Sangria com César Vicente

por: Cristiane Gomes

São Paulo possui uma espécie de magnetismo. Como uma sereia, nos arranca do lar e abandona em uma espécie de órbita. Nos esbarramos constantemente, nas ruas, na universidade, nas livrarias e nos coletivos. Aprendemos a nos ignorar para viver a solidão ruidosa e produtiva afogados no marulho de carros e motos intensificado pelos totens de concreto.

Encontro César sempre acidentalmente. Ele, assim como eu, é de um outro lugar, nos reconhecemos, cumprimentamos, sorrimos e conversamos até onde for a conversa. Nascido em Espírito Santo do Pinhal, um pequeno município paulista, chegou em São Paulo em 2012, para cursar Letras na UNIFESP, mas trilhou outros caminhos, os do teatro, até que o destino o levasse de volta às Letras, na USP, onde praticamos a resistência de conversar, e viver, como se não houvesse tempo. Mas ele existe.

César Vicente é poeta e ator, tem 23 anos e compartilhou com a Sangria, da Malha Fina, os poemas Permanece o Mito, O Decifrador e O Sátiro. Para conhecer mais dos trabalhos e processos do autor você pode acompanhar o blog Tornado Sopro.

cesar (foto por Isabela Alves).jpg

Foto: Isabela Alves.

Permanece o Mito

 

Cristo viveu
e passou a Palavra.
G.H. a tomou como
pedra de esculpir

 

e narrou sua Paixão.

 

– para lavras e lavouras
o labor dos santos
sobre a terra
a mansa –

 

Listas delas concentradas
pedem lágrimas para se diluir,
ou mesmo água, sangue, suor ou vinho.

 

O vinagre alivia o efeito
do gás lacrimogêneo,
mas não a sede.

 

Eu queria dizer,
menos,
eu queria estar,
menos,

 

deixo a face no lençol para marcar presença.
deixo meu nome num papel a responder ausências.
deixo caneta e papel de lado para saber que existo.
deixo a vista descansar onde não estou.

 

longe, é

 

O Decifrador

 

Eis o papel que me coube –
decifrar a corrente de elos
atados desde que o verbo
quis unir trajetos na cidade pedra
fundamental da solidão nos passos.
Espaço para além das peças de puro
impacto nos pés, tropeços, tombos,
quedas livres no sentido dos
versos (ar)riscados em campo arado ao
algodão negro onde os dedos se embrenham.
Fazendo do propósito a própria poesia
sobre a torre mais alta desse chão duro
duro, no castelo tocando estrelas
a pontuar a música tirada na hora das
maravilhas confidenciadas boca a boca.
Una canción, your song, um som
que atravessa a noite inteira em
intervalos marcados pela batida
cardíaca e o pulso firme que
se assenhorou das curvas na estrada.
Trazer à vida a voz, nós na garganta
do precipício, avidamente requerida,
buscado o tom para harmonizar o peso
do dito cuja verdade dita o olhar
me olhando te olhando molhando
as frestas e os sulcos, arranhões e cicatrizes
pelos quais se reconhece quem chega
e se achega mais perto do colo teu,
cabeça pousada no peito enquanto
o tempo voa e se esquece dos pares,
pontos em que a pressa e a pressão
se detêm prestes a saber por que
toda mensagem se transmuta em signos
que a esfinge do mundo se compraz de
reordenar em enigmas da encruzilhada.

 

O Sátiro

 

uma pequena mostra
dos entrosamentos sadios
vadios
enquanto ocultos
à noite
dos mascarados
não escondem o riso
ao aviso
e à visão baços
traços tortos linhas retas.

 

in-diretas
certas
do ciclo hídrico
das mágoas magnas
bestas
a (per)fumar as sextas
trago-as, todas
funestas
festas.

 

nefasta
lua minguante
ante o bar dos navegantes
que buscaram seu torrão
de terra
avista
a vasta
rua escaldante
sem saber qual dos mirantes
encarou fundo o borrão
que encerra
a vista
afasta
sua constante
cósmica de andar errante
e afunda sua pré-visão
em terra.

 

a pista
arrasta
o instante
adiante
irão
eu era
quem
com a cerveja na mão
dizia verdades
como quem erra.

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Feira SUB: Projetos Independentes em Ação

por: Chayenne Orru Mubarack e Pacelli Dias Alves de Sousa

Chegamos na Feira SUB às 9h30, precisamente na Biblioteca Pública Municipal “Professor Ernesto Manoel Zink”, no centro de Campinas. O espaço era grande e contava com um enorme jardim em frente à biblioteca, o qual posteriormente seria ocupado por food trucks, discotecagem e jovens frequentadores, conhecedores ou curiosos da cena editorial independente. Na parte de dentro, a área da biblioteca reservada à feira ocupava dois salões. O primeiro, com o estande dos organizadores da Feira e alguns selos editoriais. O segundo, maior, preenchido com quatro enormes fileiras de mesas, cada uma compartilhada por dois expositores. Esse era o cenário que nos aguardava no sábado, 16 de setembro.

