Jorge Enrique Lage: como Bartleby, o corvo de Melville… Entrevista a Antonio José Ponte

Entrevista por: Jorge Enrique Lage publicada em Hypermedia Magazine.
Traduzida por: Pacelli Dias Alves de Sousa.

Recentemente, a Malha Fina Cartonera publicou, em tradução de Clarisse Lyra, o livro 2 Ensaios [para saber mais sobre o livro, clique aqui], do poeta, narrador e ensaísta cubano Antonio José Ponte (Matanzas, 1964), num esforço por divulgar no Brasil a literatura contemporânea do Caribe, tendo como critério de seleção, o ineditismo do autor, a altíssima qualidade literária das suas criações, a incorporação destas obras ao currículo da literatura latino-americana dos cursos de letras nas universidades do Brasil, assim como a falta de interesse do mercado editorial por autores que não chegam ao país com as garantias de crédito dos cadernos de resenhas dos grandes jornais da Europa e dos Estados Unidos. Ponte é considerado um dos mais prestigiosos ensaístas cubanos do presente. Entre seus ensaios destacam Las comidas profundas (1997), Un seguidor de Montaigne mira La Habana (2001), El libro perdido de los origenistas (2002), assim como “El abrigo de aire” (2001) e “Historia de una bofetada”, estes dois últimos recolhidos em 2 Ensaios, e escritos contra as manipulações de José Martí por parte do poder político revolucionário. A entrevista, publicada recentemente em Hypermedia Magazine [clique aqui] e traduzida para Malha Fina por Pacelli Dias Alves de Sousa, apresenta aos leitores brasileiros um panorama da obra deste importante escritor cubano, comentada por ele mesmo, revela suas obsessões com a cidade de Havana, com os grandes mestres da tradição literária da Ilha, as difíceis relações entre o Estado cubano, as novas tecnologias e os intelectuais, recomenda autores e obras da literatura latino-americana e norte-americana recente, e, para não carecermos de nada, fala também sobre o livro que virá, o Libro de una sola mano de Nitza Villapol, uma sorte de “manual para aprender a comer sozinho”.

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“2 Ensaios” de Antonio José Ponte. Foto: Mariana Costa Mendes.

Converso por e-mail com Antonio José Ponte, que se encontra na Universidade de Princeton por estes meses, ocupado com trabalhos de docência. É um diálogo intermitente – que eu desejaria que fosse interminável, nunca falei com ele ao vivo – no qual às vezes imagino que minhas perguntas vão abrindo caminho em um campus muito agitado, intercalando-se a força na fila das perguntas que os estudante dirigem a ele.

Se me perguntassem, e por sorte não me perguntam, diria-lhes que dois dos melhores livros cubanos entre todos os publicados no que passou deste século, dois livros fundamentais, levam a assinatura do escritor à frente.

Em um destes livros, El libro perdido de los origenistas, encontramos esta declaração: “Eu me interesso menos pela obra intransferível de cada escritor que por suas figuras”. A atitude do autor é como aquela do “zelador de museu”, lemos, e explica assim sua “mania de perseguir emblemas – livro que se perde, casaco, sacola – para chegar a esses outros emblemas que são os escritores”.

Os ensaios que compõem El libro perdido de los origenistas se ocupam de escritores mortos. Mas, antecipando-nos o museu, é interessante como às vezes já é perceptível em certos escritores vivos essa figura literária, de importância singular, que funciona como impulso ativador de exibições históricas, estéticas, políticas, enfim. E são poucos aqueles dos quais se pode dizer algo semelhante.

Além da obra intransferível, algo do emblema está já, em minha opinião, em Antonio José Ponte dentro da literatura cubana. Um emblema in progress, ou latente, do qual nos tocou ser, por sorte, leitores contemporâneos. Oxalá sejam cada vez menos aqueles que não puderam, não souberam, ou não quiseram se dar conta do privilégio que isto significa.

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Antonio José Ponte. Fonte: Stanford.edu.

Acredito que para muitos dizer Ponte é como dizer Havana: um modo de pensar e registrar as ruínas. Mas você já está há mais de uma década vivendo na Europa e me interessa saber se há, ou pode haver, um Ponte cronista 2.0; como sua mirada de escritor explora, se o faz, a urbe do exílio. Parafraseando o Joaquim Sabina: pongamos que hablas de Madrid.

Estou há mais de dez anos vivendo fora, não voltei e Havana mudou muito desde então. Um dos cantos que me pareciam mais misteriosos da Habana Vieja está cheio agora, segundo me contam, de vida comercial, de pequenos negócios privados. Cirilo Villaverde fez deste canto o título de seu romance Cecília Valdés o La loma del ángel, que escreveu e publicou em versão definitiva em Nova York. No momento, viu-se necessitado de consultar detalhes topográficos ou de ambiente com alguns amigos que lhe restavam em Havana. Mas na intenção de Villaverde estava menos fazer da cidade um personagem que torná-la cenário de seus personagens. Nos meus livros, pelo contrário, Havana é protagonista. Para dizê-lo com um termo de romance psicológico: a Havana é um caso de consciência. E não poderia fazer esses trabalhos com a distância com que tinha Villaverde para escrever, sequer com a ajuda de amigos distantes.

Conheço Madri e um par a mais de cidades, mas nenhuma representa para mim o caso de consciência que é Havana.

Digo isto escaldado. Sem nostalgia e sem manhãs em que me desperte com a sensação de ter estado lá.

Lembro de uma frase sua em La fiesta vigilada: “Quando penso no futuro, meu desespero é urbanístico”. Sobre a modernização havaneira: gostaria de presenciá-la, vivê-la de perto? E narrá-la, te interessaria?

Viva onde viva, algo não mudou em minha relación com Havana, e é o entendimento dela como problema. Trata-se de uma capital paralisada por mais de meio século, que em algum momento começará a mudar abruptamente e a largos passos. Que tipo de cidade se estará fazendo? Creio que, junto com os especuladores imobiliários e as grandes construtoras, vão ter que ir a ela todos aqueles que, desde uma disciplina ou outra, pensam a cidade, sejam cubanos ou não. Serão necessários muitos especialistas e também muitos opinantes. E imagino que vai ser uma tremenda briga.

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“La fiesta vigilada”, de Antonio José Ponte. Fonte: Skoob.

Conjugando outro desespero no futuro: o desespero editorial. Revistas, selos editoriais e livrarias independentes, imprensa verdadeira… O que você deseja ver neste panorama em transição, nesta outra briga, quando o Estado cubano deixe de regular e fiscalizar tudo?

