Sobre a grandeza das pequenas coisas: nas entrelinhas de “Crisântemo é um nome bom”, de Mauro Souza

por: Aryanna Oliveira

Há alguns dias a Malha Fina Cartonera apresentou o autor de O coração em si, Elvio Fernandes Gonçalves Junior, um dos vencedores da Primeira Convocatória de Narrativa e Poesia para autores inéditos, e, hoje, é dia de conhecer melhor Mauro Souza, autor do outro livro que será lançado na próxima quinta-feira, 18, na FFLCH (link do evento).

O estudante de filosofia da USP, traz em Crisântemo é um nome bom ― coletânea de poesias especialmente reunida para a convocatória ― um lirismo ácido do cotidiano, uma poesia com gosto das coisas pequenas e simples, com um tom de contar história que flui, mas que faz refletir e que permite ao leitor se reconhecer nas linhas do outro. E não é de se estranhar, pois conversar com Mauro é como reencontrar um velho amigo, sempre uma boa conversa, um sorriso no rosto, um chamado à identificação, características que refletem com maestria em seu trabalho, desde as primeiras linhas.

Mauro Souza. Foto: Aryanna Oliveira.

E, nesse “contar a vida que segue”, o ciclo começa com “Nasci e chorei as 24 horas do dia”, que, como um abre alas da obra, funciona também como o início de um fluxo (do livro, ou da vida), um princípio que causa desespero, que é chorado, vigiado e febril.

NASCI E CHOREI AS 24 HORAS DO DIA
para desespero de freiras frias
tudo de mim escapava
quase até a vida ainda cedo
no sarampo
mais a pneumonia
tudo me escapava
menos o céu
onde os olhos afundavam
me roubava as horas
cresci meio triste com o quê?
vigiando sem sono janelas
o menor dos ruídos
imberbe
e um 38 dormia dentro da mala com fotografias
gastei a vista desenhando em nuvens
a sola do pé nas ruas de terra
e a paciência esperando a madrinha
um brinquedo
esqueci seu nome.
fui batizado às pressas
lembra?
febril
fervendo a água da pia
escapei de boas
e a lembrança mais antiga que tenho de mim.
não é minha.

Mauro fala de tudo em suas poesias, “até garrafa térmica”, isso porque segundo ele há uma espécie de encontro metafísico entre o “eu” do autor e a “coisa” a ser escrita, e esse encontro permite uma sintonia com o múltiplo e com as mínimas coisas: “Você pode falar de crisântemos ou daquelas azedinhas que nascem em qualquer pé de muro e o valor poético significar igualmente para as duas” ― filosofa o autor.

Entretanto, essa aparente simplicidade do cotidiano nas linhas de sua escrita é tratada com a laboriosidade que o ofício merece, pois ainda que a inspiração venha de tudo e qualquer coisa, há para ele um “porém” a ser considerado durante o processo de composição.  “É preciso trabalhar o texto, caso contrário, posso dizer que é muito difícil que saia algo que valha a pena”, reitera.

Em seu trabalho o cotidiano é pensado para além da observação de pormenores, atingindo um estudo social mais elaborado e evidente em certos momentos. “Penso que existe uma certa preocupação política, social, que perdura. Isso vem desde o começo, desde os primeiros textos que escrevi”, explica Mauro. Essa característica pode ser percebida em “Estivemos Ombro a Ombro”.

ESTIVEMOS OMBRO A OMBRO
defendendo as linhas da velha comuna,
ouvindo o assovio do chumbo
e seu baque seco nas barricadas.

estivemos ombro a ombro
enquanto nosso sangue se misturava
sobre a terra sempre prometida

estivemos ombro a ombro
distraídos nas linhas de montagem
sonhando melhores dias
e máquinas nos devoravam
ora uma mão, um braço, muitas vidas.

ao meu lado, oprimido contra o muro,
e a sanha dos capitães-do-mato
em seus uniformes calcinantes

(…)

ombro a ombro chorando nossos companheiros
insepultos e vaporizados, misturados ao ar
os respiramos, todos os respiram,
mais que ao lado, agora e adiante,
em toda parte, unidos.

A paixão do Mauro pela música (ele canta no Coral da USP), assim como  a participação e importância da mãe em seu desenvolvimento como escritor, também são lembrados em suas linhas. Da mãe, inclusive, conta que ela fora, em muito tempo, seu único público. “Eu costumava ler meus poemas para minha mãe enquanto ela preparava o arroz, ou lavava uma louça. Ela sempre dizia que gostava… mãe só tem uma (risos)”.

MINHA MÃE NO TANQUE
lava, na água mais que fria,
as roupas do dia.

Para o escritor ― que cresceu ouvindo Cartola, Milton, Chico e Elis, e, que acredita que todo mundo uma vez na vida deveria ler Machado, Dostoiévski, Clarice, Pessoa, Victor Hugo, Drummond, Raduan e Rimbaud ― projetos como o da Malha Fina Cartonera são muito importantes não só por apresentar novos talentos, mas pelo poder de combate das palavras trazidas a público. “Caramba, eu acho que projetos assim deveriam conquistar o mundo! (risos) Isso é muito necessário, precisamos ler mais gente como o Elvio e tantos outros que a Malha Fina edita e revela. Desengavetar essas produções e trazer à luz com essas edições tão legais, artesanais, é muito bonito. Eu diria que isso é guerrilha, com tudo o que essa palavra implica”, finaliza o autor que em Crisântemo é um nome bom encerra o ciclo da obra com o envelhecer: da casa, como metáfora da vida.

CASA ENVELHECIDA,
vizinhos idos e a chuva,
a mesma da infância.

crisântemo

“Crisântemo é um nome bom”, de Mauro Souza. Foto: Aryanna Oliveira.

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