Oficina em Sambade, município de Alfândega da Fé.

Portugal: a arte dos encontros inesperados

por: Tatiana Lima Faria

Em julho de 2017 a Malha Fina Cartonera realizou oficinas em 3 municípios de Portugal pertencentes à região de Trás-os-montes: Alfândega da Fé, Macedo de Cavaleiros e Mirandela, nas quais foram publicados os inéditos Todo o silêncio, do escritor português José Luís Peixoto, Ficções, do brasileiro Bernardo Carvalho e O que é ser criança, da autora transmontana que assina sob o pseudônimo de Nisa Paula.

O tour MFC por Portugal revelou-se, posteriormente, como uma experiência extra-literária, praticamente um pastiche de Don Quijote, de Miguel de Cervantes, e da Ilustre casa de Ramires, de Eça de Queirós. Em meados de 2016, uma senhora chamada Maria do Carmo, que assina sob o pseudônimo de Nisa Paula, entrou em contato conosco através das redes sociais convidando-nos para realizar oficinas em dita região. Mostramo-nos solícitos, como normalmente fazemos com todos os convites que recebemos, e iniciamos uma troca de e-mails.

Nisa Paula apresentou-se como membro de uma academia de escritores portuguesa e coordenadora de vários projetos culturais e educativos na região de Trás-os-montes. Na ocasião, ela nos propôs que realizássemos oficinas no princípio de julho, cujo intuito seria ensinar jovens e educadores da região a confeccionarem livros cartoneros para que, futuramente, se viabilizasse uma editora cartonera em Portugal em coparceria com a nossa, como já ocorre com a Mariposa Cartonera, no Recife, a La Sofía Cartonera em Córdoba, Argentina, e YIYI Jambo Cartonera, em Ponta Porã. As despesas com a passagem eram nossas, e ela nos garantia hospedagem, alimentação e o material para a confecção dos livros durante as oficinas.

Em fevereiro de 2017 chega-nos uma carta do gabinete de Macedo de Cavaleiros, município de Portugal, assinada pelo vereador em tempo inteiro José Luís Gonçalves Tomé Afonso, convidando-nos para realizar três oficinas na Biblioteca Municipal da prefeitura. O caráter oficial da carta, somada às garantias de custeio das despesas com a estadia e alimentação, garantidas por Maria Carmo, o ânimo e seriedade com que ela se referia à realização das oficinas e apresentava-se nos e-mails, somadas à possibilidade de cooperar com a fundação de uma editora cartonera em Portugal, pareceu-nos suficientemente instigantes para que aceitássemos o convite, mesmo que isso demandasse investimento pessoal, tanto de tempo, quanto de dinheiro.

Durante abril, maio e junho trabalhamos na elaboração do projeto e decidimos que publicaríamos um autor brasileiro e um português de reconhecido renome cujas obras dialogassem não tanto em sua temática ou estilo, mas sim nas similitudes de sua circulação antes da edição confeccionada pela Malha Fina Cartonera. Foi por isso que escolhemos os textos de Bernardo Carvalho e José Luís Peixoto, inéditos em livro, e que anteriormente circularam em sessões de jornais do Brasil e de Portugal, gentilmente cedidos pelos autores após várias trocas de e-mails e conversas.

O intuito da seleção e concepção dos livros era demonstrar como os processos editoriais eram importantes para a materialização de uma obra literária, já que eram os responsáveis pela transformação de textos esparsos em livros. O projeto gráfico concebido por Iara de Camargo tinha como intuito valorizar tais aspectos. Iara deu ao livro de Peixoto um ar mais sóbrio, optando por fontes clássicas e design sóbrio, aspectos que dialogam diretamente com a temática da obra: crônicas biográficas de vários períodos da vida do autor. Já para o design de Ficções, optou-se por um design mais audacioso, como nota-se nas tipografias utilizadas e em outras opções da designer, como deixar os números das páginas duplas conjuntamente. Tais aspectos foram escolhidos também devido à temática dos contos, que busca aprofundar questões envolvendo os limites entre ficção e biografia. Para incrementar o projeto de circulação da Malha Fina em Portugal, foi decidido publicar, também, um autor transmontano, com o intuito de valorizar os autores locais e de enriquecer e estimular o intercâmbio cultural. Como havia pouco tempo para uma pesquisa mais extensa, optamos por publicar alguns textos de teatro infantil da própria Nisa Paula e para isso convidamos a designer cubana Yanet Ramirez Batista, que ilustrou todo o livro.

Todo o projeto editorial foi discutido e debatido entre todos os envolvidos e feito com muita seriedade e gratuitamente por todos, desde os autores, que cederam seus direitos, às editoras e designeres, como tudo que é feito pela Malha Fina Cartonera, já que se trata de um projeto universitário sem fins lucrativos, cujo intuito principal é publicar autores pouco conhecidos no Brasil, ou ainda inéditos, problematizando as instâncias editoriais como as epitextuais, ou seja, a circulação, o enquadramento em coleções e projetos, e os paratextuais através dos textos incluídos na edição, para além da própria obra literária, assim como o próprio design do livro.