Em Havana sempre fui um leitor em caça por livros. Dos interessantes que podia encontrar em sebos, do interessante (mas muito pouco) que se publicava por essas datas, do que se achava em bibliotecas públicas e de tudo quanto podiam me emprestar os amigos. De modo que peço para os leitores cubanos variadas bibliotecas públicas livres de censura, boas edições recentes, sebos que os alegrem todos os dias e comércio eletrônico para que os livros cheguem desde as antípodas.

E, por favor, que sejam livros bonitos, para curar a vista de tanta miséria gráfica, pois os livros cubanos estão entre os mais espantosos do mundo.

Desejo revistas, claro. Editoras médias e pequenas. Desejo também que os grandes grupos editoriais desembarquem e abram ali suas filiais e lojinhas. E, já que trabalho em um jornal digital, desejo uma imprensa livre, entre a qual possa estar o Diario de Cuba.

Em Villa Marista en plata. Arte, política, nuevas tecnologías, você ensaiava a partir de uma série de eventos – a chamada guerrita de los e-mails, o ativismo dos blogueiros independentes, a aparição da Segurança de Estado na obra de alguns artistas – que marcaram uma época recente na vida intelectual dentro da ilha. Com a distância de uns poucos anos, pode se dar a impressão de uma fumaça que terminou se assentando, não tenho claro em cima do quê. Se um leitor te perguntasse hoje, com entusiasmo, em que parou tudo aquilo. O que diria a ele?

Bom, a primeira coisa que tentaria fazer é acalmar o entusiasmo deste leitor e me desculpar com ele caso esse meu livro tivesse alguma responsabilidade em seu entusiasmo. Mas, vejamos, em quê parou tudo aquilo? Em meu livro fiz que se notasse a aparição da figura do policial político, da Segurança de Estado na obra de alguns artistas. Era esperançador ver como esses artistas incluíam a vigilância e a repressão e a tortura em suas equações das circunstâncias cubanas.

Ali eu falava de Carlos Garaicoa, de Eduardo del Llano e do casal de artistas plásticos Yeny Casanueva e Alejandro González. Mas hoje pode-se comprovar que a grande maioria dos artistas e escritores, inclusive quando historicizam a vida cotidiana em Cuba, seguem sem se atrever a mencionar esse fator. Leonardo Padura, para citar um exemplo, alude à Segurança de Estado o menos possível e quando o faz, é pra eximí-la de responsabilidades e culpas. Não somente em seus romances: em Regreso a Ítaca, o filme de Laurent Cantet para o qual ele escreveu o roteiro, a repressora que impulsiona o protagonista ao exílio pertence, não à Segurança de Estado, mas ao Ministério de Cultura. Assim se diz várias vezes no filme: Ministério de Cultura.

E quando o protagonista tropeça em Madri com esta funcionária, que então tinha se exilado, tira a conclusão que ele já pode regressar a Cuba e voltar a viver em seu país. Porque o ataque que ele sofreu em Cuba deve ter vindo unicamente dela, que já não é um problema… Assim que na equação oportunista de Padura não é a Segurança de Estado, senão o Ministério de Cultura que se encarga de vigiar e reprimir, e nem sequer este ministério, mas uma funcionária tão hipócrita que acabou por se exilar… Tudo isto me leva a pensar no estranho de que seja tomado como novelista policial um escritor de conto de fadas como Padura.

Em Villa Marista em plata me ocupava da “guerrita de los e-mails”. Para não repetir a história aqui (os detalhes podem ser encontrados nas páginas do livro), aquela mobilização gremial serviu para que o grêmio de escritores e artistas renovasse os votos de fidelidade com as novas autoridades do pais, com Raúl Castro, que começava seu mandato. Vários Prêmios nacionais, como Reynaldo González, Antón Arrufat, Ambrosio Fornet e Eduardo Heras León, conseguiram salvar suas prebendas, e alguns sessentões como Arturo Arango e Desiderio Navarro fizeram méritos para, cedo ou tarde, receber o Prêmio Nacional.

Nesse livro me interessava também por outro traço de época, por como a telefonia móvel permitia difundir provas da violência de Estado. Dos atos de repúdio, das detenções, das destruições de interiores e as desocupações praticadas pela polícia política. Desde então podemos ver os rostos de muitos dos repressores. Em alguns casos, alcançou-se revelar suas verdadeiras identidades, para além do codinome de trabalho que utilizam. E é curioso ver como agora esses repressores usam espelhinhos para cegar com seus reflexos as filmagens e assim não ficarem expostos. Daí que inventaram a figura do capanga com pólvora, que antes não existia.

Mas bem, escrevi Villa Marista en plata sabendo que era um livro de época, cujas esperanças poderiam ser perfeitamente desmentidas. Era uma pequena crônica de uns pequenos dias, se me permitem apequenar o título de Octavio Paz, que por sua vez, tinha apequenado o título de Quevedo.

Mas então você crê que aquelas esperanças foram desmentidas? Como você vê os dias presentes?

Acredito que foram desmentidas sim. A aproximação que se vislumbrou entre intelectuais e ativistas políticos não teve mais consequências, não funcionou. A figura do intelectual que as instituições propõem em Cuba, ainda que estejam em mal momento e sejam puro cinismo, não sofreu muito dano, não tem contrapartida verdadeira. E surgiu um espaço de negociação entre artistas plásticos e comissários políticos sobre o qual me referi em um artigo publicado no El País: “La putinización del arte cubano” (clique aqui).

Depois de Contrabando de sombras, publicado em 2002, você voltou ao romance? La fiesta vigilada era melhor dizendo um material híbrido, uma espécie de ficção ou narrativa documental…

La fiesta vigilada foi publicado pelo seu editor espanhol em uma coleção de romances. O mesmo fez o editor alemão com a sua tradução. Suponhamos então que é um romance. Em todo caso, o que se aproxima vai estar mais perto de La fiesta… que de Contrabando…

Adiante para a gente algo sobre esse livro que virá.

Libro de una sola mano de Nitza Villapol, vai se chamar. Livro de uma mão sozinha porque os franceses chamam assim os livros eróticos, mas é que os livros de cozinha também o são: com uma você sustenta o livro e com a outra busca os ingredientes, abre e fecha a geladeira, agitado. E Nitza Villapol, porque me interessava a figura de quem compôs o conjunto de receitas gastronômicas mais popular em Cuba. Popular a tal ponto que, vivendo ela em Cuba, seu livro, Cocina al minuto, foi profusamente pirateado no exílio. E até onde sei, é o único caso em que isso ocorreu.

O que começou por um verbete de dicionário sobre ela que me encargaram, terminou sendo um livro no qual Nitza Villapol é como essas mulheres de Edward Hooper, comendo sozinha em um balcão. Temo ao final que o que escrevi seja um manual para aprender a comer sozinho.

