Rosarinos, paulistas, cartoneros e orientalistas

por Idalia Morejón Arnaiz

Finalmente, a Malha Fina Cartonera concretiza seu desejo de produzir as capas de um livro em colaboração com um artista que, além de dançar, dirigir filmes, ser ator, praticar parkour, fazer boxe, desenvolver uma marca de roupa urbana, também borda, pinta, desenha, recorta papelão, faz fotos, vídeos, escuta música, lê contos de Robert Walser, prepara canelones, fala sem parar, vai até o Parque da Água Branca para olhar os cavalos, volta e continua trabalhando.

Darío Ares chegou da cidade de Rosário, Argentina, num domingo ao meio-dia, e logo começamos a trabalhar. Ele vinha com várias maquetes de capas já prontas, com tecidos de seda doados pela tradicional loja de cortinas e tapeçaria De Levie. Ele vinha também com um repertório de imagens para selecionar e fazer os bordados, assim como com a proposta de uma paleta de cores. E, ainda, nos presenteou com a colaboração da artista portenha Marga Steinwasser, quem enviou sua própria proposta para decorar as capas, adicionando apliques de papel dourado e preto, costurados com linha de seda, ou colados.

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Capa de Marga Steinwasser.

Durante dez dias, desenhamos e bordamos nas amostras de seda, além de confeccionamos as primeiras 30 capas da antologia de poesia cubana orientalista, Caribe Oriental, que lançaremos no primeiro semestre de 2018.

Terminamos por pensar uma parte dessa produção como uma “edição de autor”. Trata-se das capas em que o artista argentino trabalha com papel de seda, tinta da china, ou improvisa colagens com os materiais e as imagens que foram aparecendo nesses dias. Assim, Goku e Chun-Li, as personagens da série infantil Dragon Ball-Z, surgem do mural do escritório da USP, no qual foram desenhados há mais de um ano por uma funcionária, para terminar como figurinhas pop numa capa cartonera. Quanto às capas com papel de seda, aprendemos a pesquisar as propriedades do material, suas possibilidades, antes de decidir o que pode ser feito. Também aprendemos a trabalhar com a técnica serigráfica, que utilizamos para fazer os primeiros testes de impressão do título Caribe Oriental, e de alguns desenhos realizados pelo próprio Darío.

Abaixo você pode conferir como foi a experiência dos monitores e colaboradores da Malha Fina Cartonera ao se deparar com novas técnicas para a confecção de livros cartoneros.

“A oficina se dividiu entre o bordado e a serigrafia, duas técnicas novas para a Malha Fina. Ambas cultivando a precisão e a suavidade de traços, distinto ao que produzimos até agora. Foi um momento de aprimoramento enriquecedor.”

Pacelli Dias

“A oficina significou um aprofundamento nos conhecimentos das artes gráficas em geral. A chance de acompanhar um artista como Darío Ares, envolvido com tantos projetos interessantes na Argentina, nos ensinando e nos inspirando foi muito marcante. A meu ver, a diferença entre o olhar de um artista e de um “mero observador” é que, para o artista, qualquer risco pode ser arte, e de fato o é. Darío desenvolveu capas baseadas em diferentes técnicas artísticas, como o bordado, a pintura, a colagem e a serigrafia, sempre mobilizando algo do cotidiano. No meu caso, aproveitei a oportunidade para adentrar as possibilidades que a serigrafia pode oferecer e estou muito animada para ver os resultados desse projeto.”

Chayenne Mubarack

“Tela e tinta, tecido e linha, o desenho é como a visão de um rosto à porta ali à espera de quem atende. Darío mostrou seu encanto com a serigrafia, traquejos, trabalhos, experimentos e possibilidades. A tinta passa pela fresta que encontra. E o papel aceita. Já o bordado tem seu próprio tempo, um silogismo bem trançado sobre o traço de suporte que a linha vai seguindo. Nunca havia feito um bordado, o primeiro saiu com as indicações de Idalia e Larissa, ótimas! Meu bordado, assim, assim… Mas ficou o gosto pela coisa. Esperando pra ver essas peças estampando poesia!”

