Grupo Diáspora(s): uma poética de ruptura (parte II)

por: Aryanna Oliveira

Na quarta-feira passada (30) apresentamos três dos autores que compõem a mais recente antologia da Malha Fina, Diáspora(s), a saber: Rolando Sánchez Mejías, Rogelio Saunders e Ricardo Alberto Pérez. Seguindo a ordem de aparição na coletânea, hoje elucidamos trechos da poesia de Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer e Carlos A. Aguilera.

Pedro Marqués de Armas é poeta e ensaísta, que atualmente reside em Barcelona. Entre suas publicações estão Fondo de ojo, Los altos manicomios, Cabezas, Óbitos e Fascículos sobre José Lezama Lima. Figura constante em jornais e publicações literárias, sua poesia se caracteriza por uma abstração, à primeira vista, como uma latente intangibilidade. Entretanto, essa característica funciona como um recurso de ironia, com uma consequente rispidez disparate. Na própria definição do poeta, em uma das edições da revista Diáspora(s), sua literatura estaria no entremeio de tipos, resultando em sua especificidade. “Ni vanguardia ni nueva fundación. Ni arqueología ni tabula rasa. Acaso un poco de todo eso: procesos que retoman la escritura como ilusión y a la vez como simulacro que enmascara sus propios límites. […] En fin, una literatura que se despliega como maquinita de guerra sin caer en posiciones roñosas o partidistas”.

A escrita de Marqués de Armas é densa, provocativa e apurada, por isso exige releituras, para que o leitor desvende cada uma de suas muitas camadas poéticas, escritas em uma sintaxe complexa. As características de seu estilo podem ser percebidas já nos primeiros trechos de “Claro de bosque (semiescrito)”, poema apresentado na coletânea da Malha Fina, em que se percebe uma aparente abstração, que vai se resolvendo em seu desenvolvimento poético. Sua obra diz muito sem saturação, alcança o leitor na supressão das palavras, no pouco que muito diz.

Claro de bosque (semiescrito)

Trecho de “Claro de bosque (semiescrito)”, de Pedro Marqués de Armas. Poema trazido como “Clareira de Bosque (semiescrito)” por Clarisse Lyra.

Ismael González Castañer nasceu em Havana, onde até hoje reside. Poeta, ensaísta e narrador, escreveu as obras Canciones del amante todavía persa, Mercados verdaderos, La Misión, e Disfuerza. Com seus trabalhos ganhou prêmios como o David de Poesía, em 1997; o Dador del Instituto Cubano del Libro e o Nacional de la Crítica, em 1999; o Nacional de Ensayo Vidimia, de 2003; entre outros. Reconhecido internacionalmente, teve suas publicações traduzidas para o inglês, francês e português, tendo, além disso, sido convidado a importantes eventos como o Festival de Poesía de Medellín, na Colômbia, e a Bienal Internacional de Poetas em Val-de-Marne, na França. Assim como Marqués de Armas, é figura constante em jornais e outras publicações literárias cubanas especializadas.

A obra do poeta, que abandonou a engenharia mecânica para dedicar-se à escrita, se caracteriza por um estilo que se mescla entre o estilista dedicado e o popular. Suas obras são verdadeiras performances desenhadas em pares antagônicos que garantem a profundidade das intenções e dos sentimentos, como se constata no trecho a seguir, do curto e vigoroso “Vaho que sentí yo el sábado”:

Vaho que sentí yo el sábado

Trecho de “Vaho que sentí yo el sábado”, de Ismael González Castañer. Poema traduzido por Gabriel Bueno e Adriana Silva como “Bafo que senti no sábado”.

Fechando a antologia, Carlos A. Aguilera, poeta, ensaísta e narrador, é apresentado através de “Mao”, poema que se destaca pela forma e pelo uso de ideogramas. Sua poesia, aliás, se distingue no entrecruzamento da poesia experimental, do teatro, da escrita e das artes conceituais, o que atesta que Aguilera seja considerado um dos grandes expoentes da poesia performática entre os autores cubanos do final do século XX.

Trecho de “Mao”, de Carlos A. Aguilera

Trecho de “Mao”, de Carlos A. Aguilera. Poema traduzido por Robson Hasmann e Ramiro Caggiano Blanco.

Nascido em Havana, o escritor, que hoje reside em Praga, é autor de obras como Retrato de A. Hooper y su esposa, Das Kapital, Teoría del alma china, Discurso de la madre muerta, e El imperio Oblómov, além das antologias Memorias de la clase muerta, Intelectuales e Estado en Cuba. Por esses e outros trabalhos foi contemplado com prêmios como o David de Poesía, em 1995 e, com a bolsa da Fundación Cintas, em Miami, em 2015.

A poesia de Aguilera apresenta-se em perfeita consonância com as características do Grupo Diáspora(s), pronunciadas em posfácio à antologia da Malha Fina Cartonera, organizada por Idalia Morejón Arnaiz. O grupo, que iniciou suas atividades entre 1993 e 1994, apresentou-se sempre ligado à performatividade, à arte conceitual e ao experimentalismo, demandando uma renovação crítica e uma poesia de pensamento. Esse experimentalismo é percebido na obra de Aguilera de forma expandida.

Em entrevista a La Habana Elegante, o poeta de Mao define sua obra poética, mas acaba por definir muito do exercício de criação de todo o grupo, uma criação vanguardista, performática e de difíceis definições, que convida a adensamentos pela releitura que sempre apresenta novas sensações. “Creo que mis textos, igual el género en que finalmente hayan sido escritos― tienen detrás cierta stimmung del teatro, cierto devenir teatral; y por eso son a veces tan exagerados o lúdicos (o exagerados y caricaturescos). No concibo casi nada que no haya pasado previamente por, como decía antes, cierta cuchillita teatral, cierta ‘disección’ que sólo te da la escena. Incluso, mis poemas, a veces tan difíciles para algunos, siempre tan abstractos, pasan por esto que vengo diciendo, por ese drama que para mí fluye por debajo de todo”.

Pedro Marqués de Armas, Ismael González Castañer e Carlos A. Aguilera.jpg

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