Asiento en las ruinas é, se não estou errado, seu único livro de poemas publicado até agora. Podemos esperar, em um futuro não muito distante, um livro com a sua poesia inédita?

Tenho um para ordenar. Alguns dos poemas fui publicando em revistas. Este livro ainda é um montão de registros que embaralho e desembaralho sobre uma mesa, em Madri. Porque o ordenamento é a grande questão quando não se escrevem livros temáticos nem séries, mas poemas soltos, às vezes com muito tempo de distância entre eles.

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“Un arte de hacer ruinas y otros cuentos”, de Antonio José Ponte. Fonte: Amazon.

Falemos de leituras. Literatura latino-americana – ou norte-americana, ou europeia – contemporânea. Que autores não deixaria de recomendar? Que livros, que gêneros você leu com maior prazer nos últimos tempos?

Li com prazer The night, do venezuelano Rodrigo Blanco Calderón, um romance que poderia ensinar muitos narradores cubanos sobre como tratar com blecautes, como fazer uma mais oblíqua (mas não menos efetiva) narrativa política.

Outro romance, Muerte súbita, do mexicano Álvaro Enrique, que reuniu Caravaggio e Quevedo em uma aposta de tênis em Roma e reúne também um dos penachos de Moctezuma e uma bola de tênis feita com pelos (assim se fabricavam na época) de Ana Bolena.

Del amor absoluto y otros poemas sín títulos, poemas escritos em Roma pelo peruano Jorge Eduardo Eielson, no fim de sua vida. Mais um de seus romances: El cuerpo de Giulia-no.

La mucama de Ominculé, romance da dominicana Rita Indiana, e espero ler seus anteriores rápido.

Os poemas de Italianisches Liederbuch do argentino J. R. Wilcock, escritos em italiano e com título goethiano.

Sobre a literatura norte-americana contemporânea, sou mais um leitor de poesia e ensaios que de narrativa:

Acabei de ler os ensaios recém aparecidos de Elliot Weinberger – The Ghosts of Birds – e voltei a outro livro velho seu, Outside Stories.

A correspondência entre David Markson e Laura Sims, porque conhecia já os romances de Markson, feitos de citações e especialmente um em que joga com o bloqueio, não do escritor, mas do leitor.

As poucas páginas dos diários de Guy Davenport que aparecem em The Guy Davenport Reader, depois de ter lido e relido seus contos e ensaios (mas não Objetos sobre una mesa que é frouxo). E as traduções dos poetas arcaicos gregos que fez Davenport: Six Greek Poets.

Uma obra teatral de Sarah Ruhl composta a partir de fragmentos das cartas que se cruzaram Elizabeth Bishop e Robert Lowell: Dear Elizabeth.

The Albertine Project da canadense Anne Carson, um livrinho de nada sobre a presença e ausência de Albertine nas novelas proustianas. Mais a tradução de Las Bacantes de Eurípides feita por ela. E quanta poesia chinesa e japonesa tenha traduzido Kenneth Rexroth.

Mas como a lista está ficando muito longa, digo esses autores europeus: Giorgio Agamben, Guido Ceronetti, Joseph Brodski, Sophia de Mello Breyner Andresen, Georges Didi- Huberman, Leonardo Scciascia, Karl Schlögel, o Pier Paolo Passolini cronista (e os demais Passolinis), Roberto Calasso, Tomas Tranströmer…

Neste outono você vai oferecer um curso em Princeton sobre a figura do intelectual na literatura e no cinema cubanos entre 1959 e 2010. Quais coisas te pareceram mais interessantes ou chamativas nesse curso de meio século?

Tem sido curioso explicar a poesia de Heberto Padilla, terminar a aula, caminhar uns poucos metros e me encontrar em Linden Lane, a rua onde ele viveu na sua chegada ao exílio estadunidense. A mesma rua que deu nome à revista que Belkis Cuza Malé ainda publica.

Que minha aula esteja tão perto dela me parece um eco. Mas, um eco de quê? Não sei, de modo que me tornei um passeante habitual de Linden Lane para ver se descubro.

O curioso também de estar em conferência na Universidade de Virginia e escutar de um catedrático que Guillermo Cabrera infante viveu ali um semestre, como professor convidado. Perguntar a ele se por acaso Cabrera Infante alugava a casa de um professor de literatura inglesa por sabático e descobrir então que foi ali onde, impulsionado por uma biblioteca alheia, Cabrera Infante deu aquela estranha e magnifica entrevista ao The Paris Review na qual se estendeu sobre o ensaísmo inglês do século XVIII.

Não sei que possam dizer estas notícias de Padilla e Cabrera Infante com que tropecei. As duas são como histórias que transcorrem em um sonho, às quais não se chega a encontrar sentido. Por isso falo de eco: falta o resto inicial da frase.

Suponho que deve estar neste curso, porque não pode faltar, uma das figuras mais memoráveis da literatura cubana recente: o narrador-personagem de La fiesta vigilada, este que entre outras coisas relata sua expulsão da UNEAC, o reino oficial dos intelectuais cubanos.

Agradeço que tenha pensado nesta inclusão, mas sobre ela não pensei duas vezes. Lecuona plays Lecuona, que disco! Roland Barthes por Roland Barthes, que livro! Mas Ponte explains Ponte… “I would prefer not to”, como sempre respondia Bartleby, o corvo de Melville.

Preferiria não fazê-lo.

Obrigado.

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Malha Fina Cartonera nos Jardins das Academias

por: Andrés Hernández

No último dia 11 de novembro foi inaugurada, na sala de exposições do Laboratório Experimental de Artes (Aquário), da Universidade Federal de Uberlândia, a exposição Dos Jardim das Academias, sob os cuidados de Andrés Hernández, curador de arte, professor e doutorando pelo Instituto de Artes da UNICAMP (IA).  Em palavras da equipe curatorial, integrada por Allan Yzumizawa, Eder Aleixo e Giovanna Pontes, esses trabalhos se apresentam “como index dos quais indicam possíveis frutos desses jardins (universidades). Possíveis frutos, pois às vezes eles ainda não existem, muitas vezes não chegam a existir. Por isso a importância de cultivá-los, fazê-los germinar com força e constância. Diante de crises políticas e educacionais; de greves de professores, estudantes e funcionários, e do silencio acadêmico para a comunidade, como podemos adubar essa terra que se torna cada vez mais infértil, como podemos cuidar desses jardins? Nesse espaço, os jovens artistas envolvidos tiveram voz, e como resultado disso apresentam aqui minúsculas partículas, e não por isso irrelevantes, da arte que por vezes passa desapercebida nas esferas das instituições de arte; tanto na discussão dos processos de criação como de apresentação.  Estes artistas são as vozes das próximas, e também já presentes gerações de pensamento e novas concepções. Diante desse todo grande potencial, resta a pergunta: Como podemos adubar a terra, podar as folhas doentes, eliminar as pragas para que possamos colher frutos sadios?”.

