“O coração em si” de Elvio Fernandes Gonçalves Junior

por: Gonzalo Dávila

O livro de poesia prestes a ser lançado pela editora Malha Fina Cartonera O coração em si, do estreante e veterano Elvio Fernandes Gonçalves Junior (o digo porque ele tem outros livros prontos ainda não publicados), palpita nas mãos do leitor. É pungente, não despreza a emoção, é cheio de imagens que, sem deixarem de ter camadas simbólicas ocultas, conseguem chocar no primeiro encontro.

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Foto: Aryanna Oliveira.

Os poemas são curtos e se utilizam mais da associação mental entre imagens do que da narratividade. Estas são soturnas, funcionam a partir de sugestões, como pinceladas de um quadro expressionista e, dessa forma, são indescritíveis, assim como os próprios sentimentos. Podemos dizer, por exemplo, que para transmitir uma sensação de impotência∕impossibilidade, Elvio se usa no primeiro poema (“Término”) da palavra “até”, a qual de forma imperceptível vai colocando barreiras no poder do “incêndio”, da “fala” e da “língua”, os quais, por sua vez, podem se relacionar com outros sentidos.

término

 

o incêndio flui
até onde a sombra acaba

 

a fala segue
até onde o lábio sangra

 

o mar gesticula
à beira do tempo

 

a língua toca
até onde o corpo queima

 

a mão cobre e penetra
o primeiro instante

Ou então, para exprimir o início do sonho, da dissolução da realidade, Elvio começa assim o poema “Abertura do sonho”: “repetir a ordem do bosque ∕ onde o olho abandona as pálpebras”.  O bosque é confuso e rico de significados como o sonho; já o olho abandona as pálpebras, as quais seriam a sua parte material.

abertura do sonho

 

repetir a ordem do bosque
onde o olho abandona as pálpebras
e o sal desce ao cerne da palavra

 

esperar que a outra metade
do muro se desfaça em gotas
que levam consigo as sílabas

 

contemplar longamente as torres
onde  se forma o alfabeto
que ondula como o incêndio

Também há um escasso uso de “eu” no livro, característica que se harmoniza com o espírito da obra. A ausência explícita do “eu” dá a impressão de que o mundo interior, o coração, funciona por si mesmo, longe do próprio consciente.

A dor está em tudo. No poema “O coração em si”, que dá o título ao conjunto, vemos que “a paisagem” tem “corpos que escorrem”, as “despedidas” têm “janelas de lugares destruídas” e “o violento adeus dos pássaros que despertam” e também “sangue”. E mesmo as breves passagens que dão a impressão de esperança são negadas em seguida. Um exemplo claro é o primeiro verso de “Murmúrio do mundo”, “Deuses teorizam o amor”, que é seguido de “mas amor de covardia de dor e de espasmo”. O efeito de falta de esperança, de apocalipse interno é evidente, e outros poemas anteriores do poeta me reforçam isso, como o ainda inédito “A contrição de Deus”.

Também é importante ressaltar que os poemas em conjunto formam uma espécie de círculo, já que o primeiro se chama “término” e o último “início”. Nessa lógica, a obra pode ser lida sem fim, e por isso o próprio apocalipse pode ser circular.

Fazendo um cotejamento, talvez haja relação do livro com a obra “O coração dos outros”, de outro grande poeta, Celso de Alencar. Assim como ele, Elvio é soturno sem deixar de mostrar nas entrelinhas a compaixão e ternura.

Deixo aqui, para que estes comentários não fiquem no abstrato, um outro poema de O coração em si cedido pelo autor para o blog da Malha Fina Cartonera:

a necessidade dos passos

 

merecemos as nuvens
pois estamos rodeados de ouro
e rosas subterrâneas

 

merecemos
a disfarçada vontade
de aspirar ao mal
e à deflagração
de assassinatos
em basílicas

 

e por fim sozinhos
desde o princípio
merecemos o dilúvio

Inspirações para “O Coração em si”: Entrevista com Elvio Fernandes Gonçalves Junior

por: Aryanna Oliveira

Em abril de 2016, a Malha Fina Cartonera publicou seus primeiros livros e, no mesmo evento, divulgou os vencedores da Primeira Convocatória de Narrativa e Poesia desta cartonera, que, através de uma seleção de estudantes de graduação e pós-graduação da FFLCH (nunca antes publicados) chegou aos nomes de Mauro Augusto de Sousa, aluno do curso de Filosofia e Elvio Fernandes Gonçalves Junior, aluno do curso de Letras, com habilitação em Linguística.

