Sangria – Entrevista e Poemas de Elen Juanini

por: Cristiane Gomes

Elen Juanini

Elen Juanini. Foto: Hugo Bachiega.

Surgiu na Alameda Nothmann com uma cintilante camisa cor de rosa, pois estava “vestida de coxinha para testemunhar em uma ação trabalhista”. Elen Juanini tem 28 anos, foi criada no Jardim Miriam e começou a trilhar seu caminho na literatura com a publicação do independente poemas simples e domésticos (2015), escrito enquanto moradora do Bixiga. Agora, vivendo nos arredores do metrô Marechal Deodoro, a poeta prepara seu próximo trabalho: pedra filosofal.

Conversamos sobre a vida real, as dificuldades de se manter em São Paulo, fugas da polícia em manifestações, a política higienista do Dória, saraus constrangedores e também sobre escrever poesia, que é a parte da conversa que você pode acompanhar abaixo, seguida pelos poemas Eles e nós, Apelo, Loja de Artigos Femininos e Juno.

Cristiane Gomes: Elen, quando você se percebeu poeta?

Elen Juanini: Sempre escrevi de tudo, desde pequena, nem sempre poesia, mas aos 22, mais ou menos, não faz tanto tempo assim, comecei a escrever só poesia.

CG: Eu percebi uma presença muito forte de um modelo feminino tradicional no poemas simples e domésticos, no qual há rachaduras, mas elas são expostas sutilmente. A mulher do seu livro, apesar de ser uma mulher livre, está presente na família, na cozinha, na cama. Um ser doméstico. O que é muito interessante, pois na vida você não é exatamente uma representante desse modelo.

EJ: Deixa eu pensar sobre a minha vida… Percebi muito cedo que existia esse modelo e resolvi romper com ele de diversas formas possíveis. Eu tinha um comportamento mais masculino, mas percebi que exaltar o padrão da masculinidade é exaltar o preconceito contra a mulher, é negar a si mesma. O livro surge a partir disso, como tentativa desesperada de romper com esse modelo, desconstruí-lo, sem saber exatamente como, ou quais os limites; de querer entender o que é ser mulher, sem tentar ser homem, mas como o padrão é muito forte, é difícil romper completamente com tudo. Talvez os poemas desse livro tenham sido uma tentativa de romper com os padrões criando um lugar que chamo “sem lugar”. No “sem lugar” você não precisa necessariamente ser mulher, homem, nada. Ele é. Simplesmente. Ele não cria um modelo novo, porque não responde a nada. A arte não responde a nada, é uma inquietação, uma vontade de não querer ser.

CG: Sua poesia, é a poesia de uma mulher trabalhadora. Do trabalhador dessa nova classe, que teve acesso à educação, que escreve e que se coloca politicamente. Como você vê a poesia contemporânea brasileira nesse sentido?

EJ: A poesia contemporânea brasileira me deixa bastante triste, no geral. Tenho tentado analisar se não estou sendo preconceituosa, se não é uma implicância minha. Eu vejo muita técnica, muita academia, mas pouco o que dizer, pouco espírito, pouca alma.

A questão do trabalho, pra mim, sempre esteve ausente da poesia. Se faz poesia sobre o trabalho, mas de fora, na terceira pessoa. Eu como sou uma trabalhadora, pertenço mais ao mundo do trabalho e menos ao mundo acadêmico. Não que sejam excludentes, eles formam o que eu sou nesse mundo, meu jeito de ser, ideias, poemas. Acredito que a minha poesia não é exatamente periférica, trabalhista e também não é uma poesia acadêmica. Assim como eu, ela transita por esses dois mundos, representa a ideia desse intelectual orgânico, e, nesse sentido, talvez ela seja mais intuitiva do que profissional. Com certeza ela é mais intuitiva que profissional. Com certeza ela não é profissional. Gosto muito do que a Clarice fala da escrita amadora, que é escrever com amor.