O projeto “No jardim das academias” propõe promover através das etapas constituintes de uma exposição de artes visuais o contato e fortalecimento do intercâmbio cultural e pedagógico entre alunos de graduação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e da Universidade Federal de Uberlândia (UFU); assim como fomentar o diálogo de forma coletiva e individual de suas produções, impulsionando a preparação dos mesmos como artistas, curadores, pesquisadores, críticos e agentes artísticos. Sua abertura e montagem contaram com a integral colaboração dos alunos expositores, oferecendo a chance de acompanhar e participar de todas as etapas da exposição como catalogação de obras, montagem, pesquisa, curadoria entre outras, culminando em uma conversa coletiva na abertura expondo a resolução do processo vivenciado ao público.

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Foto: Andrés Hernández

A exposição acontece como desdobramento do trabalho desenvolvido na disciplina  AP 240 Ateliê Experimental Multidisciplinar II no primeiro semestre de 2016, no Instituto de Artes da UNICAMP, ministrada pelo curador e professor Andrés Hernández,  resultante do Edital PEVG (Professor Especialista Visitante na Graduação) – edição 2016/1 promovido pela PRG Unicamp (Pró Reitoria de Graduação), especificamente da exposição “No jardim da academia” realizada na Galeria do Instituto de Artes (GAIA) de 18 à 31 de maio de 2016, com 26 trabalhos executados durante a disciplina e expostos na mostra e que serviram também para a elaboração dos folders individualizados da exposição.

Participaram também alunos da graduação em Artes Visuais da UFU que fazem parte da exposição pelos 20 anos do MUNA (Museu Universitário de Arte), também em Uberlândia, que desenvolveram capas de livros personalizadas para contribuir com o projeto selo editorial Malha Fina Cartonera, da Universidade de São Paulo, auspiciado pelo Programa Unificado de Bolsas dessa instituição.

É importante ressaltar que o projeto possibilitará promover ações multidisciplinares que irão proporcionar a troca de ideias e conhecimento entre alunos, educadores e pesquisadores, além da ocupação e ampliação da relação entre seus espaços culturais, fortalecendo um vínculo muito prolífico à comunidade acadêmica e favorecendo futuras aproximações.

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Da Festa do Livro da USP ao Salão Carioca do Livro

por: Tatiana Faria

Nesta semana a Malha Fina Cartonera participará de dois grandes eventos: a 18ª Festa do livro da USP, a convite do GMARX, e da LER – Salão Carioca do Livro, juntamente com a Mariposa Cartonera, selo editorial recifense fundado por Wellington de Mello. Essas duas iniciativas são extremamente importantes para os calendários livreiro e literário de São Paulo e Rio de Janeiro e, ainda que possuam propostas distintas com respeito ao estímulo à leitura e acesso ao livro, elas evidenciam tanto a permanência e desdobramentos possíveis a partir do livro físico, quanto a necessidade de investir e problematizar as dinâmicas de distribuição e comercialização de tal objeto no Brasil.

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Malha Fina na Feira do Livro da USP no stand do Gmarx. Foto: Mariana Costa Mendes.

A Festa do Livro da USP, idealizada por Plínio Martins Filho, tinha como intuito inicial reunir as editoras universitárias brasileiras em um único evento, fomentando a circulação e democratização de seus catálogos a partir de um desconto mínimo de 50% nos exemplares. Com o passar do tempo, outras editoras privadas somaram-se à Festa e atualmente ela reúne cerca de 155 editoras de todo o Brasil e também do exterior, como a Libros Unam e a Eudeba, da Universidad Autónoma de México e da Universidad de Buenos Aires, respectivamente.

Considera-se que a história da Festa do Livro reflete uma parcela importante do mercado livreiro atual. Primeiramente porque ela coloca em evidência que muitas editoras brasileiras possuem um catálogo destinado ao público universitário e a realização de tal evento propicia que o produto livro esteja diretamente em contato com o conjunto de receptores ao qual se destina, isto é, o estudante, o professor universitário e o pesquisador. Outro elemento que se faz presente no evento é o de ele ter se tornado uma das poucas iniciativas que busca encontrar uma solução para um dos principais problemas do mercado livreiro atual: a distribuição e comercialização do livro no Brasil.

Pode-se dizer que o desconto de 50% dado pelas editoras participantes da feira é praticamente irrisório se comparado à lógica comercial perversa das grandes livrarias e distribuidoras, que chegam a cobrar até 70% do preço de capa das editoras para comercializarem seus livros, porcentagem condicionada à comercialização sob consignação, com previsão de pagamento sobre as vendas de até seis meses, perspectiva que prejudica tanto a editora, que cada vez enfrenta mais dificuldades para fazer com que seus livros circulem e cheguem aos leitores, quanto o público leitor, que devido ao preço exorbitante do livro no Brasil tem neste tipo de evento uma das raras oportunidades de comprar os livros desejados durante todo o ano.

Em relação a esse panorama, pode-se dizer que a feira da USP é, na verdade, a Festa do comércio do livro, a Festa de sua economia, democratização e circulação, uma vez que neste evento, que neste ano pretende atender até 240 mil pessoas, as editoras conseguem equilibrar, muitas vezes, seus orçamentos no final do ano, perspectiva que em um momento de crise do mercado livreiro como o atual, pode impedir que editoras fechem suas portas em 2017.

Já a LER – Salão Carioca do Livro, este ano será realizada no Boulevard Olímpico e pretende integrar-se ao calendário cultural do Rio como o maior evento aberto e gratuito existente em torno do livro no Brasil. Com curadoria de Julio Silveira, a LER está dividida em diversos pavilhões e oferece programação literária das 9hs às 22hs durante os quatro dias de evento, pelos quais passarão cerca de 40 autores e serão realizadas dezenas de oficinas e mesas redondas, destinadas ao público infantil e adulto, além de conter uma feira permanente com centenas de editoras participantes.

Nas palavras de Silveira, o principal intuito da feira é “promover a conversa entre autores tradicionais e blogueiros, geeks e historiadores”. É certo que este modelo de evento literário evidencia outra faceta do mercado livreiro: a de que o livro, atualmente, se circunscreve dentro de uma lógica comercial semelhante à de qualquer outro produto, pois também depende do investimento em divulgação e marketing – realizados, sobretudo, em torno da valorização da figura do autor e de sua vida pública – para obter algum êxito de vendas e ser reconhecido nacional e internacionalmente.

