II Jornada do Curso Letras/Espanhol de Alunos da Graduação: Diálogos/Interdisciplinaridade

por: Chayenne Orru Mubarack

A Malha Fina Cartonera é um selo editorial apoiado pelo Programa Unificado de Bolsas (PUB) da Universidade de São Paulo. Um dos nossos objetivos é inserir alunos no universo das publicações independentes, levando os colaboradores e monitores a entrarem em contato com distintas vertentes que são mobilizadas quando pensamos na confecção de um livro. Primeiramente, consideramos sua materialidade, o que inclui a aquisição do papelão, seu corte, a costura do miolo e a arte da capa. Por outro lado, também vemos como são feitas as escolhas e seleção de temas e autores para a montagem de um catálogo editorial.

Tudo isto permite que o projeto se posicione como uma iniciativa diferente e única dentro da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A partir desta perspectiva, estamos sempre atentos às diversas movimentações que ocorrem em tal instituição. Hoje, chamamos a atenção de nossos leitores para a II Jornada do Curso Letras/Espanhol de Alunos da Graduação. O tema desta edição será “Diálogos/Interdisciplinaridade” e ocorrerá nos dias 25 e 26 de outubro de 2017.

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II Jornada do Curso Letras/Espanhol de Alunos da Graduação  Diálogos/Interdisciplinaridade

Este tema incluirá mesas que versarão sobre o ensino interdisciplinar na habilitação de espanhol, as oportunidades no mercado de trabalho para o aluno formado em letras, o que abrange o universo editorial, e uma roda de conversa sobre a escola e a universidade. As mesas serão apresentadas no Auditório da Geografia, no prédio da FFLCH. Somado a isso, a programação conta com oficinas sobre língua espanhola, políticas linguísticas, literatura hispano-americana e literatura espanhola, a realizar-se na sala 171 do prédio de Letras, ao longo dos dois dias. A Malha Fina marcará presença vendendo seus livros no Sarau, quinta-feira, 26/10, às 17h30, em frente ao prédio da Letras. Esperamos vocês! Não esqueça de confirmar presença no evento: https://www.facebook.com/events/102490940496312!

Para mais informações sobre a II Jornada do Curso Letras/Espanhol de Alunos da Graduação, acesse o site http://jornadaespanholffl.wixsite.com/jornadaespanholfflch. Abaixo você pode conferir a programação do evento.

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Programação da II Jornada do Curso Letras/Espanhol de Alunos da Graduação  Diálogos/Interdisciplinaridade

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Oficina em Sambade, município de Alfândega da Fé.

Portugal: a arte dos encontros inesperados

por: Tatiana Lima Faria

Em julho de 2017 a Malha Fina Cartonera realizou oficinas em 3 municípios de Portugal pertencentes à região de Trás-os-montes: Alfândega da Fé, Macedo de Cavaleiros e Mirandela, nas quais foram publicados os inéditos Todo o silêncio, do escritor português José Luís Peixoto, Ficções, do brasileiro Bernardo Carvalho e O que é ser criança, da autora transmontana que assina sob o pseudônimo de Nisa Paula.

O tour MFC por Portugal revelou-se, posteriormente, como uma experiência extra-literária, praticamente um pastiche de Don Quijote, de Miguel de Cervantes, e da Ilustre casa de Ramires, de Eça de Queirós. Em meados de 2016, uma senhora chamada Maria do Carmo, que assina sob o pseudônimo de Nisa Paula, entrou em contato conosco através das redes sociais convidando-nos para realizar oficinas em dita região. Mostramo-nos solícitos, como normalmente fazemos com todos os convites que recebemos, e iniciamos uma troca de e-mails.

Nisa Paula apresentou-se como membro de uma academia de escritores portuguesa e coordenadora de vários projetos culturais e educativos na região de Trás-os-montes. Na ocasião, ela nos propôs que realizássemos oficinas no princípio de julho, cujo intuito seria ensinar jovens e educadores da região a confeccionarem livros cartoneros para que, futuramente, se viabilizasse uma editora cartonera em Portugal em coparceria com a nossa, como já ocorre com a Mariposa Cartonera, no Recife, a La Sofía Cartonera em Córdoba, Argentina, e YIYI Jambo Cartonera, em Ponta Porã. As despesas com a passagem eram nossas, e ela nos garantia hospedagem, alimentação e o material para a confecção dos livros durante as oficinas.

