Malha Fina na Feira SUB 2018

por: Mariana Costa Mendes e Samanta Esteves

No final de semana passado, dia 15 de setembro, um sábado, a Malha Fina esteve presente na Feira SUB 2018, que começou às 11h e foi até às 21h na Biblioteca Municipal Professor Ernesto Manoel Zink em Campinas/SP. A Feira SUB é uma feira anual de arte impressa e publicações independentes, ou seja, com foco na produção que circula fora do meio editorial tradicional, com conceito artesanal, de baixa tiragem e alto valor artístico, o que inclui: livros de artista, ilustrações, xilogravuras, pôsteres, fotografias, fotolivros, livros, zines, revistas e uma infinidade de outros produtos impressos. É um evento gratuito para público e para os expositores. Movimentada, a 3ª edição da feira contou também com a presença de diversas editoras independentes (todas estão mencionadas no final do post).

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A feira de arte impressa e publicações independentes é o principal evento da programação da SUB. Entretanto, a programação paralela da feira teve início no dia 08 de agosto com a exposição Narrativas Deslocadas e se encerrará no dia 28 de setembro com a exposição Largofolhas Xilogravuras pela Cidade, que contou com uma oficina na abertura da exposição no dia 11 de setembro. Além destas, também está em curso a exposição Acervo de Publicações Independentes da Feira SUB e a arte xerox Cardume Urbano no Instituto de Artes da Unicamp até amanhã, 25 de setembro. O Sesc Campinas também recebeu alguns eventos paralelos da SUB, como o documentário Impressão Minha – que foi exibido no dia 12 de setembro e contou com um bate-papo com os diretores Daniel Salaroli, Gabriela Leite e João Rabelo –, além de uma oficina de estêncil e produção gráfica que ocorreu nos dias 13 e 20 de setembro.

Já no sábado, 15 de setembro, enquanto rolava a Feira SUB, também aconteceu a Exposição dos Trabalhos da Residência SUB em parceira com o Coletivo Contracouchê, além da Mesa Coletiva Pemba Press e do Colante: laboratório torpe de malcriações gráficas, mesa de produção e troca de stickers. Por fim, teve um bate-papo com Ricardo Lísias, autor de Inquérito Policial da Família Tobias (Lote 42, 2016).

Ao lado de diversos outros selos editoriais, a banca da Malha Fina apresentou sua coleção de livros cartoneros, feitos com capas de papelão, marcado presença mais uma vez na feira assim como em 2017. Quanto ao nosso fazer cartonero, para quem não sabe, o nome do selo advém do espanhol cartón que significa “papelão”, sendo cartonero o “catador de papelão”.

Muitas pessoas passaram pela feira e bateram um papo com a gente. Dentre estas pessoas, gostaríamos de destacar Iara Carvalho, que gostou tanto das edições cartoneras que até compareceu na segunda-feira (17) em nossa oficina cartonera como parte da programação da Internacional Cartonera… mas a oficina é assunto para um próximo post, rs! Iara, ficamos felizes com o seu entusiasmo para com os livros/fazer cartonero(s) e esperamos que esta arte continue a se espalhar por aí! 🙂

 

Para finalizar, agradecemos ao The MIX Bazar, organizador do evento, pela oportunidade de estarmos na Feira SUB 2018 e à Biblioteca Municipal Professor Ernesto Manoel Zink pela recepção no local. Abaixo mencionamos as páginas de todos(as) editores(as) presentes na Feira SUB 2018¹. Esperamos continuar a participar das próximas edições a fim de divulgar o movimento cartonero por meio de nosso selo editorial. Até a próxima!

