As Cartoneras pelo Mundo

por: Mariana Costa Mendes

Como monitora bolsista da Malha Fina Cartonera, há algum tempo me foi designada a tarefa de (re)elaborar uma lista elencando todas as cartoneras existentes no mundo. Digo (re)elaborar, pois a(s) minha(s) lista(s) partem da lista anteriormente feita pela Profª Dra. Johana Kunin da Universidade Nacional de San Martin (Argentina). Além da lista de Kunin, também usei como base as páginas da Wikipédia em espanhol, português e inglês que tratam sobre as editoras cartoneras. Por fim, também utilizei a página da biblioteca da Universidade de Wisconsin-Madison (Estados Unidos) que é referência mundial quanto ao acervo de livros cartoneros.

A ideia inicial era apenas atualizar a lista de Kunin, porém, em meio a este processo, percebi que algumas cartoneras aparentemente não existiam mais. Sendo assim, foram montadas três listas: uma contendo todas as cartoneras, outra só com as cartoneras ativas e uma última com as cartoneras (aparentemente) inativas. As listas estão organizadas em ordem alfabética por continente/país/estado e cidade e podem ser consultadas a seguir: Todas as Cartoneras, Cartoneras Ativas e Cartoneras Inativas.

A primeira cartonera a existir foi a Eloisa Cartonera, que surgiu na Argentina em meio à crise financeira e política de 2002. O fundador da editora, o poeta Washington Cucurto, encontrou uma possibilidade de saída da crise ao enxergar o potencial que há ao produzir livros com capa de papelão, uma forma simples e sustentável de aquecer a economia. A partir de então o movimento se espalhou pelo mundo, contando com editoras nos quatro continentes (exceto na Oceania), incluindo países distantes, como a Alemanha, a Suécia, a Finlândia e a China.

Conforme foi averiguado, cerca de 183 cartoneras já existiram no mundo todo (2 na África; 156 na América; 1 na Ásia e 24 na Europa), porém algumas delas não passaram de projetos de curta duração, como Lulio Cartonero, o primeiro projeto cartonero do México, ou a Princesa Cartonera, um projeto realizado com crianças na Espanha ou ainda a Me Muero Muerta Ediciones, um projeto cartonero realizado em uma prisão em Ezeiza (Argentina).

1 - Cartoneras por Continente (nº;%)

Destas 183 cartoneras, acredita-se que muitas não existem mais, pois não foram encontrados perfis em alguma rede social, ou, as que tiveram algum perfil, não o atualizam há muito tempo. O livro cartonero é comercializado em um nicho muito específico, portanto, a presença em redes sociais é fundamental para que uma editora cartonera sobreviva, pois este é um dos principais espaços para que o trabalho realizado seja conhecido por mais pessoas. Sendo assim, desta lista geral que continha 183 cartoneras, caímos para um número de cerca de 110 cartoneras ativas. Este número ainda é incerto, porque mesmo que não sejam encontrados vestígios online de alguma cartonera, pode ser que ela ainda esteja em atividade offline.

2 - Cartoneras Ativas por Continente (nº;%)

Notamos que 88% das cartoneras em atividade se encontram na América, 11% na Europa e 1% na África. Dividindo ainda mais o gráfico, vemos que 58% das cartoneras se encontram na América do Sul, 24% da América do Norte, 11% na Europa e 1% na África, como vemos abaixo:

3 - Cartoneras Ativas por Continente (2) (nº;%)

Na América do Norte e na Europa, os países nos quais existem mais cartoneras são o México (23 cartoneras) e a Espanha (10 cartoneras). Ambos são países hispânicos e, por conta de a primeira cartonera ter sido fundada na Argentina, o crescimento do movimento por países hispanoparlantes tem sido maior.

Já na América do Sul, os países que lideram o ranking de cartoneras são: Brasil (19 cartoneras), Chile (16 cartoneras), Peru (9 cartoneras), Argentina (6 cartoneras) e Equador (5 cartoneras). O movimento cartonero se difundiu pela América do Sul graças às oficinas que Washington Cucurto (Elosia Cartonera) realizou e tem realizando nos últimos anos. No Chile, o movimento tem crescido de tal maneira que neste ano será realizado o IV Encuentro Internacional de Editoriales Cartoneras, um evento organizado pela Biblioteca de Santiago e que conta com Olga Cartonera no comitê organizador.

Quanto ao movimento cartonero no Brasil, a primeira cartonera fundada em terras tupiniquins foi a Dulcineia Catadora em 2007 graças à parceria feita com a  Eloisa Cartonera durante a 27ª Bienal de São Paulo. Dulcineia foi fundada pela artista Lúcia Rosa e por Peterson Emboava, um jovem filho de catador. A partir daí, outras cartoneras foram fundadas por todo o Brasil, principalmente no Nordeste, como em 2014 com a fundação da Mariposa Cartonera em Recife/Pernambuco por Wellington de Melo. Aliás, o estado de Pernambuco é o que mais contém cartoneras ativas atualmente, como podemos ver no gráfico a seguir:

4 - Cartoneras Ativas no Brasil (nº;%)

Inclusive, nós, da Malha Fina Cartonera, já realizamos uma parceria com Mariposa Cartonera para a publicação dos livros de Calixto, Ferraz, Fuks e Pessanha. 22 poemas, de Fabiano Calixto foi feito também em parceria com a Yiyi Jambo (Assunção/Paraguai) – editora fundada por Douglas Diegues –, enquanto O pretexto para todos os meus vícios, de Heitor Ferraz Mello, Os olhos dos pobres, de Julián Fuks e Diálogos e Incorporações, de Juliano Garcia Pessanha foram feitos também em parceria com La Sofía Cartonera, editora estabelecida na Universidade de Córdoba (Argentina).

É possível identificar algumas modalidades entre as cartoneras, como os projetos cartoneros individuais, os coletivos cartoneros, as cooperativas cartoneras (como a Dulcineia Catadora, em São Paulo) e as cartoneras universitárias (como La Sofía Cartonera e nós, a Malha Fina). Mesmo com algumas diferenças, este novo modo de produção faz com que o livro seja visto de uma forma muito mais humana. Cada livro é único, pois cada capa é diferente uma da outra, e, sendo assim, os livros cartoneros são “mucho más que libros”, como é o slogan da Eloisa Cartonera.

Para o futuro, a perspectiva é que o movimento cartonero chegue a mais países. Um dos fatores que favorece esse crescimento são as parcerias entre as cartoneras, seja através de oficinas ou na produção de livros em co-edições. Essa difusão em outros países também pode vir a acontecer graças à divulgação das cartoneras em outras mídias, como é o caso do documentário italiano “Carretera Cartonera” que registrou o trabalho das cartoneras em cinco países da América Latina.

Logos de Cartoneras

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4 comentários

  1. Pingback: Um semestre de fôlego: a Malha Fina em retrospectiva | Malha Fina Cartonera
  2. Edmario Jobat · julho 2

    Boa noite. Bem criei uma cartoneira em 2015 – A Universo Cartoneiro, de Igaraçu – PE, meu face/universocartoneiro.

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    • malhafinacartonera · julho 4

      Obrigada pelo comentário! Iremos atualizar os documentos com a lista de cartoneras e iremos adicionar a sua! Também seria legal incluir a sua cartonera na lista da Wikipédia (em português, inglês e espanhol), assim outra pessoas irão conhecê-la!

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  3. Pingback: As dificuldades do fazer cartonero | Malha Fina Cartonera

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