Em fevereiro de 2017 chega-nos uma carta do gabinete de Macedo de Cavaleiros, município de Portugal, assinada pelo vereador em tempo inteiro José Luís Gonçalves Tomé Afonso, convidando-nos para realizar três oficinas na Biblioteca Municipal da prefeitura. O caráter oficial da carta, somada às garantias de custeio das despesas com a estadia e alimentação, garantidas por Maria Carmo, o ânimo e seriedade com que ela se referia à realização das oficinas e apresentava-se nos e-mails, somadas à possibilidade de cooperar com a fundação de uma editora cartonera em Portugal, pareceu-nos suficientemente instigantes para que aceitássemos o convite, mesmo que isso demandasse investimento pessoal, tanto de tempo, quanto de dinheiro.

Durante abril, maio e junho trabalhamos na elaboração do projeto e decidimos que publicaríamos um autor brasileiro e um português de reconhecido renome cujas obras dialogassem não tanto em sua temática ou estilo, mas sim nas similitudes de sua circulação antes da edição confeccionada pela Malha Fina Cartonera. Foi por isso que escolhemos os textos de Bernardo Carvalho e José Luís Peixoto, inéditos em livro, e que anteriormente circularam em sessões de jornais do Brasil e de Portugal, gentilmente cedidos pelos autores após várias trocas de e-mails e conversas.

O intuito da seleção e concepção dos livros era demonstrar como os processos editoriais eram importantes para a materialização de uma obra literária, já que eram os responsáveis pela transformação de textos esparsos em livros. O projeto gráfico concebido por Iara de Camargo tinha como intuito valorizar tais aspectos. Iara deu ao livro de Peixoto um ar mais sóbrio, optando por fontes clássicas e design sóbrio, aspectos que dialogam diretamente com a temática da obra: crônicas biográficas de vários períodos da vida do autor. Já para o design de Ficções, optou-se por um design mais audacioso, como nota-se nas tipografias utilizadas e em outras opções da designer, como deixar os números das páginas duplas conjuntamente. Tais aspectos foram escolhidos também devido à temática dos contos, que busca aprofundar questões envolvendo os limites entre ficção e biografia. Para incrementar o projeto de circulação da Malha Fina em Portugal, foi decidido publicar, também, um autor transmontano, com o intuito de valorizar os autores locais e de enriquecer e estimular o intercâmbio cultural. Como havia pouco tempo para uma pesquisa mais extensa, optamos por publicar alguns textos de teatro infantil da própria Nisa Paula e para isso convidamos a designer cubana Yanet Ramirez Batista, que ilustrou todo o livro.

Todo o projeto editorial foi discutido e debatido entre todos os envolvidos e feito com muita seriedade e gratuitamente por todos, desde os autores, que cederam seus direitos, às editoras e designeres, como tudo que é feito pela Malha Fina Cartonera, já que se trata de um projeto universitário sem fins lucrativos, cujo intuito principal é publicar autores pouco conhecidos no Brasil, ou ainda inéditos, problematizando as instâncias editoriais como as epitextuais, ou seja, a circulação, o enquadramento em coleções e projetos, e os paratextuais através dos textos incluídos na edição, para além da própria obra literária, assim como o próprio design do livro.

Apresentamos as propostas para Nisa Paula que sempre concordava com tudo e achava tudo excelente, porém, parece que nunca chegou a abrir os PDFs com os bonecos dos livros, pois, quando chegamos à região haviam diversos erros na ficha técnica e colofão do livro que nem se quer tivemos a oportunidade de concertar. Já em meados de maio, soubemos que outras prefeituras se somaram em nosso itinerário e realizaríamos oficinas em Mirandela e Alfândega da Fé.

No dia 26 de junho chego, então, a Portugal e Nisa Paula e sua filha esperam-me no aeroporto do Porto. Ao chegar à região de Trás-os-montes, descubro que ficaria hospedada na casa de Nisa Paula, em Rio Torto, uma aldeia de poucos habitantes e sem transporte público para nenhuma das cidades vizinhas. Ela vivia num imponente Solar do século XVIII e quando chego à sua residência sou informada de que se trata de seu feudo e de que ela era uma fidalga. Na hora, confesso que achei graça no comentário e pensei que era a forma portuguesa de dizer que ela pertencia à uma família que deve ter tido muito dinheiro e bens. Fui encaminhada ao meu quarto, extremamente confortável.