Apresentamos as propostas para Nisa Paula que sempre concordava com tudo e achava tudo excelente, porém, parece que nunca chegou a abrir os PDFs com os bonecos dos livros, pois, quando chegamos à região haviam diversos erros na ficha técnica e colofão do livro que nem se quer tivemos a oportunidade de concertar. Já em meados de maio, soubemos que outras prefeituras se somaram em nosso itinerário e realizaríamos oficinas em Mirandela e Alfândega da Fé.

No dia 26 de junho chego, então, a Portugal e Nisa Paula e sua filha esperam-me no aeroporto do Porto. Ao chegar à região de Trás-os-montes, descubro que ficaria hospedada na casa de Nisa Paula, em Rio Torto, uma aldeia de poucos habitantes e sem transporte público para nenhuma das cidades vizinhas. Ela vivia num imponente Solar do século XVIII e quando chego à sua residência sou informada de que se trata de seu feudo e de que ela era uma fidalga. Na hora, confesso que achei graça no comentário e pensei que era a forma portuguesa de dizer que ela pertencia à uma família que deve ter tido muito dinheiro e bens. Fui encaminhada ao meu quarto, extremamente confortável.

Nos três primeiros dias fiz as visitas técnicas aos espaços para conferir se o material foi corretamente comprado e para entregar os arquivos para a impressão. Aparentemente, tudo estava organizado, com algumas poucas exceções devido aos ruídos de comunicação entre falantes do português brasileiro (PB) e o português de Portugal (PP), somados, talvez, a um pouco de desconhecimento do Google. Um desses momentos foi quando a diretora da Biblioteca de Macedo de Cavaleiros, que certamente não entendeu o que era uma forma de vidro de 15 cm X 21 cm, me perguntou se eu pretendia fazer um bolo na oficina, já que pedia forma de vidro. Expliquei-lhe, então, o que era uma forma em PB e ela, tão amavelmente, ensinou-me que aquilo não era uma forma, mas sim um molde, já que as formas eram para os bolos. Porém, ademais desses pequenos problemas, todos os espaços garantiram-me que haveria público para os eventos e que seriam, em sua maioria, crianças alfabetizadas, jovens e adultos, como exposto na carta oficinal emitida pela prefeitura de Macedo de Cavalheiros.

Oficina na Biblioteca Municipal de Macedo de Caveileiros.

Oficina na Biblioteca Municipal de Macedo de Caveileiros.

No dia 30 de junho, sexta-feira, realizamos, então, a primeira oficina na aldeia de Sambade, no município de Alfândega da Fé, para senhorinhas de mais de 70 anos! A experiência foi excelente e tudo teria valido à pena se tivesse tido o seu fim ali. Porém, quando chegaram alguns órgãos de comunicação para fazer uma pequena reportagem sobre o evento, a Nisa Paula apresentou-se como uma grande escritora e a grande responsável pelos eventos. Na entrevista, não citou os outros dois escritores, Bernardo Carvalho e José Luís Peixoto, cujos livros são excelentes e de inquestionável valor e qualidade literários, nem mesmo todo o esforço e trabalho empenhados pela Malha Fina Cartonera para que as oficinas ocorressem.

A falta de respeito e lisura com o projeto intensificou-se quando durante o almoço, que contou com a presença da prefeita da cidade. Nisa Paula disse, diante de todos, que ela era a responsável pela Malha Fina Cartonera em Portugal, coisa que tive que esclarecer que não era verdade e explicar, mais uma vez, os pormenores do nosso projeto. É fato que isso gerou-me um imenso incômodo e uma quebra total de confiança para com o projeto e comigo, o que deixou-me muito insegura para a realização dos outros 5 dias de oficina que ainda estavam por vir.

 

Oficina em Sambade, município de Alfândega da Fé.

Oficina em Sambade, município de Alfândega da Fé.

A próxima oficina ocorreu em Mirandela, no Museu Armando Teixeira. Infelizmente, situações muito semelhantes se repetiram. Porém, nesse momento, notei que eu não havia sido a única enganada, já que outras pessoas que conheci na região também se assustavam com a falta de lisura com que Maria do Carmo agia para comigo e o projeto. Após a oficina, constatei que não havia condições de continuar na casa dessa senhora e graças à ajuda de Cátia Barreira, excelente jornalista e assessora de imprensa na região, – e uma espécie de anjo da guarda nesses meus dias em Portugal –, consegui outro lugar para hospedar-me e tive todo o apoio para a realização das atividades restantes.

