Mais um Pretexto

Por: Ellen Maria Vasconcellos

Eis aqui somente mais um pretexto para ler outra vez as palavras deste autor. Heitor Ferraz Mello é jornalista, professor, editor, e é poeta. Desde 1996 tem seus poemas publicados em livros, e em 2014, La sofía cartonera publicou uma antologia de seus poemas, em coedição bilíngue com a Mariposa Cartonera. Neste ano de 2016, essa mesma antologia ganhará a edição de Malha Fina Cartonera.

Seus textos, carregados de lirismo, trazem o jornal diário, hábitos e imagens da rotina, à forma poética com bastante naturalidade. A primeira pessoa prevalece, e convida o leitor a abrir um livro que mais parece um álbum de fotos: histórias e objetos passam por um banho de prata literário. “El pretexto para todos mis vicios” é uma compilação organizada pelo próprio autor, e traduzida por Ignacio Montoya, Juan Revol, Luisa Domínguez e Tatiana Lima Faria, e reúne poemas de sete dos seus livros e apresenta, ainda, poemas inéditos, exibindo-nos um pedaço do universo que observa e captura este autor. A pílula diária para curar os vícios? A poesia.

Abaixo, apresentamos uma entrevista que Heitor Ferraz Mello nos concedeu para esta nova edição da antologia:

Malha Fina Cartonera – O seu primeiro livro se chama “Resumo do dia” (1996). Como extrair poesia da cotidianidade? Como um poema pode trazer uma nova perspectiva da realidade?

Heitor Ferraz Mello – Muitos veem nisso, no cotidiano, uma limitação. Talvez seja. Não sei dizer, já que não consigo escrever de outra maneira, ou seja, escrevo a partir das minhas observações e sensações. Ou até mesmo intuições, pois muitas vezes são coisas que nem havia pensado direito, mas quando começo a fazer o poema, elas vão se revelando para mim. Talvez sejam essas as novas perspectivas, as que o próprio poema vai abrindo para mim quando o escrevo. Como disse, pode ser uma limitação, pois o poema, no meu caso, não nasce de uma fantasia da mente, de uma invenção. É a partir de pequenos episódios e coisas que faço meus poemas. Curiosamente nunca na hora, mas dias depois, quando certa cena ou situação retorna como um sonho e pede algum tipo de registro. Então, posso recompor uma caminhada ou alguma situação que vi e vivi em algum momento da minha vida.

MFC – Em um texto seu para a Revista Cult, você escreve sobre a relação do poeta com seus poemas já perto da hora da “indesejada das gentes”. Carlos Drummond de Andrade deixa preparado “Farewell” para ser publicado postumamente, enquanto Herberto Helder publica, ainda em vida, “A morte sem mestre”. Em seu livro “Hoje como ontem ao meio-dia” (2002), você busca o cinzeiro como arquivo morto de seus descobrimentos pessoais.  Um livro também é parte do corpo do escritor? Você acredita que um poemário é também um inventário, uma caixa de heranças?

HFM – Talvez o poema seja uma extensão desse corpo, ou ainda, seja uma possibilidade de existência desse corpo, de expor suas cicatrizes, num cotidiano que anula o corpo, anula a consciência de que temos corpo e cicatrizes. Quanto mais alienados, melhor para o cotidiano em que vivemos, pois esquecemos tudo, até de nossos medos. Não temos consciência de que somos doentes – só doente consegue sobreviver neste mundo tão perverso. Os que adoecem de fato são o que percebem e sentem essa perversão profundamente, e o corpo e a mente reagem. Talvez o poema seja o espaço de registrar essa loucura, de reagir a esse cotidiano.

MFC – Cada vez vemos mais prêmios e editais para a criação literária, como a Pro-AC de São Paulo. Em 2007, você ganhou uma bolsa de produção e difusão de literatura pela Petrobrás, e o resultado deste prêmio foi o livro “Um a menos” (2009), obra que foi semifinalista do Prêmio Portugal Telecom, em 2010. Em 2015, o Prêmio Jabuti e o Oceanos foram muito esperados por artistas e editoras (grandes ou independentes). Como você acha que as artes – e também os artistas – lidam com essa profusão de prêmios e bolsas? A literatura ganha e/ou perde com essas condições e possibilidades?