A previsão era de que seus livros fossem publicados já no segundo semestre do mesmo ano, todavia, como já bem exposto em relatos de Mariana Costa Mendes e Tatiana Faria, o fazer cartonero encontra muitas barreiras diante das dificuldades impostas pelo mercado editorial e, com isso, os livros estão sendo carinhosamente produzidos agora. Em novo formato e com uso de novos materiais, as obras deverão ser lançadas no próximo mês.

Com esse tempinho gasto a mais na produção, ganhamos também um tempinho a mais para conhecer melhor e lhes apresentar os talentosos meninos, como o futuro linguista Elvio Fernandes Gonçalves Júnior. Um rapaz tímido, que transborda sentimento e poesia em O coração em si. Na correria diária entre o trabalho e a faculdade, Elvio nos contou um pouco soube sua inspiração e processo criativo.

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Elvio Fernandes Gonçalves Junior. Foto: Aryanna Oliveira.

MFC: Como começou a escrever?

EFGJ: Tomei gosto pela escrita ainda criança, por causa de uma conversa que ouvi entre duas tias minhas. Meu avô paterno costumava escrever poemas e, certo dia, enquanto eu brincava numa pequena sala que elas utilizavam como escola de reforço, onde havia vários livros, elas arrumavam os livros e acabaram encontrando um dos poemas dele datilografado. Lembro-me de ouvir a frase “O pai era poeta” e, de certa forma, isso me marcou. Mas só comecei a escrever mesmo lá pela oitava série, por conta de um trabalho de artes na escola, em que devíamos desenvolver um tema através de uma forma artística. Acabei escrevendo um pequeno poema sobre o tema “Olhar”. A partir de então não parei mais.

MFC: O que você já escreveu? Já publicou antes da convocatória?

EFGJ: Escrevo predominantemente poemas, embora já tenha experimentado um pouco de prosa. Já publiquei textos em blogs, em uma publicação que considero especial, com o grupo de poesia do qual participei, os “Facas na Manga”, no Portal Cronópios, do saudoso poeta e militante literário Pipol.

OLHO:

deuses teorizam o amor

mas amor de covardia

de dor e de espasmo

amor onde fica vazio

o pulso que abraça o estilhaço

amor onde os mortos soluçam

“murmúrio do mundo”, in: O coração em si. Malha Fina Cartonera, 2017.

MFC:  Elvio, como surge sua inspiração criativa? Percebe um processo?  Sobre o que costuma escreve?

EFGJ: A inspiração surge – acredito piamente nisso – e disso resulta que, na surpresa do momento, na maioria das vezes não tenho um tema a priori sobre o qual me debruço para desenvolvê-lo no poema. Nesse sentido, o tema acaba por se tornar resultado da experiência, e não seu motivador.

MFC: Quais são seus hábitos de leitura? E quais são seus seus escritores preferidos?

EFGJ: Costumo ler bastante poesia, crítica literária e um pouco de filosofia. Meus autores preferidos, do meu coração mesmo, são: Manoel de Barros, Hilda Hilst, Roberto Piva, Orides Fontela, Claudio Willer, e tantos outros.

MFC: Como soube da convocatória Malha Fina? Como se preparou para o processo? O livro foi feito especialmente para a convocatória?

EFGJ: Meu amigo e poeta Diogo Cardoso deu o toque, e acabei indo ler o cartaz nos corredores da Letras. Não me preparei, fui adiando… já estava com o livro pronto e, na minha procrastinação, acabei entregando não em cima, mas depois da hora, no departamento. Felizmente, pelo que soube, tive a sorte de não ser o único.

MFC: Como analisa a importância de projetos como o da Malha Fina Cartonera?

EFGJ: Acho esse tipo de projeto de extrema importância, tanto dentro quanto fora da USP. Dentro, por incentivar e promover o espaço para a publicação dos alunos e alunas que, muitas vezes, acabam tendo a verve poética oprimida ou desvalorizada no meio acadêmico; fora, por demonstrar mais uma vez que agora é a vez das editoras independentes ou “alternativas”. Digo mais uma vez por acreditar que a Malha Fina é mais uma força somada ao trabalho de outras editoras que não apenas publicam livros, mas militam através de suas publicações, de suas escolhas editoriais. Estão aí incluídas não só editoras Cartoneras, como a Dulcineia Catadora e a Malha Fina, mas também a Patuá, a Córrego, Demônio Negro, Azougue, e tantas outras espalhadas por aí.

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“O Coração em Si”, de Elvio Fernandes Gonçalves Junior. Foto: Aryanna Oliveira.