Nos três primeiros dias fiz as visitas técnicas aos espaços para conferir se o material foi corretamente comprado e para entregar os arquivos para a impressão. Aparentemente, tudo estava organizado, com algumas poucas exceções devido aos ruídos de comunicação entre falantes do português brasileiro (PB) e o português de Portugal (PP), somados, talvez, a um pouco de desconhecimento do Google. Um desses momentos foi quando a diretora da Biblioteca de Macedo de Cavaleiros, que certamente não entendeu o que era uma forma de vidro de 15 cm X 21 cm, me perguntou se eu pretendia fazer um bolo na oficina, já que pedia forma de vidro. Expliquei-lhe, então, o que era uma forma em PB e ela, tão amavelmente, ensinou-me que aquilo não era uma forma, mas sim um molde, já que as formas eram para os bolos. Porém, ademais desses pequenos problemas, todos os espaços garantiram-me que haveria público para os eventos e que seriam, em sua maioria, crianças alfabetizadas, jovens e adultos, como exposto na carta oficinal emitida pela prefeitura de Macedo de Cavalheiros.

Oficina na Biblioteca Municipal de Macedo de Caveileiros.

Oficina na Biblioteca Municipal de Macedo de Caveileiros.

No dia 30 de junho, sexta-feira, realizamos, então, a primeira oficina na aldeia de Sambade, no município de Alfândega da Fé, para senhorinhas de mais de 70 anos! A experiência foi excelente e tudo teria valido à pena se tivesse tido o seu fim ali. Porém, quando chegaram alguns órgãos de comunicação para fazer uma pequena reportagem sobre o evento, a Nisa Paula apresentou-se como uma grande escritora e a grande responsável pelos eventos. Na entrevista, não citou os outros dois escritores, Bernardo Carvalho e José Luís Peixoto, cujos livros são excelentes e de inquestionável valor e qualidade literários, nem mesmo todo o esforço e trabalho empenhados pela Malha Fina Cartonera para que as oficinas ocorressem.

A falta de respeito e lisura com o projeto intensificou-se quando durante o almoço, que contou com a presença da prefeita da cidade. Nisa Paula disse, diante de todos, que ela era a responsável pela Malha Fina Cartonera em Portugal, coisa que tive que esclarecer que não era verdade e explicar, mais uma vez, os pormenores do nosso projeto. É fato que isso gerou-me um imenso incômodo e uma quebra total de confiança para com o projeto e comigo, o que deixou-me muito insegura para a realização dos outros 5 dias de oficina que ainda estavam por vir.

 

Oficina em Sambade, município de Alfândega da Fé.

Oficina em Sambade, município de Alfândega da Fé.

A próxima oficina ocorreu em Mirandela, no Museu Armando Teixeira. Infelizmente, situações muito semelhantes se repetiram. Porém, nesse momento, notei que eu não havia sido a única enganada, já que outras pessoas que conheci na região também se assustavam com a falta de lisura com que Maria do Carmo agia para comigo e o projeto. Após a oficina, constatei que não havia condições de continuar na casa dessa senhora e graças à ajuda de Cátia Barreira, excelente jornalista e assessora de imprensa na região, – e uma espécie de anjo da guarda nesses meus dias em Portugal –, consegui outro lugar para hospedar-me e tive todo o apoio para a realização das atividades restantes.

A saída, porém, não foi muito fácil. Quando cheguei à residência de Nisa toda a casa estava fechada e ela demorou vários minutos para abrir-me a porta, o que, confesso, deixou-me extremamente assustada e ainda mais insegura. Após informar-lhe sobre a minha saída e dizer-lhe que seguiria com as oficinas por respeito aos convites recibidos, ela iniciou com uma série de comentários de arrepiar todos os fios de cabelo do corpo. O primeiro deles é o de que ela era a minha responsável legal em Portugal, e tudo que eu fizesse era de sua responsabilidade, portanto que não autorizava a minha saída da residência. O segundo, que ela proibia a reprodução do seu livro, pela lei de direitos autorais. E, por último, garantia-me que apareceria em todas as oficinas e continuaria cumprindo o seu papel de coordenadora dos eventos. Essa última parte, certamente, a única verdade proferida por dita senhora.

Oficina no Museu Armando Teixeira.

Oficina no Museu Armando Teixeira.

