribuição da renda chegue aos catadores de papelão. Uma cartonera da cidade de São Paulo que faz isso de uma forma mais efetiva, através de uma cooperativa de catadores, é a Dulcineia Catadora.

Apesar de a Malha Fina Cartonera ser uma iniciativa apoiada pelo Programa Unificado de Bolsas (PUB) da Universidade de São Paulo (USP), nós não contamos com apoio financeiro da Universidade para a compra dos materiais para confecção das capas e muito menos para a impressão dos livros na gráfica; apenas contamos, atualmente, com 4 monitores bolsistas que recebem um auxílio mensal do PUB; além dos alunos que têm ajudado voluntariamente.

Não vivemos da venda dos livros, porém precisamos que os livros sejam vendidos para fazer mais livros. O objetivo da Malha Fina Cartonera é difundir autores latino-americanos através de traduções para o português, e até mesmo as traduções são feitas de maneira colaborativa. Em todas as esferas da cartonera trabalhamos de forma colaborativa (design, fotografia, edição de vídeo, etc), inclusive os direitos autorais são cedidos gratuitamente à nós e, como retribuição, damos cerca de 20% dos livros produzidos aos autores.

Observando as cartoneras como um todo, através do levantamento presente em “As Cartoneras Pelo Mundo”, notamos que já existiram quase 200 editoras cartoneras, mas atualmente encontram-se em atividade pouco mais de 100. O que será que aconteceu com as outras? Será que o baixo volume de vendas que fez com que parassem suas atividades? Será que o poder do mercado editorial tradicional é tão forte assim que as cartoneras não conseguiram resistir?

Hoje lançamos estas questões com o intuito de promover, entre editores cartoneros e leitores, uma reflexão mais apurada sobre nosso fazer.

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Malha Fina e Cisma convidam: Venha conhecer nossas edições!

Na próxima quinta-feira, 22 de setembro, em parceria com a Revista Cisma, iremos realizar uma confraternização! Começa às 11h30 e vai até às 20h30! Nossas banquinhas estarão em frente a Letras, na saída do 1º andar do prédio. Não perca!!!

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Edições Malha Fina Cartonera:
“22 poemas” de Fabiano Calixto – R$ 15,00.
“O pretexto para todos os meus vícios” de Heitor Ferraz Mello – R$ 15,00.
“Os olhos dos pobres”, Julián Fuks – R$ 15,00.
“Diálogos e Incorporações”, Juliano Garcia Pessanha – R$ 15,00.
“Poesia Língua Franca”: R$ 20,00.

PROMOÇÃO: os 4 livros (“22 poemas”, “O pretexto para todos os meus vícios”, “Os olhos dos pobres” e “Diálogos e Incorporações”) por R$ 50,00!

Obs.: NÃO SERÃO ACEITOS CARTÕES!

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Revista Cisma:
Números 1 a 7 – R$ 8,00.
Especial Haroldo de Campos – R$ 20,00.
Bolsa: R$ 15,00

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Além disso, estaremos presentes no II Encontro do Centro Interdepartamental de Línguas da FFLCH/USP que acontecerá na Casa de Cultura Japonesa e no prédio de Letras em comemoração aos 25 anos do Centro Interdepartamental de Línguas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (CL-FFLCH/USP). O tema do evento é “Centros de Línguas e profissionais de Letras: fomentando a competência em línguas e culturas para a internacionalização das Universidades”. O encontro ocorre dia 22 e 23 de setembro de 2016, mas em virtude do evento com Cisma, só termos a banquinha na sexta, 23 e ela estará localizada no prédio de Letras no corredor das salas 160.

Não perca! Será uma ótima oportunidade de adquirir nossas edições!

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Eduardo Lalo e sua escrita riscada

por: Chayenne Orru Mubarack

La escritura rayada é um texto híbrido de ensaio e ficção escrito por Eduardo Lalo como parte do livro donde, publicado em 2005 pela editora Tal Cual, em San Juan. A tradução para o português será publicada pelo selo editorial Malha Fina Cartonera, com o lançamento previsto para o segundo semestre de 2016.

Esta obra de Eduardo Lalo e o mote de Porto Rico como país invisível são um possível ponto de partida para pensar o que significa ser portorriquenho. Nas três partes que compõem o texto, o escritor trata de temas como o ato de escrever, a leitura, a conquista cultural da América Latina pelo Ocidente e, por fim, o ser portorriquenho.

