O tempo em trânsito na poesia de Rafael Tahan

por: Aryanna Oliveira

Poeta, crítico literário, editor e pesquisador na Universidade de São Paulo, o interesse pela linguagem é proeminente no cotidiano e na trajetória de vida do paulistano Rafael Tahan. De família árabe, ouvia em casa as conversas do avô e da mãe no idioma de origem, de modo que seu primeiro arrebatamento com a língua se deu pelo estranhamento provocado pelos sons, pelos burburinhos secretos que ouvia entre paredes. Esse desconforto causado pelo desconhecido foi crucial no despertar de um interesse não só pela língua, mas pela linguagem e seus muitos modos de uso.

Logo veio seu primeiro contato com a poesia, na leitura de “A estrela”, de Manuel Bandeira. E as repetições sonoras aumentaram aquilo que o poeta define como uma tentativa, ainda que primitiva, de tentar descobrir o “sentido concreto das palavras”. Na repetição dos sons do poeta pernambucano, percebeu as “camadas” do texto, as articulações entre som e sentido: “Foi semelhante à descoberta de que toda a areia da praia era rocha sedimentada: poeira da glória”, explica.

Rafael Tahan

O poeta Rafael Tahan. Foto: Arquivo pessoal.

Da consciência da poesia em camadas, que extrapolam uma organização harmônica e evidente, da percepção da linguagem, com seus “jogos” e movimentos, surgiram os primeiros versos do poeta. Mas, anos depois, a forma surgiu, e com ela seu primeiro livro, Diálogo, publicado pela Scortecci Editora, em 2015. Trinta poemas que discutiam as impossibilidades da linguagem, incomunicabilidades, inacessibilidades, mas de forma direta. Em seus poemas, Tahan descortina as dificuldades de comunicação de forma clara, o que propicia a identificação do leitor. É uma racionalidade poética sobre a linguagem e seus usos (ou impossibilidades de).

FABULAÇÃO

 

“O caminho de casa é sempre
o mais difícil o chão de
pedra é pra andar.

 

Se uma flor rebenta no arrimo
do carroceiro, que é parente
de Deus, eis que sua sorte
revela um pequeno milagre.

 

(Caminho difícil é
o que fazem os olhos
vão sem perícia
entre o que vive)

 

Flor de carroça
é carregada na
qualidade de flor.

 

Do encarregado o orgulho
de sua natureza domada,
e caminham juntos,
o jardim e o jardineiro
por hoje, não mais carregador.

 

Ainda é o seu destino
ir de encontro às
coisas, se não fosse,
a denúncia permaneceria
nas marcas do corpo.

 

Mais dia menos dia a
carroça para, o transporte
de tração esgota o animal
que puxa.

 

O homem abandonado a sua
sorte, deixa a natureza
pelo caminho, exausto,
sobre a calçada, despenca e
morre.

 

Os outros animais
examinam com cuidado
o corpo: descobrem
que a carroça anda sozinha

 

e mais! Que a gérbera
da carroceria é
flor de supermercado.”

 

(Poema de Diálogo, de 2015)

Atualmente, o poeta divide seu tempo entre a arte que brota em forma de uma competente e translúcida poesia, e o árduo e incompreendido ofício de pesquisador, enquanto se especializa em estética e lírica contemporânea. As duas frentes se unem não só pelo amor à poesia, mas pelo interesse constante que seus processos e temas lhe despertam. O estranhamento de criança ainda é seu motor. “Se há algo que, apesar do veredicto parece inverossímil esse será o algo é eleito para nota”, explica.

O contato com a academia alimenta a própria criação e as possibilidades de divulgação de seu trabalho. Recentemente Tahan recebeu o convite de verter ao inglês alguns dos seus poemas para a revista californiana SACCADES (publicação sobre poesia brasileira contemporânea).

