Mais um Pretexto

Por: Ellen Maria Vasconcellos

Eis aqui somente mais um pretexto para ler outra vez as palavras deste autor. Heitor Ferraz Mello é jornalista, professor, editor, e é poeta. Desde 1996 tem seus poemas publicados em livros, e em 2014, La sofía cartonera publicou uma antologia de seus poemas, em coedição bilíngue com a Mariposa Cartonera. Neste ano de 2016, essa mesma antologia ganhará a edição de Malha Fina Cartonera.

Seus textos, carregados de lirismo, trazem o jornal diário, hábitos e imagens da rotina, à forma poética com bastante naturalidade. A primeira pessoa prevalece, e convida o leitor a abrir um livro que mais parece um álbum de fotos: histórias e objetos passam por um banho de prata literário. “El pretexto para todos mis vicios” é uma compilação organizada pelo próprio autor, e traduzida por Ignacio Montoya, Juan Revol, Luisa Domínguez e Tatiana Lima Faria, e reúne poemas de sete dos seus livros e apresenta, ainda, poemas inéditos, exibindo-nos um pedaço do universo que observa e captura este autor. A pílula diária para curar os vícios? A poesia.

Abaixo, apresentamos uma entrevista que Heitor Ferraz Mello nos concedeu para esta nova edição da antologia:

Malha Fina Cartonera – O seu primeiro livro se chama “Resumo do dia” (1996). Como extrair poesia da cotidianidade? Como um poema pode trazer uma nova perspectiva da realidade?

Heitor Ferraz Mello – Muitos veem nisso, no cotidiano, uma limitação. Talvez seja. Não sei dizer, já que não consigo escrever de outra maneira, ou seja, escrevo a partir das minhas observações e sensações. Ou até mesmo intuições, pois muitas vezes são coisas que nem havia pensado direito, mas quando começo a fazer o poema, elas vão se revelando para mim. Talvez sejam essas as novas perspectivas, as que o próprio poema vai abrindo para mim quando o escrevo. Como disse, pode ser uma limitação, pois o poema, no meu caso, não nasce de uma fantasia da mente, de uma invenção. É a partir de pequenos episódios e coisas que faço meus poemas. Curiosamente nunca na hora, mas dias depois, quando certa cena ou situação retorna como um sonho e pede algum tipo de registro. Então, posso recompor uma caminhada ou alguma situação que vi e vivi em algum momento da minha vida.

MFC – Em um texto seu para a Revista Cult, você escreve sobre a relação do poeta com seus poemas já perto da hora da “indesejada das gentes”. Carlos Drummond de Andrade deixa preparado “Farewell” para ser publicado postumamente, enquanto Herberto Helder publica, ainda em vida, “A morte sem mestre”. Em seu livro “Hoje como ontem ao meio-dia” (2002), você busca o cinzeiro como arquivo morto de seus descobrimentos pessoais.  Um livro também é parte do corpo do escritor? Você acredita que um poemário é também um inventário, uma caixa de heranças?

HFM – Talvez o poema seja uma extensão desse corpo, ou ainda, seja uma possibilidade de existência desse corpo, de expor suas cicatrizes, num cotidiano que anula o corpo, anula a consciência de que temos corpo e cicatrizes. Quanto mais alienados, melhor para o cotidiano em que vivemos, pois esquecemos tudo, até de nossos medos. Não temos consciência de que somos doentes – só doente consegue sobreviver neste mundo tão perverso. Os que adoecem de fato são o que percebem e sentem essa perversão profundamente, e o corpo e a mente reagem. Talvez o poema seja o espaço de registrar essa loucura, de reagir a esse cotidiano.

MFC – Cada vez vemos mais prêmios e editais para a criação literária, como a Pro-AC de São Paulo. Em 2007, você ganhou uma bolsa de produção e difusão de literatura pela Petrobrás, e o resultado deste prêmio foi o livro “Um a menos” (2009), obra que foi semifinalista do Prêmio Portugal Telecom, em 2010. Em 2015, o Prêmio Jabuti e o Oceanos foram muito esperados por artistas e editoras (grandes ou independentes). Como você acha que as artes – e também os artistas – lidam com essa profusão de prêmios e bolsas? A literatura ganha e/ou perde com essas condições e possibilidades?