A saída, porém, não foi muito fácil. Quando cheguei à residência de Nisa toda a casa estava fechada e ela demorou vários minutos para abrir-me a porta, o que, confesso, deixou-me extremamente assustada e ainda mais insegura. Após informar-lhe sobre a minha saída e dizer-lhe que seguiria com as oficinas por respeito aos convites recibidos, ela iniciou com uma série de comentários de arrepiar todos os fios de cabelo do corpo. O primeiro deles é o de que ela era a minha responsável legal em Portugal, e tudo que eu fizesse era de sua responsabilidade, portanto que não autorizava a minha saída da residência. O segundo, que ela proibia a reprodução do seu livro, pela lei de direitos autorais. E, por último, garantia-me que apareceria em todas as oficinas e continuaria cumprindo o seu papel de coordenadora dos eventos. Essa última parte, certamente, a única verdade proferida por dita senhora.

Oficina no Museu Armando Teixeira.

Oficina no Museu Armando Teixeira.

Na quinta-feira, quando cheguei à Biblioteca Municipal de Macedo de Cavaleiros, assustei-me quando fui informada que a oficina seria ministrada para cerca de 20 crianças de 4 e 5 anos. Aos que não sabem, numa oficina cartonera trabalhamos com estilete, agulhas, vidro, martelo e parafusos, materiais que nas mãos de crianças nesta idade não são muito seguros. Quando mostrei o convite assinado pelo vereador da cultura, que especificava que a faixa etária para a realização das oficinas era destinada para “jovens e adultos”, infelizmente protagonizei um diálogo patético com a diretora da biblioteca que afirmava-me que crianças de 4 e 5 anos eram jovens e que estavam aptas para realizarem tais atividades, já que ela promovia, na biblioteca, leituras de Fernando Pessoa para bebês e que eles adoravam muito.

No período da tarde, a oficina contou com crianças a partir de 11 anos e outros senhores de um Lar de idosos e correu em sua devida normalidade, com exceção de Nisa Paula que esteve presente todo o tempo e durante a explicação da atividade intrometia-se com certa insistência.

Realmente impressionou-me negativamente a forma como fui tratada pelos órgãos da cultura e educação. Pareceu-me bastante imprudente emitirem, no caso de Macedo de Cavaleiros, um convite oficinal convidando um projeto universitário pertencente à Universidade de São Paulo, por intermédio de uma senhora como a Maria do Carmo, que seguramente não possui condições para desempenhar qualquer tipo de coordenação ou organização de atividades. Porém, o que mais me surpreendeu foi o fato dos órgãos envolvidos, sobretudo a prefeitura de Macedo de Cavaleiros, não ter assumido que as coisas não saíram corretamente e que o projeto e eu havíamos sido muito desrespeitados.

Certamente, os que acompanham o blog sabem que o nosso projeto faz parte do Programa de Cultura e Extensão da Universidade de São Paulo, uma das universidades mais importantes da América Latina. Todas as nossas publicações e atividades sempre são pensadas com muito cuidado e respeito e não visam, de forma alguma fins lucrativos, mas sim fomentar a circulação de obras literárias, o intercâmbio cultural e o estudo e reflexão sobre o livro e a edição.

É válido destacar que todas as ações da Malha Fina Cartonera, realizadas durante os dois anos de existência do projeto, são documentadas semanalmente em nosso blog, as que dão certo e as que não dão. E como nos foi informado que a senhora Maria do Carmo se apresentou novamente na região, após a minha volta a São Paulo, como responsável pelo selo Malha Fina Cartonera, achei por bem escrever esse relato sobre a minha experiência por lá.

Porém, por sorte, se a minha estadia profissional em Portugal foi a catástrofe que foi, a experiência pessoal, o acolhimento e a força de recebi de Cátia Barreira e seus amigos e familiares foi mais do que formidável, foram mesmo inesquecíveis. Sentia que eles sofriam, assim como eu, com tudo que me estava passando e não pouparam esforços para que eu regressasse ao Brasil com as melhores impressões da região, que realmente é maravilhosa.

Trabalhar com cultura e educação é, realmente, um trabalho árduo. Primeiro porque é sempre mal remunerado, quando não é nem mesmo remunerado. Segundo porque é um trabalho que surge dos sonhos, com pitadas bem grandes de idealização, fórmula mais que certa para a decepção, frustração e tristeza. Porém é, também, um trabalho que nos propicia tantos encontros, tantos aprendizados e tantas trocas, que, quando o fazemos com convicção, lisura e respeito, até mesmo algo se extrai de seus erros, percalços e atropelos. Pois, mesmo com os embaraços em que me meti, se me perguntarem se valeu à pena, diria mil vezes que sim! Não só pelos livros, não só pela experiência, mas sim por mais uma vez ter a certeza de que o bom mesmo nessa vida são os encontros verdadeiros que temos a oportunidade de ter, como foi, sem dúvidas, o meu com a Cátia Barreira, para mim.

Anúncios

Aquarius e Joaquim: Literatura Incendiária

por: Cristiane Gomes

Dizem que quando há condições ideais, a ficção não costuma ser muito boa. Talvez pela falta de necessidade de criar mundos possíveis, talvez pela literatura ser uma forma de revolução. Mas as palavras também servem para aprisionar: se fossem inofensivas, as religiões não teriam se apropriado da criação do verbo em suas mitologias, não precisaríamos explicar nas escolas a diferença semântica entre liberal e libertário e não teríamos uma constituição escrita para proteger a propriedade privada.