Uma Desvairada Coletiva & Independente

por: Larissa Pavoni Rodrigues

Aconteceu nos dias 24 e 25 de março a Desvairada – Feira de livros de Poesia de São Paulo, organizada pelos/as poetas/poetizas Marília Garcia, Fabiano Calixto, Leonardo Gandolfi e Tiago Marchesano. A partir da proposta de um coletivo de editoras independentes, o espaço Aldeia 445, localizado à Rua Lisboa, 445 (ao lado da Praça Benedito Calixto) abarcou uma diversificada programação que visou ampliar a difusão, a venda e a leitura de poesia. O evento promoveu também mesas de debate; leituras de poesia; oficina; concurso de vídeo-poemas; performances e atividades para crianças.

Ao procurar trazer poetas e discussões com costumam ter menos visibilidade, mas dentro de um formato já conhecido – o de feira –, a Desvairada uniu o novo e o tradicional em uma proposta atraente. É o caso da leitura de poemas eróticos em libras e do concurso de vídeo-poesia, no qual os ganhadores foram exibidos em uma tela.

Diferente das editoras independentes, o projeto cultural que há nas grandes editoras leva em conta uma ideia de mercado que, em determinado contexto, pode ser considerado padronizado, pensando no produto que é o poema ou o livro de poesia. Confira a seguir um vídeo mostrando um pouquinho de como foi a feira:

Quando falamos de projeto novo e atraente, uma das editoras presentes que nos chamou a atenção foi o coletivo Garupa. Assim como a Malha Fina, o coletivo editorial Garupa nasceu dentro dos muros da Universidade, só que dessa vez na Unirio, em um laboratório de práticas editoriais. O grupo guarda ainda mais semelhanças com a gente: eles produzem uma revista literária eletrônica semestral, pois dali propõem sair da zona de conforto e construir consciência literária. Você os encontra clicando aqui.

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Foto: Caroline Costa Pereira.

Já a Kapulana chama a atenção por possuir um catálogo rico em obras inclusivas, livros infantis de leitura acessível, de literatura africana em língua portuguesa para crianças e adultos, além de crítica literária voltada para o público acadêmico e pouco contempladas no Brasil, como estudos sobre a Literatura Africana de Língua Portuguesa. Seu logo é baseado nas cores e formas das capulanas – panos coloridos que servem como vestimenta de vários tipos em Moçambique. Visite o site da da Kapulana clicando aqui.

Nós, da Malha Fina, além de vendermos os nosso livros, também fomos convidados a ministrar uma oficina cartonera, que tratou desde a edição de livros artesanais até a construção de um catálogo muito bem cuidado, com seus objetivos e nuances. A coordenadora do projeto, Tatiana Faria, junto com os monitores Larissa Pavoni e Pacelli Sousa, e a design gráfica Iara Pierro de Camargo falaram sobre as várias etapas do fazer cartonero. O público – diferente de nossas outras oficinas, majoritariamente formado por pessoas que rodeiam o universo editorial –, contribuiu com experiências e sugestões enriquecedoras.

Além disso, fizemos a pré-venda dos mais novos livros da Convocatória – dos autores Mauro Sousa (Crisântemo é um nome bom) e Elvio Fernandes Gonçalves Junior (O coração em si).

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O saldo da feira foi positivo, enriquecedor e transformador. Esperamos reencontrar os editores, poetas e amantes da poesia em mais outras Desvairadas.

Segue abaixo as 24 editoras que participaram do evento:

  1. 7Letras (RJ);
  2. Alpharrabio (Santo André, SP);
  3. Azougue (RJ);
  4. Chão da Feira (BH/SP);
  5. Circuito (RJ);
  6. Córrego (SP);
  7. Corsário-Satã (SP);
  8. Cozinha Experimental (RJ);
  9. Dobra (SP);
  10. Fada Inflada (RJ);
  11. Garupa (RJ);
  12. Grumo( SP-BsAs);
  13. Jabuticaba (SP);
  14. Kapulana (SP);
  15. Lote 42 (SP);
  16. Lumme Editor (SP);
  17. Luna Parque (SP);
  18. Malha Fina Cartonera (SP);
  19. Oficina Raquel (RJ)
  20. Patuá (SP);
  21. Pitomba (MA/SP);
  22. Quelônio (SP);
  23. treme~terra (SP) e;
  24. Urutau (SP).

Não se esqueça de acessar o blog da Desvairada: http://desvairadasite.wordpress.com/!

