Clássicas Traiciones em versões cartoneras

por: Pacelli Dias Alves de Sousa

Chegaram à biblioteca da Malha Fina Cartonera os livros da coleção Traiciones Cartoneras, editados pela La Sofía Cartonera, selo editorial associado à Universidade Nacional de Córdoba (UNC) na Argentina. Composta até o momento por oito livros, a coleção traz à luz textos de autores já pertencentes ao domínio público, porém em novas e cuidadas traduções. Assina a coordenação Silvia Cattoni, professora de literatura italiana da UNC. No que se refere às edições, em Traiciones, o leitor tem acesso a livros com roupagens mais tradicionais, sem contudo perder o charme cartonero próprio deste tipo de publicação.

Até o momento foram publicados os seguintes livros: La cabellera de Berenice y algunos poemas precoces de Catulo, em tradução de Silvio Mattoni, poeta e professor de estética na Universidad Nacional de Córdoba; El foso y el péndulo de Edgar Allan Poe, em tradução de Nancy Picón; Sobre Baudelaire, de Marcel Proust, com tradução de Virginia Garcia; dois volumes de contos (Cuentos I e Cuentos II) de Oscar Wilde, compostos por textos traduzidos por María Mercedes García, Marina Carrasco, Zaida Cabrera e Anabella Convers; Después de la línea de Ecuador do argentino-italiano Adrián N. Bravi; Poesías de Michelângelo, com tradução do italianista Sandro Abate e Un corazón simple, feito através de tradução colaborativa entre Ana Virginia Luna, Virginia Garcia, Pablo Luna, Virginia Ossana e Gabriela López.

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A tradução aqui tem papel fundamental, assumido desde o título da coleção. Traiciones é uma referência ao conhecido adágio italiano traduttore, traditore (tradutor, traidor). Se toda tradução é uma traição ao texto original, a coleção não só reclama seu papel como o usa com propriedade ao propor traduções que não busquem variantes das obras originais, senão modos de conservar as essências adaptando-as aos requisitos da língua de chegada e de um público vasto, como aponta o próprio editorial da coleção.

É no editorial ainda que a organizadora Silvia Cattoni lembra que a palavra traição tem a mesma origem da palavra tradição: se esta indica a transmissão de algo de uma geração a outra, aquela trata de uma transmissão ao grupo inimigo. No diálogo da traição, entra em jogo qual mensagem está sendo levada ao outro, nesse caso sem o tom despectivo do sentido original, mas visto como amigo e parceiro de conversas. Nesse sentido, a seleção dos livros é preciosa e buscou trazer textos ainda não traduzidos ao espanhol, ou de difícil acesso em edições.

Um exemplo é a obra Poesías, de Michelângelo. O livro traz uma seleção bilíngue de poemas do multiartista renascentista, explorando uma faceta menos conhecida de suas obras. Não somente, a coletânea, ainda que perpasse as diversas fases de sua escrita, tem um foco: os poemas escritos entre 1532 e 1547, em sua maioria dedicados ao amante Tomasso dei Cavalieri e à morte de sua mecenas Vittoria Colonna. Desde o prólogo, intitulado “Un homoerotismo distinguido: las rimas de Michelângelo” e assinado por Facundo Martínez Cantariño, o livro parece assumir um tom reivindicatório da imagem de Michelângelo, enquanto propõe um modelo de leitura mais pessoal e expressivo, enfrentando leituras retóricas.

Outras pérolas da coleção são certamente Un corazón simple, de Flaubert e Sobre Baudelaire, de Proust. Ambas escritas por renovadores da linguagem literária e do próprio modo de representar e ler o homem na modernidade. Na novela de Flaubert, o leitor encontrará diversas marcas de estilo do autor, traços que o consagraram e inspiraram diversos escritores contemporâneos e posteriores. Acompanhará ainda a história de Felicité, empregada doméstica: seus amores, seus problemas familiares e questões de trabalho, representadas sob o olhar irônico e só aparentemente distanciado de um narrador que, antes de tudo, tem seu foco na tensão entre a grandeza ética e a humildade tamanha que caracteriza essa personagem.

O texto de Proust, por sua vez, é uma exploração da poesia de Baudelaire. Originalmente publicado em La nouvelle Revue Française em 1921, o texto é uma boa aproximação à obra do poeta, assim como ao estilo de Proust. Nele, o autor de Em busca do tempo perdido analisa a posição de Baudelaire na tradição da poesia francesa, em especial em comparação com Victor Hugo, a relação entre As flores do mal e a história e, finalmente, esboça leituras de poemas.

Na coleção, podem ser encontrados ainda Catulo, um clássico da literatura latina, e dois autores fundamentais da língua inglesa, Edgar Allan Poe e Oscar Wilde. Vale apontar a cuidadosa seleção de contos de Oscar Wilde, que contém textos como o belo “El príncipe feliz”, fábula escrita em tom leve e ingênuo, mas que em suas entrelinhas traz uma forte alegoria do modo como se estrutura o poder econômico na sociedade.

Trata-se, em geral, de uma coleção de clássicos que, como tais, sempre voltam em novas leituras para novos leitores. Clássicos que ainda, como nos ensina Ítalo Calvino, servem para entender quem somos e onde chegamos. Para adiante, novos títulos serão acrescentados ao catálogo; aos leitores vale esperar.

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