Entre o Design Visível e o Invisível: Entrevista com Iara Camargo

por: Larissa Pavoni Rodrigues e Jeison Oliveira

Conversamos com a nossa designer gráfica Iara Camargo sobre livros – digitais ou não -, feiras literárias, diagramação, design e, claro, sobre a Malha Fina Cartonera.

Filha de pai autor de livro infantil, ilustrador e colecionador de livros, desde pequenina Iara possui contato com esse universo, o que a faz gostar de pesquisar, trabalhar e possuir muitos livros. Mesmo assim, na faculdade entrou por acaso no curso de Design – por não saber desenhar – e dentro do curso descobriu o design editorial e a tipografia, áreas em que desenhar pode não ser imprescindível. Dessa forma se encantou com a área e, hoje, sua tese de doutorado recém-terminada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP possui o título O livro de literatura: entre o design visível e o invisível, em que analisa, dentre outras coisas, a visibilidade e invisibilidade do livro de literatura. O ideal da “invisibilidade”, segundo Iara, se refere ao design transparente, simples e padronizado, que não oculta o conteúdo do livro. Já os livros de abordagem “visível” apresentam ornamentações, ilustrações, ou seja, um projeto mais trabalhado. Seguindo na ideia dos projetos simples ou mais trabalhados, Iara coloca que essa mudança de paradigma “reflete talvez, pelo menos no mercado brasileiro, a importância do design, da materialidade e visibilidade do objeto”. A hipótese de seu trabalho seria, então, que “a visibilidade dos livros contemporâneos é resultado de uma integração entre projeto gráfico e texto literário, cujo resultado são livros que apresentam tanto uma função estética quanto semântica, além da funcional, que é a da leitura”. Para ela, essa pesquisa foi um trabalho de levantamento histórico e bibliográfico, e mais do que chegar a conclusões, apresentou panoramas.

Eu não tinha uma hipótese muito clara, então eu fiz um trabalho que eu sentia necessidade de ter pra mim, procurei preencher as minhas lacunas, fiz o trabalho pra mim, na verdade. Eu procurei estudar coisas que para mim faziam sentido e que eu não sabia. (…) Acho que é um trabalho mais de introdução a outras pesquisas que podem sair daqui. Acho que o levantamento iconográfico de todos os livros que eu consegui trazer é importante e também é importante em termos de referência bibliográfica. Pode ser uma obra que as pessoas vão usar como referência, tomara que influencie e gere frutos, tem muito material bruto para trabalhar ainda.

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Livros visíveis e invisíveis.

Iara começou a trabalhar especificamente com design editorial em 2005, em uma revista. Antes, em 2002, já tinha diagramado alguns catálogos como assistente na prefeitura. Os primeiros projetos de livro que produziu foram para uma coleção do Dr. Drauzio Varella, em que fez o projeto gráfico e diagramação de 12 livros que eram comercializados junto ao jornal Diário de São Paulo. Relembrando esse trabalho, diz não gostar do resultado e aponta problemas na diagramação, já que nessa época, como ela diz, mesmo trabalhando há algum tempo ainda não possuía conhecimento crítico sobre como criar um projeto.

Trabalhei em agências de design que faziam projetos especiais, como essa coleção do Dráuzio, coleções de revista de receita. O projeto mais legal que eu fiz foi junto com a minha chefe, a Diana Prata, que foi desenvolver o projeto gráfico do Guia da Folha de São Paulo. Na verdade eu a auxiliei. Tínhamos que prever como ia ser toda a diagramação. O primeiro não foi feito por nós, foi feito lá na Folha  de São Paulo mesmo, mas todas as definições de tipografia, de coluna, de como iam se comportar os elementos gráficos na página, tudo isso tinha sido definido antes. Eu criei um manual junto com a minha chefe de como os diagramadores da Folha iam trabalhar o Guia, então pra mim esse foi o trabalho mais importante que já fiz. Não no sentido de criação, porque eu criei pouco se for pensar bem, quem criou mais foi ela, mas de entender o processo, de como desenvolver um projeto mesmo e de criar as diretrizes para que outras pessoas seguissem.

Hoje em dia, seu interesse abrange também os livros eletrônicos, e produz experimentos gráficos para levá-los aos seus alunos do curso de Design. Nos chama a atenção para muitos elementos que podem ser criados dentro desse formato, como animações, sons de animais, que são atraentes para as crianças, por exemplo, e não existem em um livro “normal”. Produziu, também, uma coletânea de poemas do Manuel Bandeira e gravou sua própria voz ao lê-los, para servir como um áudio-livro.