Com a rotina atribulada e atrelada a muitas questões do âmbito universitário, seu método de preparação e escrita se resumo a não deixar as ideias se perderem, aproveitando qualquer tempo para escrever, já que em tempos de superexposição a tantos meios e mensagens, o trabalho do poeta, sua inspiração, acaba sendo não se permitir distrair. “Sobre inspiração acho que talvez Heráclito possa dizer de maneira mais sucinta, que, a sabedoria ou consciência sobre o mundo vem do empenho em lançar a nossa atenção sobre ele”, explica. Para Tahan, a inspiração primeira do poeta está em perceber o mundo, estranhá-lo e dele tirar o substrato para a criação.

Capa - Rafael Tahan - Diálogo

Capa de Diálogo, a primeira obra publicada pelo poeta. Foto: Arquivo pessoal de Rafael Tahan.

Capa - Rafael Tahan - Diálogo

Capa de Diálogo, a primeira obra publicada pelo poeta. Foto: Arquivo pessoal de Rafael Tahan.

Na produção de seu mais novo livro, o Memória de avarias, que é um projeto em desenvolvimento e a longo prazo, a percepção do mundo se evidencia na passagem do tempo, na necessidade de não pensar no amanhã. “Compartilho com o poeta pernambucano Alerto da Cunha Melo a ideia de que: Amanhã não é propriamente/ uma palavra que te salve./ É um sonho que busca outro sonho/ longínquo para esganar-te. Por enquanto é o hoje”, reflete Tahan.

As três primeiras partes desse trabalho, que compõe o livro, serão publicadas ainda nesse ano. Memória apresenta uma unidade não-linear (antieuclidiana), afirma ele, e isso tem a ver com a relação que as temáticas estabelecem com o tempo. “Os poemas dividem-se em 3 partes: I. algo, logos; III. Cadeia de enganos úteis; V. cinefacta e tratam de temáticas ligadas ao eixo passado-presente enquanto as partes trabalhadas separadamente: II. tráfego aéreo, IV. pedra de toque e seis tratam de temas, digamos, mais extemporâneos”, antecipa o poeta.

Em Memória de avarias, assim como visto em Diálogos,o tempo é essencial, pois é um tempo de urgência, sempre em uma perspectiva de conflito. Para o poeta Tahan, “o tecido da vida, como quis Antonio Candido, tem se tornado cada vez mais volátil e isso parece ter provocado (ou ter sido consequência das) mudanças abruptas na relação entre o homem e a natureza. Se por um lado desejamos sujeitar o tempo pela técnica por outro ele nos escapa: toda ação está contida no tempo e, portanto, vinculada de alguma maneira à consciência trágica que se esconde nas entrelinhas de sua condição inescapável, fixando-se a todo e qualquer horizonte”, explica o poeta.

Os poemas a seguir, prévia da obra no prelo, exemplificam essa relação, o tempo em conflito, clarificando as intenções da poesia de Rafael Tahan: o tempo em trânsito, pois, parafraseando Heráclito, “nada é permanente, exceto a mudança”, do tempo, do homem.

alguma fisionomia

 

A Aline Bei e Vagner Camilo

 

antes de ganhar a natureza
(conforme sua própria índole)
desçamos primeiro das árvores equilibrando
o corpo ainda sobre duas patas
(articulado o mais delicado toque conquistamos os polegares)
colher fruto a fruto: ganhar o tato: sentir à ponta dos dedos qualquer superfície que revele as extremidades: vida ou morte:

 

um pássaro que tem de conquistar seu voo a cada instante
e tem a asa amputada: é feio, vivo e inútil
devemos ainda nomeá-lo pássaro?

 

sobre o corpo desplumado
(polegar em riste)
devolvemos
ao pássaro alguma fisionomia apenas arrancando-
lhe abruptamente a última asa

a fé dos tolos

 

o amarelo pálido da vista convida ao espanto: do cinza:
preto no branco: a plumagem – espaço entre uma cicatriz e
outra – brota insegura como cãibra sobre o
músculo fatigado do asfalto
ali nem o dilúvio ou a iminência dos automóveis
comovem a ave meditativa: o pasto repisado entre a guia e o passeio –
limbo de transeuntes – já não revolve na memória os ramos e as flores
pouco antes devoradas pela fome civil dos apóstolos:
terra-nova sob o imenso cárcere da rodovia?