Com isso, pode-se dizer que eventos como a LER, ao promoverem o encontro entre os leitores e escritores, contribui com a democratização e o acesso ao livro ao aproximar o autor e o público, lógica que ainda que possa ser questionada e criticada tornou-se uma prerrogativa para o mercado editorial atual, e não deve ser ignorada e nem menosprezada quando se discutem políticas públicas em torno do livro no Brasil.

A partir do panorama apresentado, poderíamos pensar que talvez o público da primeira feira se difere do da segunda, uma vez que o leitor universitário talvez não necessite de estimulo comercial para interessar-se por livros. Entretanto, se observamos a lista de convidados da LER notaremos que entre eles está, por exemplo, Eucanaã Ferraz, professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autor de Escuta (Companhia das Letras, 2015), finalista do Prêmio Oceanos; e Paulo Lins, autor de Cidade de Deus (Companhia das Letras, 1997) que, como é sabido, foi publicado pela primeira vez graças à indicação do reconhecido crítico literário Roberto Schwarz, e atualmente a sua obra é objeto de diversas teses e artigos, produzidos por estudantes e professores universitários, ou seja, ambos os convidados vinculam-se direta ou indiretamente à esfera universitária, sendo impossível, portanto, dissociar a importância e o valor de ambos eventos para o fortalecimento do mercado livreiro e estímulo à leitura e acesso ao livro no Brasil.

No que concerne à participação da Malha Fina Cartonera, há algumas perspectivas que consideramos necessário pontuar em relação aos dois eventos. Com respeito à Festa do Livro da USP, nossa participação ocorrerá por intermédio do GMARX, grupo de pesquisa autônomo que reúne estudantes e pesquisadores da USP e de fora dela, que conjuntamente realizam uma série de atividades, como minicursos e palestras gratuitos em escolas e outros espaços públicos de São Paulo, com o intuito de discutir e problematizar a conjuntura política e social nacional. O coletivo, para arrecadar fundos para tais iniciativas, durante a Festa do Livro, vende uma série de títulos, entre os quais se somam o nosso catálogo (clique aqui), bem como outros títulos como, por exemplo: a Revista Mouro, editada por eles próprios, A revolução cubana e a Questão Nacional (1868-1963), de José Rodrigues Mao Jr, A frente Nacional na Colômbia 1958-1974: A ditadura democrática das classes dominantes, de Ana Carolina Ramos, Coleção Memória Militante, com textos de Paul Singer, Wilson Barbosa, Catullo Branco e Renato Martinelli, entre outros.

Dessa forma, a partir do comércio dos livros citados acima é possível realizar uma série de atividades, incentivando e colaborando com a formação intelectual e cultural da população, contemplada pelas oficinas e minicursos realizados pelo GMARX. De acordo com essa perspectiva, pode-se dizer que o livro, quando se torna uma mercadoria para um projeto de autogestão como o GMARX, ele passa a ser o agente financiador atividades como as descritas acima, deixando de ser apenas o transmissor de ideias ou conceitos, uma vez que o dinheiro obtido com a sua venda pode auxiliar ações de formação educacional e social, proposta que, em momentos políticos como o nosso, de cortes financeiros na educação e reformas no ensino público, representa um grande movimento de resistência política e cultural.

Já com relação à nossa participação na LER – Salão Carioca do Livro, é válido destacar que teremos um stand junto com a Mariposa Cartonera para expor nossos livros, onde poderemos atender e conscientizar a população com respeito à publicação sustentável, à edição cartonera, bem como apresentar o nosso catálogo. Também durante o evento, realizaremos oficinas sobre a publicação independe nos dias 26 de novembro e 27 de novembro, das 17h30 às 19h30, nos mesmos moldes das realizadas nas escolas públicas de São Paulo (confira mais em “Malha Fina na Escola: um relato de experiências“), cuja proposta central é capacitar os participantes das oficinas para produzirem e comercializarem seus próprios livros, estimulando e democratizando o acesso à publicação e comercialização literária.

Essa semana, em que nos desdobraremos em dois grupos, pretendemos colaborar com ambas iniciativas, que consideramos serem indispensáveis para a manutenção e valorização do livro no Brasil, mas desejamos, sobretudo, trocar experiências e aprender mais e melhor, pois somente assim será possível carregar os ânimos e as ideias para seguir o próximo ano, cujas as palavras resistência e permanência, pretendemos levar não somente em nossos textos publicados semanalmente no blog, como também em nossa práxis diária em torno da valorização do livro e do estímulo à vida literária para dentro e fora da universidade.

Feira Miolo(s) 2016: um modelo de independência editorial

por: Chayenne Mubarack

A feira Miolo(s) é um evento anual em São Paulo que reúne publicações de coletivos e artistas gráficos do mercado editorial independente latino-americano O evento ocorre ao longo de um dia, normalmente em novembro, com o intuito de colocar os visitantes em contato com esse eixo. Criada em 2014, a feira é organizada pela Lote 42 e pela Biblioteca Mário de Andrade.

Nesse ano, a feira ocorreu dia 05 de novembro, das 12h às 23h59. O saguão, corredores e entrada da Biblioteca Mário de Andrade foram tomados por diversas publicações dos mais diferentes tipos. Na banca de cada editora o visitante podia conversar com membros dela, inteirar-se sobre o projeto que estava em exposição e comprar livros que estão fora do grande circuito comercial. Esse é um dos objetivos da feira, promover o encontro do público com esse tipo de publicação.

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Saguão da Biblioteca Mario de Andrade durante a Feira Miolo(s). Foto: Mariana Costa Mendes.

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Estande das Edições Olhavê. Foto: Mariana Costa Mendes.

Também, no marco do evento, teve lugar a segunda edição do Prêmio Miolo(s), criado pelos organizadores da feira, que visa reconhecer e consolidar o trabalho de tantos artistas independentes. Os trabalhos finalistas estão em exposição na Associação Brasileira de Encadernação e Restauro (Aber) até novembro de 2016. As categorias do prêmio são “Capa”, “Livro de Artista”, “Projeto Gráfico”, “Publicação de fotografia”, “HQ”, “Ilustração”, “Infantil” e “Homenagem”. O júri foi composto por três representantes da Lote 42, três da Biblioteca Mario de Andrade e três convidados.  A publicação vencedora da categoria “Projeto Gráfico” foi a Quelônio Solto #01, pela Editora Quelônio. A editora foi criada em 2013 por Sílvia Nastari e Bruno Zeni, e desde 2015 conta com a parceria de Maria Helena Sponchiado e Marcelo Parducci.