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Obs.: Todas as fotos da feira podem ser acessadas na página da Feira SUB: https://www.facebook.com/pg/feirasub/photos/?tab=album&album_id=722658791417991


Arte impressa: Aline Shinzato, Aline Zouvi, Anaiaiá, Ana Francotti, Astronave de Papel, BESOURA, Cabaré Subterrâneo, Caio Mascarello, Carriero Art, Conspire Edições, Coticoá, Dronedronedrone, Edições Breu, Flora Próspero, Fotolab Linaibah, Grafatório, gráficafábrica, Gusta Vicentini – Gustando, Helena Ariano, ITEM72ForCollectors, KAMIKAZE_Publicações, La Tosca, Matheus Hofstatter, Móri Zines, Phonte88, Underground do underground, Sara Sallum, Sete Martes, Studio Treze, Tais F. Bêrtollim e Mayara Polizer, telma melo, Tihana, Valéria Menezes, Vanessa Pens, Xilomóvel Ateliê Itinerante e Zebra Amarela
Editoras independentes: 2 no Telhado (Peter O Sagae), Borogodó Editora, Cultura e Barbárie Editora, Dublinense / Não Editora, Edições Barbatana, Edições Jabuticaba, Editora Cobogó, Editora Incompleta, Lamparina Luminosa, Editora Urutau, Lote 42, Malha Fina Cartonera, Oficina do Prelo, ÔZé Editora, Poupée Rouge, Tremeterra, Ubu Editora e Zarabatana Books
Híbrido: Atelier Daniela Galanti, Experimentos Impressos, quaseditora e Edições de Zaster + Rart Rixers
Infelizmente, não conseguimos localizar a página dessas pessoas, mas elas também estavam na Feira SUB 2018: Ágatha, Ariane Ventos, Chorona, Coletivo Algor, Coletivo BICUDA, .entre .edições – Mariana Meloni, Galo, Lívia Zafanelli, LUZE PRINTS, Raphael Araújo, UDU, selo doburro e Sofia Britto.
¹ Categorizamos por: arte impressa, editoras independentes e híbridas. Caso você seja representante de alguma dessas editoras e acredita que fizemos a classificação de forma errônea, por favor, nos mande uma mensagem que iremos corrigir 🙂

 

Sobre as intenções (e tensões) da literatura: uma conversa com Bernardo Carvalho

por: Aryanna Oliveira

Ordinariamente, costuma-se atrelar ao jornalista a missão ou um compromisso com a realidade, como a tornar possível e/ou acessível os fatos cotidianos, do mais particular ao mais distante, a todas as pessoas, sem distinções ou restrições. Todavia, como expender sobre os intentos do jornalismo literário, estando ele no entremeio do labor jornalístico e da arte, como um desdobramento do primeiro, mas já de mãos dadas à segunda, em forma literária, essa manifestação artística – e tão intrínseca – do/ao ser humano? Talvez assim se defina Ficções, obra de Bernardo Carvalho, publicada pela Malha Fina Cartonera, no ano passado e já apresentada aqui no blog por Larissa Pavoni Rodrigues, como produto da indefinição dos termos ou na conjugação deles, na miscelânea do que é possível criar nesse limiar.

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Ainda que se distanciando, em parte, de sua produção atual, proeminente em romances de legitimada qualidade, a obra é uma coletânea de seis contos curtos, que de imediato lembram crônicas de jornal, e de fato são. Na seleção se traz uma republicação de belíssimos trabalhos do escritor enquanto jornalista, textos que já haviam sido compilados em O mundo fora dos eixos, e agora voltam ao público na organização da cartonera. Bernardo fora colunista e correspondente internacional da Folha de S.Paulo e seus textos curtos são brilhantes representações do melhor do jornalismo cultural, do jornalismo enquanto literatura.

Ficções, além da frutífera discussão sobre o fazer literário, foi o mote do encontro proposto pela Malha Fina Cartonera, na última segunda-feira (10), na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (USP). Em um bate-papo entre alunos e profissionais da área acadêmica, Bernardo Carvalho, um dos mais notórios escritores da literatura brasileira contemporânea, falou sobre sua produção, que se iniciou no jornalismo literário e se ramificou em premiados romances.

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Bernardo Carvalho e Idalia Morejón Arnaiz. Foto: Aryanna Oliveira.