Acho que isso é legal de explorar no e-book, no livro digital, que não dá pra fazer no livro impresso, mas a maioria dos livros digitais não são assim, são esses que você só altera o conteúdo, a fonte, tamanho e tal, acho que é esse o tipo de experiência. Então eu estou experimentando ainda e descobrindo o que dá pra fazer em cada suporte, em cada material, (…) enfim ainda tem muito para explorar, mas acho que nenhum vai eliminar nenhum [livro digital e impresso], vão ser mais mídias que vão interagir, a TV não acabou com o rádio (…)

Conversamos também sobre a Malha Fina Cartonera, e a participação imprescindível dela no projeto. Foi ela a diagramadora da antologia Poesia Língua Franca que publicamos no primeiro semestre deste ano – uma antologia com dez poetas hispano-americanos de carreira já consolidada mas, em sua maioria, ainda inéditos no Brasil – e dos livros também inéditos, mas já em processo de produção, do escritor cubano Antonio José Ponte (composto por dois ensaios: História de uma bofetada e O casaco de ar) e do porto-riquenho Eduardo Lalo (A escrita riscada).

Poesia Língua Franca

Para mais informações sobre a Antologia, clique aqui. Foto: Julia Izumino.

A Escrita Riscada

Não deixei de conferir a resenha feita por Chayenne Mubarack sobre A Escrita Riscada clicando aqui. Foto: Idalia Morejón Arnaiz.

Capas já prontas de 2 ensaios

2 ensaios, de Antonio José Ponte. Foto: Pacelli Dias Alves de Sousa.

Para Iara, o que nos difere de outras produções independentes é justamente a colaboração entre todos os integrantes, tanto de criar editais para que novos autores consigam publicar quanto traduzir obras inéditas e trazer autores que nunca foram lidos no Brasil e que dificilmente editoras comerciais publicariam. A Malha Fina cria, então, o acesso a esse tipo de publicação de uma forma que as pessoas consigam pagar pela edição e ao mesmo tempo cria um projeto experimental do ponto de vista gráfico.

Acho que ainda é possível fazer muita coisa. Nós começamos criando projetos mais comuns, mas acho que dá para extrapolar o suporte, pensar em outras formas de trabalho. Eu me encantei com o projeto e quero continuar trabalhando com vocês.

Diz também ser interessante ver alunas e alunos de letras interessados em produzir livros.

As pessoas muitas vezes não têm sensibilidade quanto à forma e à preocupação estética do livro. Algumas pessoas se preocupam em ter, em colecionar e possuem um carinho pelo livro, mas para algumas pessoas isso passa despercebido e elas não percebem a importância do projeto gráfico, de como é difícil de produzir. Acho que vocês da Malha Fina estão sensibilizando as pessoas em relação a isso, e mostrando que é possível fazer coisas diferentes com materiais que não são nobres, como o papelão. Além de trazerem a ideia do objeto único, porque cada livro é único, tem uma capa única.

Hoje em dia as publicações independentes se destacam pelo uso de materiais alternativos e porque procuram criar livros como forma de expressão e manifestação cultural e estética. Isso acaba renovando o mercado e é muito importante. Hoje por exemplo, temos várias feiras de publicação independente em São Paulo e também no mundo inteiro.

Os independentes estão conseguindo chegar dentro desses grandes focos de comércio. De repente até entram no eixo comercial em livraria. Não sei se é o caso, mas o interesse está crescendo muito, tanto que agora temos cada vez mais dessas feiras. Antes tinha uma ou outra, agora tem a Miolo, tem a Tijuana, tem a Feira Plana, têm várias. (…) O legal da Cartonera é que vocês estão editando coisas inéditas dentro da academia e acho que isso pode ter um revés interessante do ponto de vista acadêmico, de como a gente pode, dentro da academia, produzir não só conteúdo acadêmico, mas também conteúdo literário. Tem revista experimental de crítica dentro das faculdades, mas é mais pra escrever crônica, resenha. E quanto à produção literária dentro de um curso de letras? Acho que é muito legal, e é diferente.

Por fim, agradecemos em especial a Iara Camargo, pelo seu belo trabalho no design gráfico da Malha Fina Cartonera, e por nos conceder essa conversa com muitas trocas e aprendizagens.

Seguimos interessados e atentos às mudanças do mundo editorial e literário, dispostos a usá-los da melhor forma: a produção e circulação da literatura de forma artesanal. E quem sabe, muito em breve, podermos lançar a Malha Fina Cartonera em um novo universo digital. Fique de olho!

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