Lembrar no Presente: Sobre a publicação de Todo o Silêncio, de José Luís Peixoto

por: Chayenne Orru Mubarack
colaboração: Mariana Costa Mendes

A Malha Fina Cartonera surgiu como um projeto de cultura e extensão da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP) em 2015. Quando surgimos, alguns objetivos nos guiavam (e guiam-nos até hoje): somos a possibilidade de inserção de estudantes no mundo editorial dentro da própria universidade. Através da Malha Fina, os estudantes podem experimentar algumas tarefas como tradução, revisão, diagramação, entre outras, que dizem respeito à confecção do miolo de um livro. Além, claro, da confecção deste objeto em sua forma cartonera: coleta e corte de papelão, costura do miolo, pintura da capa.

Somada à materialidade livresca, a Malha Fina também chama a atenção pelo desenvolvimento de algumas linhas editoriais específicas ao longo desses anos. Debutamos com uma coleção de literatura brasileira, na qual publicamos quatro autores brasileiros alunos de programas de pós-graduação da própria FFLCH. Nosso carro forte é a linha de literatura caribenha, na qual publicamos escritores cubanos e porto-riquenhos, além de termos antologias de poesia haitiana e venezuelana em desenvolvimento. Por estarmos dentro da universidade, também vimos a possibilidade de disseminar e publicar textos inéditos de estudantes da graduação e da pós-graduação, o que temos realizado por meio de nossas convocatórias. Outra linha seria a de poesia e performance, composta pela publicação do poeta maranhense Reuben da Rocha, por exemplo.

Os espaços e eventos que frequentamos ao vendermos nossos livros ou darmos oficinas de confecção de livros cartoneros costumam ser feiras de publicações independentes. Em novembro de 2016, participamos da LER – Salão Carioca do Livro, em um stand compartilhado com a Mariposa Cartonera. O objetivo de nossa participação era expor nosso catálogo e compartilhar com os presentes um pouco sobre nosso modo de publicação. Durante a feira, uma de nossas colaboradoras, Mariana Costa Mendes, reconheceu o escritor português José Luís Peixoto e iniciou um diálogo com o autor, o qual demonstrou grande interesse em publicar em nosso formato editorial.

Mariana e José Luís Peixoto

A colaboradora Mariana Costa Mendes com o escritor José Luís Peixoto na LER – Salão Carioca do Livro (nov. 2016).

Em julho de 2017, quando a então coordenadora do projeto, Tatiana Lima Faria, foi a Portugal ministrar oficinas cartoneras em Trás-os-Montes, o contato com Peixoto foi retomado e preparamos, então, uma edição do livro Todo o Silêncio para ser confeccionada lá.  Em agosto do mesmo ano, decidimos publicar o livro também aqui no Brasil e incluí-lo em nosso catálogo. Todo o Silêncio é, portanto, o primeiro livro em que a Malha Fina Cartonera entra no território da literatura portuguesa. A escolha da palavra “território” não é aleatória, pois a obra nos apresenta uma viagem por diferentes lugares e acontecimentos através da memória.

Todo o Silêncio - Capas

Capas dos livros de José Luís Peixoto confeccionadas pela Malha Fina Cartonera no Brasil.

A primeira narrativa, que leva o mesmo nome do título do livro, remete ao primeiro livro publicado do autor, Morreste-me. Nele, Peixoto escreve sobre um filho que perdeu o pai, coincidindo com o momento de luto vivido pelo próprio autor. No conto que publicamos, o narrador versa sobre noites de apresentação de seus livros em bibliotecas e livrarias nas quais, muitas vezes, a referência ao seu pai é indispensável. Em dado momento, dirige-se diretamente a ele: “Sim, pai, às vezes vou à televisão falar dos meus livros”. O conto adquire, então, outro tom. O leitor pode revisá-lo a partir da perspectiva da ausência e da perda eterna de um ente querido que, ao mesmo tempo, eterniza-se e reaparece por meio da escrita.

A segunda narrativa que comento nesta resenha coincide com a segunda do livro publicado. Em “Conta lá a história das bibliotecas itinerantes”, viajamos para Galveias, no Alto Alentejo, em Portugal, lugar de nascimento do escritor. A narrativa apropria-se de uma nostalgia, memórias do já vivido que se unem ao presente da escrita: “As crianças de Galveias são iguais às de antes”. Na infância do narrador penetram histórias da infância de seus filhos. Um encontro entre passado e presente, inclusive no nível da escrita, que utiliza o presente do indicativo para referir-se a coisas que pertencem ao passado. Afinal, ao revisitar o passado com o intuito de alterá-lo ou analisá-lo, logramos mantê-lo no presente: “Eu, que estou aqui neste instante, também estava lá […]”.

Mais adiante, saímos de Portugal e viajamos para a ilha de Cabo Verde. Em “O povo”, os sentidos se misturam com o intuito de contar-nos um pouco sobre os cabo-verdianos. Sons da música da telenovela numa versão cigana, as calças e a barriga de um homem, o sol ácido, um passeio na Feira do Relógio. Ao fim, um senhor que conversa com o narrador em crioulo cabo-verdiano e cujo diálogo, para além do conteúdo, traz consigo uma sensação de pertencimento. Novamente, memórias passadas que se mesclam ao presente da escritura.

As viagens não param por aí. O narrador também nos leva para a Guiné-Bissau, ao mercado de Bandim. Depois, para Patong, na ilha de Phuket, Tailândia. Passamos pelo interior de Rondônia, aqui no Brasil. O material da narrativa está sempre em acontecimentos passados. Em uma entrevista concedida ao programa Agenda, da Rede Minas, em 2015, o autor fala que “escrever é retirar ideias que existem de forma abstrata, em forma sem forma, e colocá-las no papel para que elas sobrevivam ao tempo”. Entretanto, também é preciso ter a noção de que o esquecimento chegará e que isto não deve ser triste. A memória, apesar de imaterial e invisível, nos forma e nos constitui. A matéria da escrita pode ser, portanto, uma memória, ou até mesmo uma desmemoria. Em “As palavras invisíveis”, por exemplo, o narrador confessa: “Conformo-me, estou cansado de procurar, mas tenho pena. Nesse bloco, tinha anotado a ideia que ia desenvolver neste texto. Não consigo lembrar como era, só recordo que me entusiasmou, pareceu-me boa ideia, fiquei contente quando a tive”.

Convidamos o leitor a embarcar nessa viagem por territórios, memórias e desmemorias. Esperamos que as reflexões de Peixoto sobre o passado e o presente mobilizem nosso público a revisitar momentos do passado que ainda fazem parte do presente. Da mesma maneira, aproveitamos esta publicação para revisitarmos um pouco de nossa história como selo editorial e lembrarmos de como nossa trajetória passada ecoa em nossas escolhas e lançamentos presentes.

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