Grupo Diáspora(s): uma poética de ruptura

por: Aryanna Oliveira

Na última quinta-feira, 24, em oficina realizada pela Malha Fina Cartonera, durante a VI Jornada do Programa de Pós-graduação em Língua e Literaturas Espanhola e Hispano-americana (DLM/FFLCH/USP), ocorreu o pré-lançamento da antologia poética do grupo Diáspora(s), com título homônimo, em edição bilíngue. Na atividade oferecida pela Malha Fina, os participantes puderam, além de conhecer o ofício e a trajetória da cartonera, confeccionar as primeiras capas da publicação que apresenta o grupo poético-literário cubano.

Fundado em 1993, o movimento que se manteve ativo até o ano de 2002, previa um projeto de escrituras alternativas, para além de um caráter de busca de unidade nacional, como consolidação do cânone, por exemplo. Do grupo fizeram parte Rolando Sánchez Mejías, Carlos A. Aguilera, Rogelio Saunders, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer, Ricardo Alberto Pérez, José Manuel Prieto e Radamés Molina.

Em posfácio à edição, a Profª Drª Idalia Morejón Arnaiz, diretora editorial da Malha Fina e organizadora da coletânea, explica o título do grupo, como um elemento relevante de seu viés político e vanguardista. “O termo diáspora (em grego antigo, διασπορά – dispersão) define o deslocamento forçado ou incentivado de grandes massas populacionais originárias de uma zona determinada para diversas áreas de acolhimento. Que tal termo apareça como nome de um grupo literário e, posteriormente, como título de sua revista, com uma letra “s” ao final entre parêntesis, denota, em primeiro lugar, que as zonas de acolhimento a que se submete a literatura são múltiplas e, em segundo lugar, que em tais traços se hospeda uma marca plural, de dissensão escritural, heterogênea”. Ou seja, tendo na poesia uma arma de combate contra o totalitarismo, o grupo buscava não só dar continuidade aos aspectos essenciais da vanguarda cubana, como também reivindicar a projeção política contra o nacionalismo de Estado, por meio da atribuição de valor em zonas periféricas, abandonadas pela pelo fazer literário, em Cuba.

As primeiras capas de Diápora(s), produzidas na oficina cartonera da Malha Fina

As primeiras capas de Diápora(s), produzidas na oficina cartonera da Malha Fina . Foto: Cristiane Gomes.

Diáspora(s) consolidou-se, desse modo, como um grupo de ruptura, rompendo principalmente com os modos unilaterais do fazer literário, apoiando-se em um enfrentamento à política cultural da ilha, delineado pelo estado castrista, a partir de 1959. “Assim, a ruptura com o modo predominante de praticar a literatura torna a ser outro dos gestos que Diáspora(s) passa a praticar, e sobre o qual deixou textos poéticos, ficcionais e ensaísticos que constituem valiosas contribuições à releitura e reescritura da tradição. Diáspora(s) buscou na diferença seus próprios precursores, e seu trabalho modificou tanto nossa concepção do passado quanto às possibilidades futuras de escrever”, explica Idalia Morejón no mesmo prefácio, em tradução de Ramiro Caggiano Blanco e Yeda Blanco.

A coletânea, publicada pela Malha Fina, traz poemas de cada um dos membros fundadores do grupo, em versão original e em português, como forma de apresentar ao público brasileiro um momento tão importante da literatura cubana de vanguarda, de um dos mais importantes movimentos literários de Cuba, pós-Orígenes.

Entre os escritores do grupo, a coletânea apresenta um pouco da produção de Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders, Ricardo Alberto Pérez, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer e Carlos A. Aguilera. E dos três primeiros apresentamos hoje alguns excertos do que o leitor irá encontrar em Diáspora(s).

Em “Jardín Zen de Kyoto”, é possível conhecer a escrita de Rolando Sánchez Mejías, que hoje reside em Barcelona e é autor de narrativas e antologias poéticas.  Seu trabalho já foi publicado em países como Espanha, Cuba, Alemanha, Estados Unidos, Suíça e República Checa. Em 1993 e 1994 ganhou o Premio Nacional de la Crítica .

Alrededor del jardín

Trecho de “Jardín Zen de Kyoto”, traduzido para o português como “Jardim Zen de Kyoto” por Ellen Maria Vasconcellos,

Já em “Vater Pound”, conhecemos a atmosfera literária de Rogelio Saunders, poeta, narrador e ensaísta, que também reside em Barcelona e ganhou o prêmio de Poesia Luis Rogelio Noguera com a plaquette “Observaciones”.

