Segunda Convocatória de Narrativa e Poesia do Selo Editorial Malha Fina Cartonera (USP-UNIFESP 2017)

Convidamos a todos os estudantes da graduação e da pós-graduação da FFLCH/USP e da EFLCH/Unifesp a inscreverem seus originais inéditos na Segunda Convocatória de Narrativa e Poesia do Selo Editorial Malha Fina Cartonera (USP-UNIFESP 2017)!

Você, estudante da FFLCH/EFLCH: não perca esta oportunidade de se tornar um(a) autor(a) publicado(a)!

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Acesse aqui o arquivo em pdf.

Sobre a grandeza das pequenas coisas: nas entrelinhas de “Crisântemo é um nome bom”, de Mauro Souza

por: Aryanna Oliveira

Há alguns dias a Malha Fina Cartonera apresentou o autor de O coração em si, Elvio Fernandes Gonçalves Junior, um dos vencedores da Primeira Convocatória de Narrativa e Poesia para autores inéditos, e, hoje, é dia de conhecer melhor Mauro Souza, autor do outro livro que será lançado na próxima quinta-feira, 18, na FFLCH (link do evento).

O estudante de filosofia da USP, traz em Crisântemo é um nome bom ― coletânea de poesias especialmente reunida para a convocatória ― um lirismo ácido do cotidiano, uma poesia com gosto das coisas pequenas e simples, com um tom de contar história que flui, mas que faz refletir e que permite ao leitor se reconhecer nas linhas do outro. E não é de se estranhar, pois conversar com Mauro é como reencontrar um velho amigo, sempre uma boa conversa, um sorriso no rosto, um chamado à identificação, características que refletem com maestria em seu trabalho, desde as primeiras linhas.

Mauro Souza. Foto: Aryanna Oliveira.

E, nesse “contar a vida que segue”, o ciclo começa com “Nasci e chorei as 24 horas do dia”, que, como um abre alas da obra, funciona também como o início de um fluxo (do livro, ou da vida), um princípio que causa desespero, que é chorado, vigiado e febril.

NASCI E CHOREI AS 24 HORAS DO DIA
para desespero de freiras frias
tudo de mim escapava
quase até a vida ainda cedo
no sarampo
mais a pneumonia
tudo me escapava
menos o céu
onde os olhos afundavam
me roubava as horas
cresci meio triste com o quê?
vigiando sem sono janelas
o menor dos ruídos
imberbe
e um 38 dormia dentro da mala com fotografias
gastei a vista desenhando em nuvens
a sola do pé nas ruas de terra
e a paciência esperando a madrinha
um brinquedo
esqueci seu nome.
fui batizado às pressas
lembra?
febril
fervendo a água da pia
escapei de boas
e a lembrança mais antiga que tenho de mim.
não é minha.

Mauro fala de tudo em suas poesias, “até garrafa térmica”, isso porque segundo ele há uma espécie de encontro metafísico entre o “eu” do autor e a “coisa” a ser escrita, e esse encontro permite uma sintonia com o múltiplo e com as mínimas coisas: “Você pode falar de crisântemos ou daquelas azedinhas que nascem em qualquer pé de muro e o valor poético significar igualmente para as duas” ― filosofa o autor.

Entretanto, essa aparente simplicidade do cotidiano nas linhas de sua escrita é tratada com a laboriosidade que o ofício merece, pois ainda que a inspiração venha de tudo e qualquer coisa, há para ele um “porém” a ser considerado durante o processo de composição.  “É preciso trabalhar o texto, caso contrário, posso dizer que é muito difícil que saia algo que valha a pena”, reitera.

Em seu trabalho o cotidiano é pensado para além da observação de pormenores, atingindo um estudo social mais elaborado e evidente em certos momentos. “Penso que existe uma certa preocupação política, social, que perdura. Isso vem desde o começo, desde os primeiros textos que escrevi”, explica Mauro. Essa característica pode ser percebida em “Estivemos Ombro a Ombro”.

ESTIVEMOS OMBRO A OMBRO
defendendo as linhas da velha comuna,
ouvindo o assovio do chumbo
e seu baque seco nas barricadas.

estivemos ombro a ombro
enquanto nosso sangue se misturava
sobre a terra sempre prometida

estivemos ombro a ombro
distraídos nas linhas de montagem
sonhando melhores dias
e máquinas nos devoravam
ora uma mão, um braço, muitas vidas.

ao meu lado, oprimido contra o muro,
e a sanha dos capitães-do-mato
em seus uniformes calcinantes

(…)

ombro a ombro chorando nossos companheiros
insepultos e vaporizados, misturados ao ar
os respiramos, todos os respiram,
mais que ao lado, agora e adiante,
em toda parte, unidos.