O retrocesso, que já tomou conta da política, se espraia pelas artes e pelo discurso popular. O liberalismo econômico sempre foi o único filho “revolucionário” aceito pela família brasileira. Carismático, conhecedor da técnica retórica, bem-vestido, preferencialmente homem e branco, ele não renega o dinheiro, faz alianças questionáveis e mantém bem vivo aquilo que mais mata gente no mundo: família, religião, patriotismo e militarismo.

Desta terra, onde um prefeito-alegoria se elegeu usando a alcunha de João Trabalhador – mesmo pertencendo a uma família que é dona do Brasil desde os tempos das Capitanias Hereditárias –, os guaranis são despejados depois de resistir 517 anos e na qual mantemos orgulhosos, mesmo “independentes”, a bandeira verde e amarela de Bragança e Habsburgo estampada com um lema positivista francês do qual o amor foi extirpado, eu escrevo sobre dois lançamentos de um selo editorial do Recife, que nessas condições nada ideais em que vivemos, traz boa literatura.

A Mariposa Cartonera, uma resistência literária independente, lançou, em 22 de setembro de 2017, dois livros-irmãos: Aquarius e Joaquim. As antologias de contos organizadas por Wellington de Melo têm como disparador o nome de duas personagens cinematográficas: Clara, protagonista de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e o mártir e bode expiatório da inconfidência, Joaquim José da Silva Xavier, retratado no filme Joaquim de Marcelo Gomes.

Em um caminho inverso ao convencional, a literatura se alimenta do cinema desses dois cineastas pernambucanos. Alguns contos apresentados nos livros, não sei se por estímulo ou fruto do estado de exceção que vivemos no Brasil, além dos nomes Clara e Joaquim trazem outras semelhanças: violência e opressão.

Este slideshow necessita de JavaScript.

As Claras

O conto que abre Aquarius é “A versão de Talitas, de José Luiz Passos. A Clara de José Luiz não tem cara, é apenas uma figurante, uma aluna com a qual o escritor e professor, narrador-personagem, tem um breve caso. O protagonista, sem nome, mas que poderia chamar-se José, tem seu livro adaptado para o cinema por um cineasta norte americano. A obra adaptada é o Sonâmbulo Amador, livro do próprio Passos, que também aparece nas mãos da personagem Clara, do filme Aquarius, inspiração da antologia.

Nesse jogo de aproximação entre real e ficcional, muito em voga na literatura contemporânea e que causa uma certa confusão nos leitores, um outro expoente nacional é o Ricardo Lísias, também presente na antologia com o conto “Sem Movimentos Bruscos. No conto de Lísias, o narrador-personagem também é um autor de ficção ligado à universidade. Durante uma viagem de ônibus nos Estados Unidos conhece Claire, professora da Penn State. Seu desdém inicial pela senhora transforma-se em interesse na tentativa de apropriar-se da história dessa mulher para sua ficção.

Em “Saio não senhor”, de Maria Valéria Rezende, Clara é uma personagem que resolve se rebelar contra as falsas promessas dos políticos de sua pequena cidade, uma mulher que resolve dizer não e consegue o apoio das outras mulheres na sua causa. As pedras e os populares comparados a formigas evocam as fábulas gregas.

Em o “Caso da tartaruga”, de Nivaldo Tenório, a história de Maria Clara sai da boca do marido. Morta, mesmo quando viva. Traumatizada pela tortura na ditadura, Clara não fala, tem câncer e é comparada a uma enorme tartaruga morta na praia.

Sidney Rocha, em “Clara e Carmelita”, narra a história de duas amigas bem-nascidas, filhas de um embaixador e de um militar, que em algum momento do Golpe de Estado no Chile sofrem um revés.

IMG_3559

Aquarius. Foto: Mariposa Cartonera.

Os Joaquins

“Jogue a sua cabeça no telhado das casas mais pobres. Jogue sua cabeça para que os cachorros mais sujos lambam o seu rosto. Dê os seus olhos de comer aos pássaros mais famintos. Dê a sua língua aos insetos mais solitárias. Seus ouvidos servirão de casa para as lesmas mais vagarosas. Em “21 instruções para se chamar Joaquim”, Bernardo Brayner faz uma lista-manifesto que não deve ser cumprida.

Em a “República dos Quincas”, José Luiz Passos retoma os Joaquins revolucionários e deixa uma frase aos próximos Joaquins: “Se a morte do tirano é o preço da felicidade pátria, que razão haverá para que se desampare o bem da República?”.

