Transdeliração Selvagem

Por: Ellen Maria Vasconcellos

Douglas Diegues já é um velho e querido conhecido e praticamente dispensa apresentações. Ele é um dos maiores representantes da literatura em portunhol selvagem, “la lengua mais hermoza de la triple frontera, onde cabem todas las lenguas del mundo”; tradutor e poeta e fundador da editora cartonera Yiyi Jambo, parceira da Malha Fina Cartonera.

Abaixo apresentamos a entrevista que Douglas Diegues nos concedeu ao blog da Malha Fina Cartonera, mesmo debaixo de uma febre suspeita de dengue ou chikungunya.

Malha Fina Cartonera – Como foi que um nascido de frente para o mar resolve dar meia volta e vai parar no interior do continente? 

Douglas Diegues – Fue hermoso nascer do amor de minha mãe hispano-guarani y de meu pai carioca filho de um dentista baiano e uma dama mineira. Mas aos dois anos tive de voltar com a minha mãe para a fronteira. Ela precisava me ensinar o portunhol selvagem, uma língua que não existe, mas que foi la língua em que sempre nos comunicamos inventando-a no calor da hora.  Minha mãe foi a minha primeira professora de portunhol selvagem. Non digo que el portunhol selvagem tenha uma origem biológica. Non houvesse nascido yo del amor de uma paraguaya e um brasileiro, certamente non haveria o meu portunhol selvagem.

MFC – Quase quinze anos se passaram desde seu primeiro livro, de sonetos selvagens, “Dá gusto andar desnudo por estas selvas”. De onde surgiu este projeto/conceito de escrever em (uma das variantes do) portunhol selvagem e como é mantê-la viva na fala, escritura e como “non-lengua”? Viver na fronteira com o Paraguai faz com que o portunhol selvagem também se enriqueça nesta tríplice fronteira com o guarani?

DD – Eu era o editor chefe de uma página de literatura no jornal Folha do Povo, de Campo Grande, MS. A página se chamava “palavra-boa”. Publicava entrevistas e textos com poetas e escritores de todo o Brasil. Então depois de dois anos e meio, uns jornalistas caretones que assumiram a nova direção do jornal me disseram que eu era um cara que andava sempre no mundo da lua etc e tal e que eles iriam cortar a página de literatura e me estavam despedindo naquele momento. Fiquei triste, fiquei com raiva dos caras. Entonces comecei a escrever sonetos selvagens y nunca mais parei de escribirlos.

MFC – Wilson Bueno e Manoel de Barros são alguns dos poetas que sua escritura dialoga/transdelira. Você pode citar outros escritores? 

DD – Só transdeliro los textos que me impactam; podem ser conocidos ou desconocidos, bons ou ruins, feos ou belos. Aquilo que me impacta es lo que tem a ver comigo. Prefiro non citar nomes, mas apenas ressaltar essa qualidade inexplicável de los textos que me impactam. Transdelira-los es uma maneira de hacerlos mios também, sem que deixem de ser de los autores.

MFC – Você traduziu “Ayvu Rapyta”, uma obra prima. Você pode falar também um pouco sobre seu projeto de tradução/ adaptação/ versão/ invenção/ transcriação de autores para o portunhol selvagem? Há outros simpatizantes do movimento, não?

DD – Traduzir el Ayvu Rapyta al portunhol selvagem es um suenho que venho tornando realidade desde 2007. Agora estou na fase de las revisiones. Traduzir Ayvu Rapyta a uma língua que non existe me parece ajudar a telestransportar a la version em portunhol selvagem el frescor de llamas y rocios. Yes, el portunhol selvagem tem muitos simpatizantes. 

MFC – “Uma flor na solapa da miséria” saiu em 2003 no mesmo ano que surgiu a Eloísa Cartonera. Como você conheceu e como surgiu seu interesse pelo projeto cartonero? O que você acha das cartoneras conquistando pouco a pouco cada vez mais adeptos no Brasil, toda América Latina e outros continentes, e fugindo da burocracia e deste sistema mercadológico editorial?

DD – Conheci el proyecto de Eloisa Cartonera com em 2003, em Asunción, quando Cucurto esteve no Paraguay e deixou livros em algumas librerias de Asunción. “Uma flor” foi publicado em 2005. O Cristian de Napoli propôs a publicação de um livro meu a Eloisa cartonera. Eles toparam publicar e fui leerlo no festival Salida al Mar de 2005 em Buenos Aires. O homenageado do festival foi o poeta Raul Zurita. Depois fui presentar “Uma flor” en la libroferia se Buenos Aires, em 2006. A Revista Ñ publicou três sonetos salvajes en sua página dedicada a la poesia. Depois o livro vendeu pra cacete en la editora-instalação da Eloisa Cartonera durante a Bienal de SP. Depois outra cartoneras publicaram o livro, a Dulcinéia Catadora, a Yiyi Jambo. Quando encomendam um exemplar dessa obra, cortamos carton, fazemos um livro cartonero al toke com uma capa nunca vista y enviamos por el correio.