Na quinta-feira, quando cheguei à Biblioteca Municipal de Macedo de Cavaleiros, assustei-me quando fui informada que a oficina seria ministrada para cerca de 20 crianças de 4 e 5 anos. Aos que não sabem, numa oficina cartonera trabalhamos com estilete, agulhas, vidro, martelo e parafusos, materiais que nas mãos de crianças nesta idade não são muito seguros. Quando mostrei o convite assinado pelo vereador da cultura, que especificava que a faixa etária para a realização das oficinas era destinada para “jovens e adultos”, infelizmente protagonizei um diálogo patético com a diretora da biblioteca que afirmava-me que crianças de 4 e 5 anos eram jovens e que estavam aptas para realizarem tais atividades, já que ela promovia, na biblioteca, leituras de Fernando Pessoa para bebês e que eles adoravam muito.

No período da tarde, a oficina contou com crianças a partir de 11 anos e outros senhores de um Lar de idosos e correu em sua devida normalidade, com exceção de Nisa Paula que esteve presente todo o tempo e durante a explicação da atividade intrometia-se com certa insistência.

Realmente impressionou-me negativamente a forma como fui tratada pelos órgãos da cultura e educação. Pareceu-me bastante imprudente emitirem, no caso de Macedo de Cavaleiros, um convite oficinal convidando um projeto universitário pertencente à Universidade de São Paulo, por intermédio de uma senhora como a Maria do Carmo, que seguramente não possui condições para desempenhar qualquer tipo de coordenação ou organização de atividades. Porém, o que mais me surpreendeu foi o fato dos órgãos envolvidos, sobretudo a prefeitura de Macedo de Cavaleiros, não ter assumido que as coisas não saíram corretamente e que o projeto e eu havíamos sido muito desrespeitados.

Certamente, os que acompanham o blog sabem que o nosso projeto faz parte do Programa de Cultura e Extensão da Universidade de São Paulo, uma das universidades mais importantes da América Latina. Todas as nossas publicações e atividades sempre são pensadas com muito cuidado e respeito e não visam, de forma alguma fins lucrativos, mas sim fomentar a circulação de obras literárias, o intercâmbio cultural e o estudo e reflexão sobre o livro e a edição.

É válido destacar que todas as ações da Malha Fina Cartonera, realizadas durante os dois anos de existência do projeto, são documentadas semanalmente em nosso blog, as que dão certo e as que não dão. E como nos foi informado que a senhora Maria do Carmo se apresentou novamente na região, após a minha volta a São Paulo, como responsável pelo selo Malha Fina Cartonera, achei por bem escrever esse relato sobre a minha experiência por lá.

Porém, por sorte, se a minha estadia profissional em Portugal foi a catástrofe que foi, a experiência pessoal, o acolhimento e a força de recebi de Cátia Barreira e seus amigos e familiares foi mais do que formidável, foram mesmo inesquecíveis. Sentia que eles sofriam, assim como eu, com tudo que me estava passando e não pouparam esforços para que eu regressasse ao Brasil com as melhores impressões da região, que realmente é maravilhosa.

Trabalhar com cultura e educação é, realmente, um trabalho árduo. Primeiro porque é sempre mal remunerado, quando não é nem mesmo remunerado. Segundo porque é um trabalho que surge dos sonhos, com pitadas bem grandes de idealização, fórmula mais que certa para a decepção, frustração e tristeza. Porém é, também, um trabalho que nos propicia tantos encontros, tantos aprendizados e tantas trocas, que, quando o fazemos com convicção, lisura e respeito, até mesmo algo se extrai de seus erros, percalços e atropelos. Pois, mesmo com os embaraços em que me meti, se me perguntarem se valeu à pena, diria mil vezes que sim! Não só pelos livros, não só pela experiência, mas sim por mais uma vez ter a certeza de que o bom mesmo nessa vida são os encontros verdadeiros que temos a oportunidade de ter, como foi, sem dúvidas, o meu com a Cátia Barreira, para mim.

“Diáspora(s)”: Entrevista com Carlos A. Aguilera

por: Larissa Pavoni Rodrigues

O encerramento da antologia Diáspora(s), mais nova publicação da Malha Fina, conta com “Mao”, poema de Carlos A. Aguilera – em tradução inédita de Robson Hasmann e Ramiro Caggiano Blanco – o qual chama a atenção pelo uso de ideogramas. Grande expoente da poesia performática entre os autores cubanos do final do século XX, a poesia de Carlos A. Aguilera se encontra no entrecruzamento da escrita, da poesia experimental e do teatro.