HFM – O problema não são as bolsas e os prêmios, mas o tipo de relação que se estabelece com esses incentivos. Conheço gente que ganhou prêmios importantes e pode, com isso, dedicar-se mais ao trabalho literário, principalmente na prosa (muito raro isso acontecer na poesia). O prêmio participa do processo de divulgação da obra e do autor. Com tantos eventos, o autor que ganha um prêmio levanta uns trocos com palestras e mesas de debate. Uma maneira de sobreviver. O problema, no entanto, é publicar já pensando nos prêmios, gastar um tempo de sua vida na campanha pelo seu livro. Acho isso o fim da picada. Se a literatura ganha ou perde? Acho que já perdeu faz tempo e por muitos outros motivos.

MFC – Você além de poeta, é jornalista, professor e editor. Como o trabalho de editor, de educador e de jornalista cultural ajuda ou interfere na produção de seus poemas?

HFM – Diria que ajuda e atrapalha. Quando preparo uma aula, acabo fazendo várias leituras, vou levantando materiais, pensando determinadas coisas, e isso me estimula muito. Pode acontecer de algumas ideias surgirem durante esse processo. A mesma coisa acontece quando tenho de escrever um texto para jornal ou revista. Agora, essas atividades tomam bastante tempo da vida da gente. Não sou do tipo de professor que já tem as aulas do ano prontinhas, basta repetir o que deu no ano anterior. Sempre mudo muita coisa, ou avanço mais em certas leituras. E isso, claro, toma bastante tempo. Mas isso é viver, não é? Claro que há momentos em que morro de vontade de parar tudo e me perder com meus poetas prediletos (que também variam sempre). Nem sempre posso. Ultimamente, acho que até para ler poesia preciso estar inspirado. Ou seja, estar em sintonia com a poesia. Quando isso acontece, é uma festa. Fico numa felicidade infantil. Agora, a coisa fica complicada quando a sintonia surge em meio a outro trabalho. É quando atrapalha. O pior é que raramente a sintonia acontece quando tenho um pouco mais de tempo livre, como nas férias… Tento me aquietar lendo romances.

MFC – Seus poemas exalam a cidade, essa “fábrica de notícias”. Um poeta só pode escrever sobre aquilo que vive? Existem temas universais? Um poeta é também resultado de uma máquina producente de relações entre coisas, entre mercadorias e fetiches?

HFM – Um poeta pode escrever sobre o que ele quiser, sobre o que sentir necessidade de escrever. No meu caso, por uma limitação minha, a poesia nasce de certa relação com as coisas que me cercam. Por uma certa tendência pessoal, não trato de universais, de sentimentos universais, mas de coisas muitos particulares, as que me tocam, ou me ferem.

MFC – Em “O pretexto para todos os meus vícios”, antologia traduzida e lançada pela La Sofía Cartonera e Mariposa Cartonera, muitos poemas surgem como imagens que se deixaram revelar. Um poema pode surgir de uma máquina fotográfica, de uma câmera de segurança, de um gif extraído de uma rede social. Todo material parece servir para a poesia. Você concorda com isso? Como uma imagem fotográfica pode condensar uma história? Como um poema pode condensar essa imagem?

HFM – Sim, por que não? O poema sempre condensa muita coisa. Claro que isso depende do poeta e do trabalho artesanal que ele realiza em cada poema. Sempre tenho essa espécie de alumbramento lendo Manuel Bandeira: quanta coisa condensada na forma exata e enxuta de um poema! Acho que o mesmo vale para a fotografia, para a boa fotografia. Essa condensação é aquele “momento decisivo” de que falava Cartier-Bresson.

MFC – Você acha que de que maneira as editoras cartoneras podem contribuir politicamente para uma arte mais livre, além do fortalecimento da escritura e da leitura, por exemplo, por (e de) grupos com menos (ou nenhuma voz) em todo o continente, democratizando o acesso à cultura?

HFM – Esses pequenos empreendimentos funcionam como barricadas de resistência. Criam um público próprio, que tem interesse naqueles autores ou quer conhecer novos autores. E as obras acabam circulando por caminhos inusitados, ruas pelas quais o ISBN não passa. Mas não diria que elas tornam a arte mais livre. Isso não depende da forma de circulação e edição. Depende dos autores, da verdade de cada um.

