Escrever contra as burocracias: “Anotações para o livro do ventre”, de Hildon Vital de Melo

por: Mayra Guanaes

A publicação do primeiro livro é um momento simbólico de duplo nascimento: nasce um livro e nasce uma autoria que se coloca agora, diante dos olhos do mundo.

Anotações para o livro do ventre, de Hildon Vital de Melo, foi um dos originais selecionados pelo Comitê de Seleção da Segunda Convocatória de Narrativa e Poesia do Selo Editorial Malha Fina Cartonera (USP-UNIFESP 2017), integrado por Bruno Zeni, Diana Klinger, Idalia Morejón Arnaiz e Paloma Vidal.

Anotações para o livro do ventre

Anotações para o livro do ventre, de Hildon Vital de Melo. Foto: Jaq Mendes.

Um tema que apareceu na seleção dos originais desta Segunda Convocatória foi “universidade e outras vivências”.  Nos primeiros parágrafos do livro do Hildon, já é possível encontrarmos um diálogo da voz narrativa ressoando com este tema “Escrevo para lidar com o estado depressivo em que me encontro por causa do meu emprego, essa banal colocação no mercado de trabalho. De início, ser professor…” (p. 11) é assim que este narrador se aproxima do leitor, contando como chegou até aqui.

O narrador compara sua profissão com a vida no “chão de fábrica” e inicia seu percurso narrativo nos convidando para refletir sobre a vida acadêmica: “no fundo a vida acadêmica pra mim não passou de três coisas” (p. 11). As três coisas que ele cita, não vou mencionar aqui, porque sugiro que você leia o livro, porém, posso te contar que já são o suficiente para termos uma ideia das angústias provocadas pelo meio acadêmico.

Depois de sobreviver aos percalços vivido na universidade, nosso narrador finalmente se forma professor e vai dar aulas no ensino básico, chegando à conclusão de que “uma escola é simples depósito de gente onde todas as tensões se potencializam” (p. 13). É muito interessante quando ele se imagina sendo um dos seus próprios alunos e reflete sobre como era em sua época de estudante do ensino médio. Bem como a universidade, a escola também se constitui como um espaço engessado pelo sistema:

 

“Eu realmente gosto de dar aula, mas odeio toda a burocracia em torno disso, toda a dolorida estupidez e moralização em torno do ato de dar aula e ser professor! Recuso-me a deixar dever de casa para férias, não vou fazer com as pessoas o que sempre odiei que fizessem comigo” (p. 27).

 

O que um narrador atento ao pensamento crítico poder fazer, então?

Deprimido pela sala de aula, o narrador inicia uma busca por outras coisas. Tenta unir o útil ao agradável experimentando cursos de vinho e gastronomia. Nesta parte o que me chamou a atenção foi o choque social que algumas áreas promovem. A experiência com os vinhos reforça a minha impressão de que fazer o que gosta é possível apenas para algumas classes sociais.

Embora produza uma sensação de relaxamento, o contato com os vinhos não se apresenta como uma solução para os conflitos do narrador.

Era preciso algo que alinhasse as bebedeiras, os cigarros, a poesia e as conversas sobre literatura. Assim, junto com M, o amigo da Letras, é que o nosso narrador percebe que gostaria de escrever. Mas M, o amigo da Letras, alerta o narrador para o fato de que o curso de Letras também há jargões de teóricos que sabem tudo sobre algum autor ou autora, vaidades e miudezas bibliográficas. (Eu, que me formei em um curso de Letras, mesmo tendo desenvolvido alguma habilidade para resenhar um livro, quero admitir que concordo com a perspectiva do M).

A virada do livro acontece nas férias. Na última segunda-feira de 2016 nosso narrador e M, entre um cigarro e outro, foram em um ciclo de palestras no CCBB Cultural e assistiram uma palestra com o escritor contemporâneo (vivo!), João Paulo Cuenca. É surpreendente como a escola e a universidade tentam nos fazer acreditar que a literatura é produzida por quem está morto, não é mesmo? Contudo, ao ter contato com um escritor contemporâneo (vivo!), o nosso narrador então, percebe que só lhe resta a escrita e a leitura. Nasce assim, Camaleão Albino. Me parece curioso que esta percepção tenha acontecido fora de um espaço de educação formal. Talvez fosse razoável pegar uma carona aqui e refletirmos que lugar é esse que a literatura está ocupando na escola e na universidade.

Mesmo sob condições adversas, nasce um escritor. Na segunda parte do livro “Óculos, meus tristes olhos”, Camaleão Albino conta a relação que tem com seus olhos. Nesta parte, Anotações para o livro do ventre ganha um tom bastante poético nas memórias do narrador sobre os seus óculos que usa desde os quatro anos. Ele afirma que pode perder a sua visão em breve…

Neste momento, a escrita literária se apresenta como um meio urgente de ressignificação das pedras que aparecem no caminho. Anotações para o livro do ventre precisa surgir neste momento, antes que o narrador perca a visão: “Eu sei que meus olhos já estão indo embora e eu aqui permaneço, ainda leio, ainda resisto e leio, vou escrevendo como posso” (p. 46).

É possível observar a literatura aqui como um respiro, um meio de resistência ao cotidiano, à vida.

Hildon Vital de Melo, autor de Anotações para o livro do ventre

Hildon Vital de Melo, autor de Anotações para o livro do ventre. Foto: Jaq Mendes.

Anotações para o livro do ventre é um livro híbrido, tem mais duas partes “O meu ser é alvo” formado por 16 fragmentos de temas diversos e “Enfim as eclosões” que se parece com um glossário, mas fecha o livro com a sugestão de que há outro livro sendo gestado em um próximo ventre.

A “futura vida própria” de Anotações para o livro do ventre já é uma vida presente. Hildon Vital de Melo nasce como um escritor que não deixa de lado a postura crítica. Além disso, consegue harmonizar na mesma taça acidez com poesia.

Os autores Hildon Viltal de Melo (Anotações para o livro do ventre) e Mayra Guanaes (Afetos e Ficções).

Os autores Hildon Viltal de Melo (Anotações para o livro do ventre) e Mayra Guanaes (Afetos e Ficções). Foto: Jaq Mendes.