César Vicente

“Fazer parte da Malha Fina Cartonera é sempre estar em contato com novidades surpreendentes. No último encontro que tivemos com Darío Ares, dia 2 de novembro, durante sua curta (e super produtiva) passagem por São Paulo, fizemos uma oficina de serigrafia, bordado, colagem e outros temas artísticos que surgem tão natural e facilmente na criatividade de um multiartista como ele o é. A tarde passou rápido, tive contato pela primeira vez com a serigrafia e posso dizer que saí dali ainda mais confiante e satisfeita com nosso novo projeto de capas e livros cartoneros, uma guinada ao novo e à novas cores e modos de fazer. Com certeza nos trará muitos frutos pela frente.”

Larissa Pavoni

“A quinta-feira de feriado foi um dia em que aconteceu um reencontro muito especial. Foi muito bom poder descobrir uma nova técnica para aplicar na confecção de um livro cartonero. Desta vez, por intermédio de Darío Ares, comecemos a arte de bordar. Bordados estes que serão utilizados nas capas da antologia “Caribe Oriental”. Ao aprender a bordar, percebi que erros podem acontecer, mas podem ser facilmente corrigidos e não necessariamente se tornarão uma eterna cicatriz.
Além do bordado, também aprendemos a arte da serigrafia. Desta vez, a Chay foi a grande insegnante (professora) nesta técnica que também utilizaremos na coleção “Caribe Oriental”. Por fim, foi uma tarde também de muita comilança e vários dedinhos de prosa num portunhol (espanhol dos outros, português meu) que estava com saudades de ouvir.
E é isso! Muitas novidades estão por vir!”

Mariana Costa Mendes

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Malha Fina Cartonera com Darío Ares.

No prazo de um ano, este é nosso segundo encontro de trabalho com Darío, e já temos data marcada para o terceiro. Entretanto, vamos deixar algo de mistério para o dia do lançamento.

Você, por enquanto, pode ir selecionando sua capa.

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As Tramas do Bordado

por: Larissa Pavoni Rodrigues

É através de nossa história, desde o surgimento do selo editorial Malha Fina Cartonera, que demonstramos o caráter das cartoneras em formar uma rede de contato, na qual surgem laços que vão se aglomerando, tal como a linha perfurando o papelão na construção de um novo livro cartonero ou o bordado se formando ponto após ponto no desenho em um tecido.

A escrita, a edição, a tradução e a revisão dos textos que publicamos se assemelha ao processo de aprender a bordar: as mãos assumem o lugar na manipulação dos fios reconstrutores de sentido do texto, em uma forma de aprendizagem que confronta e revisa o lugar do sujeito escritor e sujeito leitor.

A metáfora da trama, do bordado, remete à diversidade de fios que escolhemos para traçar ou realinhar nossas escolhas em torno de um catálogo marcado por experiências diversas, com um trabalho literário e coletivo que mobiliza questões de identidade, do indivíduo e da sociedade.

Como forma de comunhão entre pessoas, o bordado também é trabalhado em Rosário (Argentina), dentro do Grupo de Acción Cultural (GAC – Grupo de Ação Cultural), que promove práticas de arte colaborativa desde 2015. Assim como a Malha Fina, o GAC surgiu do encontro entre estudantes, professores universitários, gestores culturais e recicladores, em torno de uma política coletiva e sua relação com o meio ambiente.

Com a participação de Darío Ares, um multiartista que transita pela videoarte, design, literatura, performance, artes plásticas e indumentária, dentro da proposta do GAC em ser uma rede tecida entre distintos projetos culturais, surgiu a Rita Cartonera, um editorial como uma intersecção: foi criado na medida em que o trabalho cartonero se mostrou como um campo de atuação fértil, refletindo a natureza e os objetivos do grupo cultural. Você pode ler mais sobre a Rita Cartonera no post “Rita, a selvagem, em terras brasileiras” escrito em 2016.

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O GAC coloca em tecidos, no desenho, nos pontos, uma alternativa de inclusão na Escuela de Diseño de Indumentaria (Escola de Desenho de Indumentária). Ali buscam empreender, desenhar, criar algo diferente. Abrem as portas a centenas de pessoas, de todas as idades e gêneros, esperando aqueles que queiram aprender e compartilhar.

Nascida como um projeto para a zona oeste, hoje, a Escuela de Diseño de Indumentaria funciona em todos os distritos de Rosário. Filiada à Secretaria de Cultura e Educação da cidade, seus membros apostam em uma escola alternativa e inclusiva, na qual participam alunos de 13 a 70 anos, de distintos extratos socioeconômicos.

