Oficinas em parceria com Mariposa Cartonera

por: Mariana Costa Mendes

Na última quinta-feira, 19 de novembro de 2015, foi realizada a Oficina de Design Editorial ministrada por Patrícia Cruz Lima e também a Oficina: Como Editar e Publicar Livros Cartoneros ministrada por Wellington de Melo e por Manuela Travasso, ambos da Mariposa Cartonera.

Para conhecer mais sobre os palestrantes, lembramos que há duas semanas já publicamos uma entrevista com o Wellington e que na próxima semana publicaremos a entrevista com a Patrícia.

A seguir vocês podem conferir vários momentos das oficinas. As fotos foram tiradas por Julia Izumino.

Oficina de Design Editorial

12265957_173889709627912_3227464178391075748_o

Patrícia Cruz Lima.

12241065_173889096294640_4624417552035232747_o

Tipologia: sem serifa e com serifa.

12239172_173890639627819_1962899516440122805_o

Margens.

12291080_173890082961208_1788227570368810107_o

Alunos aprendendo sobre o processo de edição de um livro.

11872210_173890926294457_5558761085314179001_o

Conhecendo todas as partes de um livro.

12291170_173891196294430_1234968294755074252_o

O livro cartonero por dentro.

12244456_173890526294497_1320041413267736838_o

O livro cartonero.

Oficina: Como Editar e Publicar Livros Cartoneros

12244254_173897202960496_4079805775410026926_o

Wellington de Melo.

Durante a oficina de livros cartoneros, foi entregue um questionário aos participantes. Ao lermos as respostas, notamos que a maioria não conhecia esta forma de edição. Ficamos felizes por apresentar o movimento cartonero aos alunos! Eis então alguns comentários dos estudantes a respeito da oficina:

“Muito boa, auxiliou na compreensão da proposta. A visão de criatividade, ética e estética é fundamental.”
Moacir Souza, 32 anos.
Estudante de Letras – Português/Espanhol.

12304495_173893952960821_1802299849195033487_o

Manuela Travasso falando sobre os modelos de editoras existentes hoje.

“A oficina foi excelente! Dentre diversos aspectos positivos, interessa-me o aspecto sustentável e artístico do livro enquanto obra”.
Nathália Grossio, 31 anos.
Mestranda em Letras – Teoria Literária.

12265552_173893949627488_2613415948916612458_o

Conhecendo os livros cartoneros de perto.

“Incrível! Foi uma experiência inspiradora. Mais do que aprender a parte de editoração, a oficina proporcionou ver e conhecer um outro lado do mundo editorial (sustentável, humano)”.
Maria Gabriela Rodrigues, 24 anos.
Estudante de Letras – Português/Linguística.

11059685_173894616294088_63662715830117547_o.jpg

O miolo do livro.

“Gostei do processo de escolha e manuseio do material. Estas técnicas serão muito boas para as minhas produções e para poder desenvolver novas técnicas com base no que foi ensinado”.
Davi Vassão, 23 anos.
Estudante de Letras – Português/Japonês.

12291734_173896966293853_5519008488125722147_o

Cortando o papelão para fazer as capas.

“Achei incrível ♥ Os exemplares apresentados são lindos, o professor foi simpático e gentil, assim como a palestrante. E a técnica, além de ser bonita por si só, foi muito bem ensinada”.
Marcella Simioni, 21 anos.
Estudante de Letras – Português/Alemão.

12241063_173895596293990_7912827617563029818_o

A linha para costurar a capa e o miolo.

“Achei muito legal, aprendi muito com a ideia de sustentabilidade e penso em utilizar a ideia no projeto social que realizo”.
Gabriel Isola, 20 anos.
Estudante de Letras – Português/Linguística.

12238151_173895732960643_4177422516290088197_o.jpg

Costurando.

“Muito boa. Aprendi os processos detalhados de produção artesanal da confecção de um livro. Gostei muito de conhecer os livros, o estilo cartonero, enfim, foi bastante inspirador”.
Caroline Policarpo, 18 anos.
Estudante de Letras – Português.

12239304_173894219627461_5783239073154973851_o

Uma das técnicas para aplicação de título na capa.

Todas as fotos das oficinas estão disponíveis em nosso perfil no Facebook: Malha Fina Cartonera. Confira as outras fotos clicando aqui.

12247990_173894106294139_4370564247488942970_o

Pintura das capas.