Eu vejo a academia hoje como uma fábrica de poetas, uma produção em série de poetas, que pressupõe uma série de paradigmas, como por exemplo que um poeta de verdade tem que ler e escrever em várias línguas, o que não tá em conformidade com a realidade da população. Outro dia assisti a uma entrevista do Mia Couto em que ele falava que escrever em português é uma resistência cultural contra o imperialismo da cultura americana.

CG: E sobre a simplicidade estética, sua escolha por um vocabulário reduzido, do texto ter uma leitura fácil, sem intrincamento, pedantismo cultural ou exibicionismo.

EJ: É uma escolha consciente, ligada à necessidade de transmitir, de chegar aos lugares. É engraçado que quando eu escrevo um poema meu critério de avaliação é: a minha mãe entenderia esse poema? as minhas tias entenderiam esse poema? Isso eu acho interessante, que embora meu trabalho não seja conhecido, pessoas que não são leitoras de poesia e chegaram a ele conseguem sentir a poesia disso.

Pra mim, a simplicidade é um valor muito importante. Eu também gosto dos escritores que usam palavras comuns e isso também faz parte da minha formação e faz com que eu valorize uma visão de mundo que enxerga nas coisas comuns, cotidianas e simples as coisas misteriosas, profundas e cheias de significado.

CG: E que escritores são esses que fazem parte da sua formação?

EJ: A Clarice Lispector, que não é o que seria pressuposto de eu gostar […] como exemplo dessa simplicidade, eu gosto muito do Murakami, que tem uma escrita simples, e do Tchekov, que tem uma simplicidade invejável dentro de uma visão de mundo profunda.

O título do meu livro vem do Murakami, porque eu não leio em outras línguas, e nas traduções da Lica Hashimoto ela usa muito a palavra “simples”. No Murakami a palavra “simples” é usada como adjetivo em vários momentos, uma coisa que aparece muito são jantares simples que as pessoas preparam pra comer sozinhas, um cotidiano autêntico, de roupas simples. E um cotidiano autêntico pra mim não é barroco, ele é simples. Pensei nesse doméstico como simples, não burguês, comum.

Uma inquietação que eu tive depois que escrevi esse livro foi que os poemas que escrevi imediatamente depois e por algum tempo depois se pareciam muito com poemas simples e domésticos. Eles eram todos poemas simples e domésticos e, de alguma forma, isso me deixou feliz e triste. Fiquei feliz, porque eu talvez pensasse que finalmente havia descoberto um estilo pessoal, uma forma muito minha de me expressar por palavras. E o que me deixou triste, foi chegar a conclusão, por exemplo, de que quando eu escrevia sempre olhava pra dentro, mesmo tendo interesse pelas coisas que me cercavam, meus poemas eram sobre o mundo, mas eram sobre mim. Fiquei pensando se o que eu estava fazendo era poesia ou se eu estava me masturbando em público.

A partir daí eu comecei a fazer o esforço consciente de olhar pra fora, ao invés de olhar pra dentro. A partir desse esforço e de outras coisas, como novas referências poéticas, que percebi que comecei a fazer um trabalho novo que se chama pedra filosofal, que reflete sobre a questão do crack na sociedade.

CG: Por que trabalhar esse tema?

EJ: Esse tema surgiu, quando eu deixei de morar no Bixiga, que muitas vezes foi o cenário do Poemas Simples, e é um bairro que o pessoal do oficina costuma chamar de periferia central. Um bairro de centro, com características periféricas que são: ter gente pobre vivendo, manifestações culturais populares. E eu, sendo da periferia, me sentia muito à vontade naquele bairro. É um bairro extremamente alegre. Eu vejo um bairro formado, por nordestinos, italianos e quilombolas, que são culturas alegres, expressivas e musicais, que fazem o Bixiga ser um bairro muito alegre, apesar da pobreza, das pessoas em situação de rua, de partes mais violentas, perigosas. Eu me sentia muito em casa no Bixiga. Era como se meu bairro da periferia tivesse sido transportado pro centro com todas as características culturais. Depois eu vim morar na Santa Cecília, e aqui me deparei com uma realidade muito dura, que eu não consegui e nem quis ignorar que é a realidade dos moradores de rua, e o que é pior, é a realidade dos moradores de rua vivendo dos restos desprezados por Higienópolis.