MFC – Seu “Triple Frontera Dreams” saiu por pelo menos três cartoneras. Este ano seu livro “Tudo lo que você non sabe es mucho más que todo lo que você sabe” foi lançado por 5 editoras cartoneras. Como isso aconteceu/acontece?

DD – El “Triple frontera dreams” saiu em version pocket por Yiyi Jambo, Katarina Kartonera y Eloisa Cartonera. Depois foi lançado o “tudo…” por seis cartoneras de seis países diferentes: México, Chile, Peru, Argentina, Espanha e Brasil. Acabo de assinar um contrato com la Interzona, de Buenos Aires, que publicará este ano la version integral de Triple frontera dreams.

MFC – A “Yiyi Jambo” foi definida por você, em uma entrevista, como a primeira “kartonera nômade” e (ao menos duplamente) desobediente, na língua e no projeto editorial. Como nasceu, cresceu e sobrevive a editora cartonera “Yiyi Jambo”? 

DD – A Yiyi jambo fue fundada em Asunción, Paraguay, en la primavera del 2007, en el Barrio Sajonia, con mucha alegria y un estilo propio de hacer libros en formato non-único y cosido a mano. Su nombre inicial fue Jambo Girl. Pero decidimos paraguayizarlo  convirtiéndolo en Yiyi Jambo. Yiyi es una palavra popular, cuya origen se verifica en los bajofondos, y significa mulher, novia, amada, amante, chica, muchacha. Jambo es uma fruta abundante en el nordeste brasileiro; a la vez se refiere a un color achocolatado de piel feminina. 

Yiyi Jambo significa chica morena piel tono chocolate. La grafia correcta es Yiyi Jambo y no YiYi Jambo como muchos suelen grafar. Fundamos Yiyi Jambo durante duas ou três festas en la mansion fake que alugamos nel bairro de Sajonia da capital paraguaya. Foi muito divertido y depois de algumas semanas eu estava nel fliporto, la festa literária de Porto de Galinhas, Pernambuco, lançando los livros com leituras impagabelles numa mesa com Xico Sá e Joca Terron.  Pouco a pouco Yiyi Jambo, la primeira Cartonera do Paraguay, ficou conhecida no mundo inteiro.  Una de las especificidades de Yiyi Jambo: los textos em portunhol selvagem que publicamos.

MFC – Recentemente, vi uma nota sobre um grupo de 80 crianças no Paraguay participando da montagem/fabricação de um livro cartonero pela Yiyi Jambo. No Nordeste, há várias cooperativas funcionando gerando trabalho e dinheiro na produção de livros cartoneros. Você acha que de que maneira as editoras cartoneras podem contribuir para uma arte mais livre, além do fortalecimento da escritura e da leitura, por exemplo, por (e de) grupos com menos (ou nenhuma voz)? 

DD – Las editoras cartoneras podem contribuir muito ainda com la desmistificacion de la literatura, de la lectura y del livro. Pode salvar la vida de muitas pessoas também. Pode trazer mais liberdade para el arte de publicar livros. La coisa está apenas começando y después del libro cartonero los livros nunca mais serão los mesmos. Além disso tudo, é uma delícia fazer um livro de poesia cartonero com las propias manos. Las capas nunca se repetem. Y los livros. Não tem preço. Podem custar entre 10 y 5 mil reais. Você põe o preço. Quem quiser pagar, que lo pague. És uma arte muito livre.

MFC – Você também é diretor, roteirista e tem uma porção de outros talentos. Já houve algum projeto envolvendo música, cinema de ficção ou documental, televisão & artes? Quais são os próximos projetos?

DD – Escrevi apenas o argumento e o roteiro do filme doc.tv “O poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina”, a convite de Manoel de Barros, que me ofereceu 5 mil reais de seu cachê para ajudá-lo a salvar o filme e filmar a sua poesia e não a sua biografia narrada por ele, etc e tal. Eu topei e fizemos esse trabalho juntos. Ele não iria participar do filme. Mas a pedido meu, ele contracena comigo na última sequência em que nos cruzamos na Rua Piratininga, eu subindo pro norte e ele descendo pro sul. Ele todo de branco y eu disfrazado de andarilho com um saco de estopa nas costas puxando uma estrela do mar por uma corda.

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