 

se a superfície treme ainda abaixo de nós é porque o trem
se aproxima e o suposto espanto nos olhos do pássaro
revela-se na fé (trânsito em repouso) dos tolos confinados no subsolo

 

ton sur ton

 

a prata semioxidada da vigília
despista os olhos do pássaro e
tinge – diante dele – a lâmina
do espelho tom sobre tom

 

narciso atormentado
reflete um instante retornando à
órbita perplexo:

 

negativa a negativa
extinguem-se gradativamente
os contornos da face: êxtase, medo, remorso:
as marcas do corpo, as rotas da memória

 

buscando refúgio no horizonte – negativa a negativa – a ave esfacelou-se na janela.

Sobre o autor: Rafael Tahan (1989) é poeta, crítico literário, editor da Oficina Irritada (revista eletrônica de literatura e cultura) e colaborador da Mallarmagens (revista eletrônica de poesia e arte contemporânea). Paulistano, graduou-se em letras pela USP, onde atualmente realiza estudos de Mestrado em estética e lírica contemporânea. Publicou Diálogo (Scortecci, 2015) além de alguns poemas em antologias nacionais e periódicos literários. Além disso, teve alguns poemas traduzidos para a revista SACCADES (Califórnia, EUA), periódico internacional de literatura brasileira contemporânea.

Sangria com Yuri Cortez

por: Samanta Esteves

Nessa Sangria, a Malha Fina apresenta a poesia de Yuri Wittlich Cortez, crescido no interior paulista (Guaratinguetá) e fisgado pelos becos e vielas da Pauliceia Desvairada antes que conseguisse escapar. Educador e graduado em Relações Internacionais, trabalhou como plantador de batata, revisor de texto, cavaleiro medieval e funcionário de escritório, mas no momento se arranja dando aulas de português.

Autor de “A Guerra” (Patuá), o poeta tem o tempo, em suas múltiplas facetas, como matéria de sua produção. Com frequência, confronta-se com as mazelas e as contradições históricas, sem perder de vista dimensão existencial, mitológica e metafísica que permeia a todos na tarefa de engolir dragões e cuspir estrelas, ofício tão bem definido no poema de abertura da obra e colocado em prática na seleção abaixo.

Além do livro de estreia, recém-publicado, Yuri escreve para o Cartas Marcadas e o Conversa de Autor. Em parceria com outros poetas, mantém também o talvezblog, onde você pode encontrar outros poemas.

foto_yuri cortezbaixa

Yuri Cortez.

tudo o que pela minha boca escorre
(o pouco que de minha fome escapa)
escorre estrebucha cai e morre
cumprindo fielmente cada etapa

 

todo esse suicidar-se me comove
e põe meu coração desritmado
a solução melhor: olhar pro lado
cuspir palavras mais como quem chove

 

o pouco que me escapa e sobrevive
(um pouco moribundo e envergonhado)
se afoga no que é o mundo e seu assombro
e sofre inevitável resultado:

 

ser sombra e o antônimo da sombra
ser nada e o antônimo do nada 

 

perséfone

 

entre dois mundos transito, no entanto,
sou nesses dois tanto deusa e nada.
nos meus dois lares sou só convidada
de honra – ou, pra ser mais precisa, nem tanto.

 

mas desisti de sentir-me alijada
e de gastar pelo exílio meu pranto.
quaisquer amores, botei no meu manto;
qualquer saudade, joguei pela estrada.

 

eis que não cresce em meus pés mais a hedra.
sigo o caminho, qualquer que desponte,
se esse é o dever que o destino me engendra.

 

não mais me ilude o terror do horizonte
ou mesmo a fé em alicerces de pedra.
por lar, agora, só tenho o Aqueronte.

 

xangai

 

Sobe um vento mandarim
Rumo ao sol, sol de 上海

 

Não sou eu quem fica em mim,
Não sou quem de mim se vai

 

Mal sou sombra de nanquim,
Mal sou nuvem que se esvai

 

Posso só ser eu, enfim
Ao seu lado, em 上海

 

Tigre

 

os homens que com ferro nos matavam
seus dentes sabres balas e feitiço
se evaporaram diante da aurora:
são tigres de papel, e já nem isso

Sangria com Clarisse Lyra

por: Samanta Esteves

Nesta Sangria, apresentamos a poesia de Clarisse Lyra, licenciada em Letras com ênfase em Língua Espanhola pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e Mestra em Letras (Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana) pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado em andamento pela mesma instituição.

