Da Festa do Livro da USP ao Salão Carioca do Livro

por: Tatiana Faria

Nesta semana a Malha Fina Cartonera participará de dois grandes eventos: a 18ª Festa do livro da USP, a convite do GMARX, e da LER – Salão Carioca do Livro, juntamente com a Mariposa Cartonera, selo editorial recifense fundado por Wellington de Mello. Essas duas iniciativas são extremamente importantes para os calendários livreiro e literário de São Paulo e Rio de Janeiro e, ainda que possuam propostas distintas com respeito ao estímulo à leitura e acesso ao livro, elas evidenciam tanto a permanência e desdobramentos possíveis a partir do livro físico, quanto a necessidade de investir e problematizar as dinâmicas de distribuição e comercialização de tal objeto no Brasil.

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Malha Fina na Feira do Livro da USP no stand do Gmarx. Foto: Mariana Costa Mendes.

A Festa do Livro da USP, idealizada por Plínio Martins Filho, tinha como intuito inicial reunir as editoras universitárias brasileiras em um único evento, fomentando a circulação e democratização de seus catálogos a partir de um desconto mínimo de 50% nos exemplares. Com o passar do tempo, outras editoras privadas somaram-se à Festa e atualmente ela reúne cerca de 155 editoras de todo o Brasil e também do exterior, como a Libros Unam e a Eudeba, da Universidad Autónoma de México e da Universidad de Buenos Aires, respectivamente.

Considera-se que a história da Festa do Livro reflete uma parcela importante do mercado livreiro atual. Primeiramente porque ela coloca em evidência que muitas editoras brasileiras possuem um catálogo destinado ao público universitário e a realização de tal evento propicia que o produto livro esteja diretamente em contato com o conjunto de receptores ao qual se destina, isto é, o estudante, o professor universitário e o pesquisador. Outro elemento que se faz presente no evento é o de ele ter se tornado uma das poucas iniciativas que busca encontrar uma solução para um dos principais problemas do mercado livreiro atual: a distribuição e comercialização do livro no Brasil.

Pode-se dizer que o desconto de 50% dado pelas editoras participantes da feira é praticamente irrisório se comparado à lógica comercial perversa das grandes livrarias e distribuidoras, que chegam a cobrar até 70% do preço de capa das editoras para comercializarem seus livros, porcentagem condicionada à comercialização sob consignação, com previsão de pagamento sobre as vendas de até seis meses, perspectiva que prejudica tanto a editora, que cada vez enfrenta mais dificuldades para fazer com que seus livros circulem e cheguem aos leitores, quanto o público leitor, que devido ao preço exorbitante do livro no Brasil tem neste tipo de evento uma das raras oportunidades de comprar os livros desejados durante todo o ano.

Em relação a esse panorama, pode-se dizer que a feira da USP é, na verdade, a Festa do comércio do livro, a Festa de sua economia, democratização e circulação, uma vez que neste evento, que neste ano pretende atender até 240 mil pessoas, as editoras conseguem equilibrar, muitas vezes, seus orçamentos no final do ano, perspectiva que em um momento de crise do mercado livreiro como o atual, pode impedir que editoras fechem suas portas em 2017.

Já a LER – Salão Carioca do Livro, este ano será realizada no Boulevard Olímpico e pretende integrar-se ao calendário cultural do Rio como o maior evento aberto e gratuito existente em torno do livro no Brasil. Com curadoria de Julio Silveira, a LER está dividida em diversos pavilhões e oferece programação literária das 9hs às 22hs durante os quatro dias de evento, pelos quais passarão cerca de 40 autores e serão realizadas dezenas de oficinas e mesas redondas, destinadas ao público infantil e adulto, além de conter uma feira permanente com centenas de editoras participantes.

Nas palavras de Silveira, o principal intuito da feira é “promover a conversa entre autores tradicionais e blogueiros, geeks e historiadores”. É certo que este modelo de evento literário evidencia outra faceta do mercado livreiro: a de que o livro, atualmente, se circunscreve dentro de uma lógica comercial semelhante à de qualquer outro produto, pois também depende do investimento em divulgação e marketing – realizados, sobretudo, em torno da valorização da figura do autor e de sua vida pública – para obter algum êxito de vendas e ser reconhecido nacional e internacionalmente.

