A centralidade dos afetos: entrevista a Fabiano Calixto

por: Rodrigo Damasceno*

Fabiano Calixto é um poeta nascido em Garanhuns, criado em Santo André e recriado em São Paulo. É também professor, editor, tradutor, pesquisador e anarquista. De seus inúmeros livros publicados saíram os 22 poemas que aparecem na coletânea a ser publicada pela Malha Fina.

Aos olhos de cada leitor deve saltar um ou mais traços específicos de sua poesia, que é variada tanto por causa da distância temporal (e geográfica) entre as primeiras e as últimas produções quanto por conta dos gestos e técnicas com os quais o poeta experimenta (que vão do verso à prosa, do lirismo ao escracho, do folk ao heavy metal – sem deixar de passar pelo samba).

Aos meus olhos – que são míopes, mas meus – salta a centralidade dos afetos na produção dessa poesia: daí os poemas para os pais e a avó; ou os versos que são pura memória de momentos íntimos entre amantes (como a descrição de quando se ouve “(…) pela primeira vez/ a mijadinha dela”); ou ainda os e-mails para os amigos poetas, inclusive para aqueles que sequer teve a oportunidade de conhecer, como é o caso do belo “E-mail para Torquato Neto”, um autor com o qual Calixto parece dialogar intensamente e que, segundo um verso seu, “está cagando e andando para poemas”.

Todo esse afeto convive ainda – muitas vezes no mesmo poema – com um certo teor de revolta de natureza social e política, que o poeta dispõe inclusive em meio às suas canções dedicadas à beleza e à alegria dos sentidos (como a seguinte nota factual introduzida a certa altura das belíssimas “Instruções para compor um folk”: “Por exemplo: não precisa ser pró-Cuba nem anti-Cuba para entender que esta noite milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo etc.”), e que também nota com a ajuda daqueles que ele observa pela cidade (é este o caso em “A canção do vendedor de pipocas”: “em frente ao/ Banco de La Nación Argentina/ o vendedor de pipocas/ da avenida Paulista/ desvenda os mistérios do Honda prata/ que passa lentamente, soberbo/ (‘coisa mais sem gente!’)”).

Na breve entrevista que se segue, Calixto (a propósito de Torquato, aliás – mas não apenas), define a poesia como uma “barra pesada”, algo que tem pouco a ver com a literatura e muito com a bruxaria e com o delírio. Sua relação com a poesia só pode ser ambígua, marcada por interesse e envolvimento extremo com a criação tanto quanto por enfado e revolta com o meio e a circulação das obras. Ao contrário de Torquato, porém, os poemas – ainda – interessam a Calixto – assim, um verso como “apago outro poema/ e fico mais lúcido” (de “Poema n. 12”) pode ser lido como a descrição de uma experiência negativa, visto que o seu interesse é pelo delírio, e não pela lucidez. Fabiano Calixto não quer apagar o poema, mas fazê-lo experiência, caminhada rumo a uma outra coisa, ou mesmo sem rumo – algo que se vê, por exemplo, na promessa feita ao final das suas instruções para a composição de um folk: “Por isso: caminhar, caminhar – sabendo que, quando a ave sangria cantar três mil vezes, entraremos no império do transe e do delírio, onde, diria um carbonário, o planeta entra na órbita do coração.”

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Fonte: Alpharrabio.

Rodrigo Damasceno: Você já teve livros publicados por grandes editoras (como a Ed. 34 e a CosacNaify) e, no entanto, seu último livro de inéditos (Nominata Morfina) foi editado e distribuído de forma independente (pelos selos Corsário-Satã, Córrego e Pitomba). Após essa experiência, quais as suas impressões sobre estas diferentes formas de publicação (grandes editoras versus edições independentes, cartoneras, auto-edições)?

