O Passo a Passo Cartonero da Malha Fina

por: Larissa Pavoni Rodrigues

Por ser um espaço difusor de literatura e de publicação independente na Universidade de São Paulo, a Malha Fina Cartonera pretende estimular e dar visibilidade a autores inéditos em nosso meio e fora do ambiente acadêmico também.

O objeto livro, neste caso, é mais do que aquele já conhecido das estantes e bibliotecas. Os livros cartoneros são confeccionados de maneira relativamente simples e barata, com capas feitas à mão, individualmente, com papelão reciclado e folhas costuradas à mão: cada edição é peça única em si mesma e sustentável na mão do leitor. Sustentável na medida em que movimenta o trabalho e a renda de catadores e cooperativas – o quilo do papelão é comprado a um preço bem maior que os R$ 0,20 que normalmente vale.

O nome “Malha Fina” vem da lâmina que pretende desnudar outras faces, outros meios. Abre caminho ao novo, à formação e publicação de novos estudantes, novas traduções, revisões, projetos gráficos e etc. Materializa-se da necessidade de mais vida literária no nosso cotidiano, mais projetos formadores e transformadores.

Cartonera vem de cartón, palavra em língua espanhola que significa papelão. Significa também nosso material-base, fundamental. Trabalhar com ele é tão fácil e rápido que queremos incentivar mais autores, escolas (como já fizemos na EMEF Euclydes de Oliveira, na Escola Joycimara de Falchi e na IV Jornada Pedagógica), cursos, faculdades, a construírem projetos autônomos, difusores da ideia de um selo editorial que incentive a vida literária onde quer que esteja.

Por todas essas ideias, difundimos/demonstramos nesse espaço, o nosso processo de construção de um livro cartonero.

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Foto: Julia Izumino.

Materiais e modos de fazer

O Corte do Papelão

Das caixas de papelão coletadas extrai-se o nosso material de trabalho. O papelão ideal para capas de livros são aqueles mais finos, com uma única ondulação, ou uma só camada. Assim, ele torna-se mais maleável, e mais fácil de ser manuseado, dobrado, cortado, etc. Deve-se estar atento em utilizar o papelão disponível para fazer o máximo de capas, evitando o desperdício.

  • Corte:
  • Estilete grande
  • Placa de corte (usada para proteção da mesa e para maior segurança no manuseio do papelão).

As formas de vidro causam maior aderência ao papelão, e o tamanho delas variam de acordo com o tamanho de livro desejado:

  • Forma de vidro de 15 x 21cm (8 mm) lixada.
  • Forma de vidro 32 x 21cm (8 mm) lixada.
  1. Posicionar a prancha na mesa e, sobre ela, o papelão.
  2. Segurar com uma mão a forma de vidro bem rente ao material, tomando cuidado com os dedos, e com a outra mão cortar o papelão no formato do vidro.
  3. Repetir o processo para fazer a capa e contracapa.

Costura

  • Novelo de linha encerada (da cor de preferência)
  • Agulhas grandes (devem ter entre 7 e 10 cm, com furos grandes)
  • Furador de encadernação (ou agulhão)
  • Martelo
  • Presilhas
  • Régua com a marcação da distância exata entre os pontos que serão furados e costurados.

Neste passo a passo ensinaremos dois tipos de costura: a japonesa e a simples. Ambas seguem o mesmo processo: prender com presilhas (como na foto abaixo) o miolo ao papelão; com a régua marcar os pontos de furo desejados, com o martelo e agulhão furar o miolo e papelão. Após isso, iniciar a costura.

Tanto a costura simples como a japonesa precisam de 4 furos: da base superior ao primeiro furo 3cm, deste ao segundo furo 6cm, deste ao terceiro 3cm, deste ao quarto furo 6cm e, por último, do quarto furo à base inferior 3cm. Na costura simples, os furos vão no interior e na metade do livro, aberto ao meio. Já na costura japonesa, com o refilamento, é importante furar deixando 1cm de distância com o dorso/lombada do livro.

A diferença é com o uso da linha. Em quase todos os furos da costura japonesa a linha passa pelo menos três vezes, já na simples apenas uma.

Outra diferença importante é que a costura japonesa é feita com o miolo do livro refilado, e duas capas de papelão no formato 15 x 21cm. Já a costura simples é feita com o miolo não refilado, e portanto, aberto ao meio junto ao papelão, e papelão no formato 32 x 21cm.

Costura simples: com um pedaço de linha de 30 cm aproximadamente, passe pelo buraco da agulha até restar 5cm mais ou menos, formando nesse pequeno trecho uma linha dupla. Nessa costura não se amarram as pontas da linha. Inicie no interior do livro, passando pelo furo superior, saindo e entrando novamente pelo segundo furo. Do segundo furo passar ao terceiro pelo interior do livro. Agora, você estará no lado de fora e passará para o quarto e último furo, terminando a costura no interior com um pequeno nó, cortando o que restar de linha.

Costura japonesa: essa é um pouco mais demorada e precisa de mais linha também. Corte 60 cm de linha aproximadamente, passe pela agulha e faça um nó nas duas pontas, assim ela ficará dupla. Comece por trás do livro, no furo inferior da contracapa, faça a volta, e dê outra volta passando pelo “pé” do livro. Neste primeiro furo a linha passará três vezes e a costura ficará como um formato de “L” virado para o furo. Vá para o segundo furo pela capa e faça a volta. Pela contracapa, passe ao terceiro e repita a volta. Nessa etapa, você estará na capa e, então, é só passar ao quarto furo repetindo o procedimento do primeiro: duas voltas, uma no dorso e outra na “cabeça” do livro.

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Foto: Julia Izumino.

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Colocar as presilhas, segurando o miolo à capa. Foto: Julia Izumino.

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Com uma régua e um furador, marcar o miolo com o espaçamento desejado. Foto: Julia Izumino.

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Com o martelo, furar o miolo e o papelão. Foto: Julia Izumino.

Pintura da Capa

  • Chapas de radiografia para o stencil
  • Pincéis chatos tamanhos 24, 22, 20, 16, 12
  • Tintas guache
  • Rolinhos de espuma
  • Tinta acrílica Acrilex (uma de cor escura e outra clara)
  • Caneta Uniposca
  • Spray de tinta

A pintura da capa é a etapa mais livre e criativa do processo. Ela pode ser feita de diversas maneiras: com tinta guache, pincéis e rolinhos de espuma; tinta acrílica e stencil para colocação dos títulos dos livros; ou usando spray e stencil. A caneta Uniposca serve para o contorno das letras nos títulos. Pode-se usar, também, técnicas de colagem de tecidos, papéis de distintas fontes como revistas, reutilizáveis, etc. Por fim, um dica é passar um pouco de cola tenaz com um pincel na capa. O resultado é um brilho especial e maior durabilidade das tintas.

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Foto: Julia Izumino.

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Foto: Julia Izumino.

E por fim: mãos à obra! Usando a criatividade e o sentimento cartonero, fluindo desde as mãos ao papelão, esperamos contribuir cada dia mais na difusão de uma literatura bem cuidada e acessível.

Os agradecimentos vão para a Cristiane Gomes pela participação no vídeo, a Mariana Costa Mendes pela edição e a Júlia Izumino pela filmagem.

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