“Diáspora(s)”: vanguarda finissecular em Cuba

por: Pacelli Dias Alves de Sousa

A ideia de diáspora é antiga e tem sido rearticulada ao longo do tempo. Utilizado especialmente para falar das dispersões populacionais grega, judaica, armênia e africana, o conceito encorpou-se aplicado à perda das origens do povo hebreu, quando também tornou-se um problema teológico, possivelmente concepção mais utilizada até hoje. Trata-se, contudo, de um conceito que pode ser aplicado a diversos povos e, em conjunto, analisado desde distintas perspectivas, seja como problema histórico, geopolítico, antropológico ou, inclusive, poético.

Com aproximadamente 20% da população vivendo fora de ilha, a concepção de diáspora também pode ser utilizada para tratar do povo cubano (e das populações caribenhas em geral, como analisado por Stuart Hall). Para o historiador Rafael Rojas, é especialmente interessante pensar o conceito em comparação com a ideia de “exílio”, há séculos utilizada para tratar da população cubana no exterior, majoritariamente nos Estados Unidos – vivendo nas mais que conhecidas entrañas del monstruo, nos termos do patrono das letras cubanas José Martí, exilado. Este conceito já lhe parecia saturado e a contraposição é frutífera na medida em que traz para o jogo as mediações culturais, as hibridações e a agência da comunidade nestes novos espaços. Se a passagem de uma leitura a outra é interessante para pensar a tradição cubana, é também para melhor esboçar o papel de Diáspora(s) na história literária e intelectual de Cuba.

Ilustração: Abstration, de Rafael Cruz Azaceta.

Ilustração: Abstration, de Rafael Cruz Azaceta.

Composto por Rolando Sánchez Mejías, Carlos A. Aguilera, Rogelio Saunders, Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer, Ricardo Alberto Pérez, José Manuel Prieto e Radamés Molina, o grupo promoveu diversos eventos literários desde o começo dos anos 1990, quando começaram a articular-se, além da edição independente de uma revista homônima veiculada entre 1997 e 2002. Sobre o nome escolhido, diz Idalia Morejón Arnaiz (em prólogo à edição brasileira):

“Que tal termo apareça como nome de um grupo literário e, posteriormente, como título de sua revista, com uma letra ‘s’ ao final entre parêntesis, denota, em primeiro lugar, que as zonas de acolhimento a que se submete a literatura são múltiplas e, em segundo lugar, que em tais traços se hospeda uma marca plural, de dissensão escritural, heterogênea”

O termo passa a ser tomado metaforicamente e aplicado como reivindicação à própria produção literária, que passa a reivindicar novas rotas desde sua autonomia; novas políticas para a escritura apoiadas em leituras críticas ao nacionalismo, ao cânone e à política cultural do governo revolucionário castrista. Se seguirmos a lógica da metáfora, é importante atentar aos fatores envolvidos no deslocamento, o que afinal é constitutivo de toda diáspora. Em termos estéticos, há uma forte preocupação no grupo em distanciar-se da poética (ou da constelação em torno da poesia e do nacionalismo) formulada pelos autores de Orígenes, revista editada entre 1944 e 1956, por José Lezama Lima.

Se, como apontava o título, não se pensava em uma só origem, tampouco aqui se pensa em só um lugar de chegada para a diáspora. Neste deslocamento proposto, que não é humano, mas da língua literária, há um vetor de rompimentos rizomáticos no fazer poético em direção a outros gêneros e possibilidades de expressão (daí o recorrente uso da poesia visual, da poesia performática e, de modo geral, da poesia conceitual pelo grupo), baseadas também em leituras outras, deslocadas do Góngora-Mallarmé de Lezama, para as traduções de John Ashberry, Robert Creeley, John Cage, Ernst Jandl, Deleuze & Guattari, Derrida e Joseph Brodsky, entre outros.

A reiterada evocação de Orígenes, contudo, menos que efetivamente apagá-la, reforça sua presença como arquivo na memória dessas novas diásporas, talvez como possível nação (imaginária, como toda nação), de onde partiu a dispersão, essa vista positivamente, em suas possibilidades para trocas culturais, e não como despojo originário. Em plena crise do Período Especial, a produção de Diáspora(s) pode ser lida como um processo dinâmico de interatuação da língua cubanensis com as (pós)vanguardas do século XX, desafio à identidade cubana e um questionamento da soberania nacional, desde o espaço reivindicado da literatura.

***

Como parte da coleção dedicada à literatura caribenha, a Malha Fina publica a antologia bilíngue Diáspora(s). A organização ficou por conta de Idalia Morejón Arnaiz, pesquisadora que tem se dedicado à poesia do grupo e que também assinou o prólogo do livro em “Notas sobre Diáspora(s)”. As traduções, por sua vez, ficaram a cargo de Ellen Maria Vasconcellos, Clarisse Lyra, em trabalhos individuais e Caroline Costa Pereira, Liliana Marlés, Gabriel Bueno, Adriana Silva, Robson Hasmann, Ramiro Caggiano Blanco e Yedda Blanco, em traduções colaborativas.

O livro vai estar em pré-venda na 2ª edição da Feira SUB de arte impressa e edições independentes, dia 16 de setembro, das 11hs às 21hs na Biblioteca Municipal Professor Ernesto Manoel Zink, em Campinas/SP.

Realizada pelo The Mix Bazar, a feira é gratuita e pretende ser um espaço dedicado a publicações que circulam fora do meio editorial tradicional. Para os interessados, além das bancas com diversas editoras do Brasil, o evento conta ainda com uma agenda de debates e palestras sobre o universo editorial independente. Esperamos todos lá!

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Feira Sub – Arte Impressa e Publicações Independentes. Dia: 16/09/2017. Horário: Das 11hs às 21hs. Local: Biblioteca Pública Municipal “Profº Ernesto Manoel Zink” – Campinas/SP.

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