Fabiano Calixto: Bem, no meu caso, hoje prefiro fazer auto-edição pelo simples fato de poder estar perto de todo o processo editorial. Outro ponto, é a espera monstruosa e o desdém das editoras com relação à poesia – certa vez recebi uma “seu livro é bom, mas não vamos publicar” tão esquisita que não consegui saber, depois de ler a resposta, se era pra eu me alegrar ou entristecer –, isso me fez desistir de vez delas.

Agora, por outro lado, sabemos que um livro só “acontece” (pra usar um jargão editorial meio imbecil) quando tem apoio de uma editora maior, que consegue cavar espaços nas mídias especializadas e, aí sim, despertar interesse pelo livro. Ninguém resenha livro independente, a não ser aqueles que estão realmente interessados na coisa. A coisa no caso é poesia – a coisa!

De qualquer maneira, hoje escrevo cada vez menos e só publico se houver alguma imensa alegria rondando a ideia de publicar, caso contrário, não vejo o menor sentido. Não tenho mais o menor interesse pelo ambiente literário – que, no mais, é só uma reverberação perfumadinha e engomadinha do nosso lamentável e melancólico zeitgeist.

RD: Você organizou a Vinagre, uma antologia de poetas neobarracos, produzida no calor da onda de protestos de junho de 2013. Passados quase três anos desde então, como você observa o valor daquele trabalho e, além disso, o modo como aquele engajamento explícito e imediato por parte de tantos poetas reverberou na produção e na reflexão sobre a poesia brasileira contemporânea e suas relações com a política?

FC: Acho que foi um projeto interessante, legal, feito ali no calor da hora. Grandes gritos de revolta contra o absurdo. Traçamos roteiros com aqueles gritos – sabendo que a poesia não se obriga a nada e só quer liberdade, libertinagem. Foi um gesto muito bonito.

Olhando hoje, daquele incrível junho de 2013 parece que não muita coisa sobrou, as ruas gritaram tanto para uma plateia surda. Entristece. Mas as revisões e reviravoltas, próprias do espírito humano, ainda estão em questão. São, como todos podem perceber, o prato do dia.

RD: Na sua produção acadêmica e crítica, você pesquisou a obra de Torquato Neto e agora se propõe a editar e comentar Orlando Parolini, dois autores cuja relação com a poesia não se baseia propriamente na ideia de livro, de obra pronta, de publicação. Você acha que estes poetas, para além do interesse daquilo que escreveram, dão o seu recado também através de suas posturas, de seus gestos? E que recado é este?

FC: Sim, acho que o gesto desses caras, seu estar-no-mundo, já era uma poética, uma forte poética. A recusa é uma postura poética. São poetas que tiveram coragem de enfrentar seu tempo.

O Torquato dizia que “um poeta não se faz com versos”. O Leminski, que “para ser poeta tem que ser mais que poeta”. Então, acredito, o recado é: a poesia é uma barra pesada. E, além de não ter como residência fixa a plataforma livro, não tem nada a ver com literatura – isso sabemos faz tempo. Está mais perto da bruxaria, da alquimia, do xamanismo, do delírio que faz a língua dançar, a transa necessária para que possamos habitar-ler-formatar-entender, com vivacidade, sanguineamente, este planeta. A poesia exige escuta, saber escutar, o que nos leva de imediato à ideia de generosidade né? E, sabemos, ninguém mais quer escutar senão a si próprio. Quando a escuta acaba, a vida rui. Podemos ter tudo sem vida – vide este mundo, nosso endereço –, mas jamais poesia. A poesia é outra coisa. A poesia pulsa.

* Rodrigo Lobo Damasceno é de Feira de Santana, Bahia. Escreve e traduz poemas. Escreve e traduz ensaios. Pesquisa as ideias de antipoesia e antilirismo na produção literária latino-americana no Programa de Pós-graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH. Deve publicar, ainda este ano, em colaboração com a artista plástica Camila Hion, o livro Tatuagens complicadas do meu peito. Costuma publicar poemas e traduções no blog Próximo ao Equinócio (http://proximoaoequinocio.blogspot.com.br/).

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