Sangria com Zainne Lima da Silva

por: Cristiane Gomes

Zainne Lima da Silva tem isto e aquilo. Nascida em 1994, é uma mulher do seu tempo. Singra seu caminho acadêmico, no curso de Letras da FFLCH-USP, e mantém no peito, nas ações e no fazer poético a militância de existir como mulher negra.

Com uma voz poética melodiosa de griotte trata de temas áridos e pertinentes com lirismo e senso de humor. Sua poesia transita entre a reconstrução da ancestralidade e a busca por uma mitologia onde o corpo indica as veredas.

Colaboradora da Coletiva Literária Entre Irmãs, Zainne recentemente participou da Antologia Jovem Afro, um projeto do Quilombhoje. Quem quiser adquirir o livro, pode entrar em contato com a autora por facebook ou e-mail.

Precipitação

tua imagem me deixou de perna bamba
-avoa minha alma entorpecida-
gozei vulcânica procurando teu
cheiro de homem em meu pescoço
tua viragem me deixou completamente
viajada. eu fumava um e plantava mil
só pensando em quanto quero que
tu pergunte novamente o que chamo
pecado
tua miragem me deixou intrigada
-pousa na ideia o peso do amor-
até estrela se alumia se eu penso
no vivo-aceso de teus olhos
tua mensagem me deixou completamente
sem palavras. eu dizia uma e escrevia mil
só pensando em quanto quero que
tu queira novamente o que chamo
pecado.

*

joão e maria, são paulo /
mais de cinco doces e
mais de cinco homens
mortos e derretidos em
papéis federais.
muitas vozes roucas e
batucadas de atabaque
na festa do massacre em
navios negreiros.
lembro ritmos e palmas e
cheiros e sobrenomes e
movo pernas bambas em
cantigas de cirandar.
a casa vazia de
gente de pele escura
vinda de goiana com
medo de falar.
/ cosme e damião, pernambuco

*

a prosa
te toca
proveitosa
em transe.
um relance
te faça
literatura
na transa.
transeunte.
(ai de mim
que se pudesse
te guardava
em trança.
fechava porta e tranca, até o nunca ameis.)

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Sangria com César Vicente

por: Cristiane Gomes

São Paulo possui uma espécie de magnetismo. Como uma sereia, nos arranca do lar e abandona em uma espécie de órbita. Nos esbarramos constantemente, nas ruas, na universidade, nas livrarias e nos coletivos. Aprendemos a nos ignorar para viver a solidão ruidosa e produtiva afogados no marulho de carros e motos intensificado pelos totens de concreto.

Encontro César sempre acidentalmente. Ele, assim como eu, é de um outro lugar, nos reconhecemos, cumprimentamos, sorrimos e conversamos até onde for a conversa. Nascido em Espírito Santo do Pinhal, um pequeno município paulista, chegou em São Paulo em 2012, para cursar Letras na UNIFESP, mas trilhou outros caminhos, os do teatro, até que o destino o levasse de volta às Letras, na USP, onde praticamos a resistência de conversar, e viver, como se não houvesse tempo. Mas ele existe.

César Vicente é poeta e ator, tem 23 anos e compartilhou com a Sangria, da Malha Fina, os poemas Permanece o Mito, O Decifrador e O Sátiro. Para conhecer mais dos trabalhos e processos do autor você pode acompanhar o blog Tornado Sopro.

cesar (foto por Isabela Alves).jpg

Foto: Isabela Alves.

Permanece o Mito

 

Cristo viveu
e passou a Palavra.
G.H. a tomou como
pedra de esculpir

 

e narrou sua Paixão.

 

– para lavras e lavouras
o labor dos santos
sobre a terra
a mansa –

 

Listas delas concentradas
pedem lágrimas para se diluir,
ou mesmo água, sangue, suor ou vinho.

 

O vinagre alivia o efeito
do gás lacrimogêneo,
mas não a sede.

 

Eu queria dizer,
menos,
eu queria estar,
menos,

 

deixo a face no lençol para marcar presença.
deixo meu nome num papel a responder ausências.
deixo caneta e papel de lado para saber que existo.
deixo a vista descansar onde não estou.