Após a apresentação de Idália Morejón Arnaiz, coordenadora da Malha Fina Cartonera, o escritor fez relembrar o momento de criação de cada um dos seus contos/crônicas presentes na coletânea, a saber: “Bernanos dançando no paraíso”, encomenda da revista da Folha para um conto de natal. Segundo Bernardo, como no momento da escrita estava muito envolvido com a literatura do escritor francês Georges Bernanos, acabou por trazer às linhas a história desse “religioso desvairado”, na explicação do autor; revisando seu “Carta aos ingleses”, na fazenda Cruz das Almas, em Minas Gerais; “Quatro movimentos progressivos de calor”, originalmente um número do Caderno Mais cuja temática era “calor e frio”. Bernardo buscou então, inspiração na literatura sensual francesa para apresentar-nos quatro movimentos (em progressão) do calor, através de quatro personagens: o masoquista, o botânico, a estudante lapônia e o bombeiro, este último como uma espécie de literatura do absurdo e do paradoxo, como se algumas proposições lógicas se mostrassem absurdas; “Prognose”, uma espécie de efeméride de A Metamorfose, cuja proposta inicial era reescrever o primeiro parágrafo da grande obra de Franz Kafka. Desse modo surge o genial – e curtíssimo – relato do que seria o acordar de um sonho desinquieto de Kafka, em uma construção circular, que retoma a própria “encomenda” do texto; “O encontro dos guerreiros”, um diálogo entre dois guerreiros em uma disputa sobre a pior experiência, a vivência da pior das guerras em um século tão cheio de experiências universais ruins; “Amigos e inimigos (ou nova quadrilha)”, uma metáfora sobre o crime organizado no Brasil, no relato sobre os criminosos de uma nova quadrilha que foram assassinados em uma rebelião. Há uma espécie de joguete com os codinomes dos chefes e membros das quadrilhas e o poema “Quadrilha”, de Drummond, retomando mais uma vez a ideia da circularidade na construção literária; e, “O sonho de Meng Tian, construtor da muralha da China”, cuja inspiração fora a história do historiador chinês Sima Qian, que viveu em 145 a.C., que estaria escrevendo enquanto a muralha da China estava sendo construída.

“E, enquanto conta a sua história, ouve a voz. Mas de repente dá-se conta de que, na realidade, é a voz que está lhe contando a história, que a voz é sua e que, portanto, sua história termina ali”.

Trecho de “Quatro movimentos progressivos de calor”

Os textos de Bernardo mesclam realidade e ficção, na perfeita simbiose entre jornalismo e literatura. Isso se explica nas palavras do próprio autor, que esclarece que os contos/crônicas não surgiram espontaneamente, como seus romances, mas vieram de encomendas, muitas vezes temáticas. “Todos foram contos encomendados pelo jornal, não surgiram de uma inspiração. Geralmente, de uma efeméride, como um caderno cultural monotemática”, explica. Acaso seja esse justamente o motivo da aproximação com o jornal, nota-se o apuro jornalístico do fato com pinceladas de uma inspiração – ainda que não confessa – literária. Bernardo explica que muito do que está escrito traz memórias de momentos anteriores, de muitas vivências enquanto jornalista. “Todas as coisas se relacionam com coisas muito pessoais, que não estão explícitas, mas se tornaram referências”, completa.

“O Peru da Mata é o único que continua desaparecido. Não descartamos a possibilidade de que seja o nono corpo, ainda sem identificação, mas os peritos se recusam a fazer ilações precipitadas, já que o Peru da Mata não tinha nem amigos nem inimigos”.

Trecho de “Amigos e Inimigos (ou uma nova quadrilha)”

Após a apresentação dos contos, Bernardo falou sobre aspectos importantes de sua literatura, não só contística, como dos romances. É evidente a impressão da circularidade, do aspecto paradoxal, do assombro do absurdo. Segundo ele, essas características, que marcam toda a sua produção, são elementos intrínsecos à literatura, que cria temas que se sustentam nessa ideia de forma inquestionável. “No paradoxo e no absurdo há uma espécie de solução. Como se vivêssemos em uma lógica que dá conta de tudo, mas que ao mesmo tempo esconde. E seria na falha dessa lógica, no momento em que ela deixa de fazer sentido, que se pode revelar uma verdade e encontrar uma saída”, aclara o escritor.

O autor cita Freud como um exemplo do que poderia ser visto como um sistema ficcional perfeito, em que tudo tem nome e se encaixa na circularidade, em um sistema em que tudo funciona perfeitamente, uma figuração do real, “como um domínio do mundo através de um discurso que não tem erro, que não tem brecha”. E a forma ficcional, como sua obra, pode ser justamente um lugar em que esse lugar “perfeito” e simbiótico quebra, “um lugar onde os fios não se juntam, em aparecem algumas saídas, algumas respostas, algumas verdades. Essa é, para mim, uma das funções da literatura, que é muito bonita e muito importante”, completa.