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Garcia Pessanha: uma conversa do Fora para o Dentro

Por: Debora Duarte

Debora Duarte é uma das colaboradoras da Malha Fina Cartonera, e aluna do Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana, cuja pesquisa versa sobre a produção poética do argentino Néstor Perlongher. A convite da Malha Fina Cartonera, realizou entrevista com Juliano Garcia Pessanha, escritor cuja interface entre literatura e filosofia sempre a estimulou tanto na escrita quanto na vida acadêmica. Foi no contato com a produção literária do autor que Debora viu nascer as primeiras fagulhas da escrita. Atualmente, contribui com a revista Escrita Pulsante [http://revistaescritapulsante.com.br/], atuando, principalmente, sobre temas como o silenciamento e a solidão nos grandes centros urbanos.

Juliano Garcia Pessanha é doutorando em filosofia pela Universidade de São Paulo. Em 2015 a editora Cosac Naify publicou Testemunho transiente, em que o autor reúne seus quatro livros publicados entre 1999 e 2009. Diálogos e Incorporações, publicado em parceria com Mariposa Cartonera e Yiyi Jambo Cartonera, será lançado pela Malha Fina no dia 15 de abril de 2016 no Centro Universitário Maria Antonia.

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Fonte: Juliano Garcia Pessanha.

Debora Duarte – Juliano, como se dá o processo de criação literária para você, que é filósofo de formação? Pensando nisto, como surgiu Diálogos e incorporações e quais referências literárias e/ou filosóficas perpassaram este processo?

Juliano Pessanha – Minha escrita é intermitente e depende de encontros de leitura que sejam fortes e motivem a escrita. O resultado é um híbrido de filosofia literária ou literatura filosófica. De qualquer maneira, algo que rearticula e recombina essas disciplinas com a minha experiência concreta no mundo.

DD – Em Diálogos e incorporações, encontramos um ensaio sobre Nietzsche escrito em primeira pessoa, a opção pelos Diálogos com Cioran e Rimbaud e os aforismos construídos a partir das incorporações da obra de Marina Tsvetáieva. Qual a principal motivação dessas escolhas formais?

JP – É aleatório. Eu poderia ter usado a primeira pessoa nos outros também. Em todos eles, parto do princípio de empréstimo de uma ferida ou do fato de que um self negativo pode incorporar várias experiências. Também escrevi em primeira pessoa como Kafka, no texto “A exclusão transfigurada”, que está no Testemunho transiente.

DD – Lendo Diálogos e incorporações e, é claro, considerando os termos que dão nome ao livro, percebemos um território marcado pela polifonia e por assentamentos biográficos. De fato, a obra tem algo da biografia de Juliano Pessanha? Como é a questão desse “eu” perfurado pelo “Outro” e por uma série de ressonâncias

JP – Não utilizo esses termos autobiografia ou biografia. Não existe um eu para que se faça uma autobiografia. O eu é resultado de encontros com outros (hetero). Partí da heterotanatografia (hetero – outro/ tanato – morte / grafia – escrita) “Esse menino aí”, na qual trabalho a história não histórica de um menino nascido para fora, e daí por diante penso os encontros literários como acontecimentos territorializantes heterobiográficos, isto é, aquilo que nos retira da exterioridade e da estranheza.

DD – Nos textos que integram Testemunho Transiente você optou pela reflexão acerca do “desalojamento” como territorialização, como “hospitalidade”, como pertencimento e identidade. Em Diálogos e incorporações como estão dadas estas questões, sobretudo a da identidade?

JP – Diálogos e incorporações não é diferente do que está reunido em Testemunho transiente. Trabalho com a noção de encontros ressoantes, esses sim territorializantes e alojadores. Não sei se deveríamos chamar o precipitado desses encontros de identidade, que é um conceito muito estável.

DD – Se partirmos do pressuposto de que a obra de arte tem um excesso que por si só é irrevelável, em Diálogos e incorporações onde repousaria este silêncio?

JP – Pode-se deixar o silêncio em silêncio, se é que ele está ali. Ou mesmo criticar e desconfiar das poéticas do indizível que infestaram o século XX.

DD – Em uma de suas entrevistas, você afirmou que foi na literatura e na palavra que “pressentiu a possibilidade de um encontro territorializante”, descobrindo nestas uma espécie de “cidadania”, que lhe havia sido sequestrada. Podemos pensar em algum tipo de relação deste encontro com aquilo que chamamos de liberdade? Se sim, como você definiria essa liberdade?