Poeta, ensaísta e narrador, o entrevistado nasceu em Havana, e hoje reside em Praga, República Tcheca. É autor de obras como Retrato de A. Hooper y su esposa (La Habana: Ediciones Unión, 1996), Das Kapital (La Habana: Ediciones Abril, 1997), Teoría del alma china (México: Libros del umbral, 2006), Discurso de la madre muerta (Editorial: Baile del sol, 2012) e El Imperio Oblómov (Editorial: Espuela de plata, 2014).

Para dar as boas vindas a Diáspora(s), organizamos uma entrevista com o escritor cubano, que resultou em temas como o início de seu processo de escrita, o papel da poesia no mundo atual, os desafios do mercado editorial, seu poema publicado em Diáspora(s) e seus próximos lançamentos como escritor. Para saber mais sobre a obra desse poeta, confira a seguir:

Larissa Pavoni Rodrigues: Quando e como você começou a escrever? Teve algum tipo de estímulo?

Carlos A. Aguilera: Desde muito cedo. De adolescente, quase. Lembro que ainda tinha a cabeça maior que o corpo, tal como Gombrowicz descreve Bruno Schulz em seus diários. Estímulos, nenhum. Venho de uma família onde os livros não eram exatamente um fetiche.

L. P. R.: Para você, que importância tem a poesia no mundo de hoje? Ou, então, o que te motiva a escrever poesia hoje?

C. A. A.: A grande importância da poesia é o ouvido. Um narrador, um dramaturgo, um jornalista tem que ter o ouvido do poeta. Ou seja, a precisão do poeta, a tensão que o poeta concentra em seu ouvido. Sem esta tensão, é impossível escrever bem. Por outro lado, mas isso já é lugar comum, a poesia, a literatura em geral, não funciona dentro do mercado. Não dá dinheiro. Não produz economia. Não vende. E isso, que para muitos é motivo de queixa, é sua grande virtude. A literatura não deveria vender-se nunca. As editoras deveriam quebrar (sobretudo essas que pensam o literário como negócio). E a narrativa e a poesia deveriam circular sem nenhuma trava econômica ou mercantil. Fluir de maneira “limpa”, apenas guiada pelo gosto, as afinidades e a complexidade de cada um. Quando isso for alcançado haverá menos gente escrevendo e o céu estará mais claro, luminoso. A literatura não deveria ser negócio de ninguém.

L. P. R.: Como foi o processo de escrita do poema “Mao” publicado em Diáspora(s)?

C. A. A.: Mao era (é) um poema civil. Um poema que queria percorrer um estado de ânimo “especial” em um momento muito difícil para todos: o período especial, durante os anos 1990 em Cuba. Anos em que na ilha não havia nada (bom, segue sem haver muito). E por essa razão sua maquinalidade, seu neobarroco, seu sarcasmo, seu jogo com a história, com a Revolução Cultural Chinesa, com o castigo, com as analogias, etc… Um poema que queria ser um cruzamento entre os “Cantares” de Pound e aquele poema sobre Kant de José Kozer.

L. P. R.: De que forma este poema se relaciona com a Antologia Diáspora(s)?

C. A. A.: Bom, isso poderia ser perguntado à organizadora da antologia. O que posso dizer é que o poema foi publicado no primeiro número da revista, que fizemos no ano de 1997. E era um poema que eu lia em voz muito alta, naquele tempo, parodiando a voz de um líder qualquer em uma praça qualquer.

L. R.: É a primeira vez que publica em uma editora cartonera? Como você vê as cartoneras localizadas no mercado editorial atual, competitivo e lucrativo?

C. A. A.: Não. Já publiquei um relato longo em uma cartonera. Um relato que a posteriori cresceu e se converteu em um livro de cem páginas. Mas em sua primeira versão, está publicado em La Cleta, do México.

O grande ganho das cartoneras é que elas não têm que competir. Não tem que demonstrar nada. Não tem que vender. Apenas buscar bons textos e produzir livros únicos, livros que possam ser colecionáveis. Aí está sua virtude e ao redor desta “generosidade” é onde deveriam circular. A competência, a intriga, a mais-valia… há que deixá-los às editoras “grandes”, essas que se queixam constantemente que não vendem, coisa que, repito, me alegro infinitamente. Quem quiser ganhar dinheiro que abra um açougue ou roube um banco.