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Publicação vencedora da categoria “Projeto Gráfico”. Fonte: Quelonio.

A Malha Fina Cartonera conversou com Sílvia Nastari, design gráfica do projeto vencedor. O primeiro tema do bate papo foi a emergência de um mercado de editoras independentes no Brasil. De acordo com Silvia, estamos em um momento de grande sucesso para esse tipo de editora no país. A design chamou atenção para a importância de espaços como a Miolo(s), feiras que ajudam a divulgar esses trabalhos gráficos. A respeito de como começa um projeto gráfico, do surgimento da ideia, Silvia nos contou que os livros da Editora Quelônio são planejados como se fossem peças de arte, pensando no uso de diferentes técnicas, para então montar a capa. Na Quelônio Solto #01 eles utilizaram xilografia para envolver os textos a modo de capa, mas também poderiam pensar em distintas técnicas, como a serigrafia. A diferença de pensar em um projeto gráfico para editora independente, em contraposição às grandes editoras, é que as capas são planejadas de acordo com o texto, em diálogo direto com o livro, não importando, por exemplo, se cada edição sai diferente das anteriores.

Espaços como a Feira Miolo(s), que promovem, reconhecem e democratizam o acesso do público ao mercado editorial independente são muito importantes para a manutenção e promoção dessas editoras. O livro independente tem muitas dificuldades para circular (no caso dos livros cartoneros, você pode ler mais sobre em “As Dificuldades do Fazer Cartonero“), mas esses eventos estimulam o nosso fazer e nos mostram a boa receptividade que temos frente ao público. Avante!

Em obras: saídas da ficção

por: Paloma Vidal

Publicamos, na íntegra, a apresentação do projeto transdisciplinar de palestras performáticas “Em obras”, com curadoria de Paloma Vidal, em evento promovido pela Malha Fina Cartonera durante a V Jornada da Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Universidade de São Paulo, no dia 26 de outubro. Você pode conferir mais sobre esse dia no postA literatura brasileira em obras: memória de uma conversa com Julián Fuks e Paloma Vidal“, de Aryanna Oliveira.

Paloma Vidal nasceu em Buenos Aires, mas vive desde os seus 2 anos no Brasil, entre Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, onde trabalha atualmente. É escritora, tradutora e professora de Teoria Literária da Universidade Federal de São Paulo. E também, semifinalista do prêmio Oceanos na categoria Poesia, com o livro Dois [lugares onde eu não estou], publicado em 2015, pela 7Letras.  Além desse, publicou Durante (poesia, Rio de Janeiro: 7Letras, 2015), Três peças (teatro, São Paulo: Dobra, 2014), Mar azul (romance, Rio de Janeiro: Rocco, 2012), Escrever de fora: viagem e experiência na narrativa argentina contemporânea (ensaio, São Paulo: Lumme Editor, 2011), Algum lugar (romance, Rio de Janeiro: 7Letras, 2009), Mais ao sul (contos, Rio de Janeiro: Língua Geral, 2008), A história em seus restos: literatura e exílio no Cone Sul (ensaio, São Paulo: Annablume, 2004) e A duas mãos (contos, Rio de Janeiro: 7Letras, 2003).

 

Gostaria de falar sobre um projeto ao qual tenho me dedicado desde o ano passado, um trabalho coletivo e transdisciplinar, que se chama “Em obras”, do qual eu sou curadora e faço parte também como palestrante. Vou trazer alguns exemplos de duas palestrantes com seus projetos, que podem ser interessantes para pensar os horizontes da literatura contemporânea certamente, em especial a latino-americana, na medida em que todas as palestrantes desse projeto são brasileiras ou argentinas. Embora seja em princípio um projeto que não é estritamente literário, acho que tem tudo a ver com a literatura e faz pensar a literatura hoje. Nele participam sete mulheres, e uma das características interessantes é que elas estão ligadas a áreas das artes e da literatura, embora cada uma desempenhe funções diferentes. Vou nomear as sete: Cynthia Edul, dramaturga, Diana Klinger, crítica literária, Elisa Pessoa, artista visual, Ilana Feldman, crítica de cinema, Marília Garcia, poeta, Veronica Stigger, escritora. Eu também participo, como disse, não só como curadora, mas também como palestrante. Esse projeto foi apresentado recentemente no Rio de Janeiro, no Midrash Centro Cultural (http://www.midrash.org.br).

Acho que é importante, em primeiro lugar, descrever para vocês em que consistem essas palestras. Elas são basicamente apresentações, no formato de palestra, que duram em torno de 40 minutos. O formato é basicamente esse, muito simples, com uma mesa, um computador, um datashow. Por meio desse formato, o projeto traz uma série de questões teóricas e críticas interessantes. Talvez a ideia principal do projeto seja a do processo, a de que o que se exibe, o que se apresenta, é a obra que está sendo trabalhada, que está “em obras”, em construção. O que a gente apresenta é a preparação da obra, ou seja, os diversos materiais, as ideias, os temas, os fantasmas; e nesse sentido, para mim, a inspiração principal tem a ver com uma pesquisa recente sobre a obra do Roland Barthes, sobre um seminário que talvez vocês conheçam, A preparação do romance, o último seminário que ele realizou, que foi publicado em dois volumes em português. O que esse projeto tenta fazer é quase que usar esse livro como um método, na verdade, levar muito seriamente essa ideia de tentar preparar o romance, usando esse livro como um método para fazer isso, quase como se, parafraseando um outro livro do Barthes, a gente pudesse pensar como preparar junto. Barthes se propõe a preparar o romance dele, que ele quer escrever, com os alunos, numa espécie de oficina ao contrário, em que ele faz a oficina diante dos seus alunos. E o que a gente faz nesse projeto, pelo menos como eu pensei, é um pouco levar isso para o formato da palestra performática e pensar a preparação, e preparar junto, entre a gente, entre as participantes, e também com os efeitos que produz a própria apresentação.

Tem duas ideias que eu gostaria de destacar, que na verdade são duas perguntas que aparecem nesse seminário do Barthes. A primeira é a seguinte: desde o início ele se pergunta se é possível escrever um romance hoje, é uma inquietação dele, na verdade ele quer preparar esse romance, ele precisa escrever esse romance, mas ele não tem certeza se ainda é possível escrever um romance, principalmente porque ele tem na cabeça um modelo de Grande Romance, que ele escreve assim com “g” maiúsculo e “r” maiúsculo, no caso desse livro, o modelo, o mentor, quem ele vai seguir, é Proust, onipresente no seminário. Mas o tempo todo ele duvida de que isso seja possível, o que é muito inquietante para Barthes nesse momento. Então eis que ele faz um desvio bastante surpreendente pelo haicai. Ele diz que vai preparar o romance. A gente esperaria que ele falaria do romance, e ele passa sessões e sessões falando do haicai, um desvio muito interessante, que tem a ver com essa espécie de utopia da escrita, aonde ele quer chegar, perto do fragmento e da poesia, mas ao mesmo tempo um romance, um Grande Projeto, com maiúsculas também.

