A literatura brasileira em obras: memória de uma conversa com Julián Fuks e Paloma Vidal

por: Aryanna Oliveira

Julián Fuks e Paloma Vidal discutem sobre a memória, a subjetividade e os processos criativos da literatura contemporânea.

Na noite da última quarta-feira (26/10), em evento promovido durante a V Jornada da Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana da Universidade de São Paulo, os escritores Julián Fuks e Paloma Vidal bateram um papo, a convite da Malha Fina Cartonera, sobre a formação (e produção) literária e seus respectivos processos criativos.

O debate, mediado por Pacelli Dias Alves de Sousa, aluno e colaborador da cartonera da USP, iniciou com a explanação de Paloma Vidal – escritora, tradutora e professora da Universidade Federal de São Paulo, semifinalista do prêmio Oceanos, na categoria “Poesia” – que, explorando intersecções com o trabalho de Fuks e o contexto latino-americano atual, contou um pouco sobre seu mais recente projeto, “Em Obras”, trabalho coletivo e transdisciplinar.

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Foto: Aryanna Oliveira.

Vidal, que é curadora e palestrante do projeto, conta com a companhia de mais seis mulheres ligadas à área das artes e literatura em apresentações performáticas. Embora cada uma desempenhe funções diferentes, todas pensam em suas performances nos possíveis horizontes do romance e da literatura contemporânea, em especial a latino-americana, uma vez que todas as participantes são brasileiras ou argentinas.

Durante os quase 40 minutos de cada apresentação, que funciona como um debate aberto, são levantadas questões teórico-críticas sobre a obra em processo. Cada uma das talentosas artistas apresentam uma obra em construção, em um processo não estritamente literário, mas que faz pensar sobre a literatura hoje.

A escritora, que nasceu na Argentina e foi radicada muito nova em terras brasileiras, falou um pouco sobre A preparação do romance, de Roland Barthes, último curso ministrado por Roland Barthes no Collège de France. Durante o curso, Barthes empreendeu uma verdadeira investigação acerca das condições (interiores) com que um escritor prepara um romance, e, por isso, a obra do crítico literário funciona como um livro método para o projeto.

A ideia é usar o método para o romance que se forma entre os participantes e os possíveis efeitos da participação. Barthes ensina um método de “como preparar junto”, pelo coletivo, pela junção das subjetividades e o desejo de escrever. Dele cita:

“Eu lhes proponho pois que nos instalemos no decorrer dessa conversa, num cantinho bem pequeno da crítica literária e ainda assim eu a tratarei subjetivamente, falarei em meu nome e não em nome da ciência, vou interrogar a mim mesmo, eu que amo a literatura. Esse canto é na verdade o desejo de escrever.”

O trabalho coletivo apresentado por Paloma Vidal responde a algumas questões levantadas por Barthes, provando uma escrita que busca sair de si de várias maneiras, inclusive através da própria preparação.

“E nesse sentido o que a gente mostra é ao mesmo tempo a preparação e a coisa em si – a própria obra – e eu acredito que talvez seja até uma resposta a essa questão da preparação, que dialoga com Barthes que vê nela a obra em si. E talvez seja esse o sentido mais interessante do projeto: poder transformar o processo em obra e também dialogar muito fortemente com o processo todo, inclusive com a obra que não se realiza, que não dá certo, que não se escreve.”

Vidal ainda explorou os entremeios da criação literária e suas passagens pela ficção, os momentos de ficcionalidade tão inerentes ao processo que não se sabe mais o que é real ou criação, através de um “usar as saídas que a ficção da mas ao mesmo tempo estar sempre saindo dela”, finalizou.

Com esse gancho iniciou-se a apresentação de Julián Fuks – escritor e crítico literário que, recentemente, depositou sua tese de doutorado pelo programa de Teoria Literária da FFLCH-USP, explorando a “história abstrata do romance – revisão da história do romance a partir de ensaio de romancistas ao longo de 4 séculos”. O mediador do debate lembrou que Fuks é, atualmente, semifinalista do prêmio Oceanos na categoria “Romance” e, finalista dos prêmios Portugal Telecom e Jabuti, pelo romance A Resistência. Além disso, em 2012, foi citado pela revista britânica Granta como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros. Em 2015, publicou Os olhos dos pobres pelo selo Malha Fina Cartonera.

