Sangria com Samanta Esteves

por: Cristiane Gomes

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Samanta Esteves.

Lapidar a pedra até que ela se desfaça em pó. Escrever poesia é processo e imagem. A experiência nossa, de quem escreve, se perde e na melhor das hipóteses torna-se uma outra, a do leitor. E isso não se aprende na universidade.

A imagem que eu tenho da Samanta são estilhaços, como ela nomeou sua página no Facebook e seu primeiro livro, só que no singular, lançado pela Patuá: de uma pequena biografia enviada junto com a seleção de poemas, das curtas mensagens trocadas pelo Whatsapp  o dela é daqueles configurados pra você nunca saber quando e se a pessoa leu o que você escreveu , e de um rápido encontro que tivemos na livraria onde trabalho.

Essa mulher de 25 anos, que chegou atrasada e um pouco aérea, se parece toda com uma jovem poeta, daquelas que tem um certo encantamento disperso e onde habita um abismo a ser descoberto. Estudante de Letras na USP, Samanta se interessa pela literatura feita por mulheres e pesquisa a obra de Ana Cristina Cesar. O que me faz pensar em como é difícil sair impune ao contato com a Ana C…

Conheça a poesia da Samanta Esteves:

I

não pareço comigo escrevo poemas
mas nunca os vi
sei que existem levo alguns no bolso
rememoro os que não entendo
os que não esqueço, relembro
escrevi um livro por falta de melhor
lugar onde enterrar palavras
uma vez escritas morrem feito faraós
estrelas apagadas
meu nome é tumulto e inscreve-se
na pedra
nunca menti porque o fingimento
não é uma mentira
mas ainda que fosse não abdicaria dela
no fundo das coisas não há verdade
as coisas são as coisas mesmas
não as decomponha em versos
no fundo delas não há nada
uma graça, às vezes
nem sempre

II

impossíveis
atravesso dias de um azul anil tão
absurdo que me enfado de tentar
discernir contornos no meio fio
a silhueta tênue – a minha
quem é a menina bailando
na curva do tempo o dilúvio
anunciado maremotos guardados
no silêncio audível
do vento
os astros às vezes despontam
tão altos: impedem os letreiros
de alumiar as letras acender
as palavras
só as estrelas só
elas reluzem

III

stultifera navis
havia na idade média uma nau
que vagava a recolher os loucos
os desvanecidos
ela vinha assim recolhendo
os maltrapilhos
os que se perdiam
não era acolhedora não oferecia
conforto
não havia móveis escadas
contornando salas
uma janela que conviesse
em dias de vendaval
cortinas que nos guardassem
a nau só levava as gentes
que não cabiam
depois desaparecia
se eu pudesse atravessar
o tempo
cortar o vento
penetrar nas dobras da vida
habitando nelas
me transportaria
faria parte dessa algaravia
em forma de barco
sumiria a sua maneira
me perderia
esqueceria que quando acordo
é sempre dia
um sol imenso a atravessar
o quarto
uma razão que já
não sabe
– embrutecida

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Sangria com Zainne Lima da Silva

por: Cristiane Gomes

Zainne Lima da Silva tem isto e aquilo. Nascida em 1994, é uma mulher do seu tempo. Singra seu caminho acadêmico, no curso de Letras da FFLCH-USP, e mantém no peito, nas ações e no fazer poético a militância de existir como mulher negra.

Com uma voz poética melodiosa de griotte trata de temas áridos e pertinentes com lirismo e senso de humor. Sua poesia transita entre a reconstrução da ancestralidade e a busca por uma mitologia onde o corpo indica as veredas.

Colaboradora da Coletiva Literária Entre Irmãs, Zainne recentemente participou da Antologia Jovem Afro, um projeto do Quilombhoje. Quem quiser adquirir o livro, pode entrar em contato com a autora por facebook ou e-mail.

Precipitação

tua imagem me deixou de perna bamba
-avoa minha alma entorpecida-
gozei vulcânica procurando teu
cheiro de homem em meu pescoço
tua viragem me deixou completamente
viajada. eu fumava um e plantava mil
só pensando em quanto quero que
tu pergunte novamente o que chamo
pecado
tua miragem me deixou intrigada
-pousa na ideia o peso do amor-
até estrela se alumia se eu penso
no vivo-aceso de teus olhos
tua mensagem me deixou completamente
sem palavras. eu dizia uma e escrevia mil
só pensando em quanto quero que
tu queira novamente o que chamo
pecado.