L. P. R.: O que escreve atualmente? Algum livro novo em um futuro próximo?

C. A. A.: Acabo de terminar Clausewitz y yo, um livro de relatos. E de colocar o ponto final em uma antologia de narrativa cubana transficcional. Uma antologia que terá por volta de 15 autores, cujo tema central já não é Cuba ou a miséria política cubana (tema recorrente na literatura da ilha desde Papaíto Mayarí), mas a escrita, a reflexão literária, o kitsch, a saída do referente nação.

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Imagem enviada por Carlos A. Aguilera.

A Malha Fina publica a antologia bilíngue Diáspora(s) dentro da coleção de literatura caribenha. A organização da antologia foi realizada por Idalia Morejón Arnaiz, as traduções individuais foram feitas por Ellen Maria Vasconcellos e Clarisse Lyra, e as traduções colaborativas por Caroline Costa Pereira, Liliana Marlés, Gabriel Bueno, Adriana Silva, Robson Hasmann, Ramiro Caggiano Blanco e Yedda Blanco.

Diáspora(s) traz, então, poemas dos membros fundadores do grupo homônimo como forma de apresentar ao público brasileiro esse importante momento literário cubano. Entre os escritores do grupo estão: Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders, Ricardo Alberto Pérez, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer e Carlos A. Aguilera, aqui entrevistado.

Você pode ler mais sobre os autores publicados em Diáspora(s) nas duas apresentações, Grupo Diáspora(s): uma poética de ruptura e Grupo Diáspora(s): uma poética de ruptura (parte II), escritas por Aryanna Oliveira. Além disso, também pode conferir a resenha da antologia, intitulada Diáspora(s): vanguarda finissecular em Cuba, escrita por Pacelli Dias Alves de Sousa.

Para adquirir a antologia Diáspora(s), entre em contato com a Malha Fina Cartonera através do nosso perfil no Facebook ou envie um email para malhafinacartonera@gmail.com.

Aquarius e Joaquim: Literatura Incendiária

por: Cristiane Gomes

Dizem que quando há condições ideais, a ficção não costuma ser muito boa. Talvez pela falta de necessidade de criar mundos possíveis, talvez pela literatura ser uma forma de revolução. Mas as palavras também servem para aprisionar: se fossem inofensivas, as religiões não teriam se apropriado da criação do verbo em suas mitologias, não precisaríamos explicar nas escolas a diferença semântica entre liberal e libertário e não teríamos uma constituição escrita para proteger a propriedade privada.

O retrocesso, que já tomou conta da política, se espraia pelas artes e pelo discurso popular. O liberalismo econômico sempre foi o único filho “revolucionário” aceito pela família brasileira. Carismático, conhecedor da técnica retórica, bem-vestido, preferencialmente homem e branco, ele não renega o dinheiro, faz alianças questionáveis e mantém bem vivo aquilo que mais mata gente no mundo: família, religião, patriotismo e militarismo.

Desta terra, onde um prefeito-alegoria se elegeu usando a alcunha de João Trabalhador – mesmo pertencendo a uma família que é dona do Brasil desde os tempos das Capitanias Hereditárias –, os guaranis são despejados depois de resistir 517 anos e na qual mantemos orgulhosos, mesmo “independentes”, a bandeira verde e amarela de Bragança e Habsburgo estampada com um lema positivista francês do qual o amor foi extirpado, eu escrevo sobre dois lançamentos de um selo editorial do Recife, que nessas condições nada ideais em que vivemos, traz boa literatura.

A Mariposa Cartonera, uma resistência literária independente, lançou, em 22 de setembro de 2017, dois livros-irmãos: Aquarius e Joaquim. As antologias de contos organizadas por Wellington de Melo têm como disparador o nome de duas personagens cinematográficas: Clara, protagonista de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e o mártir e bode expiatório da inconfidência, Joaquim José da Silva Xavier, retratado no filme Joaquim de Marcelo Gomes.

Em um caminho inverso ao convencional, a literatura se alimenta do cinema desses dois cineastas pernambucanos. Alguns contos apresentados nos livros, não sei se por estímulo ou fruto do estado de exceção que vivemos no Brasil, além dos nomes Clara e Joaquim trazem outras semelhanças: violência e opressão.

