“Diáspora(s)”: Entrevista com Carlos A. Aguilera

por: Larissa Pavoni Rodrigues

O encerramento da antologia Diáspora(s), mais nova publicação da Malha Fina, conta com “Mao”, poema de Carlos A. Aguilera – em tradução inédita de Robson Hasmann e Ramiro Caggiano Blanco – o qual chama a atenção pelo uso de ideogramas. Grande expoente da poesia performática entre os autores cubanos do final do século XX, a poesia de Carlos A. Aguilera se encontra no entrecruzamento da escrita, da poesia experimental e do teatro.

Poeta, ensaísta e narrador, o entrevistado nasceu em Havana, e hoje reside em Praga, República Tcheca. É autor de obras como Retrato de A. Hooper y su esposa (La Habana: Ediciones Unión, 1996), Das Kapital (La Habana: Ediciones Abril, 1997), Teoría del alma china (México: Libros del umbral, 2006), Discurso de la madre muerta (Editorial: Baile del sol, 2012) e El Imperio Oblómov (Editorial: Espuela de plata, 2014).

Para dar as boas vindas a Diáspora(s), organizamos uma entrevista com o escritor cubano, que resultou em temas como o início de seu processo de escrita, o papel da poesia no mundo atual, os desafios do mercado editorial, seu poema publicado em Diáspora(s) e seus próximos lançamentos como escritor. Para saber mais sobre a obra desse poeta, confira a seguir:

Larissa Pavoni Rodrigues: Quando e como você começou a escrever? Teve algum tipo de estímulo?

Carlos A. Aguilera: Desde muito cedo. De adolescente, quase. Lembro que ainda tinha a cabeça maior que o corpo, tal como Gombrowicz descreve Bruno Schulz em seus diários. Estímulos, nenhum. Venho de uma família onde os livros não eram exatamente um fetiche.

L. P. R.: Para você, que importância tem a poesia no mundo de hoje? Ou, então, o que te motiva a escrever poesia hoje?

C. A. A.: A grande importância da poesia é o ouvido. Um narrador, um dramaturgo, um jornalista tem que ter o ouvido do poeta. Ou seja, a precisão do poeta, a tensão que o poeta concentra em seu ouvido. Sem esta tensão, é impossível escrever bem. Por outro lado, mas isso já é lugar comum, a poesia, a literatura em geral, não funciona dentro do mercado. Não dá dinheiro. Não produz economia. Não vende. E isso, que para muitos é motivo de queixa, é sua grande virtude. A literatura não deveria vender-se nunca. As editoras deveriam quebrar (sobretudo essas que pensam o literário como negócio). E a narrativa e a poesia deveriam circular sem nenhuma trava econômica ou mercantil. Fluir de maneira “limpa”, apenas guiada pelo gosto, as afinidades e a complexidade de cada um. Quando isso for alcançado haverá menos gente escrevendo e o céu estará mais claro, luminoso. A literatura não deveria ser negócio de ninguém.

L. P. R.: Como foi o processo de escrita do poema “Mao” publicado em Diáspora(s)?

C. A. A.: Mao era (é) um poema civil. Um poema que queria percorrer um estado de ânimo “especial” em um momento muito difícil para todos: o período especial, durante os anos 1990 em Cuba. Anos em que na ilha não havia nada (bom, segue sem haver muito). E por essa razão sua maquinalidade, seu neobarroco, seu sarcasmo, seu jogo com a história, com a Revolução Cultural Chinesa, com o castigo, com as analogias, etc… Um poema que queria ser um cruzamento entre os “Cantares” de Pound e aquele poema sobre Kant de José Kozer.

L. P. R.: De que forma este poema se relaciona com a Antologia Diáspora(s)?

C. A. A.: Bom, isso poderia ser perguntado à organizadora da antologia. O que posso dizer é que o poema foi publicado no primeiro número da revista, que fizemos no ano de 1997. E era um poema que eu lia em voz muito alta, naquele tempo, parodiando a voz de um líder qualquer em uma praça qualquer.

L. R.: É a primeira vez que publica em uma editora cartonera? Como você vê as cartoneras localizadas no mercado editorial atual, competitivo e lucrativo?

C. A. A.: Não. Já publiquei um relato longo em uma cartonera. Um relato que a posteriori cresceu e se converteu em um livro de cem páginas. Mas em sua primeira versão, está publicado em La Cleta, do México.

O grande ganho das cartoneras é que elas não têm que competir. Não tem que demonstrar nada. Não tem que vender. Apenas buscar bons textos e produzir livros únicos, livros que possam ser colecionáveis. Aí está sua virtude e ao redor desta “generosidade” é onde deveriam circular. A competência, a intriga, a mais-valia… há que deixá-los às editoras “grandes”, essas que se queixam constantemente que não vendem, coisa que, repito, me alegro infinitamente. Quem quiser ganhar dinheiro que abra um açougue ou roube um banco.

L. P. R.: O que escreve atualmente? Algum livro novo em um futuro próximo?

C. A. A.: Acabo de terminar Clausewitz y yo, um livro de relatos. E de colocar o ponto final em uma antologia de narrativa cubana transficcional. Uma antologia que terá por volta de 15 autores, cujo tema central já não é Cuba ou a miséria política cubana (tema recorrente na literatura da ilha desde Papaíto Mayarí), mas a escrita, a reflexão literária, o kitsch, a saída do referente nação.

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Imagem enviada por Carlos A. Aguilera.

A Malha Fina publica a antologia bilíngue Diáspora(s) dentro da coleção de literatura caribenha. A organização da antologia foi realizada por Idalia Morejón Arnaiz, as traduções individuais foram feitas por Ellen Maria Vasconcellos e Clarisse Lyra, e as traduções colaborativas por Caroline Costa Pereira, Liliana Marlés, Gabriel Bueno, Adriana Silva, Robson Hasmann, Ramiro Caggiano Blanco e Yedda Blanco.

Diáspora(s) traz, então, poemas dos membros fundadores do grupo homônimo como forma de apresentar ao público brasileiro esse importante momento literário cubano. Entre os escritores do grupo estão: Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders, Ricardo Alberto Pérez, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer e Carlos A. Aguilera, aqui entrevistado.

Você pode ler mais sobre os autores publicados em Diáspora(s) nas duas apresentações, Grupo Diáspora(s): uma poética de ruptura e Grupo Diáspora(s): uma poética de ruptura (parte II), escritas por Aryanna Oliveira. Além disso, também pode conferir a resenha da antologia, intitulada Diáspora(s): vanguarda finissecular em Cuba, escrita por Pacelli Dias Alves de Sousa.

Para adquirir a antologia Diáspora(s), entre em contato com a Malha Fina Cartonera através do nosso perfil no Facebook ou envie um email para malhafinacartonera@gmail.com.

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