A paixão do Mauro pela música (ele canta no Coral da USP), assim como  a participação e importância da mãe em seu desenvolvimento como escritor, também são lembrados em suas linhas. Da mãe, inclusive, conta que ela fora, em muito tempo, seu único público. “Eu costumava ler meus poemas para minha mãe enquanto ela preparava o arroz, ou lavava uma louça. Ela sempre dizia que gostava… mãe só tem uma (risos)”.

MINHA MÃE NO TANQUE
lava, na água mais que fria,
as roupas do dia.

Para o escritor ― que cresceu ouvindo Cartola, Milton, Chico e Elis, e, que acredita que todo mundo uma vez na vida deveria ler Machado, Dostoiévski, Clarice, Pessoa, Victor Hugo, Drummond, Raduan e Rimbaud ― projetos como o da Malha Fina Cartonera são muito importantes não só por apresentar novos talentos, mas pelo poder de combate das palavras trazidas a público. “Caramba, eu acho que projetos assim deveriam conquistar o mundo! (risos) Isso é muito necessário, precisamos ler mais gente como o Elvio e tantos outros que a Malha Fina edita e revela. Desengavetar essas produções e trazer à luz com essas edições tão legais, artesanais, é muito bonito. Eu diria que isso é guerrilha, com tudo o que essa palavra implica”, finaliza o autor que em Crisântemo é um nome bom encerra o ciclo da obra com o envelhecer: da casa, como metáfora da vida.

CASA ENVELHECIDA,
vizinhos idos e a chuva,
a mesma da infância.

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“Crisântemo é um nome bom”, de Mauro Souza. Foto: Aryanna Oliveira.

O Passo a Passo Cartonero da Malha Fina

por: Larissa Pavoni Rodrigues

Por ser um espaço difusor de literatura e de publicação independente na Universidade de São Paulo, a Malha Fina Cartonera pretende estimular e dar visibilidade a autores inéditos em nosso meio e fora do ambiente acadêmico também.

O objeto livro, neste caso, é mais do que aquele já conhecido das estantes e bibliotecas. Os livros cartoneros são confeccionados de maneira relativamente simples e barata, com capas feitas à mão, individualmente, com papelão reciclado e folhas costuradas à mão: cada edição é peça única em si mesma e sustentável na mão do leitor. Sustentável na medida em que movimenta o trabalho e a renda de catadores e cooperativas – o quilo do papelão é comprado a um preço bem maior que os R$ 0,20 que normalmente vale.

O nome “Malha Fina” vem da lâmina que pretende desnudar outras faces, outros meios. Abre caminho ao novo, à formação e publicação de novos estudantes, novas traduções, revisões, projetos gráficos e etc. Materializa-se da necessidade de mais vida literária no nosso cotidiano, mais projetos formadores e transformadores.

Cartonera vem de cartón, palavra em língua espanhola que significa papelão. Significa também nosso material-base, fundamental. Trabalhar com ele é tão fácil e rápido que queremos incentivar mais autores, escolas (como já fizemos na EMEF Euclydes de Oliveira, na Escola Joycimara de Falchi e na IV Jornada Pedagógica), cursos, faculdades, a construírem projetos autônomos, difusores da ideia de um selo editorial que incentive a vida literária onde quer que esteja.

Por todas essas ideias, difundimos/demonstramos nesse espaço, o nosso processo de construção de um livro cartonero.

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Foto: Julia Izumino.

Materiais e modos de fazer

O Corte do Papelão

Das caixas de papelão coletadas extrai-se o nosso material de trabalho. O papelão ideal para capas de livros são aqueles mais finos, com uma única ondulação, ou uma só camada. Assim, ele torna-se mais maleável, e mais fácil de ser manuseado, dobrado, cortado, etc. Deve-se estar atento em utilizar o papelão disponível para fazer o máximo de capas, evitando o desperdício.

  • Corte:
  • Estilete grande
  • Placa de corte (usada para proteção da mesa e para maior segurança no manuseio do papelão).

As formas de vidro causam maior aderência ao papelão, e o tamanho delas variam de acordo com o tamanho de livro desejado:

  • Forma de vidro de 15 x 21cm (8 mm) lixada.
  • Forma de vidro 32 x 21cm (8 mm) lixada.
  1. Posicionar a prancha na mesa e, sobre ela, o papelão.
  2. Segurar com uma mão a forma de vidro bem rente ao material, tomando cuidado com os dedos, e com a outra mão cortar o papelão no formato do vidro.
  3. Repetir o processo para fazer a capa e contracapa.

