Sangria com Yuri Cortez

por: Samanta Esteves

Nessa Sangria, a Malha Fina apresenta a poesia de Yuri Wittlich Cortez, crescido no interior paulista (Guaratinguetá) e fisgado pelos becos e vielas da Pauliceia Desvairada antes que conseguisse escapar. Educador e graduado em Relações Internacionais, trabalhou como plantador de batata, revisor de texto, cavaleiro medieval e funcionário de escritório, mas no momento se arranja dando aulas de português.

Autor de “A Guerra” (Patuá), o poeta tem o tempo, em suas múltiplas facetas, como matéria de sua produção. Com frequência, confronta-se com as mazelas e as contradições históricas, sem perder de vista dimensão existencial, mitológica e metafísica que permeia a todos na tarefa de engolir dragões e cuspir estrelas, ofício tão bem definido no poema de abertura da obra e colocado em prática na seleção abaixo.

Além do livro de estreia, recém-publicado, Yuri escreve para o Cartas Marcadas e o Conversa de Autor. Em parceria com outros poetas, mantém também o talvezblog, onde você pode encontrar outros poemas.

foto_yuri cortezbaixa

Yuri Cortez.

tudo o que pela minha boca escorre
(o pouco que de minha fome escapa)
escorre estrebucha cai e morre
cumprindo fielmente cada etapa

 

todo esse suicidar-se me comove
e põe meu coração desritmado
a solução melhor: olhar pro lado
cuspir palavras mais como quem chove

 

o pouco que me escapa e sobrevive
(um pouco moribundo e envergonhado)
se afoga no que é o mundo e seu assombro
e sofre inevitável resultado:

 

ser sombra e o antônimo da sombra
ser nada e o antônimo do nada 

 

perséfone

 

entre dois mundos transito, no entanto,
sou nesses dois tanto deusa e nada.
nos meus dois lares sou só convidada
de honra – ou, pra ser mais precisa, nem tanto.

 

mas desisti de sentir-me alijada
e de gastar pelo exílio meu pranto.
quaisquer amores, botei no meu manto;
qualquer saudade, joguei pela estrada.

 

eis que não cresce em meus pés mais a hedra.
sigo o caminho, qualquer que desponte,
se esse é o dever que o destino me engendra.

 

não mais me ilude o terror do horizonte
ou mesmo a fé em alicerces de pedra.
por lar, agora, só tenho o Aqueronte.

 

xangai

 

Sobe um vento mandarim
Rumo ao sol, sol de 上海

 

Não sou eu quem fica em mim,
Não sou quem de mim se vai

 

Mal sou sombra de nanquim,
Mal sou nuvem que se esvai

 

Posso só ser eu, enfim
Ao seu lado, em 上海

 

Tigre

 

os homens que com ferro nos matavam
seus dentes sabres balas e feitiço
se evaporaram diante da aurora:
são tigres de papel, e já nem isso

O livro não morreu: entrevista com o coletivo PUBLICA!

por: Samanta Esteves

Com o intuito de incentivar o estabelecimento de vínculos entre editoras, autores e produtores de conteúdo, o coletivo Publica! busca aproximar o leitor do mercado editorial de forma dinâmica por meio da realização de trabalhos e atividades em torno do universo editorial independente, como a organização do evento Publica!. Realizado pela primeira vez em maio de 2016, a iniciativa acontece para espalhar a literatura por meio palestras, mesas, e atividades que incentivam o contato com o livro.  É assim que a equipe do Publica!, composta por cinco universitários do curso de Editoração das Faculdades Integradas Rio Branco, vem promovendo um importante espaço de diálogo sobre o mercado editorial e contribuindo para a democratização do acesso à leitura. Neste ano de 2018, o evento Publica! aconteceu no dia 17 de março e estivemos presente durante a Feira Retalho | Feira de publicações independentes. Confira a entrevista concedida pelo Publica à Malha Fina Cartonera, comentando sobre a iniciativa e alguns de seus projetos:

25353926_565702270440079_2078094782927336363_n

Logo do Coletivo PUBLICA! Fonte: Facebook.

MF: Qual a proposta do coletivo Publica! ?

O Publica!, assim como o Literatura em Pauta, é realizado pela Equipe Publica!, formada por cinco alunos do curso de Editoração das Faculdades Integradas Rio Branco, que compartilham o amor por histórias bem contadas e grandes xícaras de café.

O Publica! é um evento literário, criado em 2015, para debater e refletir sobre o mercado editorial de maneira consciente e criativa. Buscamos criar um espaço no qual leitores, editores, produtores de conteúdo e todos os envolvidos na produção do livro se conectem e espalhem esse amor pela literatura.

O Literatura em Pauta funciona como um clube do livro, um espaço para debates literários para, inicialmente apenas para os alunos e ex-alunos da faculdade.

MF: Qual a importância de iniciativas editoriais independentes no cenário de publicação contemporânea?

O mercado editorial é competitivo e, como consequência, alguns autores acabam tendo dificuldade na hora de publicar seu livro em grandes editoras. Nesse momento, as editoras pequenas ou independentes ganham destaque, por serem acessíveis e demonstrarem interesse na obra.

MF: Que tipo de trabalhos o coletivo realiza?

O intuito é realizar trabalhos relacionados com nossa área (produção editorial), como as diagramações feitas especialmente para a Malha Fina Cartonera.

Em relação aos eventos, trabalhamos com a criação do material de divulgação e informativos do projeto.

MF: Como foi a experiência de editar as publicações da Malha Fina Cartonera?

Foi uma das primeiras experiências com a edição de livros sem envolvimento da faculdade. Uma grande oportunidade para colocar nossos aprendizados em prática, agradecemos por isso.

MF: Como se deu o processo de edição dos livros?

Para a edição de um livro, precisamos ler do que ele fala, para fazer um trabalho de acordo com a proposta do autor e da editora. Percebemos que existe uma dedicação para trabalhos manuais, então não podíamos fazer uma diagramação, por exemplo, extremamente rebuscada, pois não coincidiria com os princípios apresentados a nós pela editora. Providenciamos uma obra que dialogasse com o leitor, fosse aceita pelo autor e representasse a editora.

25152233_565702387106734_6853295357966341457_n

Banner da Página do Coletivo Publica!. Fonte: Facebook.

Agradecemos ao coletivo por conceder esta entrevista e desejamos que a parceria da Malha Fina Cartonera com o Publica! seja duradoura. Além disso, estamos ansiosos pelo próximo evento Publica!