Gostaríamos de agradecer a presença de todos! É muito importante vermos tantas pessoas interessadas no movimento cartonero, ainda mais no meio acadêmico no qual estamos inseridos na Universidade de São Paulo. O movimento cartonero vê o livro de outra forma e é imprecindível fazer com que esse movimento cresça a cada dia mais. Nós, da Malha Fina Cartonera, ficamos felizes por sermos os pioneiros a trazer este movimento para a nossa universidade e esperamos que mais alunos tenham o interesse em participar de nossa cartonera.

Para finalizar, não podemos deixar de agradecer ao Wellington de Melo, à Patrícia Cruz Lima e à Manuela Travasso por terem ministrado as oficinas. O auxílio de vocês foi e é fundamental para darmos continuidade ao nosso trabalho. Além disso, colaborações como esta com a Mariposa Cartonera são indispensáveis para a expansão do movimento cartonero. Muito obrigada por tudo!

12291016_173895739627309_8635072298067119900_o.jpg

Aguardando a secagem para seguir para o processo final da técnica de aplicação do título.

Anúncios

Na Batida Cartonera – Entrevista com Wellington de Melo

Por Cristiane Gomes

A Malha Fina Cartonera entrevista Wellington de Melo. Nascido no Recife, Wellington é escritor, professor e tradutor. Desde 2011, coordena a pasta de literatura da Secretaria de Cultura do Governo de Pernambuco e dentre suas várias ações estão a criação do Prêmio Pernambuco de Literatura e do Festival Internacional de Poesia do Recife. Como editor do selo Mariposa Cartonera, ele organiza antologias, ministra oficinas e mostra que a literatura ainda tem um enorme poder transformador.

Wellington de Melo

Foto por: Alfonso Sánchez Martínez

Como nasceu o selo Mariposa Cartonera e qual a relação entre seu livro, O Caçador de Mariposas, e o selo?

A criação do Mariposa Cartonera está ligada à publicação do meu quarto livro, O caçador de mariposas (2013), que escrevi para meu filho mais velho, Aleph, que é autista. Eu tinha esse poema longo (que era curto para uma publicação normal) e tinha conhecido o movimento cartonero um ano antes, através de uma amiga escritora que havia publicado um livro pelo Dulcineia Catadora (SP). Pensei que seria uma forma legal de fazer o livro, porque também queria produzir cada exemplar com minhas próprias mãos. Depois do lançamento, vi que o formato tinha uma boa aceitação e comecei a germinar a ideia de um selo que publicasse autores de que eu gostava.

Na sequência, Patrícia Cruz Lima se integrou ao Mariposa, trazendo sua experiência no design gráfico e levando a qualidade dos livros a outro patamar. No ano seguinte, lançamos vários livros, oferecemos oficinas em Pernambuco e em outros estados, ajudando a multiplicar a ideia do movimento. E daí em diante só foi crescendo.

Outros colaboradores participam de projetos específicos, como outras editoras cartoneras de Pernambuco, também a Cristiane Amador, que sempre dá ideias de projetos de capas sensacionais. Em São Paulo temos duas pessoas que nos ajudam eventualmente com a busca por autores e a edição de livros da coleção: o Cristhiano Aguiar e a Tatiana Lima Faria, esta última com quem co-editamos livros em parceria com o La Sofía Cartonera (Argentina) e que foi a ponte para nossa relação com o recém criado Malha Fina Cartonera.

Enquanto o mercado editorial vive uma grande crise, surgem selos e editoras independentes, bem como eventos e feiras focados nessa produção. O  movimento cartonero chama atenção pela independência, solidariedade e engajamento. Ano passado, em conjunto com o movimento #OcupeEstelita, o Mariposa produziu o livro Inquebrável, Estelita para cima. Como se deu o processo de construção desse livro?

Não há como pensar o movimento cartonero sem o ativismo, faz parte da sua essência. Essa talvez seja uma das explicações para a vitalidade do movimento, mais de dez anos depois do seu início na Argentina, com o Eloísa Cartonera. A relação dos editores e autores vai além de uma proposta editoral comercial, se baseia em ativismo mesmo.