“No paradoxo e no absurdo há uma espécie de solução. Como se vivêssemos em uma lógica que dá conta de tudo, mas que ao mesmo tempo esconde. E seria na falha dessa lógica, no momento em que ela deixa de fazer sentido, que se pode revelar uma verdade e encontrar uma saída”.

Bernardo Carvalho

Os contos curtos de Bernardo, presentes em Ficções, podem ser vistos como um retrato desse aspecto tão importante de sua produção, sua obsessão pelos paradoxos e o que representam: “a falha, o fracasso, onde o fio não junta, o círculo não se fecha”. São possibilidades de retratação do real sem a simbiose da perfeição. Pelo contrário, permeados da eventualidade da quebra, das tensões da realidade que se estiram de tal forma que estouram, permitindo saídas, e então respostas, em novas configurações. Esse aspecto, de acordo com Bernardo, é ainda mais visível em seus romances. “A narrativa como fracasso é algo fascinante para mim. Como um erro dentro de um sistema de lógica absoluta através de um buraco no paradoxo. No romance eu tenho fascínio pela ideia de que ele não seja um texto final, mas uma alusão a um texto possível e que é impossível, na verdade. Como se todo romance meu acabado, fosse um rascunho de alguma coisa que não pode ser escrita, que não pode ser dita. Isso tem a ver com o fascínio pelo paradoxo e pelo fracasso”.

Para o escritor, a produção final está sempre muito aquém de uma bela e plena realização da literatura, sempre possibilitando aberturas, na imperfeição e na precariedade, naquilo que não pode ser representado. “Eu tenho um certo fascínio pela ideia de que o texto acabado, o texto perfeito, é uma impostura, porque ele está tentando significar uma coisa, como se ele tivesse realmente conseguido e a beleza da literatura é que ela nunca consegue representar o que ela quer, ela está sempre no caminho”, conclui.

“Eu tenho um certo fascínio pela ideia de que o texto acabado, o texto perfeito, é uma impostura, porque ele está tentando significar uma coisa, como se ele tivesse realmente conseguido e a beleza da literatura é que ela nunca consegue representar o que ela quer, ela está sempre no caminho”.

Bernardo Carvalho

É fácil (ou melhor seria dizer, prazeroso) ouvir Bernardo Carvalho falar de sua produção, de suas inspirações, de sua obra, porque a expressão de seus ensejos e dúvidas durante o seu fazer literário provam a genuinidade de suas intenções. Para o escritor, não há necessidade de floreios em sua escrita, ela se faz e refaz na crueza e na verdade de quem é antes de tudo um jornalista. Durante a leitura as tensões se desfazem, é só fluidez. Como se o mistério das intenções mais legítimas do escritor (se se podem ser definidas), como se a busca existencial do ser, se diluíssem na produção final, na simplicidade da crônica, em palavras.

Bernardo Carvalho é um fazedor de novas realidades, ou do verídico com nova roupagem, do histórico que se desnaturaliza e é feito literatura, ou um jornalismo literário, se preferirem dizer. É a transformação do real em ficção, em Ficções. A prova de que uma literatura da melhor qualidade ainda é possível – mesmo diante de uma realidade sempre motivadora de novas aflições – de forma simples, curta, crua e sem ornamentos.

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Sobre o autor: O carioca Bernardo Carvalho é bacharel em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e mestre em cinema na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Escritor, tradutor e jornalista, foi editor do suplemento de ensaios Folhetim e correspondente da Folha de S. Paulo em Paris e Nova Iorque. Seu romance Mongólia foi ganhador do Prêmio APCA da Associação Paulista dos Críticos de Arte, em 2003; e do Jabuti, em 2004. Em 2003, também ganhou o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira (Oceanos), pelo romance Nove Noites. Em 2014, foi premiado com outro Jabuti pelo romance Reprodução. Sua mais recente obra, Simpatia pelo Demônio, figurou entre os dez finalistas do Prêmio Oceanos, em 2017.