A Escrita Riscada

Modelo de capa de A escrita riscada, de Eduardo Lalo. Foto: Idalia Morejón Arnaiz

A escritura, associada à imagem da caneta Cross, e a leitura, relacionada à lupa, configuram o início do texto. A primeira é pensada não só em sua dimensão física, o preenchimento de uma folha ou o desenho de letras, mas também em seu aspecto composicional, em que escrever seria estar obcecado pelas consequências do olhar. Delineia-se a primeira referência ao território portorriquenho quando Lalo fala sobre a impossibilidade de partir da cidade de sua escritura, já que só se escreve uma obra a partir da falta. Por outro lado, a leitura seria a performance de um aprendizado e entretenimento, uma sabedoria que une palavra e tempo.

Ao fluir do texto, o autor expõe uma interpretação sobre a conquista da América Latina pelo Ocidente. A produção dos escritores dos territórios conquistados se insere em uma tradição que a nega desde o início, ao riscá-la com um golpe de caneta. Utiliza-se como metonímia desse processo a palavra canoa, primeiro vocábulo taino escrito pelos conquistadores dentro do vocabulário do espanhol. O termo se tornou canoa ao ser inserido a força dentro da história do conquistador ocidental. Isto posto, o corpo desses territórios estará marcado pelo que foi escrito sobre eles no interior de uma história que não lhes pertence. A conquista se deu, portanto, em um plano cultural pelo Ocidente.

Porto Rico está além da perspectiva do território conquistado uma vez que é a periferia da periferia do Ocidente. Tanto a “união permanente” com os Estados Unidos quanto a insistência em ver a cultura portorriquenha como folclore ou parte redutível ao academicismo universitário, insensibilizam possíveis discursos locais. O autor articula a oposição escrever versus existir, a partir da qual ele não existe porque o país não existe e, entretanto, escreve. Dentre os disparadores que Lalo propõe para pensar Porto Rico está a condição exótica da ilha, a boa gente e a prisão pelo mar – La maldita circunstancia del agua por todas las partes, como já proferira o cubano Virgilio Piñera.

A escolha por publicar este ensaio proveio de seu caráter crítico que realça a inexistência geográfica, cultural e identitária de Porto Rico. Ao final, debruçar-se sobre essa questão corresponde a responder: o Ocidente é apenas geografia ou é também estrutura?

Sobre Poesia e Tradução – Entrevista com Anahí Mallol

Por: Cristiane Gomes

Anahí Mallol cresceu em La Plata, província de Buenos Aires, é poeta, tradutora e pesquisadora. Pela ocasião da apresentação de seu trabalho, Los poetas traductores y los traductores poetas, na Universidade de São Paulo, Anahí nos concedeu essa entrevista onde fala sobre sua origem poética, linguagem, entrelínguas, tradutores e teorias da tradução e nos presenteou com um poema do seu mais recente livro, Una Ciudad, livro-objeto multimídia, onde a cidade é o ponto de fuga da poesia de Anahí e da fotografia de Leonal Arance. A cidade vazia das fotografias é preenchida pela voz poética de Anahí, que evoca memórias e expressa desejos. O livro foi editado em 2016, pelo selo 27 Pulqui.

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Una Ciudad – Anahí Mallol

Cristiane Gomes: Quando você começou a escrever poesia?

Anahí Mallol: Comecei a escrever poesia quando o vazio me atravessou de tal modo que caí pregada e pálida, atirada para o escanteio de um mundo que eu não compreendia de jeito nenhum. Acho que eu tentava dar um pouco de sentido a algo, compreender, articular um mínimo da subjetividade ferida a partir de um mínimo discurso. Comecei a escrever quando meu pai morreu repentinamente.

CG: De onde surgiu seu interesse por tradução?

AM: De algum modo, sempre vivi no universo da tradução. Minha mãe era professora e tradutora de francês. Quando éramos muito pequenos, meus dois irmãos, eu e ela, nos deitávamos na grande cama e ela nos lia e traduzia do francês As Aventuras de Tintin, de Asterix, de Spirou, e O Pequeno Príncipe. Com o dedo indicador da mão direita mostrava as palavras escritas em francês (em um gesto sem afã didático) e falava em rioplatense. Eu seguia as palavras escritas com os olhos e as palavras faladas com os ouvidos. Ela também nos levava a palestras, filmes, peças de teatro, reuniões, nas quais se falava e se ouvia tanto o francês quanto o castelhano. Às vezes, em casa, ela falava com meu pai em francês, para que nós não entendêssemos (e, é claro, nós entendíamos). Então, suponho que a tradução, como esse espaço “entre línguas”, é parte da minha vida desde sempre.