JP – No contexto do que escrevi, o termo liberdade não me serve. Tanto os encontros como os desencontros dizem de que o homem é um ente constrangido e dependente. Em oposição à cidadania sequestrada, o encontro do próprio gesto no outro não é uma liberdade, mas uma circunstancialidade marcada por sorte ou azar.

DD – Por fim, podemos afirmar que em Diálogos e incorporações há um sujeito migrante, ou melhor, o existir para Juliano Pessanha sai do âmbito do estranhamento, de uma angústia ontológica e vertiginosa e passa a ser uma nova projeção existencial, um lançar-se no mundo menos agressivo e dolente?

JP – Sim, esse é o movimento geral, do Fora para o Dentro, ou em termos filosóficos, uma transição de Heidegger para Sloterdijk, o que significa um aumento do âmbito da transicionalidade.

Informe – Resultado da Convocatória

Caros inscritos na Primeira Convocatória Malha Fina Cartonera,
Informamos que o resultado da Convocatória será divulgado no dia 15 de abril a partir das 18 horas no salão nobre do Centro Universitário Maria Antônia. Nessa ocasião, lançaremos os 4 primeiros títulos do nosso selo editorial –  “22 Poemas”, de Fabiano Calixto, “Os olhos dos pobres”, de Julián Fuks, “Diálogos e Incorporações”, de Juliano Garcia Pessanha e “O Pretexto para todos os meus vícios”, de Heitor Ferraz Mello. Pedimos aos inscritos que compareçam ao evento e, caso não possam ir, mandem um representante com uma cópia dos originais em mãos para a autentificação do resultado. Informamos que nessa ocasião divulgaremos os membros do comitê de seleção e os critérios de escolha dos originais.

Atenciosamente,
Equipe Malha Fina Cartonera.

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Primeira Oficina Cartonera de 2016

Por: Mariana Costa Mendes

Na última quarta-feira, 9 de março, realizamos a nossa primeira oficina cartonera de 2016. A oficina aconteceu na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Nesta oficina ensinamos como produzir um livro cartonero passo a passo. A seguir vocês podem conferir algumas imagens deste dia.

Fotos por: Caroline Costa Pereira, Chayenne Mubarack e Tatiana Lima Faria.

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Tatiana e Idalia explicando o que são as editoras cartoneras e como funciona a Malha Fina Cartonera.

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Primeiro passo da confecção do livro cartonero: cortar o papelão.

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Segundo passo:costurar a capa ao miolo.

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Terceiro passo: pintar a capa.

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Último passo: aplicar o título.

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Após a oficina os participantes responderam uma pesquisa de opinião e disseram o seguinte sobre a oficina:

“Em verdade eu não tenho uma super opinião acerca da oficina. Até gostaria de deixar alguma crítica ou sugestão, comentar mais profundamente sobre algum ponto, mas relaxei tanto durante ela e gostei tanto da integração de todos com tudo, que simplesmente gostei muito.”


“Adorei a oficina, foi uma tarde agradabilíssima”


“Foi de grande aprendizado, pois tive oportunidade de aprender também sobre sustentabilidade. “


“Altamente instrutivo e de fácil absorção de forma que é possível replicar a experiência e criar uma linha de produção artesanal no formato, o que pretendo fazer.”


“Foi uma tarde de prazer, em que aprendi a fazer algo novo e brinquei com tintas e pincéis feito criança! Achei a ideia da oficina uma sacada genial para aliar o compartilhar conhecimento e o fazer em grupo. Gostei muito de aprender cada parte do processo e de praticar na hora, para não esquecer mais!


Gostaríamos de agradecer a presença de todos e também por terem respondido a nossa pesquisa de opinião. Os aguardamos nas próximas oficinas e faremos com que seja uma oficina ainda melhor!

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Transdeliração Selvagem

Por: Ellen Maria Vasconcellos

Douglas Diegues já é um velho e querido conhecido e praticamente dispensa apresentações. Ele é um dos maiores representantes da literatura em portunhol selvagem, “la lengua mais hermoza de la triple frontera, onde cabem todas las lenguas del mundo”; tradutor e poeta e fundador da editora cartonera Yiyi Jambo, parceira da Malha Fina Cartonera.

Abaixo apresentamos a entrevista que Douglas Diegues nos concedeu ao blog da Malha Fina Cartonera, mesmo debaixo de uma febre suspeita de dengue ou chikungunya.