No conto “Joaquim”, Maria Valéria Rezende cria uma personagem duplamente revolucionária, é Joaquim e Maria: “Uma mulher. Não pude deter o jorro de sangue a manchar e escorrer pelo couro da sela e por entre as pernas de meu calção que já fora branco”. A descoberta da sua identidade define seu destino, mas ela deixa uma importante mensagem carregada da força da linguagem de Maria Valéria: “Ninguém pode senão pela violência extrema tolher a liberdade de meus pensamentos e calar minhas palavras que usarei até o fim para dizer o quanto vos desprezo que não sois mais que escória humana revestida de rendas veludo e seda recheada da gordura mal cheirosa com que vos empanturrais, sujo e nojento tanto que, por mais que vos chamem ouvidor ou governador ou oficial ou seja lá o que for que vos chamem, se não me calarem à força eu vos insultarei sem cessar e escarrarei em vossa carant”.

Em “O osso escafóide de Joaquim”, escrito por Ronaldo Correia de Brito, Joaquim é um herói brasileiro. Tem 35 anos, filho bastardo do patrão com a empregada, esse sujeito que com sua ética própria se nega a buscar amparo na família paterna, se desgraça em enchentes, pobreza, cárcere, pequenos crimes e cria a ficção na sua própria vida performática, onde ele poderia ser tudo, mas não é nada.

Sidney Rocha, em seu “A alva”, se apropria da história de Frei Caneca, o Joaquim do Amor Divino Rabelo, religioso, jornalista, gramático, pensador, opositor do governo central conservador, “escritor de papéis incendiários” e um dos principais líderes da Revolução Pernambucana, que foi fuzilado pela comissão militar e faz dele o próprio Homem Vitruviano: “Um homem de braços abertos mede um homem de altura por um homem de largura. Era a medida geométrica certa que encontrara para abraçar as balas e o mundo”.

Quem quiser adquirir Aquarius e Joaquim deve acessar o site da Mariposa Cartonera.

IMG_3561

Joaquim. Foto: Mariposa Cartonera.

 

Feira SUB: Projetos Independentes em Ação

por: Chayenne Orru Mubarack e Pacelli Dias Alves de Sousa

Chegamos na Feira SUB às 9h30, precisamente na Biblioteca Pública Municipal “Professor Ernesto Manoel Zink”, no centro de Campinas. O espaço era grande e contava com um enorme jardim em frente à biblioteca, o qual posteriormente seria ocupado por food trucks, discotecagem e jovens frequentadores, conhecedores ou curiosos da cena editorial independente. Na parte de dentro, a área da biblioteca reservada à feira ocupava dois salões. O primeiro, com o estande dos organizadores da Feira e alguns selos editoriais. O segundo, maior, preenchido com quatro enormes fileiras de mesas, cada uma compartilhada por dois expositores. Esse era o cenário que nos aguardava no sábado, 16 de setembro.

Nos assignaram a mesa 42. Do nosso lado esquerdo, estava a editora L-Dopa, projeto curitibano voltado à publicação especialmente de livros anarquistas e libertários, nos quais se englobam também as obras de seu fundador, Nils Skare. Do lado direito, a editora Incompleta, com sua interessante revista Puñado, dedicada à publicação da literatura de mulheres latino-americanas e que já conta com textos de Elena Poniatowska, Mayra Santos-Febres, Lina Meruane e Inés Fernández Moreno.

Mesa da Malha Fina e companheiros de jornada

Mesa da Malha Fina e companheiros de jornada. Foto: Chayenne Mubarack e Pacelli Dias.

A Feira começou às 11 horas. Os expositores provinham de diversas partes do Brasil e trabalhavam não só com livros, mas também com pinturas, pôsteres, desenhos, camisetas, cartões postais, ecobags e qualquer outro material que possa integrar a categoria de artes visuais impressas. A proposta de colocar esse nicho junto com editoras é muito interessante porque não nos categoriza pelo objeto que produzimos em si (como o livro, no caso da Malha Fina) mas pela maneira artística com que ele é produzido, bem como pela lógica independente.

Feira Sub

Cartaz de divulgação da Feira SUB.

A Feira, obviamente, lotou. Pessoas de distintas cidades passavam por nossa mesa, conversavam conosco, se interessavam pelo projeto. Muitas perguntas surgiam: “vocês fazem mesmo todo o processo?”, “como selecionam o catálogo?”, “quem pensa o projeto das capas?”, “é muito trabalhoso confeccionar uma a uma?”. O formato cartonero segue intrigando o público por sua unicidade e autogestão. Além dessas perguntas, também fomos interpelados por jovens fascinados, que passavam minutos contemplando nossas capas, individualmente, sem perguntar nada, apenas observando e sorrindo. O formato cartonero fascina.

O Coletivo Dulcineia Catadora também estava por lá. A cartonera idealizada por Lúcia Rosa, cujo stand estava no primeiro espaço da biblioteca, separado de nós, que estávamos na segunda parte, também representava esse formato. Muitos visitantes comentavam que haviam se deparado com o projeto dela e ficaram igualmente encantados.

Foto do primeiro salão da Feira SUB

Primeiro salão da Feira SUB. Foto: Chayenne Mubarack e Pacelli Dias.