CG: Que livros seus já foram editados?

AM: Publiquei seis livros de poemas, Postdata, 1998, SiestaPolaroid, 2001, Siesta, Óleo sobre lienzo, 2004 (Colección Chicas de Bolsillo, UNLP);  Zoo, Paradiso, 2009, Querida Alicia, La Sofía Cartonera (2012), como un iceberg, Paradiso, (2013); Una ciudad (2016), 27 Pulqui e um livro de ensaios sobre poetas argentinos, El poema y su doble, Simurg de 2003.

CG: Qual sua experiência com tradução?

AM: Não traduzi livros inteiros, visto que a tradução não é meu emprego, mas uma atividade que corre paralelamente ao meu trabalho de escrita e pesquisa. Traduzi poemas de poetas do Surrealismo (Eluard, Breton, Artaud, Prévert), de Queneau, de Ponge, de Rimbaud, de Baudelaire e de poetas de língua inglesa, como Stevie Smith, Kathleen Raine, Gertrude Stein, Emily Dickinson, entre outros. Traduzi ensaios de Kristeva, Bal e Meschonnic.

CG: No dia 28 de abril, como parte das atividades do II Encontro Internacional de Poesia Hispano-americana: “A Poesia como Língua Franca”, você apresentou na USP o seu trabalho “los poetas traductores y los traductores poetas” onde analisa o trabalho de duas revistas, Xul e Diário de Poesía. Como cada revista aborda o trabalho de tradução? Você percebe uma teoria de tradução hegemônica em cada uma? Pode nos falar um pouco sobre?

AM: Não acredito que haja uma teoria hegemônica da tradução em cada uma das revistas, pois ambas foram empreendimentos plurais e abertos. Acredito sim, que há em cada uma delas um pensamento ou teoria da tradução; ou seja, ambas as revistas defenderam desde o início a tradução como uma atividade central em relação à tarefa de fazer uma revista de poesia e também em relação à própria poesia.

Neste sentido, podemos ver que no Diario de Poesía há duas políticas fundamentais que relacionam-se com a tradução: a mais visível é o interesse em divulgar textos e autores que não circularam, ou que eram pouco conhecidos, ou que não eram suficientemente valorizados no ambiente hispano-americano, através da publicação de poemas traduzidos. Neste sentido, a presença do Diario de Poesía foi muito proeminente. Acho que foi mesmo fundamental na formação do gosto de toda uma geração posterior, a chamada Geração dos 90, a partir da difusão de poéticas – sobretudo imaginistas e objetivistas, mas não exclusivamente –, e o destaque dado à estética da origem anglo-saxônica em detrimento da francesa.

Além disso, esta política é ligada a um posicionamento a respeito das teorias de tradução, segundo a qual a tradução se encontra muito mais do lado do possível do que do impossível. A tradução é, para o Diario, uma maneira apta e valiosa de obter conhecimento da poética de um autor. Para o Diario há de fato algo da ordem do poema e da poética que se transmite através da tradução.

Em Xul o movimento é quase oposto. Mais do que um trabalho sustentado de tradução, que é, sem dúvida, o que se destaca, é uma exposição permanente de heterogeneidade e intraduzibilidade entre as línguas, especialmente como isso afeta a poesia. Por isso aparecem poemas em sânscrito, grego ou traduções de Martin Fierro para línguas pouco comuns, ou poemas visuais, alguns traduzidos e outros sem tradução. Se trata de que o leitor faça a experiência desse limiar impossível que se desenha entre a tradução efetiva e o intraduzível, ou seja, entre o que existe e o que sobra. Nesta política, o resultado da revista é mais do que bem sucedido, é surpreendente. E esta posição está mais ligada às teorias e à estética francesa. Xul traduziu também alguns ensaios muito importantes neste sentido, como Derrida, Deleuze, entre outros.

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Revista Xul, nº 11 – Buenos Aires, set. 1995. Fonte: Canuto Libros.

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Revista Diario de Poesía – Verão de 1988. Fonte: Los In Rocks.

CG: No seu trabalho você aborda um artigo publicado na Xul sobre a atividade de Nabokov como tradutor, que em sua teoria preza pela tradução literal complementada por notas, mas na prática transgride a própria teoria. Como é essa relação entre as teorias de tradução e a prática de tradução? Você, como tradutora, tem bem definido seu processo ou cada obra solicita um tipo de abordagem?

