Sangria – Entrevista e poemas de Cesare Rodrigues

por: Cristiane Gomes

Entender um poeta é uma tarefa digna de Prometeu. Poderia perder o fígado comendo pão com ovo e bebendo litrões de Brahma entre a fauna pós-expediente do nine dragons e continuar sem compreender o que exatamente move um poeta diante do que pra mim é o mundo real. É preciso deixar que o poeta escreva. Escreva poemas e escreva sobre os poemas: os seus e os dos outros.

Nesta Sangria, Cesare Rodrigues, poeta, tradutor e livreiro, vai conversar com a Malha Fina sobre poesia, amor e mercado editorial.

Nos “versos de amor fingido”, do livro caso fossem ursos, que você poderá conferir depois da entrevista, o ser amado faz-se presente na sutileza do flerte e do encantamento. A musa etérea ganha partículas de realidade, o papel traz a memória dos afetos, nossos. O encantamento que surge em vídeos feitos pelo celular, mensagens de áudio trocadas em madrugadas ébrias e nas conversas delicadas sobre o mundo e a poesia e pode transformar-se em amor.

Cesare Rodrigues

Cesare Rodrigues.

Cristiane Gomes: Cesare, como se finge um amor?

Cesare Rodrigues: Fingir amor deve estar entre as coisas mais cotidianas de todas. É meio uma das mais eficazes formas de viver “feliz” segundo as convenções sociais… Mas o fingir aqui dialoga um pouco mais com outras possibilidades por trás do fingir, do “poeta-fingidor” do Pessoa, que “chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”, à raiz latina do conceito de ficção, o verbo fingo/fingere. Gosto muito do Leonard Cohen e, enquanto escrevia esses poemas “de amor” sempre pensava nas canções e poemas dele, que sempre me pareceram de um amor tão fingido, mas tão fingido, que chegava a ser irresistível. Pensei em inglês “verses of faking love”, mas em português o gerúndio não ficava bem… Além do mais, são poemas escritos entre 2008 e 2016, em momentos bem diferentes do meu processo criativo e até da minha vida sentimental (aquela coisa: musas diferentes, sentimentos diferentes, hehe) e o título foi uma forma de reunir esses poemas mais “melosos” dentro de um livro em que talvez eles já não se encaixassem tão bem. Curioso é que depois dos últimos dessa série só escrevi mais um poema de amor, que não publiquei. Esse já de amor frustrado, não mais fingido, hehe.

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O Movimento Cartonero do Brasil para o Mundo

por: Samanta Esteves

Na última segunda-feira, dia 19 de março, a equipe da Malha Fina se reuniu em sua pequena sala, localizada no prédio de Letras da FFLCH-USP, com Lucy Bell (University of Surrey) e Alex Ungprateeb Flynn (Durham University), professores e pesquisadores do movimento cartonero.

Malha Fina Cartonera, Lucy Bell (University of Surrey) e Alex Ungprateeb Flynn (Durham University)

Lucy Bell (University of Surrey), Alex Ungprateeb Flynn (Durham University) e a Equipe da Malha Fina Cartonera.

O encontro discutiu a participação de nosso selo editorial em um projeto de pesquisa e extensão universitária que busca compreender a problemática social e literária que perpassa o fenômeno cartonero enquanto movimento social. Para isso, os integrantes têm a pretensão de promover exposições e disponibilizar coleções cartoneras em bibliotecas e espaços universitários ingleses, como a Biblioteca Nacional da Inglaterra e a Biblioteca das Universidades de Londres.

Em meio a capas de papelão e cartazes de divulgação espalhados pela mesa, eles nos contam entusiasmados sobre as motivações que os guiaram no processo de pesquisa do movimento cartonero como um tipo de ativismo. Nas palavras de Alex, os integrantes investigam “por que estão pipocando tantas editoras pela América Latina e como podemos entender as cartoneras como uma proposta social, porque evidentemente tem uma proposta social na própria materialidade de publicar com papelão”.

O projeto, a ser desenvolvido em dois anos, conta com dois antropólogos e uma profissional de letras. Desse modo, a integração de campos distintos do saber auxilia na compreensão do fenômeno cartonero, possibilitando uma perspectiva interdisciplinar. “A gente está analisando o objeto como objeto, mas ao mesmo tempo, como texto. Essa tensão entre o miolo e a capa que é metodologicamente o eixo do projeto”, explicou Alex.