“Cajón em São Paulo”: uma experiência habanera

por: Idalia Morejón Arnaiz e Tatiana Lima Faria

Em junho de 2016, a Malha Fina Cartonera convidou o poeta cubano Omar Pérez para um conjunto de atividades em São Paulo ― palestras, oficinas, entrevistas e um recital de poesia e performance que aconteceu na terceira edição de La Garçonnìere, no Estúdio Lâmina. Na ocasião, o poeta interpretou, acompanhado do cajón, os poemas que farão parte de Cubanologia, antologia que publicaremos neste ano, acompanhada das vídeo-performances realizados pelo cineasta João Krefer a partir da apresentação de Omar. O intuito de convidá-lo para realizar esses vídeos era o de problematizar como a performance, que se pretende efêmera, pode ocupar outros lugares e interagir com outras linguagens (música, cinema e artes visuais).

Com isso, o vídeo não é apenas o registro de uma performance de poesia, mas é também uma vídeo-performance. Krefer realiza uma outra abordagem dos poemas, isso pode ser visto na diferença entre a atmosfera da apresentação original (sala lotada e público entusiasmado), e dos vídeos editados. Dessa forma, Krefer acabou construindo uma nova plataforma para o trabalho poético e musical do cubano, em que marca também a sua leitura e originalidade como cineasta ao pensar nos jogos de claro e escuro, observados no vídeo, nas distintas dimensões do corpo e suas multiplicações, especialmente as mãos tocando o cajón, sem que o poeta deixe de estar no centro.

Com o resultado dessa experiência, chegamos a Habana no mês de janeiro para mostrar os vídeos ao poeta e também com a expectativa de exibi-los publicamente, o que aconteceu no dia 20 de janeiro no estúdio de tatuagem e galeria La Marca. Localizado no centro histórico de Habana, La Marca reúne alguns dos paradoxos da vida cubana: a proibição da comercialização da tatuagem e a concepção da tatuagem como uma arte do corpo, uma vez que o que legitima que tal estúdio funcione em Habana é o fato de ele ser, também, uma galeria de arte. Neste sentido, o espaço dialoga com a vídeo-performance de Omar, pois da mesma forma como os artistas de La Marca pensam o corpo como um suporte para a arte, nós também buscamos com este trabalho encontrar outras plataformas para a poesia, unindo-a à musica, ao cinema e às artes visuais.

O público de Habana, acostumado com as performances ao vivo de Omar se surpreendeu com o vídeo que apresentava a poesia e a música sem desconstruir a autenticidade de sua voz poética e sua expressão corporal.

A interação com o poeta em sua cidade nos fez ter dimensão da sua rotina, totalmente dedicada ao trabalho artístico, que perpassa não somente pela música e poesia, mas também pelas artes visuais, uma vez que o poeta converteu as paredes da sua casa em suporte para suas intervenções visuais, aproveitando-se dos escombros produzidos pelo tempo e pelo salitre, já que mora em frente ao Malecón. Dentre os desenhos nas paredes de Omar, vemos como alguns temas vistos em sua poesia se repetem: a austeridade, o feminino e o masculino, a casa como um corpo vivo e reflexo do que é o homem, o budismo e a crítica social. A casa é tratada por Omar como um corpo doente que é preciso curar, aliviando as paredes e o solo de qualquer peso desnecessário, transformando as crostas de cimento em intervenção plástica e amorosa e o entulho (as crostas desprendidas) em material artístico.

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Este pequeno relato não se esgota agora, pois em junho deste ano lançaremos Cubanologia, contendo os poemas da performance traduzidos ao português e alguns outros inéditos. Assim como a exibição das vídeo-performances de Omar em Habana nos propiciaram uma nova perspectiva para o seu trabalho, cremos que nesse lançamento também veremos como sua poesia, música e arte se ressignificam através de sua interação com o público e seus leitores, demonstrando que a poesia permanece viva.

Clássicas Traiciones em versões cartoneras

por: Pacelli Dias Alves de Sousa

Chegaram à biblioteca da Malha Fina Cartonera os livros da coleção Traiciones Cartoneras, editados pela La Sofía Cartonera, selo editorial associado à Universidade Nacional de Córdoba (UNC) na Argentina. Composta até o momento por oito livros, a coleção traz à luz textos de autores já pertencentes ao domínio público, porém em novas e cuidadas traduções. Assina a coordenação Silvia Cattoni, professora de literatura italiana da UNC. No que se refere às edições, em Traiciones, o leitor tem acesso a livros com roupagens mais tradicionais, sem contudo perder o charme cartonero próprio deste tipo de publicação.