AM: Sempre pensei que a teoria tem um valor e um interesse por si mesma, além ou aquém de qualquer prática. A teoria é uma ponta de lança para pensar, colocar em crise, reconsiderar, repensar. É sempre começo e recomeço. As práticas podem estar mais à frente ou mais atrás da teoria e, assim como a teoria, podem ser uma ponta de lança para pensar, colocar em crise, reconsiderar, repensar. E o intercâmbio entre teorias e práticas é sempre valioso, desde que não se faça de nenhum dos dois polos uma regra. Os desencontros, então, entre teorias e práticas se tornam produtivos.

Eu não tenho um método fixo. Creio que sempre deve-se respeitar a singularidade de cada experiência literária, ou seja, as linhas orientadoras devem desprender-se do texto a ser traduzido. Para que isso aconteça, é preciso deixar-se levar por este texto, tanto quanto possível, abandonar-se à sua materialidade, seus fluxos de forças, ser convencido pelo que o texto propõe. E você tem que investigar: ler a maior quantidade possível de textos do autor, ler sobre seu contexto, ler algumas críticas, ler, se houver, é claro, outras traduções. Assim, as linhas poéticas dominantes se tornarão visíveis e a tradução será uma leitura valiosa do texto como “este” texto e não como outro.

CG: Na Malha Fina Cartonera, nós trabalhamos com a tradução autoral, onde tradutor é responsável pelo seu material e a revisão é feita coletivamente como proposta ao tradutor, e também com a tradução coletiva, onde mais de um autor trabalha em conjunto na tradução do poema. O que você pensa dessas práticas e o que pode nos sugerir?

AM: As minhas experiências mais interessantes surgiram a partir de traduções coletivas. Na verdade, esta é a forma como nós trabalhamos na revista. Há uma ou duas pessoas que são responsáveis pela primeira versão de uma tradução, que é trazida para o grupo, e aí começamos um trabalho coletivo de discussão onde discutimos palavra por palavra, frase por frase, verso por verso, comparamos com outras traduções, com outros poemas do mesmo autor, voltamos a buscar, mais uma vez!, as palavras no dicionário, as que não conhecemos e as que pensamos que conhecemos (palavras são como pessoas, pensamos que as conhecemos, mas nunca sabemos do que elas são capazes de fato). Nós somos poetas de diferentes idades, diferentes poéticas, diferentes leituras. Dessa diversidade sempre sai algo muito melhor do que a primeira versão. É claro, que isso consome muito tempo.

CG: Como é estar no papel de ser traduzida?

AM: Ser traduzida é sempre uma experiência interessante e forte. É o olhar do outro sobre algo que foi resguardado. Traduções são geralmente leituras intensas e por isso, às vezes, servem como escutas que nos dizem coisas sobre a nossa escrita, e sobre nós, que não sabemos. Às vezes o tradutor envia consultas e dúvidas, a tradução do texto torna-se um trabalho em equipe e isso é muito produtivo, nos convida a pensar na nossa própria poética, a tomar certas decisões conscientemente, convida-nos a seguir escrevendo e talvez essa seja a melhor parte.

CG: E de traduzir, sendo poeta?

AM: A tradução é um trabalho maravilhoso para um poeta. Porque é uma pesquisa prática sobre a linguagem estrangeira, mas sobretudo sobre sua própria linguagem. Traduzir o obriga a tomar conhecimento de muitas questões técnicas, isso te faz pensar e tomar decisões sobre coisas que você havia deixado passar.

É também muito interessante tentar apagar-se como escritor para deixar-se atravessar por uma outra poética. Tratar com respeito as escolhas poéticas do outro, tratar um texto com amor é uma aprendizagem para a poesia e para a vida do tradutor-poeta.

Como em qualquer relacionamento amoroso, há momentos difíceis, dúvidas, desânimos, impossibilidades e há também momentos em que um verdadeiro encontro ocorre, e esses momentos te dão o melhor que algo ou alguém pode lhe dar: o desejo de continuar escrevendo, de continuar traduzindo, mas um pouco à parte de si mesmo, com o desejo de continuar, um pouco, com “o outro”. Se a poética é levemente modificada na sequência de uma tradução poética, seja para variar, se afirmar, ou sintonizar, isso é um grande ganho para um poeta. E uma maneira de sair um pouco da solidão da escrita, o que por vezes torna-se insuportável.

CG: Qual a diferença entre as traduções de poesia feita por tradutores de profissão e por tradutores poetas?