CG: E você acredita que como poeta tem um papel social, político a fazer?

EJ: Eu acredito que sim. Não acredito na arte pela arte, nem que o meu papel seja ser porta-voz de nenhum tipo de movimento ou tendência específica e que eu tenha que abrir mão das minhas opiniões pessoais ou poéticas para transmitir uma mensagem específica. Eu acredito, como no poema do Ferreira Gullar, que o meu poema nasce junto com meu povo, e se eu sou poeta, sou também uma cidadã, um ser político, uma mulher. Eu vim da periferia, e  nunca vou conseguir desvincular meu olhar disso, porque essas coisas fazem parte de quem sou. E eu nunca vou conseguir olhar o outro com indiferença. Outra coisa que eu não vou conseguir é deixar de criticar as coisas, se eu critico tudo, até a poesia, como eu não vou criticar os problemas sociais?

CG: Elen, obrigada por compartilhar seus pontos de vista e poemas conosco. Quais são suas considerações finais?

EJ: Temos que fugir da academia o quanto pudermos, a vida tá na rua e a poesia tá na vida. E temos que, como artistas, fazer o máximo que pudermos para tornar a arte popular. O que eu mais gostaria de fazer pela poesia é torná-la uma arte popular, e a poesia se tornar mais popular não é um defeito, ser popular é uma qualidade, pois a partir de quando você traz mais pessoas pra entrar, discutir a poesia, você a enriquece com essa leitura, com a leitura dessas pessoas. Criar um público cada vez maior leitor de poesia é fundamental para que a poesia cresça.

Contato da Elen: juaninielen@gmail.com

Eles e nós

O homem dá o nó
na gravata
o homem dá o nó
O homem dá uma
gravata
O homem dá o nó
e aperta o pescoço
As mãos do homem
tecem nós apertados
As mãos do homem
são brancas
são limpas
são limpas?
mas são brancas
e não tem manchas
que se possam ver
As mãos do homem
branco dão nós
e carregam pastas
só pastas carregaram
nenhum peso maior
Nos seus dedos, anéis
que ficam enquanto
vão-se os dedos
que dedos?
As mãos do homem
que tecem nós
que tramam nós
que apertam o pescoço
que sufocam
que enforcam
que pescoço?
Diante do espelho
o homem e seus homens
homens e brancos
apertam nós
apertam nós
apertam.

Apelo
(Em desacordo com a nova ortografia)

Cabeluda,
a buceta cospe gente no mundo
e gente é mamífero e tem pêlo
e tem macho e tem fêmea
e tem algo dos dois
em cada um.
O cabelo da buceta não mente:
é de verdade
e o corpo anexo à buceta
é de verdade.
Mulheres, como homens,
têm pele, têm pêlo
e o pêlo eriçando na pele
quando a pele roça na pele
e a pele roça no pêlo
e o pêlo roça no pêlo.
Beijo na boca, língua no pêlo,
pêlo lá fundo na garganta
que a mulher pode aceitar
sem nojo
então sem nojo
o homem pode aceitar
o pêlo na garganta
o dedo no cu
o gozo na cara
(eu gosto e ele convém gostar)
Roçar o pau na minha barbicha
de lisos, lustrosos pêlos
que certa vez um escandinavo
Avança a civilização,
marcha o progresso
pelo corpo humano
desmatando a mata
Amazônia a baixo
tornando tudo
padrão código
série plástico
mas minha buceta
não é de plástico
embora algumas de plástico
tenham estranhos pêlos, veja bem
é quente e pulsa viva,
criativa minha buceta
e sem ela eu não seria eu.
Cada pau, cada genital é único
A minha buceta é cabeluda,
selvagem por direito natural
e quem não quiser,
não come,
normal.

Loja de Artigos Femininos

Juno

ela / ele
elu : elo

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Estamos selecionando material para a seção Sangria do blog da Malha Fina Cartonera. Se você quer ver seu trabalho publicado aqui, envie pelo menos 3 poemas ou uma narrativa curta e uma breve biografia para: crix.gomes@gmail.com

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