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As Claras

O conto que abre Aquarius é “A versão de Talitas, de José Luiz Passos. A Clara de José Luiz não tem cara, é apenas uma figurante, uma aluna com a qual o escritor e professor, narrador-personagem, tem um breve caso. O protagonista, sem nome, mas que poderia chamar-se José, tem seu livro adaptado para o cinema por um cineasta norte americano. A obra adaptada é o Sonâmbulo Amador, livro do próprio Passos, que também aparece nas mãos da personagem Clara, do filme Aquarius, inspiração da antologia.

Nesse jogo de aproximação entre real e ficcional, muito em voga na literatura contemporânea e que causa uma certa confusão nos leitores, um outro expoente nacional é o Ricardo Lísias, também presente na antologia com o conto “Sem Movimentos Bruscos. No conto de Lísias, o narrador-personagem também é um autor de ficção ligado à universidade. Durante uma viagem de ônibus nos Estados Unidos conhece Claire, professora da Penn State. Seu desdém inicial pela senhora transforma-se em interesse na tentativa de apropriar-se da história dessa mulher para sua ficção.

Em “Saio não senhor”, de Maria Valéria Rezende, Clara é uma personagem que resolve se rebelar contra as falsas promessas dos políticos de sua pequena cidade, uma mulher que resolve dizer não e consegue o apoio das outras mulheres na sua causa. As pedras e os populares comparados a formigas evocam as fábulas gregas.

Em o “Caso da tartaruga”, de Nivaldo Tenório, a história de Maria Clara sai da boca do marido. Morta, mesmo quando viva. Traumatizada pela tortura na ditadura, Clara não fala, tem câncer e é comparada a uma enorme tartaruga morta na praia.

Sidney Rocha, em “Clara e Carmelita”, narra a história de duas amigas bem-nascidas, filhas de um embaixador e de um militar, que em algum momento do Golpe de Estado no Chile sofrem um revés.

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Aquarius. Foto: Mariposa Cartonera.

Os Joaquins

“Jogue a sua cabeça no telhado das casas mais pobres. Jogue sua cabeça para que os cachorros mais sujos lambam o seu rosto. Dê os seus olhos de comer aos pássaros mais famintos. Dê a sua língua aos insetos mais solitárias. Seus ouvidos servirão de casa para as lesmas mais vagarosas. Em “21 instruções para se chamar Joaquim”, Bernardo Brayner faz uma lista-manifesto que não deve ser cumprida.

Em a “República dos Quincas”, José Luiz Passos retoma os Joaquins revolucionários e deixa uma frase aos próximos Joaquins: “Se a morte do tirano é o preço da felicidade pátria, que razão haverá para que se desampare o bem da República?”.

No conto “Joaquim”, Maria Valéria Rezende cria uma personagem duplamente revolucionária, é Joaquim e Maria: “Uma mulher. Não pude deter o jorro de sangue a manchar e escorrer pelo couro da sela e por entre as pernas de meu calção que já fora branco”. A descoberta da sua identidade define seu destino, mas ela deixa uma importante mensagem carregada da força da linguagem de Maria Valéria: “Ninguém pode senão pela violência extrema tolher a liberdade de meus pensamentos e calar minhas palavras que usarei até o fim para dizer o quanto vos desprezo que não sois mais que escória humana revestida de rendas veludo e seda recheada da gordura mal cheirosa com que vos empanturrais, sujo e nojento tanto que, por mais que vos chamem ouvidor ou governador ou oficial ou seja lá o que for que vos chamem, se não me calarem à força eu vos insultarei sem cessar e escarrarei em vossa carant”.

Em “O osso escafóide de Joaquim”, escrito por Ronaldo Correia de Brito, Joaquim é um herói brasileiro. Tem 35 anos, filho bastardo do patrão com a empregada, esse sujeito que com sua ética própria se nega a buscar amparo na família paterna, se desgraça em enchentes, pobreza, cárcere, pequenos crimes e cria a ficção na sua própria vida performática, onde ele poderia ser tudo, mas não é nada.

Sidney Rocha, em seu “A alva”, se apropria da história de Frei Caneca, o Joaquim do Amor Divino Rabelo, religioso, jornalista, gramático, pensador, opositor do governo central conservador, “escritor de papéis incendiários” e um dos principais líderes da Revolução Pernambucana, que foi fuzilado pela comissão militar e faz dele o próprio Homem Vitruviano: “Um homem de braços abertos mede um homem de altura por um homem de largura. Era a medida geométrica certa que encontrara para abraçar as balas e o mundo”.

