Malha Fina Cartonera Entrevista Lúcia Rosa do Coletivo Dulcineia Catadora

por: Cristiane Gomes

A Malha Fina Cartonera conversa com a artista plástica Lúcia Rosa, criadora do Coletivo Dulcineia Catadora, espaço de convergência entre literatura, artes visuais e trabalho social. Lúcia é a precursora do fazer cartonero no Brasil. O Dulcineia Catadora este ano completa 10 anos de atividade no centro de São Paulo, em conjunto com a Cooperglicério, com 114 títulos publicados e um sólido trabalho de divulgação do saber cartonero através de oficinas.

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Cristiane Gomes: Lúcia, quem são as integrantes do coletivo Dulcineia Catadora?

Lúcia Rosa: Andreia Emboava, Maria Aparecida Dias da Costa, Emineia Santos, Agatha Emboava e Lúcia Rosa.

CG: Você é artista plástica e nas editoras cartoneras o trabalho visual e editorial são correlatos. Na cartonera os livros são encadernados artesanalmente, as capas são pintadas individualmente, o que abre uma série de possibilidades visuais e os torna objetos únicos e irreproduzíveis. Além dessa característica inerente ao trabalho cartoneiro, o Dulcineia tem um vasto catálogo de livros de artista. Me conta um pouco sobre a sua relação com as artes plásticas. Qual é a sua formação, qual era a sua atuação antes da criação do Dulcineia e como você chegou nesse formato de livro cartonero?

LR: Fiz minha primeira graduação em Letras. Sim, fiz Letras na FFLCH, USP. Trabalho como tradutora e desde 1986 atuo paralelamente nas Artes Plásticas. Em 2006, fui convidada a participar de uma mostra com trinta artistas. Eu trabalhava com sucata de ferro, mas no entorno do local onde aconteceria a mostra havia muitos catadores e resolvi trabalhar com papelão. Fiz trabalhos escultóricos com papelão comprado de catadores. Por sugestão de um conhecido procurei o Eloísa Cartonera, um coletivo de Buenos Aires, para saber melhor o que eles faziam. Meses depois o Eloísa foi convidado a participar da 27ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo. A produção me chamou para um trabalho colaborativo. Trabalhei com o grupo na montagem da instalação, na formação do grupo de filhos de catadores e na oficina-instalação montada na Bienal. Em janeiro de 2007 fizemos um trabalho no Sesc Pompeia com Javier Barilaro, um dos integrantes do Eloísa, e em fevereiro lançamos nosso primeiro livro, Sarau da Cooperifa.

CG: Em 2015, a Malha Fina Cartonera recebeu uma oficina do Wellington de Melo, da Mariposa Cartonera, que nos qualificou para iniciarmos os trabalhos do selo. O Wellington participou de uma oficina com você em Garanhuns, Pernambuco, que o preparou para criar a Mariposa. A atuação em rede é uma marca do trabalho cartonero, o conhecimento não é retido e sim compartilhado. O saber é divulgado e fomenta a criação de outras cartoneras. Além da Mariposa, que outras iniciativas surgiram das oficinas ministradas pelo coletivo Dulcineia Catadora?

LR: Em Garanhuns, 2012, iniciamos Severina Cartonera, com um grupo de catadoras da ASNOV, uma cooperativa de reciclagem local, e o poeta Helder. O aparecimento da Mariposa foi uma consequência desse trabalho em Garanhuns.

Sereia Ca(n)tadora, iniciada por Ademir Demarchi, poeta de Santos. Conheci Ademir em 2007 e, um ano depois, lançamos Do Sereno que Enche o Ganges. Ademir se entusiasmou com os livros e iniciou a Sereia Ca(n)tadora; formou um catálogo com muitos autores latino-americanos, entre eles o peruano Oscar Limache. Acho que o diferencial do Sereia foi a parceria com o Centro Camará, de São Vicente.

A partir de uma oficina dada no Sesc Vila Mariana, uma das participantes, Solange, formou um núcleo em Serra Negra, o Catapoesia. Fizeram um lindo trabalho com um núcleo indígena em Minas Gerais. Até 2015 estava funcionando; não tive notícias deles este ano.

