Inspirações para “O Coração em si”: Entrevista com Elvio Fernandes Gonçalves Junior

por: Aryanna Oliveira

Em abril de 2016, a Malha Fina Cartonera publicou seus primeiros livros e, no mesmo evento, divulgou os vencedores da Primeira Convocatória de Narrativa e Poesia desta cartonera, que, através de uma seleção de estudantes de graduação e pós-graduação da FFLCH (nunca antes publicados) chegou aos nomes de Mauro Augusto de Sousa, aluno do curso de Filosofia e Elvio Fernandes Gonçalves Junior, aluno do curso de Letras, com habilitação em Linguística.

A previsão era de que seus livros fossem publicados já no segundo semestre do mesmo ano, todavia, como já bem exposto em relatos de Mariana Costa Mendes e Tatiana Faria, o fazer cartonero encontra muitas barreiras diante das dificuldades impostas pelo mercado editorial e, com isso, os livros estão sendo carinhosamente produzidos agora. Em novo formato e com uso de novos materiais, as obras deverão ser lançadas no próximo mês.

Com esse tempinho gasto a mais na produção, ganhamos também um tempinho a mais para conhecer melhor e lhes apresentar os talentosos meninos, como o futuro linguista Elvio Fernandes Gonçalves Júnior. Um rapaz tímido, que transborda sentimento e poesia em O coração em si. Na correria diária entre o trabalho e a faculdade, Elvio nos contou um pouco soube sua inspiração e processo criativo.

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Elvio Fernandes Gonçalves Junior. Foto: Aryanna Oliveira.

MFC: Como começou a escrever?

EFGJ: Tomei gosto pela escrita ainda criança, por causa de uma conversa que ouvi entre duas tias minhas. Meu avô paterno costumava escrever poemas e, certo dia, enquanto eu brincava numa pequena sala que elas utilizavam como escola de reforço, onde havia vários livros, elas arrumavam os livros e acabaram encontrando um dos poemas dele datilografado. Lembro-me de ouvir a frase “O pai era poeta” e, de certa forma, isso me marcou. Mas só comecei a escrever mesmo lá pela oitava série, por conta de um trabalho de artes na escola, em que devíamos desenvolver um tema através de uma forma artística. Acabei escrevendo um pequeno poema sobre o tema “Olhar”. A partir de então não parei mais.

MFC: O que você já escreveu? Já publicou antes da convocatória?

EFGJ: Escrevo predominantemente poemas, embora já tenha experimentado um pouco de prosa. Já publiquei textos em blogs, em uma publicação que considero especial, com o grupo de poesia do qual participei, os “Facas na Manga”, no Portal Cronópios, do saudoso poeta e militante literário Pipol.

OLHO:

deuses teorizam o amor

mas amor de covardia

de dor e de espasmo

amor onde fica vazio

o pulso que abraça o estilhaço

amor onde os mortos soluçam

“murmúrio do mundo”, in: O coração em si. Malha Fina Cartonera, 2017.

MFC:  Elvio, como surge sua inspiração criativa? Percebe um processo?  Sobre o que costuma escreve?

EFGJ: A inspiração surge – acredito piamente nisso – e disso resulta que, na surpresa do momento, na maioria das vezes não tenho um tema a priori sobre o qual me debruço para desenvolvê-lo no poema. Nesse sentido, o tema acaba por se tornar resultado da experiência, e não seu motivador.

MFC: Quais são seus hábitos de leitura? E quais são seus seus escritores preferidos?

EFGJ: Costumo ler bastante poesia, crítica literária e um pouco de filosofia. Meus autores preferidos, do meu coração mesmo, são: Manoel de Barros, Hilda Hilst, Roberto Piva, Orides Fontela, Claudio Willer, e tantos outros.

MFC: Como soube da convocatória Malha Fina? Como se preparou para o processo? O livro foi feito especialmente para a convocatória?

EFGJ: Meu amigo e poeta Diogo Cardoso deu o toque, e acabei indo ler o cartaz nos corredores da Letras. Não me preparei, fui adiando… já estava com o livro pronto e, na minha procrastinação, acabei entregando não em cima, mas depois da hora, no departamento. Felizmente, pelo que soube, tive a sorte de não ser o único.

MFC: Como analisa a importância de projetos como o da Malha Fina Cartonera?

EFGJ: Acho esse tipo de projeto de extrema importância, tanto dentro quanto fora da USP. Dentro, por incentivar e promover o espaço para a publicação dos alunos e alunas que, muitas vezes, acabam tendo a verve poética oprimida ou desvalorizada no meio acadêmico; fora, por demonstrar mais uma vez que agora é a vez das editoras independentes ou “alternativas”. Digo mais uma vez por acreditar que a Malha Fina é mais uma força somada ao trabalho de outras editoras que não apenas publicam livros, mas militam através de suas publicações, de suas escolhas editoriais. Estão aí incluídas não só editoras Cartoneras, como a Dulcineia Catadora e a Malha Fina, mas também a Patuá, a Córrego, Demônio Negro, Azougue, e tantas outras espalhadas por aí.

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“O Coração em Si”, de Elvio Fernandes Gonçalves Junior. Foto: Aryanna Oliveira.

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