Aquarius e Joaquim: Literatura Incendiária

por: Cristiane Gomes

Dizem que quando há condições ideais, a ficção não costuma ser muito boa. Talvez pela falta de necessidade de criar mundos possíveis, talvez pela literatura ser uma forma de revolução. Mas as palavras também servem para aprisionar: se fossem inofensivas, as religiões não teriam se apropriado da criação do verbo em suas mitologias, não precisaríamos explicar nas escolas a diferença semântica entre liberal e libertário e não teríamos uma constituição escrita para proteger a propriedade privada.

O retrocesso, que já tomou conta da política, se espraia pelas artes e pelo discurso popular. O liberalismo econômico sempre foi o único filho “revolucionário” aceito pela família brasileira. Carismático, conhecedor da técnica retórica, bem-vestido, preferencialmente homem e branco, ele não renega o dinheiro, faz alianças questionáveis e mantém bem vivo aquilo que mais mata gente no mundo: família, religião, patriotismo e militarismo.

Desta terra, onde um prefeito-alegoria se elegeu usando a alcunha de João Trabalhador – mesmo pertencendo a uma família que é dona do Brasil desde os tempos das Capitanias Hereditárias –, os guaranis são despejados depois de resistir 517 anos e na qual mantemos orgulhosos, mesmo “independentes”, a bandeira verde e amarela de Bragança e Habsburgo estampada com um lema positivista francês do qual o amor foi extirpado, eu escrevo sobre dois lançamentos de um selo editorial do Recife, que nessas condições nada ideais em que vivemos, traz boa literatura.

A Mariposa Cartonera, uma resistência literária independente, lançou, em 22 de setembro de 2017, dois livros-irmãos: Aquarius e Joaquim. As antologias de contos organizadas por Wellington de Melo têm como disparador o nome de duas personagens cinematográficas: Clara, protagonista de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e o mártir e bode expiatório da inconfidência, Joaquim José da Silva Xavier, retratado no filme Joaquim de Marcelo Gomes.

Em um caminho inverso ao convencional, a literatura se alimenta do cinema desses dois cineastas pernambucanos. Alguns contos apresentados nos livros, não sei se por estímulo ou fruto do estado de exceção que vivemos no Brasil, além dos nomes Clara e Joaquim trazem outras semelhanças: violência e opressão.

 

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As Claras

O conto que abre Aquarius é “A versão de Talitas, de José Luiz Passos. A Clara de José Luiz não tem cara, é apenas uma figurante, uma aluna com a qual o escritor e professor, narrador-personagem, tem um breve caso. O protagonista, sem nome, mas que poderia chamar-se José, tem seu livro adaptado para o cinema por um cineasta norte americano. A obra adaptada é o Sonâmbulo Amador, livro do próprio Passos, que também aparece nas mãos da personagem Clara, do filme Aquarius, inspiração da antologia.

Nesse jogo de aproximação entre real e ficcional, muito em voga na literatura contemporânea e que causa uma certa confusão nos leitores, um outro expoente nacional é o Ricardo Lísias, também presente na antologia com o conto “Sem Movimentos Bruscos. No conto de Lísias, o narrador-personagem também é um autor de ficção ligado à universidade. Durante uma viagem de ônibus nos Estados Unidos conhece Claire, professora da Penn State. Seu desdém inicial pela senhora transforma-se em interesse na tentativa de apropriar-se da história dessa mulher para sua ficção.

Em “Saio não senhor”, de Maria Valéria Rezende, Clara é uma personagem que resolve se rebelar contra as falsas promessas dos políticos de sua pequena cidade, uma mulher que resolve dizer não e consegue o apoio das outras mulheres na sua causa. As pedras e os populares comparados a formigas evocam as fábulas gregas.

Em o “Caso da tartaruga”, de Nivaldo Tenório, a história de Maria Clara sai da boca do marido. Morta, mesmo quando viva. Traumatizada pela tortura na ditadura, Clara não fala, tem câncer e é comparada a uma enorme tartaruga morta na praia.

Sidney Rocha, em “Clara e Carmelita”, narra a história de duas amigas bem-nascidas, filhas de um embaixador e de um militar, que em algum momento do Golpe de Estado no Chile sofrem um revés.

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Aquarius. Foto: Mariposa Cartonera.

Os Joaquins

“Jogue a sua cabeça no telhado das casas mais pobres. Jogue sua cabeça para que os cachorros mais sujos lambam o seu rosto. Dê os seus olhos de comer aos pássaros mais famintos. Dê a sua língua aos insetos mais solitárias. Seus ouvidos servirão de casa para as lesmas mais vagarosas. Em “21 instruções para se chamar Joaquim”, Bernardo Brayner faz uma lista-manifesto que não deve ser cumprida.

Em a “República dos Quincas”, José Luiz Passos retoma os Joaquins revolucionários e deixa uma frase aos próximos Joaquins: “Se a morte do tirano é o preço da felicidade pátria, que razão haverá para que se desampare o bem da República?”.

No conto “Joaquim”, Maria Valéria Rezende cria uma personagem duplamente revolucionária, é Joaquim e Maria: “Uma mulher. Não pude deter o jorro de sangue a manchar e escorrer pelo couro da sela e por entre as pernas de meu calção que já fora branco”. A descoberta da sua identidade define seu destino, mas ela deixa uma importante mensagem carregada da força da linguagem de Maria Valéria: “Ninguém pode senão pela violência extrema tolher a liberdade de meus pensamentos e calar minhas palavras que usarei até o fim para dizer o quanto vos desprezo que não sois mais que escória humana revestida de rendas veludo e seda recheada da gordura mal cheirosa com que vos empanturrais, sujo e nojento tanto que, por mais que vos chamem ouvidor ou governador ou oficial ou seja lá o que for que vos chamem, se não me calarem à força eu vos insultarei sem cessar e escarrarei em vossa carant”.

Em “O osso escafóide de Joaquim”, escrito por Ronaldo Correia de Brito, Joaquim é um herói brasileiro. Tem 35 anos, filho bastardo do patrão com a empregada, esse sujeito que com sua ética própria se nega a buscar amparo na família paterna, se desgraça em enchentes, pobreza, cárcere, pequenos crimes e cria a ficção na sua própria vida performática, onde ele poderia ser tudo, mas não é nada.

Sidney Rocha, em seu “A alva”, se apropria da história de Frei Caneca, o Joaquim do Amor Divino Rabelo, religioso, jornalista, gramático, pensador, opositor do governo central conservador, “escritor de papéis incendiários” e um dos principais líderes da Revolução Pernambucana, que foi fuzilado pela comissão militar e faz dele o próprio Homem Vitruviano: “Um homem de braços abertos mede um homem de altura por um homem de largura. Era a medida geométrica certa que encontrara para abraçar as balas e o mundo”.

Quem quiser adquirir Aquarius e Joaquim deve acessar o site da Mariposa Cartonera.

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Joaquim. Foto: Mariposa Cartonera.

 

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