Antes de publicar Inquebrável, Estelita para cima, havíamos produzido a antologia Coque (R)Existe, em defesa de um movimento contra a especulação imobiliária de um bairro da periferia do Recife. Demos uma oficina para ensinar a fazer o livro na biblioteca comunitária do bairro. Quando ouvimos sobre o movimento #OcupeEstelita, achamos que devíamos fazer algo. Contatamos pessoas ligadas ao movimento e propusemos fazer uma oficina na ocupação, usando textos de autores de diversas partes do Brasil e do mundo (foram 48 autores em dois volumes). A proposta era ensinar a técnica para que eles pudessem vender os livros e reverter a renda para o próprio movimento. Uma semana depois, o Batalhão de Choque promoveu a desocupação do terreno em que os ativistas estavam acampados, mas já tínhamos os livros prontos e venderam todos. Eles seguem comercializando os livros em feirinhas, eventos do Ocupe etc. Não acreditamos em literatura panfletária, mas a ação política dos autores, essa sim é real: os textos doados não necessariamente falavam do tema, mas o ato de doar os direitos para a causa tinha tudo a ver com a ideia.

No Mariposa a produção é artesanal e as edições possuem uma tiragem pequena e numerada. Como é feita a escolha, a idealização e a produção dos livros publicados pelo Mariposa e como é a relação entre editores, autores, tradutores, revisores, artistas e catadores?

Trabalhamos de forma colaborativa, então é comum que as ideias surjam de várias partes e se mesclem na concepção dos livros e na seleção dos autores. Mas nos pautamos por duas questões: estética e ética. Primeiramente, publicamos aquelxs autorxs cujas obras nos movem, nos interessam, trazem algo que cremos que merece ser publicado e, principalmente, lido. Segundo, nos preocupa que xs autorxs entendam do que se trata o movimento, queiram participar da proposta. Não nos interessa publicar autorxs que queiram seu livro pronto e não se integrem a nossa forma de pensar a circulação dos livros, a formação de leitores, a lógica da economia solidária e do comércio justo. A experiência nos mostrou que quando não conseguimos aliar essas duas coisas, não funciona.

A dinâmica entre as várias fases da produção varia muito. Não tínhamos, até pouco tempo, uma ligação direta com catadores. Mas uma coisa legal do movimento é que cada cartonera, em cada parte do mundo, encontra soluções adequadas à sua realidade. Não existem catadores na França, por exemplo. Então não existe uma cartilha de “deve ser assim ou assado”, mas alguns princípios que você sempre tenta buscar (no nosso caso e no de muitas cartoneras, sustentabilidade econômico-ambiental, comércio justo e economia solidária). Recentemente, durante a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, nos aproximamos de uma cooperativa e estamos armando coisas legais com eles para 2016, envolvendo não só a compra de papelão ou confecção de livros, mas atividades de formação de leitores. Isso se dará através da Liga Cartonera, um coletivo de editoras que está fazendo coisas bem bacanas.

O trabalho colaborativo também permite que trabalhemos numa lógica diferente da do mercado, com compensações não financeiras, troca de serviços, escambo e outras alternativas, o que viabiliza a manutenção do projeto. Acho que pensamos o Mariposa mais como um coletivo artístico de que como uma editora.

Em seu livro [desvirtual provisório] você aborda alguns aspectos delicados da relação entre homem e máquina. Considerando que a internet viabilizou um espaço livre para publicação independente, qual a importância de uma publicação física dentro da atual realidade tecnológica?

Em [desvirtual provisório] há uma discussão sobre os conflitos homem/m@quina (assim, com arroba, que não é a máquina glorificada por certo modernismo), mas não há uma demonização da tecnologia, muito pelo contrário. Nesse sentido, sou totalmente a favor de uma integração entre tecnologias para fortalecer a leitura. Vendemos muitos de nossos livros artesanais pelo site da editora. Acredito que o livro físico como conhecemos não se acabará tão cedo, por conta da relação sensorial que implica a leitura desse artefato. Ao mesmo tempo, a leitura técnica é muito facilitada por e-readers, então aqui a migração deverá ser mais rápida.

O sucesso dos livros cartoneros pode ser entendido de diversas formas: seria algo associado à exclusividade do livro (nenhuma capa é igual)? teria que ver com a fetichização do livro (e não da leitura, o que seria um problema)? haveria uma aura humana que faz o artesanato ser valorizado? tem a ver com a possibilidade de ler autores que nem sempre estão nas grandes editoras, apesar da qualidade de seus textos? seria porque mesmo autores mais conhecidos podem publicar projetos que normalmente não teriam apelo comercial em suas casas editoriais e exercitam a liberdade? seria um fenômeno que vem acontecendo com editoras pequenas (não acredito no termo independente), que tem se dedicado mais à qualidade dos textos que publica do que ao volume de vendas ou emplacar best sellers de celebridades? Enfim, não há uma resposta clara, acho. O que importa é que vejo de maneira transparente que o movimento cartonero é uma alternativa de revitalizar o livro, a leitura e a literatura, não necessariamente nessa ordem.