Nesse projeto, Darío Ares desenvolveu, como professor, junto aos seus alunos e colegas, o projeto “Trece”, uma marca coletiva de moda jovem com referências na arte urbana e no hip-hop, que levanta a bandeira do desarmamento. Tendo em vista formar alunos com visão crítica sobre o que os ronda, o ofício desenvolvido coletivamente é um dos principais objetivos da escola alternativa.

No dia 20 de outubro de 2017, no Museu Castagnino, a Escuela de Diseño de Indumentaria, apresentou o desfile “Fuera de lugar” (Fora de lugar), com produções desenhadas pelos alunos durante todo o ano nos seis distritos da cidade. Além disso, a marca Trece apresentou sua coleção 2017 com o tema “Milícia Urbana”, trabalhada com jovens do sexo masculino dos bairros La Tablada, Cerámica, Alvear, Acindar, Fisherton, Las Flores, Puente Gallego e Santa Teresita.

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Imediatamente após o desfile, o coordenador do projeto Darío Ares veio a São Paulo, trazendo na mala agulhas, linhas coloridas, muitos mostruários de tecido de seda, além de muita vontade em direcionar e acompanhar a Malha Fina Cartonera no mais novo projeto artístico das capas de papelão.

Estamos em fase de produção de “Caribe Oriental”, antologia de poesia cubana de temática orientalista, e os tecidos trazidos por Darío irão estampar as capas bordadas pela equipe Malha Fina em oficinas ministradas pelo multiartista argentino. Nos próximos dias iremos aprender a técnica da serigrafia têxtil, que também estará presente nos livros, além de colagens de desenhos e símbolos diversos do universo oriental.

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Seguimos assim, entre trocas, experiências e oficinas, confirmando que é possível reciclar em rede com outras cooperativas, com outras editoras cartoneras, com outros coletivos que busquem e fomentem cultura em todos os cantos.

Aquarius e Joaquim: Literatura Incendiária

por: Cristiane Gomes

Dizem que quando há condições ideais, a ficção não costuma ser muito boa. Talvez pela falta de necessidade de criar mundos possíveis, talvez pela literatura ser uma forma de revolução. Mas as palavras também servem para aprisionar: se fossem inofensivas, as religiões não teriam se apropriado da criação do verbo em suas mitologias, não precisaríamos explicar nas escolas a diferença semântica entre liberal e libertário e não teríamos uma constituição escrita para proteger a propriedade privada.

O retrocesso, que já tomou conta da política, se espraia pelas artes e pelo discurso popular. O liberalismo econômico sempre foi o único filho “revolucionário” aceito pela família brasileira. Carismático, conhecedor da técnica retórica, bem-vestido, preferencialmente homem e branco, ele não renega o dinheiro, faz alianças questionáveis e mantém bem vivo aquilo que mais mata gente no mundo: família, religião, patriotismo e militarismo.

Desta terra, onde um prefeito-alegoria se elegeu usando a alcunha de João Trabalhador – mesmo pertencendo a uma família que é dona do Brasil desde os tempos das Capitanias Hereditárias –, os guaranis são despejados depois de resistir 517 anos e na qual mantemos orgulhosos, mesmo “independentes”, a bandeira verde e amarela de Bragança e Habsburgo estampada com um lema positivista francês do qual o amor foi extirpado, eu escrevo sobre dois lançamentos de um selo editorial do Recife, que nessas condições nada ideais em que vivemos, traz boa literatura.

A Mariposa Cartonera, uma resistência literária independente, lançou, em 22 de setembro de 2017, dois livros-irmãos: Aquarius e Joaquim. As antologias de contos organizadas por Wellington de Melo têm como disparador o nome de duas personagens cinematográficas: Clara, protagonista de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e o mártir e bode expiatório da inconfidência, Joaquim José da Silva Xavier, retratado no filme Joaquim de Marcelo Gomes.

Em um caminho inverso ao convencional, a literatura se alimenta do cinema desses dois cineastas pernambucanos. Alguns contos apresentados nos livros, não sei se por estímulo ou fruto do estado de exceção que vivemos no Brasil, além dos nomes Clara e Joaquim trazem outras semelhanças: violência e opressão.

 

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As Claras

O conto que abre Aquarius é “A versão de Talitas, de José Luiz Passos. A Clara de José Luiz não tem cara, é apenas uma figurante, uma aluna com a qual o escritor e professor, narrador-personagem, tem um breve caso. O protagonista, sem nome, mas que poderia chamar-se José, tem seu livro adaptado para o cinema por um cineasta norte americano. A obra adaptada é o Sonâmbulo Amador, livro do próprio Passos, que também aparece nas mãos da personagem Clara, do filme Aquarius, inspiração da antologia.

