O que os olhos não estão acostumados a ver: Memória de uma entrevista com Julián Fuks

Por: Lia Ceron

Uma cena calculadamente cotidiana, mas que engana: um casal sentado no carro, esperando abrir o semáforo, retornando satisfeitos com as compras para a casa. Absortos em seu diálogo contínuo, demoram a ver a aproximação indesejada do homem, trôpego, que vem, é o que se espera, pedir alguma coisa. E pede. Mas não o esperado. Ou um homem que retorna à cidade de seus pais (e que foi dele, em algum momento longínquo) para um jantar incômodo com sua tia e enxerga, pelos cantos dos olhos, a presença inesperada de mais alguém na sala. E o jantar se transforma com o peso do passado. Assim são os dois contos do escritor e crítico literário Julián Fuks, reunidos em Os olhos dos pobres, publicados pela Malha Fina Cartonera.

A princípio, não vemos nada além de situações familiares. Mas é exatamente aí, no cotidiano e reconhecível, que se pode vislumbrar qualquer coisa que, se não comove (como denuncia o narrador de “Os olhos dos pobres”) com certeza impacta. Qualquer coisa que leva do conforto do reconhecimento a uma inquietude do inesperado. Esse mesmo narrador avisa que “nada tem de inexplicável, nada tem de absurdo” no que lhe acontece no conto. É preciso prestar mais atenção. Fuks reconhece que se atentar ao cotidiano o influencia para escrever, mas não apenas isso.

Citamos, então, a violência presente nos contos. No primeiro, “Os olhos dos pobres”, indagamos se as ações iniciais dos personagens, enquanto o homem se aproxima da janela do carro, mostrariam uma falta de empatia (encontrar logo uma moeda, dar o que foi pedido, voltar ao seu universo particular). Isso não tem a ver com a nossa situação atual? A violência social, diria o pesquisador Jaime Ginzburg, é um fator marcante no mundo contemporâneo. A exposição constante a imagens violentas, propagada pela indústria midiática, poderia levar à falta de empatia, como representada no conto, porque não temos disponibilidade emotiva suficiente para reagir a cada nova notícia, a cada nova violência. Falta de empatia como forma de proteção. Fuks concorda, poderia ser uma boa maneira de pensar esse conto, mas não a única. Afinal, a narrativa foca-se também nas relações pessoais mais íntimas. E explica: há sim uma violência nos contos, mas não é a mesma. Se em “Os olhos dos pobres” a violência é real, concreta, momentânea, em “O jantar”, tem uma dimensão metafórica (e inclusive fantástica, percebe o autor, na construção do conto), que se refere à barbaridade sofrida por uma geração anterior e que ainda está presente, na memória da impunidade dos responsáveis. A violência sofrida pelos pais, que está na lembrança, responsável por tornar o ambiente pesado, carregado de rancor, não é a mesma que o personagem vivencia ao longo do jantar com a tia. O que, de qualquer forma, impressiona.

Muito do impacto suscitado pelos contos surge também pela precisão da escrita de Fuks, que consegue ser reveladora ao mesmo tempo que vai deixando sugestões ao longo do caminho. Como um quebra cabeça a ser recomposto pelo leitor, como se clareasse, pouco a pouco, nossa capacidade de enxergar. “Disseram-me, certa vez, que eu tenho uma escrita cerebral”, explica o escritor, comprovando seu trabalho intenso com a linguagem. Escreve e reescreve várias vezes a mesma frase, confessa. É dessa forma que constrói um narrador tão desconfortável em sua pele depois daquele encontro fortuito no semáforo. Um narrador que se trai sem querer ao dizer “mobiliaríamos” a casa com as novas poltronas, como se isso já não fosse possível, e logo se corrige: “mobiliaremos”. Inicia o relato tentando compreender o ocorrido: “porque não faz sentido, é o que repito, e ao repeti-lo ganho consciência de que não é a suposta ausência de sentido o que me incomoda e sim outra ausência suposta, falência de toda linguagem, a ausência decretada ou autoimposta do que revele, do que estampe, do que denuncie, do que impressione, do que comova”. O homem e seu pedido já não estão à vista. Não há, no entanto, como ocultar o impacto.

Talvez seja essa a importância da escrita, da literatura, da arte, perguntamos. Tirar da automatização, do sentido já atribuído e consolidado pelo hábito, nossa forma de ver o que nos rodeia, de perceber a realidade. O escritor concorda e acrescenta que projetos como o das cartoneras são importantes para garantir o acesso à literatura a pessoas que poderiam não tê-lo de outra forma. Talvez seja essa a importância da escrita, dos livros, das cartoneras: criar a possibilidade de nos fazer ver.

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Fonte: Posfacio

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