Sangria com Clarisse Lyra

por: Samanta Esteves

Nesta Sangria, apresentamos a poesia de Clarisse Lyra, licenciada em Letras com ênfase em Língua Espanhola pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e Mestra em Letras (Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana) pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado em andamento pela mesma instituição.

A poeta – que atua principalmente nas áreas de Teoria Literária, Crítica Literária e Literatura Hispano-Americana Contemporânea – selecionou quatro poemas, sendo o primeiro uma relíquia produzida na adolescência e os três últimos criações mais recentes. Segundo Clarisse, funcionam bem juntos, talvez porque nos soem feito peças geométricas e dançantes que – a despeito das diferenças – provém de um mesmo mosaico, revelando uma cena multifacetada de raro equilíbrio. Confira:

penso em
morrer umas
7 vezes
ao dia.
não planejo
não premedito
não tento
suicídio. se
me lembro
da asneira
de 5
ou 7
anos atrás
se minhas
roupas quase
todas tão
mofadas aliás
se ninguém
me telefona
faz uns
vinte e
tantos dias
se as
coisas que
escrevo eu
li antes
eu copio.
sugiro investigar
semiologicamente
o que
queira dizer
este querer
morrer. acredito
que psicolo
gicamente astrologi
camente fisi
fisic
amente
o sintagma
parece claro.

 

de repente
saber como é crescer
e aquela dor nos ossos
penúria penúria
perder as chaves de casa
hoje eu durmo cedo
amanhã eu volto
dou bom dia aos vizinhos
ajeito a roseira caída no quintal
amanhã eu volto a estudar
termino finalmente aquele livro
aprendo grego e francês
me caso com marie
amanhã eu faço uma viagem
embarco na paranoia
cozinho a lentilha que tá no armário
amanhã eu digo bye bye
saio de fininho
começo o dia tomando remédios
depois acendo meu cigarro
amanhã eu puxo alguma conversa
pergunto como vai a vida
faço uma piada rápida
estico o lençol antes de deitar
amanhã eu digo tá tudo bem
respondo aquele email
conserto meu telefone
digo alô, sereia!
amanhã eu tiro o tarô
leio o mapa astral
abro o olho bem cedo
pulo da cama e até mais

bebendo café em xícaras bem pequenas
imagino cenas de despedida
minha irmã a caminho do aeroporto
as árvores balançando enquanto ela fala de sonhos
não os que temos enquanto dormimos
mas os que costumamos ter quando somos bem jovens
alguém dançando sozinho numa cozinha apertada
ouvindo stevie wonder
wonwonwonder
quando você toca pra mim
eu amoleço
choro escondidinho
me despeço dizendo eu te amo
você acha talvez que o meu eu te amo
é uma prisão, a entrada da armadilha
uma pequena gaiola com aquele mecanismo
uma portinha prestes a se fechar
talvez não seja nada disso
não uma entrada mas
uma saída
muito lenta, vagarosa
coleciono os fios de cabelo na sua cama
separo por cor, textura e comprimento
você nunca fala nada –
então devo adivinhar; vou indo
entre a fantasia e a paranoia
minha mente treinada pra desvendar enigmas
como a dos leitores de romances policiais
ou a dos poetas que se perdem no deserto
e esses mosquitos não me largam
fantasmas de antigas diversões
meu pai numa cadeira de balanço
minha mãe me dizendo que não
a gente que é fudida
grita a menina na noite
só tem mesmo a vida
eu me despeço devagar
tudo vai indo aos pouquinhos
como pra ser uma lembrança
pra fazer, nenhuma obra

um final de semana
com você
será tão bom quanto having
a coke with you?
foi o que ela disse
e eu admiro tanto esse
jeito de dizer o desejo
sem constrangimento
ao contrário, x, pra fazer carinho
precisa falar com voz de criança
assim o ridículo se confunde
com o ridículo e
fica tudo bem

 

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Clarisse Lyra é revisora, tradutora e pesquisa literatura hispano-americana na Universidade de São Paulo.