O Mariposa, em parceria com La Sofia Cartonera, da Universidade Nacional de Córdoba, publicou a coleção “Mar de Capitu”, fale um pouco sobre a coleção e como se dá o intercâmbio entre as editoras Cartoneras?

Como falei antes, a Tatiana Lima Faria foi a ponte: havia o projeto de publicar autores brasileiros na Argentina e, dessa forma, ampliar a recepção da literatura contemporânea brasileira naquele país; esse projeto foi coordenado pela Tatiana e pela Cecilia Pacella, da Universidade Nacional de Córdoba, com a participação de alunos do doutorado e da graduação em Letras de lá. Compramos a ideia e ficamos encarregados de produzir a edição brasileira e conceber o projeto gráfico, assinado por Patrícia Cruz Lima. O próximo passo será o caminho de volta: a coleção Céu de Beatriz, em que autores argentinos serão traduzidos para o português. Aguardamos as ordens de Tatiana para ir adiante e estamos bem empolgados.

Realizamos muitas parcerias com outras editoras. Capacitamos algumas em diversos estados e ajudamos a criar outras. Como trabalhamos na perspectiva da economia solidária, não entendemos que estamos criando concorrentes, mas parceiros na rede de editoras cartoneras. Este ano fizemos uma campanha de crowdfunding para viabilizar uma coleção especial, que está sendo compartilhada com outras editoras participantes. Cedendo autores de nosso catálogo para essas editoras, esperamos fortalecê-las e gerar renda para os coletivos continuarem se mantendo.

Em seu último livro, Estrangeiro no Labirinto, um forte teor místico organiza múltiplas vozes, que transitam vertiginosamente entre um livro e um crime. O livro traz muitas referências, como foi o processo de escrita? Ele faz parte de uma trilogia, certo? Qual a previsão de lançamento do próximo livro?

A escrita do livro levou sete anos, mas o projeto mudou bastante desde a ideia inicial. Boa parte do tempo foi de leitura e pesquisa para os conceitos que entorto no livro (alguns cabalistas ficaram bem chateados com as invenções do livro, o que achei massa, porque senão  não uma narrativa ficcional). Mas não se trata de um romance policial com elementos esotéricos. Há reflexões sobre a sociedade contemporânea, a própria natureza da literatura e da realidade, a partir de conceitos da física quântica, que se transformam em linguagem; sobre a paternidade e, talvez mais, o patriarcado. Por isso que o livro é o primeiro da Trilogia do Pai. O último já foi publicado, trata-se de O caçador de mariposas, que é um poema longo. A ordem de publicação não importa porque a trilogia se organiza a partir das sefiroth da Árvore da Vida da Cabala. Por isso que o primeiro a ser publicado é o último, o segundo é o primeiro e o terceiro será segundo, que se chama À sombra do pai, um romance ambientado num Recife distópico, que envolve especulação imobiliária, conflitos familiares e terroristas anti-verticalização que cooptam suicidas em potencial para pular das torres mais altas da cidade. Nele, a discussão sobre o patriarcado se dá de maneira mais incisiva e brutal. Ainda estou escrevendo e penso lançá-lo em 2016 ou depois.

À convite da Malha Fina Cartonera, no dia 19 de novembro, você ministrará a oficina “Como Editar e Publicar Livros Cartoneros” na FFLCH-USP. Qual a importância das oficinas para difusão do saber cartonero e para o surgimento de novos selos e editoras?