Fuks apresentou – através da leitura de texto escrito para o evento – questões sobre a formação do romance, especialmente o latino-americano, a partir do fenômeno dos hibridismos e das auto-ficções, como relevantes ao processo criativo, mais ainda do que os elementos do “Boom Latino-americano” ou da ideia de realismo mágico.

Relacionando sua tese de doutoramento com outros rumos e, em especial, o modo de escrever do acadêmico e escritor alemão W. G. Sebald, Fuks falou “Da crise do realismo ao realismo crítico”, passando por temas como a historicidade da literatura; a agonia do romance (e suas resiliências entre as atividades humanas essenciais); o silencio e a impossibilidade da escrita; a emulação do mundo pela ficção; a utilização do trauma como suporte de criação; e, o romance como testemunho do mundo, entre outros assuntos.

Alguns trechos lidos pelo escritor durante a apresentação:

“Contra toda lógica e expectativa, ou por lógica e, como poderia se esperar, o romance sobrevive. Transtornado em tantos de seus preceitos, desfigurado em tantas de suas características, o romance cumpre sua sina de gênero resiliente e se regenera como talvez parecesse inconcebível”

“Não será surpreendente, nem original se eu associar a ruína do território europeu com a crise do romance. Se a crise do gênero, em seu momento visceral, guardava uma relação com a crise do continente destruído pela guerra, é presumível que a ascensão em ambos os campos venha guardar vínculos semelhantes. Um apego à memória e à verdade, ajudaria os países a lidar com seus respectivos traumas, é o que Sebald parece defender. O mesmo apego, depreendemos, contribuiria muito no esforço do romance para lidar com seu próprio trauma, para fechar a ferida aberta em sua forma, a ferida que permanecia aberta desde a radical implosão do gênero. Ante a insuficiência que se verifica na ficção nesse novo contexto, o real acode para devolver ao romance sua relevância, um real transformado, porém. Não a velha tentativa de emular o mundo em uma ficção convincente ou de aprimorá-lo em sua reinvenção fantasiosa, mas um real acessado de maneira direta, convocado a participar da ficção para que não deixe incorrer em impertinência.”

“As brutais ditaduras latino-americanas deixavam um rastro de testemunhos e relatos, um amplo repertório de ficções também, mas por alguma razão essa imensidão de palavras não nos satura, não nos satisfaz por completo, não nos impede que sintamos como o pequeno Sebald, ressabiados com todo esse arsenal de histórias, desconfiados de que mais revelar, alguma verdade ele nos esconde. Vemos então uma nova geração de escritores a vasculhar ainda uma vez esses escombros feitos de palavras, a examinar os resquícios de um passado que eles conhecem bem, e ainda assim algum aspecto lhes escapa. Revisitam um passado autoritário sim, mas como tem se tornado cada vez mais cristalino, nesse passado encontram as raízes desses muitos autoritarismos que ainda nos devastam. ”

O escritor relembrou a importância da tentativa de alguns escritores em não se desfazerem do passado, não sucumbindo à tentativa de superá-lo ou recalca-lo, reproduzindo em sua forma as marcas da postura corporal do romance. O passado não se desmancha com a ficção, antes se reproduz através do rememorar de “velhas batalhas e íntimas mutilações”.

Fuks terminou sua apresentação “Da crise do realismo ao realismo crítico” – movimento executado por tantos autores cada um com seus gestos e trejeitos prontos – indagando (a si mesmo, inclusive), “se o romance se constrói com as sobras de sua própria destruição e se o que se cria a partir das sobras não se cria para que seja destruído depois”.

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Foto: Aryanna Oliveira.

Após as apresentações, alunos e professores da universidade, além de convidados e interessados, puderam conversar e tirar dúvidas com os autores acerca do múltiplo – e tão cheio de possibilidades – universo da criação literária.

Durante e após o evento, os participantes tiveram a oportunidade de conhecer um pouco mais do universo cartonero e adquirir – além de Os olhos dos pobres-, as mais recentes publicações da cartonera: 2 Ensaios, do cubano Antonio Jose Ponte e A Escrita Riscada, do portorriquenho Eduardo Lalo, que serão lançados no último bimestre do ano.

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Foto: Aryanna Oliveira.

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