Costura

  • Novelo de linha encerada (da cor de preferência)
  • Agulhas grandes (devem ter entre 7 e 10 cm, com furos grandes)
  • Furador de encadernação (ou agulhão)
  • Martelo
  • Presilhas
  • Régua com a marcação da distância exata entre os pontos que serão furados e costurados.

Neste passo a passo ensinaremos dois tipos de costura: a japonesa e a simples. Ambas seguem o mesmo processo: prender com presilhas (como na foto abaixo) o miolo ao papelão; com a régua marcar os pontos de furo desejados, com o martelo e agulhão furar o miolo e papelão. Após isso, iniciar a costura.

Tanto a costura simples como a japonesa precisam de 4 furos: da base superior ao primeiro furo 3cm, deste ao segundo furo 6cm, deste ao terceiro 3cm, deste ao quarto furo 6cm e, por último, do quarto furo à base inferior 3cm. Na costura simples, os furos vão no interior e na metade do livro, aberto ao meio. Já na costura japonesa, com o refilamento, é importante furar deixando 1cm de distância com o dorso/lombada do livro.

A diferença é com o uso da linha. Em quase todos os furos da costura japonesa a linha passa pelo menos três vezes, já na simples apenas uma.

Outra diferença importante é que a costura japonesa é feita com o miolo do livro refilado, e duas capas de papelão no formato 15 x 21cm. Já a costura simples é feita com o miolo não refilado, e portanto, aberto ao meio junto ao papelão, e papelão no formato 32 x 21cm.

Costura simples: com um pedaço de linha de 30 cm aproximadamente, passe pelo buraco da agulha até restar 5cm mais ou menos, formando nesse pequeno trecho uma linha dupla. Nessa costura não se amarram as pontas da linha. Inicie no interior do livro, passando pelo furo superior, saindo e entrando novamente pelo segundo furo. Do segundo furo passar ao terceiro pelo interior do livro. Agora, você estará no lado de fora e passará para o quarto e último furo, terminando a costura no interior com um pequeno nó, cortando o que restar de linha.

Costura japonesa: essa é um pouco mais demorada e precisa de mais linha também. Corte 60 cm de linha aproximadamente, passe pela agulha e faça um nó nas duas pontas, assim ela ficará dupla. Comece por trás do livro, no furo inferior da contracapa, faça a volta, e dê outra volta passando pelo “pé” do livro. Neste primeiro furo a linha passará três vezes e a costura ficará como um formato de “L” virado para o furo. Vá para o segundo furo pela capa e faça a volta. Pela contracapa, passe ao terceiro e repita a volta. Nessa etapa, você estará na capa e, então, é só passar ao quarto furo repetindo o procedimento do primeiro: duas voltas, uma no dorso e outra na “cabeça” do livro.

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Foto: Julia Izumino.

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Colocar as presilhas, segurando o miolo à capa. Foto: Julia Izumino.

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Com uma régua e um furador, marcar o miolo com o espaçamento desejado. Foto: Julia Izumino.

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Com o martelo, furar o miolo e o papelão. Foto: Julia Izumino.

Pintura da Capa

  • Chapas de radiografia para o stencil
  • Pincéis chatos tamanhos 24, 22, 20, 16, 12
  • Tintas guache
  • Rolinhos de espuma
  • Tinta acrílica Acrilex (uma de cor escura e outra clara)
  • Caneta Uniposca
  • Spray de tinta

A pintura da capa é a etapa mais livre e criativa do processo. Ela pode ser feita de diversas maneiras: com tinta guache, pincéis e rolinhos de espuma; tinta acrílica e stencil para colocação dos títulos dos livros; ou usando spray e stencil. A caneta Uniposca serve para o contorno das letras nos títulos. Pode-se usar, também, técnicas de colagem de tecidos, papéis de distintas fontes como revistas, reutilizáveis, etc. Por fim, um dica é passar um pouco de cola tenaz com um pincel na capa. O resultado é um brilho especial e maior durabilidade das tintas.

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Foto: Julia Izumino.

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Foto: Julia Izumino.

E por fim: mãos à obra! Usando a criatividade e o sentimento cartonero, fluindo desde as mãos ao papelão, esperamos contribuir cada dia mais na difusão de uma literatura bem cuidada e acessível.

Os agradecimentos vão para a Cristiane Gomes pela participação no vídeo, a Mariana Costa Mendes pela edição e a Júlia Izumino pela filmagem.