Até o momento foram publicados os seguintes livros: La cabellera de Berenice y algunos poemas precoces de Catulo, em tradução de Silvio Mattoni, poeta e professor de estética na Universidad Nacional de Córdoba; El foso y el péndulo de Edgar Allan Poe, em tradução de Nancy Picón; Sobre Baudelaire, de Marcel Proust, com tradução de Virginia Garcia; dois volumes de contos (Cuentos I e Cuentos II) de Oscar Wilde, compostos por textos traduzidos por María Mercedes García, Marina Carrasco, Zaida Cabrera e Anabella Convers; Después de la línea de Ecuador do argentino-italiano Adrián N. Bravi; Poesías de Michelângelo, com tradução do italianista Sandro Abate e Un corazón simple, feito através de tradução colaborativa entre Ana Virginia Luna, Virginia Garcia, Pablo Luna, Virginia Ossana e Gabriela López.

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A tradução aqui tem papel fundamental, assumido desde o título da coleção. Traiciones é uma referência ao conhecido adágio italiano traduttore, traditore (tradutor, traidor). Se toda tradução é uma traição ao texto original, a coleção não só reclama seu papel como o usa com propriedade ao propor traduções que não busquem variantes das obras originais, senão modos de conservar as essências adaptando-as aos requisitos da língua de chegada e de um público vasto, como aponta o próprio editorial da coleção.

É no editorial ainda que a organizadora Silvia Cattoni lembra que a palavra traição tem a mesma origem da palavra tradição: se esta indica a transmissão de algo de uma geração a outra, aquela trata de uma transmissão ao grupo inimigo. No diálogo da traição, entra em jogo qual mensagem está sendo levada ao outro, nesse caso sem o tom despectivo do sentido original, mas visto como amigo e parceiro de conversas. Nesse sentido, a seleção dos livros é preciosa e buscou trazer textos ainda não traduzidos ao espanhol, ou de difícil acesso em edições.

Um exemplo é a obra Poesías, de Michelângelo. O livro traz uma seleção bilíngue de poemas do multiartista renascentista, explorando uma faceta menos conhecida de suas obras. Não somente, a coletânea, ainda que perpasse as diversas fases de sua escrita, tem um foco: os poemas escritos entre 1532 e 1547, em sua maioria dedicados ao amante Tomasso dei Cavalieri e à morte de sua mecenas Vittoria Colonna. Desde o prólogo, intitulado “Un homoerotismo distinguido: las rimas de Michelângelo” e assinado por Facundo Martínez Cantariño, o livro parece assumir um tom reivindicatório da imagem de Michelângelo, enquanto propõe um modelo de leitura mais pessoal e expressivo, enfrentando leituras retóricas.

Outras pérolas da coleção são certamente Un corazón simple, de Flaubert e Sobre Baudelaire, de Proust. Ambas escritas por renovadores da linguagem literária e do próprio modo de representar e ler o homem na modernidade. Na novela de Flaubert, o leitor encontrará diversas marcas de estilo do autor, traços que o consagraram e inspiraram diversos escritores contemporâneos e posteriores. Acompanhará ainda a história de Felicité, empregada doméstica: seus amores, seus problemas familiares e questões de trabalho, representadas sob o olhar irônico e só aparentemente distanciado de um narrador que, antes de tudo, tem seu foco na tensão entre a grandeza ética e a humildade tamanha que caracteriza essa personagem.

O texto de Proust, por sua vez, é uma exploração da poesia de Baudelaire. Originalmente publicado em La nouvelle Revue Française em 1921, o texto é uma boa aproximação à obra do poeta, assim como ao estilo de Proust. Nele, o autor de Em busca do tempo perdido analisa a posição de Baudelaire na tradição da poesia francesa, em especial em comparação com Victor Hugo, a relação entre As flores do mal e a história e, finalmente, esboça leituras de poemas.

Na coleção, podem ser encontrados ainda Catulo, um clássico da literatura latina, e dois autores fundamentais da língua inglesa, Edgar Allan Poe e Oscar Wilde. Vale apontar a cuidadosa seleção de contos de Oscar Wilde, que contém textos como o belo “El príncipe feliz”, fábula escrita em tom leve e ingênuo, mas que em suas entrelinhas traz uma forte alegoria do modo como se estrutura o poder econômico na sociedade.

Trata-se, em geral, de uma coleção de clássicos que, como tais, sempre voltam em novas leituras para novos leitores. Clássicos que ainda, como nos ensina Ítalo Calvino, servem para entender quem somos e onde chegamos. Para adiante, novos títulos serão acrescentados ao catálogo; aos leitores vale esperar.

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