*

joão e maria, são paulo /
mais de cinco doces e
mais de cinco homens
mortos e derretidos em
papéis federais.
muitas vozes roucas e
batucadas de atabaque
na festa do massacre em
navios negreiros.
lembro ritmos e palmas e
cheiros e sobrenomes e
movo pernas bambas em
cantigas de cirandar.
a casa vazia de
gente de pele escura
vinda de goiana com
medo de falar.
/ cosme e damião, pernambuco

*

a prosa
te toca
proveitosa
em transe.
um relance
te faça
literatura
na transa.
transeunte.
(ai de mim
que se pudesse
te guardava
em trança.
fechava porta e tranca, até o nunca ameis.)

Sangria com César Vicente

por: Cristiane Gomes

São Paulo possui uma espécie de magnetismo. Como uma sereia, nos arranca do lar e abandona em uma espécie de órbita. Nos esbarramos constantemente, nas ruas, na universidade, nas livrarias e nos coletivos. Aprendemos a nos ignorar para viver a solidão ruidosa e produtiva afogados no marulho de carros e motos intensificado pelos totens de concreto.

Encontro César sempre acidentalmente. Ele, assim como eu, é de um outro lugar, nos reconhecemos, cumprimentamos, sorrimos e conversamos até onde for a conversa. Nascido em Espírito Santo do Pinhal, um pequeno município paulista, chegou em São Paulo em 2012, para cursar Letras na UNIFESP, mas trilhou outros caminhos, os do teatro, até que o destino o levasse de volta às Letras, na USP, onde praticamos a resistência de conversar, e viver, como se não houvesse tempo. Mas ele existe.

César Vicente é poeta e ator, tem 23 anos e compartilhou com a Sangria, da Malha Fina, os poemas Permanece o Mito, O Decifrador e O Sátiro. Para conhecer mais dos trabalhos e processos do autor você pode acompanhar o blog Tornado Sopro.

cesar (foto por Isabela Alves).jpg

Foto: Isabela Alves.

Permanece o Mito

 

Cristo viveu
e passou a Palavra.
G.H. a tomou como
pedra de esculpir

 

e narrou sua Paixão.

 

– para lavras e lavouras
o labor dos santos
sobre a terra
a mansa –

 

Listas delas concentradas
pedem lágrimas para se diluir,
ou mesmo água, sangue, suor ou vinho.

 

O vinagre alivia o efeito
do gás lacrimogêneo,
mas não a sede.

 

Eu queria dizer,
menos,
eu queria estar,
menos,

 

deixo a face no lençol para marcar presença.
deixo meu nome num papel a responder ausências.
deixo caneta e papel de lado para saber que existo.
deixo a vista descansar onde não estou.

 

longe, é

 

O Decifrador

 

Eis o papel que me coube –
decifrar a corrente de elos
atados desde que o verbo
quis unir trajetos na cidade pedra
fundamental da solidão nos passos.
Espaço para além das peças de puro
impacto nos pés, tropeços, tombos,
quedas livres no sentido dos
versos (ar)riscados em campo arado ao
algodão negro onde os dedos se embrenham.
Fazendo do propósito a própria poesia
sobre a torre mais alta desse chão duro
duro, no castelo tocando estrelas
a pontuar a música tirada na hora das
maravilhas confidenciadas boca a boca.
Una canción, your song, um som
que atravessa a noite inteira em
intervalos marcados pela batida
cardíaca e o pulso firme que
se assenhorou das curvas na estrada.
Trazer à vida a voz, nós na garganta
do precipício, avidamente requerida,
buscado o tom para harmonizar o peso
do dito cuja verdade dita o olhar
me olhando te olhando molhando
as frestas e os sulcos, arranhões e cicatrizes
pelos quais se reconhece quem chega
e se achega mais perto do colo teu,
cabeça pousada no peito enquanto
o tempo voa e se esquece dos pares,
pontos em que a pressa e a pressão
se detêm prestes a saber por que
toda mensagem se transmuta em signos
que a esfinge do mundo se compraz de
reordenar em enigmas da encruzilhada.

 

O Sátiro

 

uma pequena mostra
dos entrosamentos sadios
vadios
enquanto ocultos
à noite
dos mascarados
não escondem o riso
ao aviso
e à visão baços
traços tortos linhas retas.

 

in-diretas
certas
do ciclo hídrico
das mágoas magnas
bestas
a (per)fumar as sextas
trago-as, todas
funestas
festas.

 

nefasta
lua minguante
ante o bar dos navegantes
que buscaram seu torrão
de terra
avista
a vasta
rua escaldante
sem saber qual dos mirantes
encarou fundo o borrão
que encerra
a vista
afasta
sua constante
cósmica de andar errante
e afunda sua pré-visão
em terra.

 

a pista
arrasta
o instante
adiante
irão
eu era
quem
com a cerveja na mão
dizia verdades
como quem erra.