Faz parte de nossa missão difundir o movimento. Washington Cucurto, um dos fundadores, diz que quanto mais editoras cartoneras no mundo, melhor, e eu concordo. Dar uma oficina é plantar sementes. Delas, podem surgir diretamente uma editora, como foi o caso da Comissão Cartonera, de um bairro da periferia do Recife, ou a Lara Cartonera, de Belo Jardim, Agreste de Pernamubuco, cujos membros participaram de uma oficina que dei num instituto federal de ensino da cidade. Às vezes a oficina abre os olhos das pessoas e só mais adiante o fruto é colhido: parte das meninas da Cartonera Do Mar fez uma oficina comigo, mas só depois, quando houve uma oficina com Andreia Joana Silva, do Cephisa Cartonera (França) na Bienal de Pernambuco, é que vingou o selo delas. Quando demos uma oficina no bairro do Cristal, em Porto Alegre, surgiu a ideia da Sopapo Cartonero, do ponto de cultura Quilombo do Sopapo, que está em gestação. Da oficina que demos em Nísia Floreta, pequena cidade perto de Natal, no Rio Grande do Norte, participou um professor que fundou a Carolina Cartonera, e por aí vai. Tenho certeza que a oficina na FFLCH-USP vai dar muitas crias. O importante é que entendam a proposta do movimento: é preciso quebrar os muros, ir para a rua e entender as vozes que vêm de lá. Voltar ao papelão e deixá-lo falar também. Será um bom começo.

Para finalizar, convidamos a todos para participarem da Balada Cartonera, que ocorre no dia 21 de novembro, em São Paulo:

12195758_908392672577660_1246913702349402074_n

 

Poetas da Isla de Cartón: Rogelio Saunders

Comentário por: Clarisse Lyra

Não sei nada do grupo Diáspora(s). Não conheço Rogelio Saunders. A própria literatura cubana me é estranha. Entretanto, pratico uma tradução selvagem. Uma antologia me chega às mãos. Folheio-a da maneira como se pode folhear um livro pelo computador: na vertical, o verbo já em seu sentido alterado, a experiência tátil domesticada à textura única do mouse, distante da surpresa do papel, que nunca é o mesmo, que recebe a marca dos dedos, que se amassa, dobra, enruga conforme a perambulação do texto, que deixa reinscrever-se ali a passagem do leitor; surpresa, aliás, que é tão significativa no projeto das edições cartoneras – e o arquivo que eu tenho diante dos olhos é apenas uma etapa gráfica, a promessa de um objeto de papel, papelão e tinta, que já circula por aí – e também na dinâmica clandestina de cópias em que se veiculava a poesia de Saunders e dos demais integrantes do Diáspora(s) na Cuba dos anos 90; no computador, tampouco se pode ser, sem dificuldade, o leitor salteado que o folhear implica – a tela e seus mecanismos nos propõem a linearidade. Mas, não me demoro. Passo os olhos rapidamente. Numa só ida sem volta, escolho dois poemas, quase ao acaso, aceitando a possibilidade do erro, do arrependimento, mas bancando o que neles me atrai. Os dois falam da loucura. Os dois são de algum modo dolorosos. Um me lembra Bolaño; outro, Pizarnik (autores caros para mim, e por aqui se nota meu sistema de associação e eleição infantil). Cada um é de um autor diferente. Me eximo de conclusões generalizantes.

A partir daqui começa o trabalho da tradução. A leitura atenta e o enfrentamento das impossibilidades, a pesquisa, as idas ao dicionário. Em “Vater Pound” me deparo com o I-Ching, as gravuras sombrias de Piranesi, o espaço euclidiano, as voltas sonoras dos planetas de Holst, bosques de abetos, e tantas outras coisas que desconheço. Chegando à edição fac-similar da Revista Diáspora(s), leio uma entrevista com Saunders: “Não basta ler; não basta comprar um livro ou tomá-lo emprestado de alguém. A leitura tem que ser um ato de reconhecimento íntimo; a evidência de uma afinidade profunda […]. Você encontrou o livro e o livro te encontrou […]. Porque é você quem lê, e o que você encontra num livro, apenas você encontra. Você é o livro”. Topar com essas palavras – como se a minha eleição do poema tivesse sido apenas um modo de chegar a elas, para a partir delas confirmar minha escolha – me faz pensar: há um sentido na aleatoriedade; há um modo de ler que não passa pelo sentido; há um sentido que passa por lugares dificilmente racionalizáveis. E “você é o livro” é uma excelente teoria da tradução.

Rogelio Saunders. Fonte: del palenque... y para...

Rogelio Saunders. Fonte: del palenque… y para…



Tradução por: Clarisse Lyra

rogelio_saunders_1_pt

rogelio_saunders_2_pt

rogelio_saunders_3_pt

rogelio_saunders_4_pt

 rogelio_saunders_1_es

rogelio_saunders_2_es

rogelio_saunders_3_es

rogelio_saunders_4_es

rogelio_saunders_5_es