Garcia Pessanha: uma conversa do Fora para o Dentro

Por: Debora Duarte

Debora Duarte é uma das colaboradoras da Malha Fina Cartonera, e aluna do Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana, cuja pesquisa versa sobre a produção poética do argentino Néstor Perlongher. A convite da Malha Fina Cartonera, realizou entrevista com Juliano Garcia Pessanha, escritor cuja interface entre literatura e filosofia sempre a estimulou tanto na escrita quanto na vida acadêmica. Foi no contato com a produção literária do autor que Debora viu nascer as primeiras fagulhas da escrita. Atualmente, contribui com a revista Escrita Pulsante [http://revistaescritapulsante.com.br/], atuando, principalmente, sobre temas como o silenciamento e a solidão nos grandes centros urbanos.

Juliano Garcia Pessanha é doutorando em filosofia pela Universidade de São Paulo. Em 2015 a editora Cosac Naify publicou Testemunho transiente, em que o autor reúne seus quatro livros publicados entre 1999 e 2009. Diálogos e Incorporações, publicado em parceria com Mariposa Cartonera e Yiyi Jambo Cartonera, será lançado pela Malha Fina no dia 15 de abril de 2016 no Centro Universitário Maria Antonia.

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Fonte: Juliano Garcia Pessanha.

Debora Duarte – Juliano, como se dá o processo de criação literária para você, que é filósofo de formação? Pensando nisto, como surgiu Diálogos e incorporações e quais referências literárias e/ou filosóficas perpassaram este processo?

Juliano Pessanha – Minha escrita é intermitente e depende de encontros de leitura que sejam fortes e motivem a escrita. O resultado é um híbrido de filosofia literária ou literatura filosófica. De qualquer maneira, algo que rearticula e recombina essas disciplinas com a minha experiência concreta no mundo.

DD – Em Diálogos e incorporações, encontramos um ensaio sobre Nietzsche escrito em primeira pessoa, a opção pelos Diálogos com Cioran e Rimbaud e os aforismos construídos a partir das incorporações da obra de Marina Tsvetáieva. Qual a principal motivação dessas escolhas formais?

JP – É aleatório. Eu poderia ter usado a primeira pessoa nos outros também. Em todos eles, parto do princípio de empréstimo de uma ferida ou do fato de que um self negativo pode incorporar várias experiências. Também escrevi em primeira pessoa como Kafka, no texto “A exclusão transfigurada”, que está no Testemunho transiente.

DD – Lendo Diálogos e incorporações e, é claro, considerando os termos que dão nome ao livro, percebemos um território marcado pela polifonia e por assentamentos biográficos. De fato, a obra tem algo da biografia de Juliano Pessanha? Como é a questão desse “eu” perfurado pelo “Outro” e por uma série de ressonâncias

JP – Não utilizo esses termos autobiografia ou biografia. Não existe um eu para que se faça uma autobiografia. O eu é resultado de encontros com outros (hetero). Partí da heterotanatografia (hetero – outro/ tanato – morte / grafia – escrita) “Esse menino aí”, na qual trabalho a história não histórica de um menino nascido para fora, e daí por diante penso os encontros literários como acontecimentos territorializantes heterobiográficos, isto é, aquilo que nos retira da exterioridade e da estranheza.

DD – Nos textos que integram Testemunho Transiente você optou pela reflexão acerca do “desalojamento” como territorialização, como “hospitalidade”, como pertencimento e identidade. Em Diálogos e incorporações como estão dadas estas questões, sobretudo a da identidade?

JP – Diálogos e incorporações não é diferente do que está reunido em Testemunho transiente. Trabalho com a noção de encontros ressoantes, esses sim territorializantes e alojadores. Não sei se deveríamos chamar o precipitado desses encontros de identidade, que é um conceito muito estável.

DD – Se partirmos do pressuposto de que a obra de arte tem um excesso que por si só é irrevelável, em Diálogos e incorporações onde repousaria este silêncio?

JP – Pode-se deixar o silêncio em silêncio, se é que ele está ali. Ou mesmo criticar e desconfiar das poéticas do indizível que infestaram o século XX.

DD – Em uma de suas entrevistas, você afirmou que foi na literatura e na palavra que “pressentiu a possibilidade de um encontro territorializante”, descobrindo nestas uma espécie de “cidadania”, que lhe havia sido sequestrada. Podemos pensar em algum tipo de relação deste encontro com aquilo que chamamos de liberdade? Se sim, como você definiria essa liberdade?

JP – No contexto do que escrevi, o termo liberdade não me serve. Tanto os encontros como os desencontros dizem de que o homem é um ente constrangido e dependente. Em oposição à cidadania sequestrada, o encontro do próprio gesto no outro não é uma liberdade, mas uma circunstancialidade marcada por sorte ou azar.

DD – Por fim, podemos afirmar que em Diálogos e incorporações há um sujeito migrante, ou melhor, o existir para Juliano Pessanha sai do âmbito do estranhamento, de uma angústia ontológica e vertiginosa e passa a ser uma nova projeção existencial, um lançar-se no mundo menos agressivo e dolente?

JP – Sim, esse é o movimento geral, do Fora para o Dentro, ou em termos filosóficos, uma transição de Heidegger para Sloterdijk, o que significa um aumento do âmbito da transicionalidade.

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