“A cidade e o bosque”, de Edgardo Rodríguez Juliá

Tradução de: Pacelli Dias Alves de Sousa e Chayenne Orru Mubarack

Em Piñones, depois do aeroporto Luis Muñoz Marín e esse largo trecho de praia que culmina o litoral marítimo, passando a ponte da Boca de Cangrejos, desde o qual se divide todo o perfil costeiro de San Juan, encontram-se os lugares sombreados, perto do manguezal, à vista essas lagoas secretas – a de Piñones e a de Torrencillas – que são o bosque aquático da cidade, seu destino esquecido. Piñones é o bosque de coqueiros e manguezais em que a cidade chegou, os pinheiros que semearam-se para domar os ventos do furacão, o lugar quase selvagem.

Piñones também é o lugar de Puerto Andín – “atrás do quartel a direita, e quando estiveres a ponto de cair do cano, aí está”… –, porque a cidade é consequente ao cultivar esses lugares na metade do caminho entre a clandestinidade e o rumo criminal, restaurantes, lojinhas e espeluncas, bancas e bares com salões para o adultério ou os amassos, a pista atrás de alguém da mesma maneira que a solidão te persegue.

Não queiras chegar até Vacía Talega ou a lagoa de Piñones, com suas águas cinzas e terrosas, com sua baixa maresia quase no nível da grama bem cuidada, com sua população ancestral de negros descendentes de escravos fugitivos. Hoje ficarias do lado de cá da cidade, não arriscarias à aventura da criança que vivendo em Piñones poderia estar na África, porque a cidade de San Juan, nessa distância bosque adentro, é um clarão diante do mar, um resplendor que alcança o céu.

Ficas do lado de cá e recordas a passagem de teu romance Mujer con sombrero panamá: “É como me dizia um velho fodedor: Puerto Andín é o lugar onde você traz a garotinha quando quer impressionar; é um lugar, se liga, com a natureza, e ela vai pensar: caralho, esse cara sim que sabe disso”. Mais à frente insistes em que é o lugar secreto: “É o lugar secreto, lugar para beber, com um amigo ou cúmplice, confidências incômodas. Um dos sitiozinhos, telhado de zinco e com paredes de placas de alumínio foi equipado com os móveis velhos da sala de alguma casa na Avenida Puerto Rico: estão forrados de plástico, porque passaram a funcionar melhor sob o solzão ardente, aí abandonados na escassa brisa do mangue cheio de miasmas. Só presto atenção nas coisas, as pessoas que estão perto nem as ouço”.

Então sentas na cadeira preferida de Manolo para passar a brisa da verdinha, o que hoje chamam cripy: “Também está aí, no sitiozinho do lado, essa cadeira de barbeiro, e me pergunto se devo me sentar nela um pouco para apaziguar os nervos e a nota – be cool, gardez votre calme, coge por la sombrita –. Chega-me a ideia súbita de minha própria insuficiência como facilitador. Esse sentimento me assalta, torna-se urgente, perturba-me. Não há lugar onde me sinta mais criança que em uma cadeira de barbeiro. Sentei-me. Chegou a catatonia”… Manolo poderia, no próximo romance, fumar o cripy da feroz adolescente a qual encomendaram-lhe quase como tutor, e ficar pressionado de torpor nessa cadeira de barbeiro, convencido de que o caldo de peixe que tem na pança é o Lago Titicaca… Justamente como te aconteceu no Flamingo da 65 da Infantaria sobre os tamboretes da Barra, depois de ter comido um tremendo ensopado de camarões…

Ou então poderias subir até The Reef e não comer esse bolinho de carne cúmplice para curar os munchies. E pensarias que na verdade há dois caminhos Mulholland, dois Mulholland Drives em San Juan; talvez não foram pintados por David Hockney, mas os dois são vistas quase aéreas desde a ponta ou do monte, e a cidade fica abaixo tão passiva, tão protagonista, ao fim tirada do traje cotidiano e convertida em personagem.

