As Dificuldades do Fazer Cartonero

por: Mariana Costa Mendes

Na última quinta e sexta-feira, 22 e 23 de setembro, estivemos vendendo nossos livros pelo prédio de Letras. Na quinta, em um evento em parceria com a Revista Cisma e na sexta, durante o II Encontro do Centro Interdepartamental de Línguas da FFLCH/USP.

14361390_347604858923062_120294207739534033_o

Cisma & Malha Fina. Foto por: Tatiana Lima Faria.

14368888_348027248880823_1511188002652533928_n

Nossa mesa durante o II Encontro do Centro de Línguas. Foto por: Mariana Costa Mendes.

Nosso objetivo era que os alunos dos cursos da FFLCH entrassem em contato com o trabalho da Malha Fina Cartonera. Muitos demonstraram interesse ao se aproximaram de nossa banquinha, perguntarem como era o processo do fazer cartonero, mas, em seguida, iam embora. É, infelizmente não vendemos muitos livros.

Estando nessa situação, começamos a refletir sobre o funcionamento do mercado editorial. O que faz alguém comprar ou não um livro? Será que é o fato de já ter ouvido falar daquele(a) autor(a)? Será que o livro ser feito com capa de papelão o torna mais interessante? A sustentabilidade é importante? Ou ainda, o preço é o que realmente importa?

Nós, como editora cartonera, produzimos o livro de maneira artesanal a um preço muito abaixo do que é praticado entre as grandes editoras. Algo que contribui para isso é que nossos livros não possuem ISBN, logo, não podem ser comercializados em livrarias – o que, de certa forma, é até bom para os leitores, afinal, segundo o site Editoras.com, as livrarias cobram cerca de 50% do preço de capa! Isso mesmo, um livro que custa R$ 40, R$ 20 vão apenas para a livraria e a outra metade é dividinda entre editora (tradutor, diagramador, revisor e etc), gráfica e autor. Um detalhe: o autor costuma ficar com apenas 5% desse valor, logo, R$ 2 por exemplar. Chega até a ser estranho pensar que o proprietário intelectual da obra receba a menor parcela do valor da venda do livro.

Além disso, por fazemos o livro com capa de papelão, contribuímos para que a distribuição da renda chegue aos catadores de papelão. Uma cartonera da cidade de São Paulo que faz isso de uma forma mais efetiva, através de uma cooperativa de catadores, é a Dulcineia Catadora.

Apesar de a Malha Fina Cartonera ser uma iniciativa apoiada pelo Programa Unificado de Bolsas (PUB) da Universidade de São Paulo (USP), nós não contamos com apoio financeiro da Universidade para a compra dos materiais para confecção das capas e muito menos para a impressão dos livros na gráfica; apenas contamos, atualmente, com 4 monitores bolsistas que recebem um auxílio mensal do PUB; além dos alunos que têm ajudado voluntariamente.

Não vivemos da venda dos livros, porém precisamos que os livros sejam vendidos para fazer mais livros. O objetivo da Malha Fina Cartonera é difundir autores latino-americanos através de traduções para o português, e até mesmo as traduções são feitas de maneira colaborativa. Em todas as esferas da cartonera trabalhamos de forma colaborativa (design, fotografia, edição de vídeo, etc), inclusive os direitos autorais são cedidos gratuitamente à nós e, como retribuição, damos cerca de 20% dos livros produzidos aos autores.

Observando as cartoneras como um todo, através do levantamento presente em “As Cartoneras Pelo Mundo”, notamos que já existiram quase 200 editoras cartoneras, mas atualmente encontram-se em atividade pouco mais de 100. O que será que aconteceu com as outras? Será que o baixo volume de vendas que fez com que parassem suas atividades? Será que o poder do mercado editorial tradicional é tão forte assim que as cartoneras não conseguiram resistir?

Hoje lançamos estas questões com o intuito de promover, entre editores cartoneros e leitores, uma reflexão mais apurada sobre nosso fazer.

Anúncios

Malha Fina e Cisma convidam: Venha conhecer nossas edições!

Na próxima quinta-feira, 22 de setembro, em parceria com a Revista Cisma, iremos realizar uma confraternização! Começa às 11h30 e vai até às 20h30! Nossas banquinhas estarão em frente a Letras, na saída do 1º andar do prédio. Não perca!!!

▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲

Edições Malha Fina Cartonera:
“22 poemas” de Fabiano Calixto – R$ 15,00.
“O pretexto para todos os meus vícios” de Heitor Ferraz Mello – R$ 15,00.
“Os olhos dos pobres”, Julián Fuks – R$ 15,00.
“Diálogos e Incorporações”, Juliano Garcia Pessanha – R$ 15,00.
“Poesia Língua Franca”: R$ 20,00.

PROMOÇÃO: os 4 livros (“22 poemas”, “O pretexto para todos os meus vícios”, “Os olhos dos pobres” e “Diálogos e Incorporações”) por R$ 50,00!

Obs.: NÃO SERÃO ACEITOS CARTÕES!

▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲

Revista Cisma:
Números 1 a 7 – R$ 8,00.
Especial Haroldo de Campos – R$ 20,00.
Bolsa: R$ 15,00

▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲▼▲

Além disso, estaremos presentes no II Encontro do Centro Interdepartamental de Línguas da FFLCH/USP que acontecerá na Casa de Cultura Japonesa e no prédio de Letras em comemoração aos 25 anos do Centro Interdepartamental de Línguas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (CL-FFLCH/USP). O tema do evento é “Centros de Línguas e profissionais de Letras: fomentando a competência em línguas e culturas para a internacionalização das Universidades”. O encontro ocorre dia 22 e 23 de setembro de 2016, mas em virtude do evento com Cisma, só termos a banquinha na sexta, 23 e ela estará localizada no prédio de Letras no corredor das salas 160.

Não perca! Será uma ótima oportunidade de adquirir nossas edições!

evento-com-a-cisma_publisher1

Eduardo Lalo e sua escrita riscada

por: Chayenne Orru Mubarack

La escritura rayada é um texto híbrido de ensaio e ficção escrito por Eduardo Lalo como parte do livro donde, publicado em 2005 pela editora Tal Cual, em San Juan. A tradução para o português será publicada pelo selo editorial Malha Fina Cartonera, com o lançamento previsto para o segundo semestre de 2016.

Esta obra de Eduardo Lalo e o mote de Porto Rico como país invisível são um possível ponto de partida para pensar o que significa ser portorriquenho. Nas três partes que compõem o texto, o escritor trata de temas como o ato de escrever, a leitura, a conquista cultural da América Latina pelo Ocidente e, por fim, o ser portorriquenho.

A Escrita Riscada

Modelo de capa de A escrita riscada, de Eduardo Lalo. Foto: Idalia Morejón Arnaiz

A escritura, associada à imagem da caneta Cross, e a leitura, relacionada à lupa, configuram o início do texto. A primeira é pensada não só em sua dimensão física, o preenchimento de uma folha ou o desenho de letras, mas também em seu aspecto composicional, em que escrever seria estar obcecado pelas consequências do olhar. Delineia-se a primeira referência ao território portorriquenho quando Lalo fala sobre a impossibilidade de partir da cidade de sua escritura, já que só se escreve uma obra a partir da falta. Por outro lado, a leitura seria a performance de um aprendizado e entretenimento, uma sabedoria que une palavra e tempo.

Ao fluir do texto, o autor expõe uma interpretação sobre a conquista da América Latina pelo Ocidente. A produção dos escritores dos territórios conquistados se insere em uma tradição que a nega desde o início, ao riscá-la com um golpe de caneta. Utiliza-se como metonímia desse processo a palavra canoa, primeiro vocábulo taino escrito pelos conquistadores dentro do vocabulário do espanhol. O termo se tornou canoa ao ser inserido a força dentro da história do conquistador ocidental. Isto posto, o corpo desses territórios estará marcado pelo que foi escrito sobre eles no interior de uma história que não lhes pertence. A conquista se deu, portanto, em um plano cultural pelo Ocidente.

Porto Rico está além da perspectiva do território conquistado uma vez que é a periferia da periferia do Ocidente. Tanto a “união permanente” com os Estados Unidos quanto a insistência em ver a cultura portorriquenha como folclore ou parte redutível ao academicismo universitário, insensibilizam possíveis discursos locais. O autor articula a oposição escrever versus existir, a partir da qual ele não existe porque o país não existe e, entretanto, escreve. Dentre os disparadores que Lalo propõe para pensar Porto Rico está a condição exótica da ilha, a boa gente e a prisão pelo mar – La maldita circunstancia del agua por todas las partes, como já proferira o cubano Virgilio Piñera.

A escolha por publicar este ensaio proveio de seu caráter crítico que realça a inexistência geográfica, cultural e identitária de Porto Rico. Ao final, debruçar-se sobre essa questão corresponde a responder: o Ocidente é apenas geografia ou é também estrutura?