Com isso, pode-se dizer que eventos como a LER, ao promoverem o encontro entre os leitores e escritores, contribui com a democratização e o acesso ao livro ao aproximar o autor e o público, lógica que ainda que possa ser questionada e criticada tornou-se uma prerrogativa para o mercado editorial atual, e não deve ser ignorada e nem menosprezada quando se discutem políticas públicas em torno do livro no Brasil.

A partir do panorama apresentado, poderíamos pensar que talvez o público da primeira feira se difere do da segunda, uma vez que o leitor universitário talvez não necessite de estimulo comercial para interessar-se por livros. Entretanto, se observamos a lista de convidados da LER notaremos que entre eles está, por exemplo, Eucanaã Ferraz, professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autor de Escuta (Companhia das Letras, 2015), finalista do Prêmio Oceanos; e Paulo Lins, autor de Cidade de Deus (Companhia das Letras, 1997) que, como é sabido, foi publicado pela primeira vez graças à indicação do reconhecido crítico literário Roberto Schwarz, e atualmente a sua obra é objeto de diversas teses e artigos, produzidos por estudantes e professores universitários, ou seja, ambos os convidados vinculam-se direta ou indiretamente à esfera universitária, sendo impossível, portanto, dissociar a importância e o valor de ambos eventos para o fortalecimento do mercado livreiro e estímulo à leitura e acesso ao livro no Brasil.

No que concerne à participação da Malha Fina Cartonera, há algumas perspectivas que consideramos necessário pontuar em relação aos dois eventos. Com respeito à Festa do Livro da USP, nossa participação ocorrerá por intermédio do GMARX, grupo de pesquisa autônomo que reúne estudantes e pesquisadores da USP e de fora dela, que conjuntamente realizam uma série de atividades, como minicursos e palestras gratuitos em escolas e outros espaços públicos de São Paulo, com o intuito de discutir e problematizar a conjuntura política e social nacional. O coletivo, para arrecadar fundos para tais iniciativas, durante a Festa do Livro, vende uma série de títulos, entre os quais se somam o nosso catálogo (clique aqui), bem como outros títulos como, por exemplo: a Revista Mouro, editada por eles próprios, A revolução cubana e a Questão Nacional (1868-1963), de José Rodrigues Mao Jr, A frente Nacional na Colômbia 1958-1974: A ditadura democrática das classes dominantes, de Ana Carolina Ramos, Coleção Memória Militante, com textos de Paul Singer, Wilson Barbosa, Catullo Branco e Renato Martinelli, entre outros.

Dessa forma, a partir do comércio dos livros citados acima é possível realizar uma série de atividades, incentivando e colaborando com a formação intelectual e cultural da população, contemplada pelas oficinas e minicursos realizados pelo GMARX. De acordo com essa perspectiva, pode-se dizer que o livro, quando se torna uma mercadoria para um projeto de autogestão como o GMARX, ele passa a ser o agente financiador atividades como as descritas acima, deixando de ser apenas o transmissor de ideias ou conceitos, uma vez que o dinheiro obtido com a sua venda pode auxiliar ações de formação educacional e social, proposta que, em momentos políticos como o nosso, de cortes financeiros na educação e reformas no ensino público, representa um grande movimento de resistência política e cultural.

Já com relação à nossa participação na LER – Salão Carioca do Livro, é válido destacar que teremos um stand junto com a Mariposa Cartonera para expor nossos livros, onde poderemos atender e conscientizar a população com respeito à publicação sustentável, à edição cartonera, bem como apresentar o nosso catálogo. Também durante o evento, realizaremos oficinas sobre a publicação independe nos dias 26 de novembro e 27 de novembro, das 17h30 às 19h30, nos mesmos moldes das realizadas nas escolas públicas de São Paulo (confira mais em “Malha Fina na Escola: um relato de experiências“), cuja proposta central é capacitar os participantes das oficinas para produzirem e comercializarem seus próprios livros, estimulando e democratizando o acesso à publicação e comercialização literária.

Essa semana, em que nos desdobraremos em dois grupos, pretendemos colaborar com ambas iniciativas, que consideramos serem indispensáveis para a manutenção e valorização do livro no Brasil, mas desejamos, sobretudo, trocar experiências e aprender mais e melhor, pois somente assim será possível carregar os ânimos e as ideias para seguir o próximo ano, cujas as palavras resistência e permanência, pretendemos levar não somente em nossos textos publicados semanalmente no blog, como também em nossa práxis diária em torno da valorização do livro e do estímulo à vida literária para dentro e fora da universidade.

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