O Barthes não escreveu esse romance que ele preparou, e isso é muito interessante e também inquietante. Por um lado, a gente poderia encarar isso melancolicamente, fazer esse seminário durante todo esse tempo e no final não escrever o romance. Por outro lado, ele deixou tantas portas abertas em relação ao que é possível fazer com o romance hoje, com esse livro, que nesse sentido ele é muito esperançoso, ele permite pensar o romance de uma maneira diferente. Não vou entrar nos meandros barthesianos que hoje me ocupam, mas ele escreveu vários livros, por exemplo, A câmera clara, que de algum modo responde às inquietações que aparecem nesse seminário. A câmera clara é um ensaio sobre fotografia, mas é também uma espécie de autobiografia, é também um livro sobre o luto pela morte da mãe.

Retomando, então, a primeira pergunta que guia esse seminário de Barthes é a questão de se é possível fazer um romance hoje; a segunda diz respeito ao desejo de escrever, ele coloca isso de uma maneira muito comovente. No primeiro volume ele fala basicamente do haicai, e no segundo volume mais fortemente aparece a questão do desejo da escrita e aí ele diz o seguinte: “Eu lhes proponho, pois, que nos instalemos, durante o breve tempo desta conversa, num cantinho muito pequeno da crítica literária; e, mesmo assim, eu o tratarei subjetivamente; falarei em meu nome, e não no lugar da ciência; vou interrogar a mim mesmo, eu que amo a literatura  Esse canto é, na verdade, o Desejo de Escrever”.

Ele vai interrogar esse desejo. E essa pergunta, pelo que move a escrita, pelo que faz a gente querer escrever, é o que move também seu seminário e o que ele está pensando. Não dá para esquecer: no momento em que Barthes está preparando esse romance, ele está vivendo um momento de luto, como ele escreveu em vários outros livros, como eu já disse, na A câmera clara, e também em Diário de luto, livro publicado postumamente. Ele está tentando então tirar esse desejo do que ele chama “ativo da dor”, com o ativo da dor ele quer fazer esse romance, que é também ruptura, o momento de luto é momento de ruptura, o meio da vida, como ele diz, um momento de um antes e um depois, e nesse momento ele decide escrever o romance e ao mesmo tempo se interroga, se pergunta, duvida: esse desejo ele vem mesmo do luto? ele vem da dor, mas ele quer se sobrepor à dor, e será possível se sobrepor à dor?

Essas duas questões – sobre o sentido de se escrever um romance hoje, que pode se estender ao sentido de se fazer literatura hoje, e sobre o desejo, que persiste, de escrever – atravessam o trabalho, como eu já disse, um trabalho coletivo, que envolve muitas conversas, que também acabam sendo expostas, que acabam aparecendo nas apresentações. As perguntas são expostas, as dúvidas, o desejo. E em relação a isso, há uma questão fundamental, que também está nesse seminário, que está na citação que eu li antes e nesta outra, do início do seminário: “o que não se deve suportar é o recalque do sujeito – quaisquer que sejam os riscos da subjetividade. Pertenço a uma geração que sofreu demais com a censura do sujeito: quer pela via positivista […] quer pela via marxista […] Mais valem os logros da subjetividade do que as imposturas da objetividade”.

Nosso trabalho é muito marcado por uma aposta numa subjetividade que não se recalca, mas que se coloca como um problema, que é também algo que aparece inúmeras vezes nessas sessões do seminário: como trazer esse eu sem egotismo? o que seria uma subjetividade sem egotismo? Isso se coloca de uma maneira muito problemática nesse trabalho, pois é um trabalho de muita exposição, é um trabalho em que um grupo de mulheres senta e conta as suas vidas de corpo presente, tem um eu que aparece o tempo todo. São trabalhos na primeira pessoa e ao mesmo tempo é uma escrita que está se fazendo, o que produz uma série de distanciamentos. Então, como criar esses distanciamentos, como produzir, nesse formato, esses distanciamento, talvez seja o grande desafio desse trabalho.

O formato, por si só, coloca essa questão. O artista, o performer, o palestrante está ali falando na primeira pessoa, se colocando com o seu corpo, se expondo. O gênero da palestra performática fica entre a performance – seguindo uma tradição performática das artes visuais, que justamente nasce da necessidade de questionar a separação entre vida e arte – e a arte conceitual – com a ideia de transformar a arte num discurso ou um discurso em arte, de poder produzir discurso sobre a arte na própria obra. É nessa via entre o vivencial e o conceitual que a palestra performática trabalha. Tem artistas muito interessantes nesse sentido, por exemplo, Rabih Mroué e Walid Raad. É um gênero que a gente poderia dizer que tem tido um protagonismo justamente por permitir esse entre-lugar.

Como eu disse, no caso específico do “Em obras”, em muitos sentidos o trabalho responde a questões colocadas pelo Barthes em relação ao romance, que poderiam ser colocadas para a literatura contemporânea de maneira geral, como a ideia do “sujeito sem egotismo”. Nesse sentido, o que a gente faz é trabalhar com uma escrita que busca sair de si de várias maneiras, através do arquivo, por exemplo ―como o arquivo entra e como ele pode vir de um outro lugar, ser a fala de um outro. O arquivo entra o tempo todo, de diversas maneiras, seja um arquivo histórico como também um arquivo pessoal de leituras, fotográfico, fílmico, e é claro que cada uma dessas escritas, cada um dos trabalhos das participantes, vai exigindo sua própria busca.

Nesse sentido, o que a gente mostra nessas apresentações é a preparação que acaba sendo a própria obra, o que talvez seja também uma resposta à questão da preparação tal como colocada por Barthes. Ele mesmo diz isso, ele tinha no horizonte a ideia de que a preparação já é a obra. Talvez esse seja o sentido mais interessante desse projeto, transformar o processo em obra, e também dialogar muito fortemente com o fracasso da obra, com a obra que não se realiza, que não dá certo, que você não escreve por algum motivo, e aí é interessante porque acho que se aproxima, por exemplo, de uma discussão como a que o escritor espanhol Vila-Matas faz no seu Bartleby & Companhia, que fala de escritores que não escreveram, mas ao mesmo tempo se afasta de algo que seria uma negatividade, a ideia muito moderna da ausência de obra, porque justamente não se trata de ausência de obra, não é o negativo, é o produtivo do fracasso, da impossibilidade, como se você estivesse ali dizendo não, não deu, mas deu. É nesse sentido que dialoga, eu acho, com uma discussão sobre o vazio, sobre a ausência de obra, mas talvez não encontra o mesmo tipo de solução.