Rubra Cartoneira Editorial (Londrina, Paraná), iniciada por Beatriz Bajo, em parceria com Marcelo Ariel, escritor residente em Cubatão que lançou seu primeiro livro com Dulcineia em 2007: Me Enterrem com a Minha AR 15. Beatriz já conhecia nosso trabalho, depois traduziu um livro nosso de Mario Papasquiaro, Respiração do Labirinto, e em 2012 iniciou o Rubra Cartoneira. O grupo acabou usando caixas de leite para fazer as capas e procurou, pelo que sei, artistas para pintar as capas.

De oficinas realizadas por mim em Porto Alegre em 2011, Cristiane Cubas, arte educadora, realizou a oficina de confecção de livros com capas de papelão em vários lugares e lançou a coletânea Boca de Rua em apoio ao projeto Mães Coruja do Boca de Rua, em parceria com a ONG Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação).

Em 2012 fui convidada a ir a Moçambique para trabalhar com um grupo de jovens universitários que desejavam abrir uma cartonera e para trocar experiências com um grupo recém formado, o Kutsemba Cartão. Ajudei Kutsemba a iniciar suas atividades ao longo de 2010 e 2011, passando orientações através de e-mails trocados com Luís Madureira e Saylín Álvarez Oquendo, atualmente residentes nos EUA. Kutsemba reuniu jovens para a feitura dos livros. Tinha livros com lendas africanas e alguns de autores contemporâneos, inclusive de um rapper conhecido em Maputo. Com os jovens universitários o trabalho foi intenso, dividido com uma integrante de Meninas Cartoneras (Espanha). Foram muitas as oficinas e conversas durante 13 dias. Eles iniciaram o Livaningo Cartão D’Arte, liderado por José dos Remédios.

Além desses grupos que nasceram direto de contato com o Dulcineia, acreditamos muito em parcerias, e foi o que eu propus a Idalia quando ela visitou a Cooperglicério, para conhecer nosso trabalho em novembro de 2014. Recebemos as pessoas que querem conhecer nosso trabalho lá na cooperativa e estamos sempre abertos a trocas e a compartilhar conhecimentos.

CG: Você acha que o retorno à produção manufaturada, artesanal e o engajamento social e ecológico podem salvar a literatura em meio à crise do mercado editorial?

LR: Salvar é um termo muito forte, que prefiro não usar. A produção independente tem o papel de abrir a possibilidade de veiculação de autores que não têm inserção no mercado. As cartoneras têm a liberdade de publicar autores dedicados ao experimentalismo, estão livres para publicar autores iniciantes no exercício do fazer literário justamente porque a existência e ação no meio cultural dos grupos cartoneros está vinculada a outros objetivos, que não o lucro e as vendas.

CG: Apesar do artesanal ser uma tendência, ainda percebo uma certa desvalorização da produção que opera através de uma lógica não capitalista, o que reflete na dificuldade de se estabelecer em um mercado mais amplo e se manter apenas através da venda dos livros. O pseudoartesanal ainda vende mais do que o artesanal de fato. Você acha que isso vai mudar? Quem é o leitor do Dulcineia Catadora hoje?

LR: Acho que a produção independente terá sempre um pequeno nicho de leitores; manterá esse público restrito. Não acredito que esse quadro mude. É difícil sobreviver da venda dos livros. As cartoneras têm um papel de resistência, firmam-se como alternativa perseguindo caminhos à margem do mercado editorial. É difícil definir com clareza o leitor de Dulcineia, mas penso que na maioria são escritores novos e jovens interessados em literatura não veiculada no mercado convencional. É um público curioso, que valoriza essa proposta diferente, alternativa, vibrante, que não é enlatada, não tem design massificado; traz a marca das pinceladas, carrega no papelão essa abordagem crítica à sociedade de consumo, fala do descarte e, no caso de Dulcineia, adiciona um tom político, une autores, artistas e catadores na luta contra a invisibilidade, o preconceito, a discriminação.

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Fonte: Dulcineia Catadora.

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Fonte: Dulcineia Catadora.