Quem quiser adquirir Aquarius e Joaquim deve acessar o site da Mariposa Cartonera.

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Joaquim. Foto: Mariposa Cartonera.

 

Sangria com César Vicente

por: Cristiane Gomes

São Paulo possui uma espécie de magnetismo. Como uma sereia, nos arranca do lar e abandona em uma espécie de órbita. Nos esbarramos constantemente, nas ruas, na universidade, nas livrarias e nos coletivos. Aprendemos a nos ignorar para viver a solidão ruidosa e produtiva afogados no marulho de carros e motos intensificado pelos totens de concreto.

Encontro César sempre acidentalmente. Ele, assim como eu, é de um outro lugar, nos reconhecemos, cumprimentamos, sorrimos e conversamos até onde for a conversa. Nascido em Espírito Santo do Pinhal, um pequeno município paulista, chegou em São Paulo em 2012, para cursar Letras na UNIFESP, mas trilhou outros caminhos, os do teatro, até que o destino o levasse de volta às Letras, na USP, onde praticamos a resistência de conversar, e viver, como se não houvesse tempo. Mas ele existe.

César Vicente é poeta e ator, tem 23 anos e compartilhou com a Sangria, da Malha Fina, os poemas Permanece o Mito, O Decifrador e O Sátiro. Para conhecer mais dos trabalhos e processos do autor você pode acompanhar o blog Tornado Sopro.

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Foto: Isabela Alves.

Permanece o Mito

 

Cristo viveu
e passou a Palavra.
G.H. a tomou como
pedra de esculpir

 

e narrou sua Paixão.

 

– para lavras e lavouras
o labor dos santos
sobre a terra
a mansa –

 

Listas delas concentradas
pedem lágrimas para se diluir,
ou mesmo água, sangue, suor ou vinho.

 

O vinagre alivia o efeito
do gás lacrimogêneo,
mas não a sede.

 

Eu queria dizer,
menos,
eu queria estar,
menos,

 

deixo a face no lençol para marcar presença.
deixo meu nome num papel a responder ausências.
deixo caneta e papel de lado para saber que existo.
deixo a vista descansar onde não estou.

 

longe, é

 

O Decifrador

 

Eis o papel que me coube –
decifrar a corrente de elos
atados desde que o verbo
quis unir trajetos na cidade pedra
fundamental da solidão nos passos.
Espaço para além das peças de puro
impacto nos pés, tropeços, tombos,
quedas livres no sentido dos
versos (ar)riscados em campo arado ao
algodão negro onde os dedos se embrenham.
Fazendo do propósito a própria poesia
sobre a torre mais alta desse chão duro
duro, no castelo tocando estrelas
a pontuar a música tirada na hora das
maravilhas confidenciadas boca a boca.
Una canción, your song, um som
que atravessa a noite inteira em
intervalos marcados pela batida
cardíaca e o pulso firme que
se assenhorou das curvas na estrada.
Trazer à vida a voz, nós na garganta
do precipício, avidamente requerida,
buscado o tom para harmonizar o peso
do dito cuja verdade dita o olhar
me olhando te olhando molhando
as frestas e os sulcos, arranhões e cicatrizes
pelos quais se reconhece quem chega
e se achega mais perto do colo teu,
cabeça pousada no peito enquanto
o tempo voa e se esquece dos pares,
pontos em que a pressa e a pressão
se detêm prestes a saber por que
toda mensagem se transmuta em signos
que a esfinge do mundo se compraz de
reordenar em enigmas da encruzilhada.

 

O Sátiro

 

uma pequena mostra
dos entrosamentos sadios
vadios
enquanto ocultos
à noite
dos mascarados
não escondem o riso
ao aviso
e à visão baços
traços tortos linhas retas.

 

in-diretas
certas
do ciclo hídrico
das mágoas magnas
bestas
a (per)fumar as sextas
trago-as, todas
funestas
festas.

 

nefasta
lua minguante
ante o bar dos navegantes
que buscaram seu torrão
de terra
avista
a vasta
rua escaldante
sem saber qual dos mirantes
encarou fundo o borrão
que encerra
a vista
afasta
sua constante
cósmica de andar errante
e afunda sua pré-visão
em terra.

 

a pista
arrasta
o instante
adiante
irão
eu era
quem
com a cerveja na mão
dizia verdades
como quem erra.