Nos assignaram a mesa 42. Do nosso lado esquerdo, estava a editora L-Dopa, projeto curitibano voltado à publicação especialmente de livros anarquistas e libertários, nos quais se englobam também as obras de seu fundador, Nils Skare. Do lado direito, a editora Incompleta, com sua interessante revista Puñado, dedicada à publicação da literatura de mulheres latino-americanas e que já conta com textos de Elena Poniatowska, Mayra Santos-Febres, Lina Meruane e Inés Fernández Moreno.

Mesa da Malha Fina e companheiros de jornada

Mesa da Malha Fina e companheiros de jornada. Foto: Chayenne Mubarack e Pacelli Dias.

A Feira começou às 11 horas. Os expositores provinham de diversas partes do Brasil e trabalhavam não só com livros, mas também com pinturas, pôsteres, desenhos, camisetas, cartões postais, ecobags e qualquer outro material que possa integrar a categoria de artes visuais impressas. A proposta de colocar esse nicho junto com editoras é muito interessante porque não nos categoriza pelo objeto que produzimos em si (como o livro, no caso da Malha Fina) mas pela maneira artística com que ele é produzido, bem como pela lógica independente.

Feira Sub

Cartaz de divulgação da Feira SUB.

A Feira, obviamente, lotou. Pessoas de distintas cidades passavam por nossa mesa, conversavam conosco, se interessavam pelo projeto. Muitas perguntas surgiam: “vocês fazem mesmo todo o processo?”, “como selecionam o catálogo?”, “quem pensa o projeto das capas?”, “é muito trabalhoso confeccionar uma a uma?”. O formato cartonero segue intrigando o público por sua unicidade e autogestão. Além dessas perguntas, também fomos interpelados por jovens fascinados, que passavam minutos contemplando nossas capas, individualmente, sem perguntar nada, apenas observando e sorrindo. O formato cartonero fascina.

O Coletivo Dulcineia Catadora também estava por lá. A cartonera idealizada por Lúcia Rosa, cujo stand estava no primeiro espaço da biblioteca, separado de nós, que estávamos na segunda parte, também representava esse formato. Muitos visitantes comentavam que haviam se deparado com o projeto dela e ficaram igualmente encantados.

Foto do primeiro salão da Feira SUB

Primeiro salão da Feira SUB. Foto: Chayenne Mubarack e Pacelli Dias.

Segundo salão da Feira SUB

Segundo salão da Feira SUB. Foto: Chayenne Mubarack e Pacelli Dias.

Somado aos expositores, o evento também contou com palestras, oficinas e lançamentos. A programação não se restringiu ao dia 16 e os eventos relacionados à SUB ultrapassaram a data da feira em si. Quanto aos lançamentos, a Malha Fina debutou seu novo livro, a antologia Diáspora(s), cuja resenha você pode ler aqui.

Expositores da Feira SUB

Expositores da Feira SUB. Foto: Chayenne Mubarack e Pacelli Dias.

Para quem afirma categoricamente que o livro morreu, somos obrigados a discordar. Esses espaços nos fortalecem e nos dão vontade de seguir em frente. Ao conversarmos com outros selos editoriais e artistas, vemos que o tipo de livro que fazemos, o que acreditamos e temos como concepção para este objeto, se afirma cada vez mais. A lotação da feira também nos faz acreditar que estamos no caminho certo. Avante!

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“Diáspora(s)”: vanguarda finissecular em Cuba

por: Pacelli Dias Alves de Sousa

A ideia de diáspora é antiga e tem sido rearticulada ao longo do tempo. Utilizado especialmente para falar das dispersões populacionais grega, judaica, armênia e africana, o conceito encorpou-se aplicado à perda das origens do povo hebreu, quando também tornou-se um problema teológico, possivelmente concepção mais utilizada até hoje. Trata-se, contudo, de um conceito que pode ser aplicado a diversos povos e, em conjunto, analisado desde distintas perspectivas, seja como problema histórico, geopolítico, antropológico ou, inclusive, poético.

Com aproximadamente 20% da população vivendo fora de ilha, a concepção de diáspora também pode ser utilizada para tratar do povo cubano (e das populações caribenhas em geral, como analisado por Stuart Hall). Para o historiador Rafael Rojas, é especialmente interessante pensar o conceito em comparação com a ideia de “exílio”, há séculos utilizada para tratar da população cubana no exterior, majoritariamente nos Estados Unidos – vivendo nas mais que conhecidas entrañas del monstruo, nos termos do patrono das letras cubanas José Martí, exilado. Este conceito já lhe parecia saturado e a contraposição é frutífera na medida em que traz para o jogo as mediações culturais, as hibridações e a agência da comunidade nestes novos espaços. Se a passagem de uma leitura a outra é interessante para pensar a tradição cubana, é também para melhor esboçar o papel de Diáspora(s) na história literária e intelectual de Cuba.