A poeta – que atua principalmente nas áreas de Teoria Literária, Crítica Literária e Literatura Hispano-Americana Contemporânea – selecionou quatro poemas, sendo o primeiro uma relíquia produzida na adolescência e os três últimos criações mais recentes. Segundo Clarisse, funcionam bem juntos, talvez porque nos soem feito peças geométricas e dançantes que – a despeito das diferenças – provém de um mesmo mosaico, revelando uma cena multifacetada de raro equilíbrio. Confira:

penso em
morrer umas
7 vezes
ao dia.
não planejo
não premedito
não tento
suicídio. se
me lembro
da asneira
de 5
ou 7
anos atrás
se minhas
roupas quase
todas tão
mofadas aliás
se ninguém
me telefona
faz uns
vinte e
tantos dias
se as
coisas que
escrevo eu
li antes
eu copio.
sugiro investigar
semiologicamente
o que
queira dizer
este querer
morrer. acredito
que psicolo
gicamente astrologi
camente fisi
fisic
amente
o sintagma
parece claro.

 

de repente
saber como é crescer
e aquela dor nos ossos
penúria penúria
perder as chaves de casa
hoje eu durmo cedo
amanhã eu volto
dou bom dia aos vizinhos
ajeito a roseira caída no quintal
amanhã eu volto a estudar
termino finalmente aquele livro
aprendo grego e francês
me caso com marie
amanhã eu faço uma viagem
embarco na paranoia
cozinho a lentilha que tá no armário
amanhã eu digo bye bye
saio de fininho
começo o dia tomando remédios
depois acendo meu cigarro
amanhã eu puxo alguma conversa
pergunto como vai a vida
faço uma piada rápida
estico o lençol antes de deitar
amanhã eu digo tá tudo bem
respondo aquele email
conserto meu telefone
digo alô, sereia!
amanhã eu tiro o tarô
leio o mapa astral
abro o olho bem cedo
pulo da cama e até mais

bebendo café em xícaras bem pequenas
imagino cenas de despedida
minha irmã a caminho do aeroporto
as árvores balançando enquanto ela fala de sonhos
não os que temos enquanto dormimos
mas os que costumamos ter quando somos bem jovens
alguém dançando sozinho numa cozinha apertada
ouvindo stevie wonder
wonwonwonder
quando você toca pra mim
eu amoleço
choro escondidinho
me despeço dizendo eu te amo
você acha talvez que o meu eu te amo
é uma prisão, a entrada da armadilha
uma pequena gaiola com aquele mecanismo
uma portinha prestes a se fechar
talvez não seja nada disso
não uma entrada mas
uma saída
muito lenta, vagarosa
coleciono os fios de cabelo na sua cama
separo por cor, textura e comprimento
você nunca fala nada –
então devo adivinhar; vou indo
entre a fantasia e a paranoia
minha mente treinada pra desvendar enigmas
como a dos leitores de romances policiais
ou a dos poetas que se perdem no deserto
e esses mosquitos não me largam
fantasmas de antigas diversões
meu pai numa cadeira de balanço
minha mãe me dizendo que não
a gente que é fudida
grita a menina na noite
só tem mesmo a vida
eu me despeço devagar
tudo vai indo aos pouquinhos
como pra ser uma lembrança
pra fazer, nenhuma obra

um final de semana
com você
será tão bom quanto having
a coke with you?
foi o que ela disse
e eu admiro tanto esse
jeito de dizer o desejo
sem constrangimento
ao contrário, x, pra fazer carinho
precisa falar com voz de criança
assim o ridículo se confunde
com o ridículo e
fica tudo bem

 

IMG_20180327_130621_637

 

Clarisse Lyra é revisora, tradutora e pesquisa literatura hispano-americana na Universidade de São Paulo.