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Sangria com Luana Claro

por: Samanta Esteves

Tive a sorte de conhecer a poeta que escreveu os versos pelos quais minhas retinas não cansam de passear de tempos em tempos. De Luana, guardo um rabo de cometa, uma metáfora de possibilidade e a certeza de que algumas produções poéticas trazem consigo a radicalidade de outro universo. Nos poemas selecionados, entrevê-se os rasgos de lucidez que parecem denunciar o esvaziamento de significados em meio à mesmice do cotidiano e à brutalidade da vida.

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Luana Claro. Fonte: Editora Patuá.

Luana Claro é graduanda do curso de Letras pela Universidade de São Paulo e pesquisadora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Tem um livro publicado pela editora Patuá, de nome Diadorim (2017). Confira os poemas de Luana Claro:

todos os dias alguém
perde o último trem
ou quase

alguém sempre chega
num dia diferente do
que saiu

alguém sempre sai ao
encontro de ninguém
findo o dia

*

segunda feira é mais um dia
que inicia
mais uma série de dias
para esperar e-mails
em horário comercial
com alguma resposta que
não a da crise existencial

de segunda até sexta veja
bem meu e-mail funciona e
eventualmente aos sábados

*

na segunda sempre espero
na terça me vem o desespero
mas quarta é
o único dia
que tomo café
por um curto tempo
das oito às nove e às
vezes das nove às dez e
às onze já não tomo mais

*

não sei sequer manusear
uma bíblia você me diz
nomes e números e eu
confusa penso na presença
imaterial que supostamente
nos envolve como o vento
e que está aqui agora
não sei

mas por vezes me sinto
como num rompante de
esperança ao observar
a cidade passando
rápida pela janela do trem

*

pelas partes de pernas
que passam e revelam
mais pernas vejo e fico
em dúvida de qual é o meu
ponto de vista se sou
observadora ou
participante

Sangria – Entrevista e poemas de Cesare Rodrigues

por: Cristiane Gomes

Entender um poeta é uma tarefa digna de Prometeu. Poderia perder o fígado comendo pão com ovo e bebendo litrões de Brahma entre a fauna pós-expediente do nine dragons e continuar sem compreender o que exatamente move um poeta diante do que pra mim é o mundo real. É preciso deixar que o poeta escreva. Escreva poemas e escreva sobre os poemas: os seus e os dos outros.

Nesta Sangria, Cesare Rodrigues, poeta, tradutor e livreiro, vai conversar com a Malha Fina sobre poesia, amor e mercado editorial.

Nos “versos de amor fingido”, do livro caso fossem ursos, que você poderá conferir depois da entrevista, o ser amado faz-se presente na sutileza do flerte e do encantamento. A musa etérea ganha partículas de realidade, o papel traz a memória dos afetos, nossos. O encantamento que surge em vídeos feitos pelo celular, mensagens de áudio trocadas em madrugadas ébrias e nas conversas delicadas sobre o mundo e a poesia e pode transformar-se em amor.

Cesare Rodrigues

Cesare Rodrigues.

Cristiane Gomes: Cesare, como se finge um amor?

Cesare Rodrigues: Fingir amor deve estar entre as coisas mais cotidianas de todas. É meio uma das mais eficazes formas de viver “feliz” segundo as convenções sociais… Mas o fingir aqui dialoga um pouco mais com outras possibilidades por trás do fingir, do “poeta-fingidor” do Pessoa, que “chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”, à raiz latina do conceito de ficção, o verbo fingo/fingere. Gosto muito do Leonard Cohen e, enquanto escrevia esses poemas “de amor” sempre pensava nas canções e poemas dele, que sempre me pareceram de um amor tão fingido, mas tão fingido, que chegava a ser irresistível. Pensei em inglês “verses of faking love”, mas em português o gerúndio não ficava bem… Além do mais, são poemas escritos entre 2008 e 2016, em momentos bem diferentes do meu processo criativo e até da minha vida sentimental (aquela coisa: musas diferentes, sentimentos diferentes, hehe) e o título foi uma forma de reunir esses poemas mais “melosos” dentro de um livro em que talvez eles já não se encaixassem tão bem. Curioso é que depois dos últimos dessa série só escrevi mais um poema de amor, que não publiquei. Esse já de amor frustrado, não mais fingido, hehe.

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