Segundo salão da Feira SUB

Segundo salão da Feira SUB. Foto: Chayenne Mubarack e Pacelli Dias.

Somado aos expositores, o evento também contou com palestras, oficinas e lançamentos. A programação não se restringiu ao dia 16 e os eventos relacionados à SUB ultrapassaram a data da feira em si. Quanto aos lançamentos, a Malha Fina debutou seu novo livro, a antologia Diáspora(s), cuja resenha você pode ler aqui.

Expositores da Feira SUB

Expositores da Feira SUB. Foto: Chayenne Mubarack e Pacelli Dias.

Para quem afirma categoricamente que o livro morreu, somos obrigados a discordar. Esses espaços nos fortalecem e nos dão vontade de seguir em frente. Ao conversarmos com outros selos editoriais e artistas, vemos que o tipo de livro que fazemos, o que acreditamos e temos como concepção para este objeto, se afirma cada vez mais. A lotação da feira também nos faz acreditar que estamos no caminho certo. Avante!

Este slideshow necessita de JavaScript.

Retrospectiva Malha Fina Cartonera – 1º semestre/2017

por: Cristiane Gomes, Larissa Pavoni Rodrigues,
Mariana Costa Mendes e Pacelli Dias Alves de Sousa

Olhar para trás é essencial para construir o futuro. Nós, da Malha Fina Cartonera, ao final de cada semestre realizamos uma retrospectiva dos nossos passos. Passe um café e acompanhe nossa trajetória nesse primeiro semestre de 2017.

Além da produção dos livros, participamos de alguns eventos literários e editoriais. Começamos o ano no espaço La Marca, em Havana (Cuba), onde exibimos as vídeo-performances do poeta e ensaísta cubano Omar Perez, editadas por João Krefer, que podem ser conferidas na playlist do nosso canal no Youtube. Um relato desse momento pode ser acessado em “‘Cajón em São Paulo’: uma experiência habanera”, escrito por Tatiana Faria e Idalia Morejón Arnaiz. A performance foi gravada em São Paulo, em junho de 2016, no Estúdio Lâmina. Os poemas apresentados por Omar farão parte de Cubanologia, antologia a ser lançada ainda esse ano, como parte de uma coleção voltada para a poesia e performance.

Em São Paulo, nos dias 24 e 25 de março, participamos da Desvairada – Feira de livros de Poesia de São Paulo, no espaço Aldeia 445. O evento organizado por Marília Garcia, Fabiano Calixto, Leonardo Gandolfi e Tiago Marchesano contava com uma diversificada programação que abrangia mesas de debate, leituras de poemas, oficinas, concurso de vídeo-poemas, performances e atividades para crianças.

Nós, da Malha Fina, além de comercializarmos nossos livros, ministramos uma oficina cartonera, que abordou desde a edição de livros artesanais até a construção de um catálogo. A coordenadora do projeto, Tatiana Faria, os monitores Larissa Pavoni e Pacelli Dias, e a designer gráfica Iara Pierro de Camargo falaram sobre as várias etapas do fazer cartonero. O público, formado principalmente por pessoas ligadas ao universo editorial, compartilhou conosco suas experiências e sugestões. Em Uma Desvairada Coletiva & Independente, matéria escrita pela Larissa Pavoni Rodrigues, você pode conferir mais como foi a Feira.

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

Ainda na Desvairada, com o objetivo de colaborar com a difusão do trabalho das editoras independentes, Caroline Pereira Costa gravou e Mariana Costa Mendes editou uma série de vídeos com os responsáveis pelas editoras presentes. Esses vídeos podem ser acessados no nosso canal no Youtube. Chayenne Orru Mubarack e Pacelli Dias Alves de Sousa escreveram sobre esse material, clique aqui para conferir.

Já em maio, no dia 18, lançamos dois livros de poemas no evento Chama(da) Cartonera, realizado no auditório do prédio de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Mauro Augusto de Souza, estudante de filosofia, e Elvio Fernandes Gonçalves Junior, estudante de Letras/Linguística, vencedores da nossa primeira convocatória (2015-2016), publicaram seus primeiros livros de poesia: Crisântemo é um nome bom e O coração em si, respectivamente. Na reportagem Chama(da) Cartonera, de Larissa Pavoni Rodrigues e Bruno Fernandes, você pode conferir esse evento e para conhecer o trabalho dos autores acesse as entrevistas feita por Aryanna Oliveira: “Inspirações para O Coração em si: Entrevista com Elvio Fernandes Gonçalves Junior” e “Sobre a grandeza das pequenas coisas: nas entrelinhas de Crisântemo é um nome bom, de Mauro Souza”. Está disponível também uma resenha de “O coração em si de Elvio Fernandes“, escrita por Gonzalo Dávila.

Durante o lançamento, a professora Idalia Morejón Arnaiz, diretora da Malha Fina, divulgou a Segunda Convocatória de Narrativa e Poesia. Dessa vez contamos com a parceria da Unifesp e tanto os estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), quanto os da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) podem se inscrever e dois alunos(as) de cada faculdade serão publicados pela Malha Fina Cartonera. Confira aqui a Segunda Convocatória de Narrativa e Poesia e inscreva-se, ou convide seu amigo escritor a participar.