 

longe, é

 

O Decifrador

 

Eis o papel que me coube –
decifrar a corrente de elos
atados desde que o verbo
quis unir trajetos na cidade pedra
fundamental da solidão nos passos.
Espaço para além das peças de puro
impacto nos pés, tropeços, tombos,
quedas livres no sentido dos
versos (ar)riscados em campo arado ao
algodão negro onde os dedos se embrenham.
Fazendo do propósito a própria poesia
sobre a torre mais alta desse chão duro
duro, no castelo tocando estrelas
a pontuar a música tirada na hora das
maravilhas confidenciadas boca a boca.
Una canción, your song, um som
que atravessa a noite inteira em
intervalos marcados pela batida
cardíaca e o pulso firme que
se assenhorou das curvas na estrada.
Trazer à vida a voz, nós na garganta
do precipício, avidamente requerida,
buscado o tom para harmonizar o peso
do dito cuja verdade dita o olhar
me olhando te olhando molhando
as frestas e os sulcos, arranhões e cicatrizes
pelos quais se reconhece quem chega
e se achega mais perto do colo teu,
cabeça pousada no peito enquanto
o tempo voa e se esquece dos pares,
pontos em que a pressa e a pressão
se detêm prestes a saber por que
toda mensagem se transmuta em signos
que a esfinge do mundo se compraz de
reordenar em enigmas da encruzilhada.

 

O Sátiro

 

uma pequena mostra
dos entrosamentos sadios
vadios
enquanto ocultos
à noite
dos mascarados
não escondem o riso
ao aviso
e à visão baços
traços tortos linhas retas.

 

in-diretas
certas
do ciclo hídrico
das mágoas magnas
bestas
a (per)fumar as sextas
trago-as, todas
funestas
festas.

 

nefasta
lua minguante
ante o bar dos navegantes
que buscaram seu torrão
de terra
avista
a vasta
rua escaldante
sem saber qual dos mirantes
encarou fundo o borrão
que encerra
a vista
afasta
sua constante
cósmica de andar errante
e afunda sua pré-visão
em terra.

 

a pista
arrasta
o instante
adiante
irão
eu era
quem
com a cerveja na mão
dizia verdades
como quem erra.

Sangria com Adélia Danielli

por: Cristiane Gomes

No início do ano conheci a poesia da potiguar Adélia Danielli na Banca Tatuí. Folheei Bruta e parei na Conceição Discos, da Thalitha, que é uma casinha paulistana, e devorei com bolo de banana, café coado e Clara Nunes na vitrola.

Entrei em contato com Adélia, a mesma que habita o livro em brutos poemas, fotos de Pedro Andrade e um lindo e singelo trabalho gráfico lindo de Themis Lima, e ela topou compartilhar o seu trabalho aqui na Sangria.

Além de Bruta, lançado em 2016 pela editora Tribo, que pode ser adquirido por R$25,00 pelo e-mail adeliadmsouza@gmail.com, Adélia participou de alguns livros coletivos, como o Por Cada Uma (2012), da editora Una.

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Foto: Adélia Danielli.

sou dessas
sou daquelas
de quem falam mal
que xingam
que chutam
as canelas
incomodo
não me calo
não me conformo
não engulo
choro voz ou
ato
desfaço o papel
que me mandaram
interpretar
respaldo
em minha liberdade
o desejo de não ser
lapidada
sou bruta
mulher pedra flor
e luta

 

eu sou o surto de Piaf
pela morte de Marcel
a angústia de Elena
e o palco para sempre
vazio
sou o desejo
do esquecimento
de uma mente sem
lembranças
a Garota Interrompida
em Paris, Texas
o amor em coma
que não despertou
As Horas de uma loba
e duas mulheres
a necessidade da escrita
o Nome Próprio
o ventilador do Palhaço
e a esperança nas
Medianeras

 

minha poesia
não tem pompa
não anda
de salto alto
não tem garbo
de difíceis
palavras
caminha
com pés
descalços
desce
ladeira abaixo
cantando
assanhada e suada
não desfila
elegante
pelas calçadas
tem perfume delicado
mas por vezes que
entranha
invade, corta
e sangra sem
a menor cerimônia