Rita, a selvagem, em terras brasileiras

por: Cristiane Gomes e Pacelli Dias Alves de Sousa.

No dia 29 de novembro, a Malha Fina Cartonera recebeu para uma conversa Darío Ares, integrante do coletivo Grupo de Acción Cultural (GAC) e um dos responsáveis pelo projeto Rita Cartonera. Darío é um multiartista, tem formação em ballet, arte dramática, cinema e estudos culturais e em seus trabalhos, transita pela vídeo arte, design, literatura, performance, artes plásticas e indumentária. Como professor na Escuela de Diseño de Indumentaria filiada a Secretaria de Cultura e Educação da cidade de Rosário, desenvolveu, junto aos seus alunos o projeto Trece, uma marca coletiva de moda jovem com referências na arte urbana e no hip hop que levanta a bandeira do desarmamento. O nome Trece, surgiu através de uma série de coincidências, a mais trágica foi o assassinato do filho de 13 anos de uma de suas alunas.

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Dario Ares. Fonte: Facebook.

Violência e gênero fazem parte do trabalho de Darío, inclusive no seu trabalho com o GAC. Surgido em 2015, trata-se de um coletivo de trabalho formado por alunos e professores oriundos da Universidade Nacional de Rosário e artistas de diversas frentes, em parceria com coletivos e cooperativas de trabalho que tem como objetivo promover “práticas de arte colaborativas”: processos comunitários de trabalho artístico que acionem pessoas de diferentes lugares, classes, características e profissões em torno a projetos concretos de intervenção política e ambiental.

Dentro da proposta do GAC, de ser uma rede tecida entre distintos projetos e processos culturais, a cidade e seus restos, a academia e o mundo artístico, surge Rita Cartonera como uma intersecção: é criada na medida em que o trabalho cartonero se mostra como um campo de atuação fértil já que reflete a natureza e os objetivos do grupo. Para esta ação cultural, o grupo contou com um subsídio do Ministério de Inovação e Cultura de Santa Fé, assim como com um espaço cedido pelo estado e está associada a Cooperativa Luchadores Primero de Mayo, uma cooperativa de catadores formada pela família Gaetán, que vêem o trabalho de catador como tradição familiar e modo de vida. A vinculação da cartonera com a cooperativa permite a capacitação dos trabalhadores, proporcionando ganho extra através da venda do papelão já pintado e cortado para a cartonera.

O projeto editorial é assumido, em geral, por Mónica Bernabé, professora de Literatura Iberoamericana da Faculdade de Humanidades e Artes da Universidade Nacional de Rosário. O nome da cartonera é uma homenagem a Juana González, artista marginal, conhecida nos cabarés de Pichincha, zona de prostituição de Rosário, como Rita la Salvaje. Um de seus shows inspirou a coleção de textos inéditos El Ventilador*, voltada para a publicação de novos escritores. Rita tem sido presença constante neste primeiro ano da editora: não só pelo número que dá título à coleção, pela referência no logotipo – mistura entre calcinha e livro aberto – como, de certo modo, no primeiro livro publicado na coleção, Evita traicionera, de Washington Cucurto, já que Rita era também conhecida por sua devoção à Evita Perón. Cucurto, da Eloísa Cartonera, deu uma oficina para o GAC, com o objetivo de capacitar os membros do coletivo para a produção dos livros cartoneros. Segundo informações do site, os temas que envolvem a coleção são a sobrevivência do suporte livro em produtos de papelão, a democratização da informação por meio da tecnologia digital e os mitos em que se reconhece uma comunidade. Para 2017, Rita pretende publicar, como parte da coleção ventilador, Fantasía tropical e La serie negras, ambos de Washington Cucurto.

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Evita traicionera, de Washington Cucurto. Fonte: Grupo de Acción Cultural (GAC)/Rita Cartonera.

A outra coleção de Rita Cartonera é a Archivito americano, que publica textos utilizados nas cátedras de literatura, mas que são difíceis de serem encontrados, como La casa de cartón, de Martín Adán, primeira obra publicada na coleção, escrita pelo vanguardista peruano Martín Adán, pseudônimo de Rafael de la Fuente Benavides, na primeira metade do século XX, e foi escolhida por fazer parte de um conjunto de obras que “mientras se ríen de las instituciones, instituyen la literatura”.

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La casa de cartón, de Martín Adán. Fonte: Grupo de Acción Cultural (GAC)/Rita Cartonera.

O próximo título da coleção vai ser La princesa, de Clarice Lispector.

Vale notar que as relações com o Brasil não se resumem à esta publicação. Darío afirmou que a inspiração para criação da Rita Cartonera veio quando viu o trabalho da Dulcinéia Catadora, editora paulistana organizada pela artista plástica Lúcia Rosa, exposto no Museu de Arte do Rio. Para Darío, a aproximação da Rita com as cartoneras brasileiras, se dá no sentido de não ser trash, de existir um cuidado com a estética que aparece na organicidade visível das coleções. Há a opção pelo uso de uma paleta de cores determinada para cada título publicado, cores que se articulam com os temas em jogo e com os recortes que compõem as colagens e o acabamento dado aos livros é diferenciado. Evita traicionera vem com fechos, por exemplo, confeccionados com fitas nos mesmos tons utilizados para a pintura do fundo.

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A Malha Fina Cartonera e a Rita Cartonera são duas jovens cartoneras com muitas similaridades: ambas foram criadas em 2015, com o objetivo de atuarem como espaços de resistência editorial através da publicação de boas edições com valores acessíveis; como também delineiam caminhos e espaços de ação próprios: desde a relação que estabelecem com a sociedade, no que se refere aos projetos editoriais, às formas de produção e, inclusive, de trabalho. Entre proximidades e diferenças, conhecer outros projetos cartoneros é atestar as possibilidades de um movimento que só tende a crescer.

*No número el ventilador humano, a vedete apresentava-se com os seios cobertos por penduricalhos que giravam, de um lado com as cores do time Rosario Central e de outro com as cores do Newell’s Old Boys.
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