AM: Quando poetas traduzem, como eu disse, com amor, com tempo, minuciosamente, os resultados são poemas que vale a pena ler e reler. Alguns tentam, por vezes, levar a sua própria poética às poéticas estrangeiras, o que dá resultados pobres. Alguns ficam fascinados demais pela poesia do outro e não conseguem traduzir o todo. São os riscos do trabalho.

Os tradutores profissionais trabalham, muitas vezes, em condições precárias, mal pagos, e com a necessidade de cumprir com uma certa quantidade de texto em um curto espaço de tempo. É uma bela profissão, mas ainda mal apreciada socialmente. Sob estas condições, os resultados são dispares. Mas existem traduções muito dignas. Se a tradução, por mais imprudente que seja, desperta a curiosidade do leitor, convida-o a continuar lendo este autor, a consultar outras traduções ou buscar edições com o idioma de origem, esta é uma tradução bem-sucedida.

Para a poesia sempre procuro traduções bilíngues e praticar uma leitura esquizo. No meio do caminho se forma, entre uma língua e outra, entre uma língua “original”, por vezes apenas entreouvida ou entrelida, e a tradução uma ideia do poema, uma escuta intensa do poema.

CG: Existem muitos termos que podem ser usados para as traduções. Na Xul aparece a versão, você pode nos falar mais sobre suas utilizações e significados?

AM: A palavra “versão” para referir-se a uma tradução pretende colocar a tônica na diferença quando a palavra “tradução” a coloca sobre a identidade. Além das discussões, que podem ser mais ou menos interessantes (e certamente um mundo se abre para ler as teorias da tradução, um mundo filosófico que atinge o mais íntimo da relação do ser humano com a linguagem e com o corpo e, portanto, consigo mesmo, como Steiner, Derrida, Deleuze, Meschonnic, Gadamer, Heidegger, Schleiermacher), há de sentar e trabalhar, não só linguisticamente, mas eticamente pela tradução como possibilidade, como abertura, como abrigo na linguagem e pela linguagem. Porque é disso que somos feitos.

CG: Hoje, na Argentina, que revistas e tradutores são significantes na tradução e difusão de poesia?

AM: A revista Hablar de Poesía publica de forma constante traduções bastante interessantes. Infelizmente o Diario de Poesía deixou de existir.

Me parece interessante a figura de Silvio Mattoni que, como tradutor de textos de filosofia, psicanálise, teoria literária e poesia, isto é, como alguém que teve um relacionamento íntimo com esses textos, os esquece, deixa-os fluir, e com razão podemos ouvir um ligeiro e distante eco destes textos nos seus próprios textos, um eco para o familiar e estranho, que forma parte de uma poética pessoal.

O melhor que existe neste momento, em “Poesia e Tradução” é a revista que acabou de sair das mãos de um grande poeta e tradutora, Mirta Rosenberg. A revista chama-se Extra. Lecturas para poetas, e tem traduções de poemas e ensaios de diversos escritores em diferentes línguas, poesia em língua espanhola, artigos sobre poéticas. A editora é a Bajo la luna, e o primeiro número esteve presente na Feria del Libro.

43.

en algún lugar de esta ciudad
del sur en que vivimos
hay un acolchado
color rojo oscuro y ese
acolchado suave y gastado y por eso
mismo suntuoso
una noche de  invierno también oscuro
es un refugio seguro para
la intemperie de una desgracia que se siente
común y nos une
en esta misma noche en que todo
es helado menos la guarida
bajo el acolchado y tu aliento
me contás la historia
de la abuela
judía que había huido
primero de rusia hacia el oeste y después
cada vez más hacia el oeste de europa
y después a medida que las tropas del reich
barrían la culta cuna de esta parte del mundo
la abuela tomó un tapado
unos collares unos niños y este
acolchado color rojo oscuro y se vino
para acá para buenos aires
esta noche de un frío mediocre porque
en realidad aquí no nieva ni puede decirse
con plena honestidad que haga frío
tu abuela
desde rusia desde ese oriente de occidente
la bobe nos cobija
nos abraza nos da aliento
nos dice: yo soy
la guarida la belleza
la verdad y la vida.

A poeta Anahí Mallol

A poeta Anahí Mallol em “los traductores poetas y los poetas traductores”. Foto: Idalia Morejón Arnaiz

Clicando aqui você pode conferir na íntegra o trabalho Los poetas traductores y los traductores poetas de Anahí Mallol.