Nesse jogo de aproximação entre real e ficcional, muito em voga na literatura contemporânea e que causa uma certa confusão nos leitores, um outro expoente nacional é o Ricardo Lísias, também presente na antologia com o conto “Sem Movimentos Bruscos. No conto de Lísias, o narrador-personagem também é um autor de ficção ligado à universidade. Durante uma viagem de ônibus nos Estados Unidos conhece Claire, professora da Penn State. Seu desdém inicial pela senhora transforma-se em interesse na tentativa de apropriar-se da história dessa mulher para sua ficção.

Em “Saio não senhor”, de Maria Valéria Rezende, Clara é uma personagem que resolve se rebelar contra as falsas promessas dos políticos de sua pequena cidade, uma mulher que resolve dizer não e consegue o apoio das outras mulheres na sua causa. As pedras e os populares comparados a formigas evocam as fábulas gregas.

Em o “Caso da tartaruga”, de Nivaldo Tenório, a história de Maria Clara sai da boca do marido. Morta, mesmo quando viva. Traumatizada pela tortura na ditadura, Clara não fala, tem câncer e é comparada a uma enorme tartaruga morta na praia.

Sidney Rocha, em “Clara e Carmelita”, narra a história de duas amigas bem-nascidas, filhas de um embaixador e de um militar, que em algum momento do Golpe de Estado no Chile sofrem um revés.

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Aquarius. Foto: Mariposa Cartonera.

Os Joaquins

“Jogue a sua cabeça no telhado das casas mais pobres. Jogue sua cabeça para que os cachorros mais sujos lambam o seu rosto. Dê os seus olhos de comer aos pássaros mais famintos. Dê a sua língua aos insetos mais solitárias. Seus ouvidos servirão de casa para as lesmas mais vagarosas. Em “21 instruções para se chamar Joaquim”, Bernardo Brayner faz uma lista-manifesto que não deve ser cumprida.

Em a “República dos Quincas”, José Luiz Passos retoma os Joaquins revolucionários e deixa uma frase aos próximos Joaquins: “Se a morte do tirano é o preço da felicidade pátria, que razão haverá para que se desampare o bem da República?”.

No conto “Joaquim”, Maria Valéria Rezende cria uma personagem duplamente revolucionária, é Joaquim e Maria: “Uma mulher. Não pude deter o jorro de sangue a manchar e escorrer pelo couro da sela e por entre as pernas de meu calção que já fora branco”. A descoberta da sua identidade define seu destino, mas ela deixa uma importante mensagem carregada da força da linguagem de Maria Valéria: “Ninguém pode senão pela violência extrema tolher a liberdade de meus pensamentos e calar minhas palavras que usarei até o fim para dizer o quanto vos desprezo que não sois mais que escória humana revestida de rendas veludo e seda recheada da gordura mal cheirosa com que vos empanturrais, sujo e nojento tanto que, por mais que vos chamem ouvidor ou governador ou oficial ou seja lá o que for que vos chamem, se não me calarem à força eu vos insultarei sem cessar e escarrarei em vossa carant”.

Em “O osso escafóide de Joaquim”, escrito por Ronaldo Correia de Brito, Joaquim é um herói brasileiro. Tem 35 anos, filho bastardo do patrão com a empregada, esse sujeito que com sua ética própria se nega a buscar amparo na família paterna, se desgraça em enchentes, pobreza, cárcere, pequenos crimes e cria a ficção na sua própria vida performática, onde ele poderia ser tudo, mas não é nada.

Sidney Rocha, em seu “A alva”, se apropria da história de Frei Caneca, o Joaquim do Amor Divino Rabelo, religioso, jornalista, gramático, pensador, opositor do governo central conservador, “escritor de papéis incendiários” e um dos principais líderes da Revolução Pernambucana, que foi fuzilado pela comissão militar e faz dele o próprio Homem Vitruviano: “Um homem de braços abertos mede um homem de altura por um homem de largura. Era a medida geométrica certa que encontrara para abraçar as balas e o mundo”.

Quem quiser adquirir Aquarius e Joaquim deve acessar o site da Mariposa Cartonera.

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Joaquim. Foto: Mariposa Cartonera.