Partir da experiência do outro: algumas palavras com Irina Garbatzky

por: Chayenne Orru Mubarack

A professora e poeta argentina Irina Garbatzky esteve na Universidade de São Paulo em 4 de maio de 2016 e ministrou a palestra-oficina “Esto no es uma performance”, baseada no seu livro Los ochenta recienvivos. Poesía y performance en el Río de la Plata (Rosario: Beatriz Viterbo, 2013). Depois da palestra, ela aceitou gentilmente dar uma entrevista à equipe da Malha Fina Cartonera, na qual falou de suas pesquisas sobre poesia e performance. Também nos contou um pouco sobre sua poesia, cuja pequena amostra foi publicada na Antologia Poesia Língua Franca.

Chayenne Orru Mubarack (COM): Como você começou seus estudos sobre performance? Como você entrou em contato com esse corpus do underground dos anos oitenta no Rio da Prata? Aqui no Brasil, por exemplo, é um campo pouco conhecido.

Irina Garbatzky (IG): Quando eu era estudante, me interessava muito o Néstor Perlongher e a poesia neobarroca em geral. Bom, o que eu conhecia, sobretudo o neobarroco argentino. Como eu queria trabalhar com o Perlongher em princípio, ainda quando eu era estudante participei como organizadora de um congresso em Rosario que foi importante para mim. Lá foram ler Roberto Echavarren e Tamara Kamenszain. Além disso, fora os estudos na faculdade, eu estava em um grupo de poesia no qual pensávamos em intervenções mais ou menos teatrais ou nessas mesmas perguntas: como muda a poesia em relação ao meio, como pensar uma leitura de poesia que soa diferente. E fazíamos leituras de poesia em teatros, passávamos vídeos, com música ao vivo. O interesse por esse tema não veio da faculdade, do ensino na universidade, mas sim da própria poesia, do encontro com outras pessoas que escreviam poesia. Quando eu escutei Echavarren ou me inteirei destes encontros na Estación Alógena, em Buenos Aires, comecei a pensar em montar um projeto de pesquisa ao redor dessa questão, a oralidade e a escritura, e a questão da voz. Esse foi o começo. Depois veio a decisão de trabalhar com a época pós ditatorial, com os anos 80, 90. Não trabalhar com o mais atual e contemporâneo, e sim com esse contexto em que o corpo aparecia ligado ao testemunho como possibilidade de transformação desse corpo, corpos meio deformados, meio desumanizados, que estavam pensando em perguntas em relação a esse contexto.

COM: Que poetas vocês liam?

IG: Bom, nesse momento liamos muito o que estava sendo publicado, ou seja, Washington Cucurto, La máquina de hacer paraguayitos, os estandartes de Anahí Mallol, Osvaldo Lamborghini, também Perlongher. Um pouco do que estava sendo escrito nesse momento. Fabián Casas, tudo o que era a poesia argentina dos 90.

COM: Há algum ponto de conexão entre o que você estuda e o que escreve? Ou seja, colocar a voz em cena, ou o tema da performance.

IG: Sim, por exemplo, em “Huesitos” em algum momento digo algo de Marosa di Giorgio. Mas, em geral, não tanto. Escrevo algumas coisas minhas e trato para que o acadêmico não esteja. Mas me parece que também elegemos o tema de pesquisa por motivos muito pessoais e muito profundos, assim como a poesia. Na verdade está tudo muito unido. Mas não, em geral, quando escrevo poesia não há um processo controlado para mim. Escrevo pouco e quando aparece é algo que tem mais a ver com uma experiência que estou elaborando e com coisas muito pessoais que pode ser que não tenha nada a ver com nada, na realidade.

COM: Como você descreveria sua poesia?

IG: Não sei, porque eu, na verdade, sinto que escrevo muito pouquinho. É muito difícil pensar em uma obra, pensar em mim como poeta me custa muito. Digamos que venho trabalhando muito a questão do familiar, a questão das mães, a questão das figuras das mães como figuras bastante escuras. Como as mães em geral são mães devoradoras, não habilitam muito. Essa é uma das minhas obsessões. A dificuldade para crescer, a dificuldade que pode ter um ser humano para crescer e os sonhos. Essa é minha outra obsessão. Como os sonhos interferem o tempo todo. Na poesia interferem muito os sonhos, como a experiência de um pesadelo, a experiência de um sonho te desestabiliza, ou você pode seguir seu dia atrás disso. Uma leitura que me marcou muito é a poesia da Tamara Kamenszain, em várias coisas. Depois, as fugas, o escape para outros lugares, sou um pouco obcecada com isso, por me esquivar sempre ao outro lado.

COM: Ou seja, para você, a poesia é essa possibilidade de fuga, ou o que você escreve é a fuga.

IG: Não sei se é uma possibilidade de fuga, não sei se a poesia é uma possibilidade de fuga. Mas a fuga é uma espécie de obsessão, o tema.

COM: Agora uma pergunta que me pediram para fazer. Quais sugestões você poderia dar para os que querem começar a estudar performance a partir do nada?

IG: Para mim vale muito a pena. É muito difícil armar o corpus, é muito difícil o trabalho de arquivo, mas cada vez é mais fácil porque cada vez estamos mais acostumados a trabalhar com materiais diferentes. A melhor recomendação, do que aprendi, é fazer entrevistas. Fazer entrevistas com os autores, com gente do público, com gente que viveu nessas épocas e ter uma disposição para ouvir e escutar esses relatos.

COM: Começar desde a experiência do outro.

IG: Sim, porque não é um objeto que se dê por si mesmo, ou seja, nenhum objeto se dá por si mesmo, todos os objetos se constroem. Mas a performance, justamente, é um objeto tão distinto e tão imaterial que poder encontrar pessoas para entrevistar é super valioso. Ter muita disponibilidade para escutar e pensar, que é como um relato que vai se construindo.

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Fonte: Facebook.

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