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

A Macrofonia é um encontro mensal de poesia, som e imagem ao vivo, realizado no espaço cultural Casa da Luz, no centro de São Paulo. O núcleo conta com a formação de quatro artistas: Reuben da Rocha (ou cavaloDADA ou Reubendê), Jeanne Callegari, Raul Costa Duarte e Guilherme Pinkalsky (Pink). Estivemos presentes em duas datas, a primeira no dia 26 de abril e a segunda, no dia 31 de maio, rendeu uma postagem escrita por Bruno Alexandre Fernandes, que pode ser acessada aqui. A Malha Fina estará presente na edição de junho da Macrofonia, que acontece hoje, 28. Confira o evento.

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

Ainda em junho participamos da I Feira de Edições Independentes da Letras/USP, realizada entre os dias 5 e 8, e do evento Escrita e separação: uma jornada. No dia 6, na Feira da Letras, os autores Elvio Fernandes Gonçalves Junior e Mauro Souza participaram da mesa “Conversa com Autores” juntamente com escritores da Editora Patuá e escritores independentes. Confira um trechinho do evento clicando aqui. Por fim, no dia 17 de junho estivemos no evento Escrita e separação: uma jornada, na Casa Tombada, em Perdizes, e a programação incluiu oficinas, leitura de poemas e performances.

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

Neste semestre, mais uma vez, o blog mostrou-se uma ferramenta importante de divulgação, não só dos eventos organizados ou nos quais a Malha Fina foi convidada, mas também de questões relativas ao universo das editoras independentes e ao fazer cartonero. Começamos as publicações com uma entrevista com a precursora do movimento cartonero no Brasil: Lúcia Rosa, do Coletivo Dulcineia Catadora, que este ano completa 10 anos de atividade no centro de São Paulo, em conjunto com a Cooperglicério. O catálogo da Dulcineia Catadora conta com 114 títulos publicados, além de um sólido trabalho de divulgação do saber cartonero através de oficinas. Leia a entrevista feita por Cristiane Gomes clicando aqui.

No “Passo a passo cartonero da Malha Fina”, detalhamos todo o nosso processo de produção de livros, com a descrição dos modos de fazer e uma lista dos materiais necessários. Os vídeos demonstrativos foram produzidos por Júlia Izumino e Larissa Pavoni, a edição ficou por conta de Mariana Costa Mendes. Esperamos que o Passo a Passo seja um convite para impulsionar a prática cartonera. Clique aqui para conferir o post; abaixo você pode conferir os vídeos:

Na última semana de maio lançamos Sangria, uma nova seção do blog que objetiva a divulgação de novos autores. Segundo o editorial: “Não nos alimentamos de cadáveres, brindamos à literatura com sangue morno e vinho doce”. A poeta Ellen Juanini, paulista de 28 anos, foi a primeira a ser publicada pela seção. Você pode ler a entrevista e os poemas da Ellen clicando aqui. Em 21 de junho publicamos La Chica del Barrio, do poeta, dramaturgo e ator equato-guineense Recaredo Silebo Boturu, inédito no Brasil. O conto pode ser lido aqui. Comandada por Cristiane Gomes, a Sangria está buscando divulgar novos autores. Caso queira ver seu trabalho nesta seção do blog da Malha Fina, envie pelo menos 3 (três) poemas ou uma narrativa curta e uma breve biografia para o e-mail crix.gomes@gmail.com.

Por fim, gostaríamos de lembrar da resenha feita por Pacelli Dias Alves de Sousa da coleção Traiciones cartoneras, editada pela La Sofia Cartonera, de Córdoba (Argentina). Composta até o momento por oito livros, a coleção traz à luz textos de autores já pertencentes ao domínio público em novas e cuidadas traduções. Confira a resenha clicando aqui. Recordamos também a tradução da crônica “A cidade e o bosque”, de Edgardo Rodríguez Juliá, também realizada por Pacelli Dias Alves de Sousa em conjunto com Chayenne Orru Mubarack. O autor portorriquenho, inédito no Brasil, é um dos expoentes da crônica na América Latina e esta é a sua primeira tradução no Brasil.

A Malha Fina termina o primeiro semestre com oficinas cartoneras em Portugal, ministradas por Tatiana Faria que você poderá acompanhar no blog em meados de julho. Para o segundo semestre continuaremos a expandir nosso catálogo com o lançamento de novas antologias de poesia, além de outras atividades.

Fechando essa retrospectiva, gostaríamos de agradecer a todos que contribuíram com a Malha Fina Cartonera neste primeiro semestre de 2017, lendo as matérias do blog, divulgando, comprando nossos livros, concedendo entrevistas ou ainda através de convites para eventos. O apoio de vocês têm sido fundamental para o andamento de nossos trabalhos. Um abraço cartonero, nos vemos em breve!