Para finalizar, como adiantei no início, trouxe dois exemplos de trabalhos. Primeiro, o trabalho da Cynthia Edul, que é argentina, dramaturga, romancista também. Ela tem um trabalho chamado Expatriada, que gira em torno de uma viagem que ela fez à Síria, antes da guerra, para visitar os familiares. Ela é de família síria e seu trabalho tem como mote esta frase: “A Síria que você conheceu já não existe mais”. Essa frase é dita por uma tia dela, acho isso muito interessante, porque essa voz fica ecoando. Ela foi à Síria em outubro de 2010. Logo depois, as coisas se desencadearam de uma maneira muito trágica e sua escrita vai se abrindo a partir dessa frase e vai superpondo uma série de materiais que têm basicamente três camadas. Uma é um diário de notas [imagem 1], são as notas do livro, a preparação do livro porque, neste caso, é efetivamente um romance o que está sendo preparado, então ela vai mostrando o processo de colagem do diário, como esse diário vai entrando, que é também um diário de leituras. Aqui há, por exemplo, uma citação do romance da Tatiana Salem Levy, A chave de casa. É um diário heterogêneo, tem leituras, tem anotações variadas. Então essa é uma camada, que são as anotações, dos diários, dos cadernos.

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Imagem 1. Foto: Paloma Vidal.

Depois tem uma outra que é do arquivo familiar [imagem 2], das imagens que ficaram, que ela conseguiu resgatar da história. Aí ela faz um caminho interessante que são as histórias das mulheres da família dela, tem a tia, tem a mãe dela e tem a avó, que enlouqueceu. É uma família de migrantes, e a avó veio jovem, foi jovem para Argentina, e ela a história dessa avó, conta também várias cenas dela com a tia, e com a mãe, na Síria, que são cenas muito interessantes, porque a condição das mulheres ali coloca um monte de questões para ela. Tem uma cena engraçada, em que ela vai a uma loja e a tia e a mãe, que aparentemente têm uma coisa “ai que horror, o véu”, começam a fazer uma negociação e meio que querem arrumar um casamento para ela, porque o dono da loja gosta dela, e quando ela vê já está envolvida, já está meio animada com a cena também, porque é toda uma questão essa identidade, a força dessa identidade, ser síria, você está voltando para a Síria, você pertence a este lugar, dizem para ela, e esse pertencimento não significa o que significa, por exemplo, para o primo dela, que mora lá e diz “você não é argentina, você é síria, você não sabe, mas na verdade você é síria”.

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Imagem 2. Foto: Paloma Vidal.

Finalmente, acho que talvez um dos aspectos mais fortes de todo o trabalho é o que ela faz com arquivos do presente [imagem 3], com vídeos do YouTube, com imagens atuais da catástrofe que é esse lugar neste momento. Então o que ela faz é isso: vai colocando camadas de materiais muito heterogêneos e assim fazendo sua escrita.

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Imagem 3. Foto: Paloma Vidal.

O outro exemplo que eu trouxe é da Diana Klinger, um trabalho que se chama A caixa preta. Nesse caso, há uma estrutura com um duplo viés: o fim de um namoro e o achado de uma caixa com documentos da bisavó dela, que fugiu da Europa durante o nazismo, da Alemanha. O pai da Diana há alguns anos atrás achou uma caixa com uma série de objetos e documentos, sobretudo [imagem 4]. O fim do namoro e o achado da caixa vão de algum modo dialogar com um terceiro elemento que é a viagem de Walter Benjamin, fugindo, tentando fugir da Europa, saindo também da Alemanha. Na verdade, ela não sabe se os dois, sua bisavó e ele, se encontraram, mas poderiam talvez ter se encontrado em Portbou, que é o lugar onde Benjamin morreu, e ela imagina então esse encontro dos dois [imagem 5]. Tem uma série de materiais também, todos esses documentos, alguns fortíssimos, por exemplo o passaporte da bisavó com a suástica, a quantidade de dinheiro que ela levou, porque ela saiu da Europa com quatro dólares. Uma série de elementos muito concretos se colocam a partir desses documentos. Essa, então, é a viagem, esse suposto encontro. Essa imaginação do que foi a viagem do Benjamin junto com a viagem da avó dela é um trabalho de criação.

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Imagem 4. Foto: Paloma Vidal.

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Imagem 5. Foto: Paloma Vidal.

Como disse, cada uma traz o seu arquivo pessoal de leituras, e no caso da Diana ela é professora, crítica, teórica da literatura, então tem uma série de leituras que ela vai trazendo, trabalhando com várias referências artísticas e literárias que refletem sobre que papel pode ter a escrita na elaboração de traumas. No trabalho dela, há a superposição do trauma histórico com o trauma pessoal, que parece muito micro, parece não poder ter lugar nessa narrativa. A separação dela, do namorado, ao lado do que foi a tragédia da família parece não ter lugar, mas a escrita, a ficção, consegue colocar essas coisas do lado. Isso é muito forte. Ao mesmo tempo, ela trabalha muito com a ironia, claro. Isso que eu estou mostrando é o e-mail que deu o pontapé inicial para o trabalho da Sophie Calle, Cuide de você [imagem 6]. A Sophie Calle foi deixada por e-mail pelo namorado, então ela faz uma obra em que ela pede para várias mulheres, de diferentes áreas, interpretarem esse e-mail, que é o e-mail de ruptura. E a Diana trabalha, ironicamente, em relação a isso. O trabalho dela é isso, mas também não é isso, é um pouco justamente sair simplesmente da esfera do íntimo e tentar e, ao mesmo tempo, entender como é que esses traumas trabalham no íntimo, com o íntimo, mas não se esgotam nele.

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Imagem 6. Foto: Paloma Vidal.

Todos esses trabalhos têm uma passagem pela ficção, que é essa escrita que sai de si. A gente trabalha com a ideia de “saídas da ficção”, com uma ambiguidade que se torna bastante produtiva: usar as saídas que a ficção te dá, mas também, ao mesmo tempo, sair da ficção, estar sempre meio fora da ficção, tocando o real.

Transcrição por:  Idalia Morejón Arnaiz e Larissa Pavoni Rodrigues.