HFM – O problema não são as bolsas e os prêmios, mas o tipo de relação que se estabelece com esses incentivos. Conheço gente que ganhou prêmios importantes e pode, com isso, dedicar-se mais ao trabalho literário, principalmente na prosa (muito raro isso acontecer na poesia). O prêmio participa do processo de divulgação da obra e do autor. Com tantos eventos, o autor que ganha um prêmio levanta uns trocos com palestras e mesas de debate. Uma maneira de sobreviver. O problema, no entanto, é publicar já pensando nos prêmios, gastar um tempo de sua vida na campanha pelo seu livro. Acho isso o fim da picada. Se a literatura ganha ou perde? Acho que já perdeu faz tempo e por muitos outros motivos.

MFC – Você além de poeta, é jornalista, professor e editor. Como o trabalho de editor, de educador e de jornalista cultural ajuda ou interfere na produção de seus poemas?

HFM – Diria que ajuda e atrapalha. Quando preparo uma aula, acabo fazendo várias leituras, vou levantando materiais, pensando determinadas coisas, e isso me estimula muito. Pode acontecer de algumas ideias surgirem durante esse processo. A mesma coisa acontece quando tenho de escrever um texto para jornal ou revista. Agora, essas atividades tomam bastante tempo da vida da gente. Não sou do tipo de professor que já tem as aulas do ano prontinhas, basta repetir o que deu no ano anterior. Sempre mudo muita coisa, ou avanço mais em certas leituras. E isso, claro, toma bastante tempo. Mas isso é viver, não é? Claro que há momentos em que morro de vontade de parar tudo e me perder com meus poetas prediletos (que também variam sempre). Nem sempre posso. Ultimamente, acho que até para ler poesia preciso estar inspirado. Ou seja, estar em sintonia com a poesia. Quando isso acontece, é uma festa. Fico numa felicidade infantil. Agora, a coisa fica complicada quando a sintonia surge em meio a outro trabalho. É quando atrapalha. O pior é que raramente a sintonia acontece quando tenho um pouco mais de tempo livre, como nas férias… Tento me aquietar lendo romances.

MFC – Seus poemas exalam a cidade, essa “fábrica de notícias”. Um poeta só pode escrever sobre aquilo que vive? Existem temas universais? Um poeta é também resultado de uma máquina producente de relações entre coisas, entre mercadorias e fetiches?

HFM – Um poeta pode escrever sobre o que ele quiser, sobre o que sentir necessidade de escrever. No meu caso, por uma limitação minha, a poesia nasce de certa relação com as coisas que me cercam. Por uma certa tendência pessoal, não trato de universais, de sentimentos universais, mas de coisas muitos particulares, as que me tocam, ou me ferem.

MFC – Em “O pretexto para todos os meus vícios”, antologia traduzida e lançada pela La Sofía Cartonera e Mariposa Cartonera, muitos poemas surgem como imagens que se deixaram revelar. Um poema pode surgir de uma máquina fotográfica, de uma câmera de segurança, de um gif extraído de uma rede social. Todo material parece servir para a poesia. Você concorda com isso? Como uma imagem fotográfica pode condensar uma história? Como um poema pode condensar essa imagem?

HFM – Sim, por que não? O poema sempre condensa muita coisa. Claro que isso depende do poeta e do trabalho artesanal que ele realiza em cada poema. Sempre tenho essa espécie de alumbramento lendo Manuel Bandeira: quanta coisa condensada na forma exata e enxuta de um poema! Acho que o mesmo vale para a fotografia, para a boa fotografia. Essa condensação é aquele “momento decisivo” de que falava Cartier-Bresson.

MFC – Você acha que de que maneira as editoras cartoneras podem contribuir politicamente para uma arte mais livre, além do fortalecimento da escritura e da leitura, por exemplo, por (e de) grupos com menos (ou nenhuma voz) em todo o continente, democratizando o acesso à cultura?

HFM – Esses pequenos empreendimentos funcionam como barricadas de resistência. Criam um público próprio, que tem interesse naqueles autores ou quer conhecer novos autores. E as obras acabam circulando por caminhos inusitados, ruas pelas quais o ISBN não passa. Mas não diria que elas tornam a arte mais livre. Isso não depende da forma de circulação e edição. Depende dos autores, da verdade de cada um.

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