Palavra, som e imagem

por: Bruno Alexandre Fernandes

Segunda edição de Macrofonia reuniu artistas e editoras independentes em noite de poesia no espaço cultural Casa da Luz.

macrofonia

Cartaz do evento Macrofonia: edição de som palavra e imagem

Na noite de 31 de maio, quarta-feira, aconteceu a segunda edição do evento Macrofonia, encontro mensal de poesia, som e imagem ao vivo, realizado no espaço cultural Casa da Luz. Localizada na Rua Mauá, a casa de cultura, com o objetivo de expandir suas atividades, abriu um edital para projetos culturais no fim do ano passado, no qual, Macrofonia foi contemplado com o projeto de residência artística, incluindo a participação de editoras independentes.

O núcleo conta com a formação de quatro artistas: Reuben da Rocha (ou cavaloDADA ou Reubendê), poeta, artista visual e crítico brasileiro; Jeanne Callegari, poeta e jornalista; Raul Costa Duarte, músico e residente na Casa da Luz; e, Guilherme Pinkalsky (vulgo Pink), o poeta visual responsável pelo livepainting das performances.

A noite na Casa começou às sete horas, quando as editoras independentes que foram convidadas para integrar o evento começaram a dispor seus livros sobre as mesas iluminadas; dentre elas estavam a Malha Fina Cartonera, convidada pela segunda vez e convicta do Macrofonia, levou seus novos lançamentos: O coração em si, de Elvio Fernandes Gonçalves Junior e Crisântemo é um nome bom, de Mauro Souza.

19179638_10211473103976641_1891643174_o

Equipe Malha Fina Cartonera: Caroline, Idalia, Miqueias, Chayenne e Bruno.

A editora Luna Parque também estava presente com o lançamento do autor estadunidense Frank O’ Hara (Meu coração está no bolso) e, por último, a editora Córrego, com destaque para uma edição do livro A verdadeira história do século 20, de autoria do poeta Claudio Willer.

 

Palavra incorporada

Passadas duas horas desse primeiro encontro em que os convidados puderam conversar com as editoras, trocar informações, conhecer os projetos, começou a apresentação de Reuben da Rocha, assinalada pelo próprio como dub poetry lo-fi índio futurista a quatro mãos comigo mesmo. Tudo isso em um ritmo que assimila tanto a herança de trabalho de spoken word com os ritmos inseridos pela própria voz do autor, criando ecos, repetições e estilizações da palavra falada: “É esse lugar intermídia da poesia, em que a palavra é um objeto intermídia em si”, comenta Rocha.

Reuben

cavaloDADA ou reubendê ou Reuben da Rocha. Fonte: Youtube.

A ideia começou com o diálogo entre as pesquisas de cada artista, iniciado no primeiro semestre do ano passado sob o nome de Botões, que seria apresentado na casa Mário de Andrade, mas que não ocorreu. Foi nesse ambiente que Jeanne Callegari, que já conhecia Raul Costa Duarte, se encontra com Guilherme Pinkalsky, através de seu trabalho de projeção livepainting, dando início ao projeto que seria enviado, pelo processo de abertura de edital, na Casa da luz, no final do ano de 2015.

Em cada edição, além do núcleo que organiza a curadoria, convidados que estão de passagem por São Paulo participam desse processo. “Os convidados vão variando. Na primeira edição foi a Bruna Beber e Gustavo Gallo, hoje foi o Dimitri Rebello que está de passagem pela cidade”, comenta Callegari. E complementa acerca do processo de criação: “Agora eu penso em compor pensando nisso. Mas também pego poemas dos meus livros quando nem pensava nessa forma de apresentação”.

Com a projeção de Pinkalsky e a música de Raul, as apresentações ampliam o seu diálogo. Na primeira edição a projeção foi feita com a imagem de uma revista Veja sendo derretida em solvente Thinner. “Tive que desenvolver uma série de coisas para mudar o fluxo, aí desenvolvi uma série de brinquedos para dialogar com o que acontecia no palco”, complementa Pinkalsky, que realiza há tempos esse trabalho de projeção, inclusive, em saraus, como o Dinossarau de Érica Alves.

Rocha acredita que o lugar da poesia se ampliou, desde o aumento dos slams de poesia pelos bairros da cidade, às formas de conceber no contexto atual a situação da palavra, do suporte do livro ao seu uso, suas formas de ação e suas manifestações em diferentes setores. Inclusive com participação de editoras independentes que redimensionam a própria forma de se divulgar e descentralizar a produção de autores que, muitas vezes, encontram dificuldades em divulgar seu trabalho com editoras já consolidadas no mercado literário.

A próxima edição de Macrofonia ocorre nesse mês no dia 28 de junho. Então se prepare, não deixe de participar com a voz e os ouvidos, e lembrar que a poesia é feita de carne e osso, por pessoas com biografias específicas em um contexto singular.

Para mais informações, a página da Casa da Luz se encontra aqui.