Longe dos cartões postais: quatro poetas cubanos de Miami

por: Pacelli Dias Alves de Sousa

Ler Magic City. A poesia cubana de Miami é adentrar um imaginário menos estereotipado e mais diverso, tanto da produção literária de cubanos nos Estados Unidos, quanto da cidade do extremo sul norte-americano, conhecida pela marcada presença latina, especialmente de imigrantes e refugiados da ilha tão próxima. O livro é composto por poemas de Leandro Eduardo (Eddy) Campa, Esteban Luis Cárdenas, Néstor Díaz de Villegas e Legna Rodríguez Iglesias. A seleção, por sua vez, foi feita pelo poeta, crítico e ensaísta Néstor Díaz de Villegas, enquanto assinam as traduções os colaboradores da Malha Fina Cartonera: Ana Cristina Fernandes de Sousa, Chayenne Mubarack, Idalia Morejón Arnaiz, Larissa da Silva Rosa, Pacelli Dias Alves de Sousa e Tatiana Lima Faria.

Capas 1

Magic City. A poesia cubana de Miami.

Todos os textos selecionados – e a chegada dos escritores e da escritora à Miami – são posteriores, ou contemporâneos ao êxodo de Mariel, saída massiva de dissidentes que promoveram uma revolta popular, dada a partir de uma abertura do governo e uma negociação com a comunidade estabelecida no país vizinho. Se as relações entre Cuba e Estados Unidos vão longe, com ponto basilar no exílio do famoso ensaísta e poeta modernista José Martí e do romancista “fundacional” Cirilo Villaverde no século XIX, elas tomam outros rumos com a Revolução Cubana, em 1959.

Já se tornou um lugar comum da historiografia cubana afirmar que a saída de exilados de Cuba se deu por “ondas”, bastante diferentes entre si, considerando os primeiros fluxos, especialmente de um grupo mais rico e ligado à ditadura anterior, de Batista, outro grupo constituído largamente por intelectuais descontentes com o dirigismo ao qual foram submetidos e o caso Mariel em 1980, revolta popular que levou à saída de 125.000 pessoas da ilha, dissidentes da homofobia institucionalizada dos anos 70, entre outras questões. Isso sem se mencionar os casos futuros, como os balseros, dos anos 90, fugidos das faltas do Período Especial ou as diferentes e disseminadas saídas nos anos 2000, dadas já em um contexto em que muitas famílias (e suas memórias) estão divididas entre Cuba e os Estados Unidos.

O caso Mariel, contudo, é uma inflexão importante porque revelou outra faceta da população cubana para a mídia internacional e para os próprios cubanos reacionários instalados em Miami, pois trouxe à luz uma zona pobre, de presidiários, em grande parte abertamente homossexual e negra, como ficou marcada (e estereotipada) pelo clássico Scarface, dirigido por Brian de Palma, em 1983. Ademais, vale notar que entre os marielitos havia muitos escritores, o que contraria uma imagem conservadora do intelectual, entre os quais destacam-se Reinaldo Arenas e os próprios Esteban Luis Cárdenas, Eddy Campa e Néstor Díaz de Villegas. Vale mencionar que o antologador sai de Cuba em 1979, pouco antes da crise referida e se estabelece por anos em Miami, onde continua escrevendo, publicando suas obras e recitando poemas pelas tertúlias da cidade, até mudar seu endereço para Los Angeles, justo quando chegava ao fim o século XX.

Dois dos poetas que compõem a antologia foram contemporâneos desses anos tumultuosos: Eddy Campa era conhecido pelas ruas de Little Havana, nas quais morava, perambulava e tentava vender o que conseguia para sobreviver. O misto de realidade e estereótipo da vida de morador de rua parecia se contrapor às elegantes roupas com que se vestia, acompanhadas de livros dos grandes nomes da filosofia ocidental que trazia debaixo do braço. Ainda em Cuba, Eddy havia sido preso nos anos 60, por ser hippie demais, depois, nos anos 70, havia perdido seu emprego como professor por levar as marcas da santería consigo, religião de matriz africana predominante na ilha. Em paralelo, Esteban Luis Cárdenas sai de Cuba depois de 15 anos preso por tentar escapar da ilha através da Embaixada da Argentina. O poeta havia se jogado de um alto edifício vizinho em direção ao prédio que acreditara que o salvaria. A queda acompanhada da expulsão do local lhe renderam a perda de movimentos pelo corpo, assim como problemas de fala e visão.

Suas obras são marcadas por uma linguagem concisa, pela formulação de imagens precisas a partir do mínimo e pela exploração de outros olhares para a cidade e seus sujeitos. Em “Barrio”, de Esteban Luis Cárdenas, por exemplo, vê-se uma disseminação do olhar em direção às pequenas coisas da vida cotidiana que ganham nova dimensão, pelo modo como entram na poesia. Através de imagens precisas e um ritmo marcado por cortes e repetições, parece se estruturar uma colagem de Little Havana que, certamente, constrói um imaginário que está longe daquela imagem dos cartões postais. Os poemas de Eddy Campa, por sua vez, trazem figuras fantasmáticas em encontros silenciosos: parece estar em jogo o contato humano, em diferentes facetas. Seus poemas são como fotografias, precisões espaço-temporais que parecem expressar muito por suas faltas e recortes.

Néstor Díaz de Villegas apresenta poemas que destoam do conjunto pelo uso hermético da linguagem. Originalmente pertencentes a um livro recente do poeta, Palavras à tribo/ Palabras a la tribu (São Paulo: Lumme, 2014) são representativos do caminho que tomou a sua poesia desde suas primeiras publicações nos anos 90. Em sua obra confluem recursos mais tradicionais da poesia, como diversos tipos de rima, com um conjunto de referências de outras áreas das ciências que rompem a fluidez das imagens. Essas presenças geram tensões que movem imagens distintas e explosivas da cidade.

Finalmente, a seleção contém ainda poemas de dois livros recentes de Legna Rodríguez Iglesias, Miami Century Fox (2017) e o inédito Efecto Mayami. Ainda que tenha começado a publicar há poucos anos, a autora já acumula livros e prêmios, cruzados pela escrita em diversos gêneros (e no rompimento deles). A leitura de seus poemas desloca o leitor a todo momento: há uma produção constante de estranhezas, pelo humor, por imagens insólitas e pelo modo como entra a tradição literária ou o próprio falar sobre/escrever a literatura, o que se junta a um tom cotidiano de observação da cidade à Frank O’Hara. Nesse sentido, Legna Rodríguez Iglesias parece criar novos ritmos para a escritura, compreensíveis não de antemão, mas só pela entrada em suas lógicas.

Se a leitura de cada poeta em seu momento é interessante, a leitura em conjunto, tal como foi organizada por Néstor Díaz de Villegas, permite entrever contatos pouco óbvios entre as obras, por um lado, e entre a escritura e a cidade, por outro lado. Por exemplo: começar por “Barrio” de Cárdenas e terminar com “Llovían gatos y perros” de Rodríguez Iglesias ou cruzar as obras dos leitores Díaz de Villegas e Campa. Seja qual for o caminho, Magic City leva a uma leitura não só das margens, mas de uma revisão do centro. Trata-se de uma Miami-outra, em espanhol, diversa e imigrante.