CG: Nós sabemos que a quantidade de papelão reciclado para a produção de livros cartoneros é insignificante e que a importância social dos projetos cartoneros se dá realmente ao tirar o trabalho do catador da invisibilidade e proporcionar a fruição entre essas duas frentes, a dos profissionais que atuam no trabalho árduo da coleta e reciclagem e a dos que produzem arte. No coletivo Dulcineia essa fruição aparece muito claramente nas publicações do coletivo. Em 2010 foi publicado o livro de fotos Fabio Catador, do artista plástico Fabio Morais; em 2012 Catador, com relatos de catadores, produzido pelas integrantes do coletivo; em 2013, Por-sobre, a partir de fotografias da Cooper Glicério de Maria Aparecida Dias, com intervenções gráficas da artista visual Maíra Dietrich; em 2014, Só o que se pode levar, a partir de desenhos impressos em serigrafia feitos pelos integrantes do coletivo em colaboração com a artista visual Kátia Fiera; e em 2015, Passagem, um livro de desenhos da catadora Andreia Emboava, integrante do coletivo. Lúcia, fale um pouco sobre os artistas que surgiram através do trabalho nas cooperativas e sobre os próximos projetos em conjunto com os catadores.

LR: As parcerias com artistas foram decorrentes de nossa ligação com a Galeria Vermelho. A ideia surgiu em 2010, um ano depois que participamos da primeira feira de publicações independentes promovida no Brasil, a Tijuana. Fabio Morais havia feito uma chamada a artistas pedindo o envio de livros para a 30ª Bienal, para compor uma instalação de autoria dele e de Marilá Dardot. Convidei o Fabio a fazer um livro com o coletivo. E depois se seguiram os outros. Desde o início percebi que as catadoras respondiam com entusiasmo às propostas dos artistas. A possibilidade do grupo trabalhar junto com o artista na produção de conteúdo é um passo além. Na colaboração com escritores a participação do grupo se limita à pintura das capas e à costura do livro. Além disso, a partir dessas parcerias com artistas as integrantes do grupo começaram a propor seus próprios livros. Nossa intenção é fazermos livros criados por nós, coletivamente, além das parcerias com artistas. É uma forma de exercitarmos o fazer artístico. Nisso está a beleza da rede cartonera: cada grupo desenvolve características próprias, persegue formas originais de usar o papelão, escolhe sua linha de publicações, busca sua forma de trabalhar e imprime sua identidade. Não abro mão do trabalho com catadores e segmentos desprivilegiados da sociedade.

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CG: Em 2017 a Dulcineia Catadora completa 10 anos. Qual a retrospectiva que você faz dessa uma década de trabalho e quais são os planos da Dulcineia para 2017?

LR: Semana passada estava reorganizando parte de nosso material e me assusto com o volume de trabalho que realizamos: além dos 114 títulos, oficinas por todo Brasil e no exterior, intervenções no espaço público, participações em mostras de arte e em feiras de publicação independente. Realmente, foi uma longa trajetória que reuniu muita gente. Entre os autores publicados conseguimos identificar alguns que tiveram sua primeira publicação com Dulcineia e que hoje começam a se firmar como escritores. É o caso de Sheyla Smaniotto, que recebeu o Prêmio Sesc de Literatura em 2015, e do Marcelo Ariel, que hoje tem vários livros publicados. Por outro lado é muito prazeroso contar com escritores colaboradores, como Andrea Del Fuego, Joca Reiners Terron, Marcelino Freire, Glauco Mattoso, João Anzanello Carrascoza, Alice Ruiz e acompanhar suas carreiras, vibrando com eles a cada nova obra que lançam e comemorando seu reconhecimento público e premiações.

Sobre os planos, vez ou outra me fazem essa pergunta, e emendam com outra sobre nossas “aspirações”: Vocês não querem crescer? Têm medo de crescer? Tenho a clareza de que prefiro me pulverizar a crescer. A ideia de crescimento, pra mim, não se liga ao quantitativo, e sim ao crescimento pessoal e, nesse sentido, tenho essa gana de acompanhar o crescimento pessoal das mulheres que integram o grupo. Crescimento como pessoas, o refinamento do olhar, o sentimento de confiança ao se expressarem, ao trabalharem o sensível, ao lidarem com outros segmentos sociais. Não tenho aspirações, apenas sigo o trabalho dia a dia. Nosso trabalho diz mais respeito a processos. Dos encontros nascem ideias de trabalhos novos, novos projetos colaborativos.

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Fonte: Dulcineia Catadora.

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Fonte: Dulcineia Catadora.

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Fonte: Dulcineia Catadora.

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