Desvairada & Independente

por: Chayenne Orru Mubarack e Pacelli Dias Alves de Sousa

Nos dias 24 e 25 de março, a Malha Fina teve o prazer de ser uma das editoras participantes da Desvairada – Feira de Livros de Poesia de São Paulo. A feira teve como objetivo agrupar editoras do cenário independente, reunindo-as no espaço Aldeia 445, em Pinheiros.

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Imagem de divulgação da Desvairada. Fonte: Desvairada.

Mais do que um espaço para a venda das publicações, por si só importante devido à marginalização deste nicho no mercado, a feira, organizada por Marília Garcia, Leonardo Gandolf, Fabiano Calixto e Tiago Marchesano, buscou abrir caminhos para os diálogos entre as editoras e o público. Realizaram-se leituras de poemas das obras de poetas convidados e de poetas diversos, como Walt Whitman e Stela do Patrocínio e oficinas abertas ao público. A programação incluiu ainda mesas de debate que versavam sobre o cenário editorial independente e a publicação de poesia. O público também presenciou exposições performáticas de especialistas, como as leituras realizadas por Maurício Salles Vasconcelos e também realizou-se um concurso de vídeo-poesia. Tratou-se de um espaço privilegiado para o encontro e a discussão de poesia, de caminhos alternativos para publicações e, ao cabo, de fermento do meio cultural.

Na tarde do dia 25, a Malha Fina ofereceu uma oficina intitulada A edição de livros artesanais e a construção de um catálogo editorial, na qual Tatiana Lima Faria e Larissa Pavoni Rodrigues trataram não somente da história do selo, mas também de temas importantes para o campo, como a materialidade dos livros, especialmente o caso cartonero, e a formação de um catálogo.

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Oficina “A edição de livros artesanais e a construção de um catálogo editorial”, oferecida pela Malha Fina no segundo dia do evento. Foto: Julia Izumino.

Os monitores e colaboradores Caroline Costa Pereira, Chayenne Orru Mubarack, Larissa Pavoni Rodrigues, Mariana Costa Mendes e Pacelli Dias Alves de Sousa aproveitaram a oportunidade para conversar com as editoras presentes sobre os projetos que embasam suas publicações e, em alguns casos, também a materialidade dos livros. As entrevistas estão disponíveis em nosso canal do Youtube, a filmagem/fotografia foi feita pela Caroline e a edição dos vídeos foi feita pela Mariana. O conjunto servirá como um pequeno painel do atual cenário editorial independente. A partir deste conjunto, ainda que represente somente o fragmento de um agitado e rico movimento resistente, o leitor poderá conferir a variedade e originalidade oferecidas por esse caminho editorial. Entre as editoras entrevistadas estão Córrego, Jabuticaba, treme~terra, Chão da feira, Lote 42, Alpharrabio, Circuito, Cozinha Experimental, Pitomba, Urutau, Grumo, Dobradura, Quelônio e Garupa.

Os cruzamentos e laços que as conectam vão além da condição independente: muitas compartilham uma história fundadora, começando como revistas antes de se consolidarem enquanto editoras, é o caso de Córrego, Grumo e Garupa. Em relação à formação de catálogo, Córrego, Chão da Feira, Pitomba, Alpharabio Urutau comentaram de distintas maneiras sobre algo bem sintetizado por Tiago Fabris (Urutau) como “mercado de relações mais humanas” para se referir a um projeto mais afetivo de seleção, em que começaram (e permanecem) publicando amigos, a si mesmos (no caso dos editores) ou projetos de gosto próprio. Embora se tratasse de um feira com foco na poesia, o catálogo das editoras presentes não se resumiu à literatura. A filosofia, a arte contemporânea e a teoria literária são temas de títulos de Chão da feira, Circuito, Córrego Cozinha Experimental.

Caminhando pelo evento, percebeu-se um cuidado generalizado pelas edições, característico deste tipo de editora. Entretanto, em suas entrevistas, treme~terra, Garupa e Quelônio mencionaram a importância da concepção de “livro-objeto” em seus projetos. De fato, essas editoras apresentaram projetos mais radicais: a Garupa, por exemplo, trouxe uma edição digital intermidiática em pen-drive contido dentro de uma singela garrafa de vidro. Bruno Zeni, da editora Quelônio, enfatizou a recuperação de técnicas tradicionais de impressão na confecção de seus livros, além do uso de fotografias.

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O livro Caderno de Segunda Mãe, de Guilherme Conde, editado pelo Coletivo Editorial Garupa.