Chegaste à The Reef de noite. Ouvem-se as bolas de bilhar, chocando com a insistência do lugar aonde irias antes do suicídio. Se Hunter Thompson tivesse conhecido The Reef, teria ficado aí como falador cantineiro até adorar Porto Rico e amar os portorriquenhos. The Reef é o bar na ponta desde o qual se observa o resplendor da cidade, a escuridão do mar que a acolhe, o grande litoral cheio de edifícios iluminados, um barco turístico que não se atreve a zarpar porque entrou nele uma mania de perseguição.

O outro lugar ao qual só é possível chegar de carro, e que sobes pela estrada tortuosa, é o setor La Lomita, em Los Filtros, Guaynabo City. Mas aí não moram os desesperados, tu o sabes, mas os ricos. Quando tiram suas Rodwheilers para passear e German Sheperds no entardecer, abaixo está a cidade como espaço de seu domínio, de sua ambição. De dia, olham-na e parece que trabalha para eles; à noite a contemplam e parece que eles a iluminam. La Lomita é o lugar onde mora a bem-soante filantropia e o “crack” nunca chega porque há guardas privados.

Em The Reef é tudo o contrário: observas a cidade desde lá em cima e não podes admitir que essas colmeias onde a cidadania se entrega ao traje cotidiano da alimentação e a eliminação, o asseio e a procriação, o amor e o desamor, seja uma verdadeira Sodoma. Com três gins na cabeça pensas na adolescência como uma busca incessante de prazer, o amadurecimento como uma tomada do poder e a velhice como um apetite louco de futuro, de imortalidade. Lá embaixo está o pecado, o mundo, e aqui em cima o desconsolo da filosofia, repetes. De cima, desde a colina, ou desde a ponta do profeta, todas as cidades são Sodomas ou Gomorras. As panorâmicas têm a maldição de converter a cidade em objeto de teu juízo. E sempre julga mal quem melhor fracassa. Isso também é certo e é o primeiro a admiti-lo. Que fiquem lá embaixo comendo e cagando, injetando cocaína e fumando crack, fodendo como um louco e parindo adoidado, mijando com Lasix antes de se dopar, chacoalhando ladrilhos e acendendo cigarros, morrendo, disparando, nascendo, lendo Coelho, ensinando Fucô, cantando salsa, rezando, pensando, estudando, praticando aeróbicos, visitando Plaza, sobretudo criando lixo, degustando sushis e elogiando Tego, nadando os cinquenta metros de pura merda. Deves abandonar The Reef. A vista de San Juan desde essas alturas, já não tens a equanimidade da filantropia bem pensante, converte-te em misantropo; logo te unirás a Hunter Thompson no desprezo do “medieval asylum” que restaurou Dom Alegria bomba é. Desce desse monte perigoso.

(de San Juan, ciudad soñada. San Juan de Puerto Rico: Editorial Tal Cual, 2005)

 

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¿Cómo son las cosas, compay?
Foto tirada do el país

Edgardo Rodríguez Juliá. Fonte: El País.

Se é verdade que nesta crônica não se narra nada, também é verdade que se constroem curiosas imagens sobre Porto Rico. Da capital San Juan ao Bosque de Piñones. Da capital San Juan à rua Los Filtros, em Guaynabo City. Da capital San Juan à San Juan literária de Hunter Thompson. O narrador se deixa descentralizar geograficamente, caminha em busca de outras perspectivas sobre a cidade e deste modo, empreende também a busca de uma perspectiva própria, entre memória pessoal, história e ideários outros. A vendável representação de um exótico, paradisíaco e turístico Caribe vai aos poucos se desfazendo: vêm à luz a herança africana sufocada pelo comércio, as desigualdades sociais e as questões que envolvem a vida callejera na ilha.

“A cidade e o bosque” é uma crônica, originalmente publicada em San Juan, ciudad soñada (2005), conjunto de textos sobre a capital portorriquenha, segunda capital mais antiga das Américas. Edgardo Rodríguez Juliá, nascido em 1946, é romancista, cronista, ensaísta e atualmente professor de literatura na Universidad de Puerto Rico, em Río Piedras, onde vive. Desde 1974, quando lançou La renuncia del héroe Baltasar, seu primeiro romance, já publicou mais de 20 obras, inclusive Mujer com sombrero panamá (2004), mencionado no texto. Em 1995 ganhou o prêmio internacional de narrativa Francisco Herrera Luque por Sol de medianoche. É um dos expoentes da crônica latino-americana.

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