Malha Fina Cartonera – Como foi que um nascido de frente para o mar resolve dar meia volta e vai parar no interior do continente? 

Douglas Diegues – Fue hermoso nascer do amor de minha mãe hispano-guarani y de meu pai carioca filho de um dentista baiano e uma dama mineira. Mas aos dois anos tive de voltar com a minha mãe para a fronteira. Ela precisava me ensinar o portunhol selvagem, uma língua que não existe, mas que foi la língua em que sempre nos comunicamos inventando-a no calor da hora.  Minha mãe foi a minha primeira professora de portunhol selvagem. Non digo que el portunhol selvagem tenha uma origem biológica. Non houvesse nascido yo del amor de uma paraguaya e um brasileiro, certamente non haveria o meu portunhol selvagem.

MFC – Quase quinze anos se passaram desde seu primeiro livro, de sonetos selvagens, “Dá gusto andar desnudo por estas selvas”. De onde surgiu este projeto/conceito de escrever em (uma das variantes do) portunhol selvagem e como é mantê-la viva na fala, escritura e como “non-lengua”? Viver na fronteira com o Paraguai faz com que o portunhol selvagem também se enriqueça nesta tríplice fronteira com o guarani?

DD – Eu era o editor chefe de uma página de literatura no jornal Folha do Povo, de Campo Grande, MS. A página se chamava “palavra-boa”. Publicava entrevistas e textos com poetas e escritores de todo o Brasil. Então depois de dois anos e meio, uns jornalistas caretones que assumiram a nova direção do jornal me disseram que eu era um cara que andava sempre no mundo da lua etc e tal e que eles iriam cortar a página de literatura e me estavam despedindo naquele momento. Fiquei triste, fiquei com raiva dos caras. Entonces comecei a escrever sonetos selvagens y nunca mais parei de escribirlos.

MFC – Wilson Bueno e Manoel de Barros são alguns dos poetas que sua escritura dialoga/transdelira. Você pode citar outros escritores? 

DD – Só transdeliro los textos que me impactam; podem ser conocidos ou desconocidos, bons ou ruins, feos ou belos. Aquilo que me impacta es lo que tem a ver comigo. Prefiro non citar nomes, mas apenas ressaltar essa qualidade inexplicável de los textos que me impactam. Transdelira-los es uma maneira de hacerlos mios também, sem que deixem de ser de los autores.

MFC – Você traduziu “Ayvu Rapyta”, uma obra prima. Você pode falar também um pouco sobre seu projeto de tradução/ adaptação/ versão/ invenção/ transcriação de autores para o portunhol selvagem? Há outros simpatizantes do movimento, não?

DD – Traduzir el Ayvu Rapyta al portunhol selvagem es um suenho que venho tornando realidade desde 2007. Agora estou na fase de las revisiones. Traduzir Ayvu Rapyta a uma língua que non existe me parece ajudar a telestransportar a la version em portunhol selvagem el frescor de llamas y rocios. Yes, el portunhol selvagem tem muitos simpatizantes. 

MFC – “Uma flor na solapa da miséria” saiu em 2003 no mesmo ano que surgiu a Eloísa Cartonera. Como você conheceu e como surgiu seu interesse pelo projeto cartonero? O que você acha das cartoneras conquistando pouco a pouco cada vez mais adeptos no Brasil, toda América Latina e outros continentes, e fugindo da burocracia e deste sistema mercadológico editorial?

DD – Conheci el proyecto de Eloisa Cartonera com em 2003, em Asunción, quando Cucurto esteve no Paraguay e deixou livros em algumas librerias de Asunción. “Uma flor” foi publicado em 2005. O Cristian de Napoli propôs a publicação de um livro meu a Eloisa cartonera. Eles toparam publicar e fui leerlo no festival Salida al Mar de 2005 em Buenos Aires. O homenageado do festival foi o poeta Raul Zurita. Depois fui presentar “Uma flor” en la libroferia se Buenos Aires, em 2006. A Revista Ñ publicou três sonetos salvajes en sua página dedicada a la poesia. Depois o livro vendeu pra cacete en la editora-instalação da Eloisa Cartonera durante a Bienal de SP. Depois outra cartoneras publicaram o livro, a Dulcinéia Catadora, a Yiyi Jambo. Quando encomendam um exemplar dessa obra, cortamos carton, fazemos um livro cartonero al toke com uma capa nunca vista y enviamos por el correio.