Segundo nos confiaram, os espaços culturais europeus têm pouco ou nenhum contato com o fenômeno das publicações cartoneras que já há algum tempo desponta na América Latina. Nesse sentido, o projeto busca mobilizar o intercâmbio cultural entre diferentes contextos, dando visibilidade ao movimento cartonero por meio da idealização de exposições culturais que, de acordo com Lucy, estão previstas para meados de novembro.

Nessa perspectiva, as editoras cartoneras e os países que integram os bastidores deste cenário são, pouco a pouco, reconhecidos como atores sociais responsáveis por mobilizar uma manifestação cultural de dimensão artística e social, motivo pelo qual o grupo responsável pelo projeto conta com pesquisadores não somente da área de letras, mas também da antropologia.

Fazetório de Ficções (Sesc Pinheiros): A Malha Fina Cartonera no FestA! – Festival de Aprender 2018

por: Chayenne Orru Mubarack,
Larissa Pavoni Rodrigues e
Mariana Costa Mendes

No último sábado, 3 de março, estivemos no Sesc Pinheiros e participamos do Fazetório de Ficções, um evento que fez parte da programação do FestA – Festival de Aprender 2018. Além das nossas oficinas cartoneras, a praça do Sesc Pinheiros também contou com uma oficina de Encadernação oferecida pela Associação Brasileira de Encadernação e Restauro (ABER), uma atividade sobre Livros Inclusivos promovida pela DNA – Editora e Soluções em Acessibilidade, uma oficina de Editoração Independe feita pela Editora Quelônio, uma atividade de Desenho realizada por Nice Lopes, uma proposta de Pintura Viva pela Yasmim Flores e a confecção do Livrão na Primeira Infância propiciada pela Jujuba Editora.

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A proposta do evento era demonstrar técnicas relacionadas ao livro. Isso realizou-se através de estações simultâneas, ou seja, ao mesmo tempo que ministrávamos nossa oficina cartonera, atividades que se concentravam em outras técnicas eram realizadas. O Fazetório ocorreu das 11h às 18h30 e cada coletivo realizou quatro oficinas. Assim, o público pôde revezar e aprender um pouco sobre diversos aspectos da confecção livresca.

A programação do evento estendeu-se ao dia 4 de março com oficinas de Papel reciclado com a Schöpf Papier, Corta, recorta, mascara e estampa com a Gráficafábrica, Estamparia em Xilogravura com o Coletivo Olhares Impressos, Caligrafia Artística com o Atelier de Caligrafia Andréa Branco, Livreto Tipográfico Ilustrado com Claudio Rocha, Livro-Brinquedo com a Contracouchê e, novamente, o Livrão na primeira infância com a Jujuba Editora.

A mestre de cerimônias foi Karina Giannecchini, atriz e contadora de histórias. Ao longo dos dois dias, ela ocupou-se da mediação entre o público, as editoras e os ateliês, explicando em que consistia e como funcionava cada técnica. Deste modo, os interessados puderam se inscrever e participar do que mais lhes interessava.

As quatro oficinas da Malha Fina Cartonera preencheram todas as vagas. Pudemos ensinar um pouco de nossas técnicas para um público muito heterogêneo, que passava por professores do ensino básico, estudantes de design, artes e literatura, costureiras, até famílias que visavam ampliar seus conhecimentos sobre este objeto tão comum e, ao mesmo tempo, complexo. Dividimos as oficinas conforme nosso modus operandi comum: organizamos quatro estações de trabalho (corte do papelão, furo e vinco, costura e pintura) e cada monitora responsabilizou-se por explicar uma delas. Depois, mãos na massa! Cada um dos vinte oficineiros saiu do evento com seu caderno cartonero personalizado.

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Simultaneamente, dentro do Sesc, ocorria outro evento de visibilidade para as publicações independentes, a Junta! Feira de Livro de Artista Latino Americana, que reuniu editoras interessadas nos mais diversos registros das artes visuais, por exemplo, técnicas vinculadas às artes gráficas e serigrafia. As editoras que marcaram presença foram Biblioteca Popular Ambulante (México/Argentina), Dulcineia Catadora, Rolo Seco, Tenda de Livros, A Bolha Editora, Banca Tatuí, Edições Tijuana, DesapÊ e 55SP.

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Agradecemos o convite feito pelo Sesc Pinheiros, especialmente à Ludmila Porto e à Camila Hion. Esta foi mais uma oportunidade de difundirmos nosso fazer cartonero e aproximarmos os leitores de uma maneira não tão convencional de confecção do objeto livro. Muito obrigada!