Espaços de venda e discussão, como a Desvairada, são muito relevantes para a vitalidade do meio cultural e, especialmente, literário, no qual nosso selo se insere. Em tempos de recrudescimento das políticas culturais, gostaríamos de terminar este editorial lembrando as palavras de Dalila Veras da editora Alpharrabio: “fazer uma feira dessas é um ato político”, de fato.

Playlist Desvairada Independente:

Editora Fada Inflada

Editora Córrego

Editora Cozinha Experimental

Editora Alpharrabio

Edições Jabuticaba

Editora treme~terra

Editora Chão da Feira

Editora Lote 42

Editora Circuito

Editora Urutau

Projeto Grumo

Pitomba Livros e Discos

Dobradura Editorial

Editora Quelônio

Coletivo Editorial Garupa

“O coração em si” de Elvio Fernandes Gonçalves Junior

por: Gonzalo Dávila

O livro de poesia prestes a ser lançado pela editora Malha Fina Cartonera O coração em si, do estreante e veterano Elvio Fernandes Gonçalves Junior (o digo porque ele tem outros livros prontos ainda não publicados), palpita nas mãos do leitor. É pungente, não despreza a emoção, é cheio de imagens que, sem deixarem de ter camadas simbólicas ocultas, conseguem chocar no primeiro encontro.

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Foto: Aryanna Oliveira.

Os poemas são curtos e se utilizam mais da associação mental entre imagens do que da narratividade. Estas são soturnas, funcionam a partir de sugestões, como pinceladas de um quadro expressionista e, dessa forma, são indescritíveis, assim como os próprios sentimentos. Podemos dizer, por exemplo, que para transmitir uma sensação de impotência∕impossibilidade, Elvio se usa no primeiro poema (“Término”) da palavra “até”, a qual de forma imperceptível vai colocando barreiras no poder do “incêndio”, da “fala” e da “língua”, os quais, por sua vez, podem se relacionar com outros sentidos.

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o incêndio flui
até onde a sombra acaba

 

a fala segue
até onde o lábio sangra

 

o mar gesticula
à beira do tempo

 

a língua toca
até onde o corpo queima

 

a mão cobre e penetra
o primeiro instante

Ou então, para exprimir o início do sonho, da dissolução da realidade, Elvio começa assim o poema “Abertura do sonho”: “repetir a ordem do bosque ∕ onde o olho abandona as pálpebras”.  O bosque é confuso e rico de significados como o sonho; já o olho abandona as pálpebras, as quais seriam a sua parte material.

abertura do sonho

 

repetir a ordem do bosque
onde o olho abandona as pálpebras
e o sal desce ao cerne da palavra

 

esperar que a outra metade
do muro se desfaça em gotas
que levam consigo as sílabas

 

contemplar longamente as torres
onde  se forma o alfabeto
que ondula como o incêndio

Também há um escasso uso de “eu” no livro, característica que se harmoniza com o espírito da obra. A ausência explícita do “eu” dá a impressão de que o mundo interior, o coração, funciona por si mesmo, longe do próprio consciente.

A dor está em tudo. No poema “O coração em si”, que dá o título ao conjunto, vemos que “a paisagem” tem “corpos que escorrem”, as “despedidas” têm “janelas de lugares destruídas” e “o violento adeus dos pássaros que despertam” e também “sangue”. E mesmo as breves passagens que dão a impressão de esperança são negadas em seguida. Um exemplo claro é o primeiro verso de “Murmúrio do mundo”, “Deuses teorizam o amor”, que é seguido de “mas amor de covardia de dor e de espasmo”. O efeito de falta de esperança, de apocalipse interno é evidente, e outros poemas anteriores do poeta me reforçam isso, como o ainda inédito “A contrição de Deus”.

Também é importante ressaltar que os poemas em conjunto formam uma espécie de círculo, já que o primeiro se chama “término” e o último “início”. Nessa lógica, a obra pode ser lida sem fim, e por isso o próprio apocalipse pode ser circular.

Fazendo um cotejamento, talvez haja relação do livro com a obra “O coração dos outros”, de outro grande poeta, Celso de Alencar. Assim como ele, Elvio é soturno sem deixar de mostrar nas entrelinhas a compaixão e ternura.

Deixo aqui, para que estes comentários não fiquem no abstrato, um outro poema de O coração em si cedido pelo autor para o blog da Malha Fina Cartonera:

a necessidade dos passos

 

merecemos as nuvens
pois estamos rodeados de ouro
e rosas subterrâneas

 

merecemos
a disfarçada vontade
de aspirar ao mal
e à deflagração
de assassinatos
em basílicas

 

e por fim sozinhos
desde o princípio
merecemos o dilúvio