MFC – Seu “Triple Frontera Dreams” saiu por pelo menos três cartoneras. Este ano seu livro “Tudo lo que você non sabe es mucho más que todo lo que você sabe” foi lançado por 5 editoras cartoneras. Como isso aconteceu/acontece?

DD – El “Triple frontera dreams” saiu em version pocket por Yiyi Jambo, Katarina Kartonera y Eloisa Cartonera. Depois foi lançado o “tudo…” por seis cartoneras de seis países diferentes: México, Chile, Peru, Argentina, Espanha e Brasil. Acabo de assinar um contrato com la Interzona, de Buenos Aires, que publicará este ano la version integral de Triple frontera dreams.

MFC – A “Yiyi Jambo” foi definida por você, em uma entrevista, como a primeira “kartonera nômade” e (ao menos duplamente) desobediente, na língua e no projeto editorial. Como nasceu, cresceu e sobrevive a editora cartonera “Yiyi Jambo”? 

DD – A Yiyi jambo fue fundada em Asunción, Paraguay, en la primavera del 2007, en el Barrio Sajonia, con mucha alegria y un estilo propio de hacer libros en formato non-único y cosido a mano. Su nombre inicial fue Jambo Girl. Pero decidimos paraguayizarlo  convirtiéndolo en Yiyi Jambo. Yiyi es una palavra popular, cuya origen se verifica en los bajofondos, y significa mulher, novia, amada, amante, chica, muchacha. Jambo es uma fruta abundante en el nordeste brasileiro; a la vez se refiere a un color achocolatado de piel feminina. 

Yiyi Jambo significa chica morena piel tono chocolate. La grafia correcta es Yiyi Jambo y no YiYi Jambo como muchos suelen grafar. Fundamos Yiyi Jambo durante duas ou três festas en la mansion fake que alugamos nel bairro de Sajonia da capital paraguaya. Foi muito divertido y depois de algumas semanas eu estava nel fliporto, la festa literária de Porto de Galinhas, Pernambuco, lançando los livros com leituras impagabelles numa mesa com Xico Sá e Joca Terron.  Pouco a pouco Yiyi Jambo, la primeira Cartonera do Paraguay, ficou conhecida no mundo inteiro.  Una de las especificidades de Yiyi Jambo: los textos em portunhol selvagem que publicamos.

MFC – Recentemente, vi uma nota sobre um grupo de 80 crianças no Paraguay participando da montagem/fabricação de um livro cartonero pela Yiyi Jambo. No Nordeste, há várias cooperativas funcionando gerando trabalho e dinheiro na produção de livros cartoneros. Você acha que de que maneira as editoras cartoneras podem contribuir para uma arte mais livre, além do fortalecimento da escritura e da leitura, por exemplo, por (e de) grupos com menos (ou nenhuma voz)? 

DD – Las editoras cartoneras podem contribuir muito ainda com la desmistificacion de la literatura, de la lectura y del livro. Pode salvar la vida de muitas pessoas também. Pode trazer mais liberdade para el arte de publicar livros. La coisa está apenas começando y después del libro cartonero los livros nunca mais serão los mesmos. Além disso tudo, é uma delícia fazer um livro de poesia cartonero com las propias manos. Las capas nunca se repetem. Y los livros. Não tem preço. Podem custar entre 10 y 5 mil reais. Você põe o preço. Quem quiser pagar, que lo pague. És uma arte muito livre.

MFC – Você também é diretor, roteirista e tem uma porção de outros talentos. Já houve algum projeto envolvendo música, cinema de ficção ou documental, televisão & artes? Quais são os próximos projetos?

DD – Escrevi apenas o argumento e o roteiro do filme doc.tv “O poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina”, a convite de Manoel de Barros, que me ofereceu 5 mil reais de seu cachê para ajudá-lo a salvar o filme e filmar a sua poesia e não a sua biografia narrada por ele, etc e tal. Eu topei e fizemos esse trabalho juntos. Ele não iria participar do filme. Mas a pedido meu, ele contracena comigo na última sequência em que nos cruzamos na Rua Piratininga, eu subindo pro norte e ele descendo pro sul. Ele todo de branco y eu disfrazado de andarilho com um saco de estopa nas costas puxando uma estrela do mar por uma corda.