Vater Pound

Trecho de “Vater Pound”, traduzido por Clarisse Lyra.

E, em “Los Tuberculosos”, é possível perceber as marcas de vanguarda em Ricardo Alberto Pérez, poeta e ensaísta, que nasceu e reside em Havana. Autor de muitas publicações, o escritor foi bolsista do Parlamento Internacional de Escritores e, ganhador do Premio Nacional de Poesía Nicolás Guillén, em 2007.

Los Tuberculosos

Trecho de “Los Tuberculosos”, traduzido como “Os Tuberculosos” por Caroline Costa Pereira e Liliana Marlés.

 

Os escritores Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders e Ricardo Alberto Pérez, membros do grupo Diápora(s).

Os escritores Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders e Ricardo Alberto Pérez, membros do grupo Diápora(s). Fonte: Divulgação online.

 

Na próxima semana apresentaremos os outros três poetas que compõem a antologia Diáspora(s).

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Sangria com Adélia Danielli

por: Cristiane Gomes

No início do ano conheci a poesia da potiguar Adélia Danielli na Banca Tatuí. Folheei Bruta e parei na Conceição Discos, da Thalitha, que é uma casinha paulistana, e devorei com bolo de banana, café coado e Clara Nunes na vitrola.

Entrei em contato com Adélia, a mesma que habita o livro em brutos poemas, fotos de Pedro Andrade e um lindo e singelo trabalho gráfico lindo de Themis Lima, e ela topou compartilhar o seu trabalho aqui na Sangria.

Além de Bruta, lançado em 2016 pela editora Tribo, que pode ser adquirido por R$25,00 pelo e-mail adeliadmsouza@gmail.com, Adélia participou de alguns livros coletivos, como o Por Cada Uma (2012), da editora Una.

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Foto: Adélia Danielli.

sou dessas
sou daquelas
de quem falam mal
que xingam
que chutam
as canelas
incomodo
não me calo
não me conformo
não engulo
choro voz ou
ato
desfaço o papel
que me mandaram
interpretar
respaldo
em minha liberdade
o desejo de não ser
lapidada
sou bruta
mulher pedra flor
e luta

 

eu sou o surto de Piaf
pela morte de Marcel
a angústia de Elena
e o palco para sempre
vazio
sou o desejo
do esquecimento
de uma mente sem
lembranças
a Garota Interrompida
em Paris, Texas
o amor em coma
que não despertou
As Horas de uma loba
e duas mulheres
a necessidade da escrita
o Nome Próprio
o ventilador do Palhaço
e a esperança nas
Medianeras

 

minha poesia
não tem pompa
não anda
de salto alto
não tem garbo
de difíceis
palavras
caminha
com pés
descalços
desce
ladeira abaixo
cantando
assanhada e suada
não desfila
elegante
pelas calçadas
tem perfume delicado
mas por vezes que
entranha
invade, corta
e sangra sem
a menor cerimônia

 

Oficina de Confecção de Livros Cartoneros (24/08) durante a VI Jornada da Pós-Graduação em Espanhol (FFLCH/USP)

Nos próximos dias 22 a 25 de agosto de 2017, acontecerá a VI Jornada do Programa de Pós-graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Universidade de São Paulo. Nesse ano, estaremos presentes não só com a nossa já tradicional banquinha de venda de livros durante o evento, mas também com uma oficina de produção de livros cartoneros, a ser realizada no dia 24 de agosto, no período da tarde, das 14h00 às 16h30, na sala 263 do prédio de Letras.

Convidamos a todos os interessados na Malha Fina, no mundo cartonero e na edição de livros a participarem da oficina, que será ministrada por Pacelli Dias Alves de Sousa, Chayenne Mubarack e Larissa Pavoni. Durante esta tarde, será tratado não só sobre o catálogo e a produção da Malha Fina, mas também os modos de confecção dos livros cartoneros. As edições cartoneras já são parte da cultura latino-americana, assim, a presença do nosso projeto nesse evento é de grande interesse, não só para aqueles que já o conhecem, mas para interessados na cultura de nuestra América de modo geral.

Saiba mais informações sobre a Jornada na página do Facebook do evento: https://www.facebook.com/jornadasespanholfflch/. Por ali é possível encontrar a programação completa, que inclui além de mesas sobre temas variados, uma homenagem a Juan Rulfo, outras oficinas e um Sarau, na sexta-feira (25), no Centro Cultural Butantã.

Não esqueça de confirmar presença no evento!

https://www.facebook.com/events/1976348965912174/

mALHA FINA CARTONERA CONVIDA