Ilustração: Abstration, de Rafael Cruz Azaceta.

Ilustração: Abstration, de Rafael Cruz Azaceta.

Composto por Rolando Sánchez Mejías, Carlos A. Aguilera, Rogelio Saunders, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer, Ricardo Alberto Pérez, José Manuel Prieto e Radamés Molina, o grupo promoveu diversos eventos literários desde o começo dos anos 1990, quando começaram a articular-se, além da edição independente de uma revista homônima veiculada entre 1997 e 2002. Sobre o nome escolhido, diz Idalia Morejón Arnaiz (em prólogo à edição brasileira):

“Que tal termo apareça como nome de um grupo literário e, posteriormente, como título de sua revista, com uma letra ‘s’ ao final entre parêntesis, denota, em primeiro lugar, que as zonas de acolhimento a que se submete a literatura são múltiplas e, em segundo lugar, que em tais traços se hospeda uma marca plural, de dissensão escritural, heterogênea”

O termo passa a ser tomado metaforicamente e aplicado como reivindicação à própria produção literária, que passa a reivindicar novas rotas desde sua autonomia; novas políticas para a escritura apoiadas em leituras críticas ao nacionalismo, ao cânone e à política cultural do governo revolucionário castrista. Se seguirmos a lógica da metáfora, é importante atentar aos fatores envolvidos no deslocamento, o que afinal é constitutivo de toda diáspora. Em termos estéticos, há uma forte preocupação no grupo em distanciar-se da poética (ou da constelação em torno da poesia e do nacionalismo) formulada pelos autores de Orígenes, revista editada entre 1944 e 1956, por José Lezama Lima.

Se, como apontava o título, não se pensava em uma só origem, tampouco aqui se pensa em só um lugar de chegada para a diáspora. Neste deslocamento proposto, que não é humano, mas da língua literária, há um vetor de rompimentos rizomáticos no fazer poético em direção a outros gêneros e possibilidades de expressão (daí o recorrente uso da poesia visual, da poesia performática e, de modo geral, da poesia conceitual pelo grupo), baseadas também em leituras outras, deslocadas do Góngora-Mallarmé de Lezama, para as traduções de John Ashberry, Robert Creeley, John Cage, Ernst Jandl, Deleuze & Guattari, Derrida e Joseph Brodsky, entre outros.

A reiterada evocação de Orígenes, contudo, menos que efetivamente apagá-la, reforça sua presença como arquivo na memória dessas novas diásporas, talvez como possível nação (imaginária, como toda nação), de onde partiu a dispersão, essa vista positivamente, em suas possibilidades para trocas culturais, e não como despojo originário. Em plena crise do Período Especial, a produção de Diáspora(s) pode ser lida como um processo dinâmico de interatuação da língua cubanensis com as (pós)vanguardas do século XX, desafio à identidade cubana e um questionamento da soberania nacional, desde o espaço reivindicado da literatura.

***

Como parte da coleção dedicada à literatura caribenha, a Malha Fina publica a antologia bilíngue Diáspora(s). A organização ficou por conta de Idalia Morejón Arnaiz, pesquisadora que tem se dedicado à poesia do grupo e que também assinou o prólogo do livro em “Notas sobre Diáspora(s)”. As traduções, por sua vez, ficaram a cargo de Ellen Maria Vasconcellos, Clarisse Lyra, em trabalhos individuais e Caroline Costa Pereira, Liliana Marlés, Gabriel Bueno, Adriana Silva, Robson Hasmann, Ramiro Caggiano Blanco e Yedda Blanco, em traduções colaborativas.

O livro vai estar em pré-venda na 2ª edição da Feira SUB de arte impressa e edições independentes, dia 16 de setembro, das 11hs às 21hs na Biblioteca Municipal Professor Ernesto Manoel Zink, em Campinas/SP.

Realizada pelo The Mix Bazar, a feira é gratuita e pretende ser um espaço dedicado a publicações que circulam fora do meio editorial tradicional. Para os interessados, além das bancas com diversas editoras do Brasil, o evento conta ainda com uma agenda de debates e palestras sobre o universo editorial independente. Esperamos todos lá!

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Feira Sub – Arte Impressa e Publicações Independentes. Dia: 16/09/2017. Horário: Das 11hs às 21hs. Local: Biblioteca Pública Municipal “Profº Ernesto Manoel Zink” – Campinas/SP.