Modus Operandi: Traduções de poesia na Malha Fina – Entrevista a Ellen Maria Vasconcellos & Clarisse Lyra

por Tatiana Faria

Na primeira reunião aberta da Malha Fina Cartonera, em meados de setembro de 2015, recebemos muitos dos pós-graduandos do Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana, e os convidamos para participarem do projeto produzindo críticas literárias, resenhas, entrevistas e traduções, para serem publicadas no blog ou nas edições que prepararemos ao longo deste semestre. No encontro, decidimos que traduziríamos, “como teste”, os poetas e poemas da antologia Poesía del Grupo Diáspora(s) (La Sofía Cartonera, 2015) ao português.

Naquele momento, não havíamos atinado para quanto esse exercício de tradução, e também de comunhão entre os que ali estavam, tinha a ver com o Diáspora(s), cujo intuito principal era constituir-se como um “grupo de escrita alternativa” nos 90’ em Havana, ou seja, um grupo de pessoas que, assim como nós, buscava outros caminhos para a produção literária e outras formas de viabiliza-las.

Na data limite de entrega das traduções nos chegam à Caixa de Entrada duas versões de um mesmo poema, o “Mandrágora”, de Pedro Marqués de Armas, feitas por Clarisse Lyra & Ellen Vasconcelos. Num primeiro momento, achamos que falhamos, que talvez não havíamos nos organizado suficientemente bem e que expusemos as duas à sorte de produzir uma tradução em vão. Porém, este azar hispanista nos proporcionou mais bem uma dit(ch)a, uma vez que a partir dele passaríamos algum tempo discutindo tais textos. Era consenso que algo deveríamos fazer com ambas versões, uma vez que seus ímpetos eletivos não deveriam ser menosprezados, pois eleger um mesmo poema dentre os mais de 30 apresentados significava certa postura crítica em comum ou uma subjetividade manifesta que deveria ser, ao mínimo, pensada.

Surgiu, então, a ideia de entrevista-las sobre o que pensavam das respectivas traduções, da relação entre crítica & tradução e outras coisas que passam pelos caminhos tortuosos da escrita acadêmica, tradutológica ou poética. Com a entrevista em mãos, as indagações se multiplicaram, pois, havia muita coerência entre a tradução que apresentavam e o que pensavam sobre sua própria ação, como podemos ver a seguir nas entrevistas e em suas respectivas traduções.

  1. Vocês consideram as suas traduções como uma maneira de se apropriarem involuntariamente do texto original?

Clarisse: Considero-as uma maneira de apropriação voluntária do texto, às vezes bastante indevida, mas tentativamente consequente, como toda leitura.

Ellen: Sim, e não só involuntariamente. Acredito no ato de traduzir como uma antropofagia literária. Um movimento voluntário (mas não espontâneo) de deglutir o poema alheio, como o Bispo Sardinha. Refletir qual a melhor maneira de digerir seu corpo, sua alteridade, devorar sua intensidade, sua imagem, seu processo criativo e também sua história.

  1. O que costumam privilegiar na tradução de poesia: a transparência etimológica ou o significante opaco?

Clarisse: Hum. O ritmo do poema me preocupa bastante. E que o texto que estou gestando pareça de alguma maneira tão forte quanto aquele que me despertou o desejo de traduzi-lo. Então às vezes é preciso privilegiar uma coisa ou outra, dentro de uma relação de forças que é sempre desigual, não pode ser equilibrada.

Ellen: Quando possível, gosto de ver em que contexto o poema está inserido. Não só no contexto social e histórico do poeta autor, mas também entre quais poemas, em qual livro… porque às vezes um poema forma parte de um projeto literário maior do que ele, e nesse caso por exemplo, privilegio o significante opaco que às vezes está mais ao seu redor do que em seu conteúdo. Outras vezes, é a forma, a rima, a técnica, o ritmo ou uma imagem (os valores plásticos ou musicais) que precisam ser adequados na tradução, mais do que as palavras escolhidas (matéria) ou um tom (efeito).

  1. Dizem que um poema traduzido deve sustentar-se por si mesmo, ou seja, sem estar acompanhado da versão original. Mas também dizem que um livro que inclui apenas a tradução é mais pobre. Como leitoras e tradutoras de poesia, que opinam sobre isso?

Clarisse: Não acredito que as duas coisas sejam necessariamente opostas. A tradução precisa sim funcionar como um texto que se escreve/lê na língua de chegada, e de fato é um novo texto, que se abre a todo tipo de apreciação e crítica, isto é, encontra seus próprios itinerários. A edição bilíngue, ao colocar as versões lado a lado, expõe a diferença e os limites da tradução. O que me parece interessante é ler a diferença não como fracasso, mas como a possibilidade mesma do jogo. Nesse sentido, a edição bilíngue permite movimentos de relação entre os textos, as línguas, os autores, e por isso pode ser considerada mais rica. De todo modo, penso que a experiência de leitura do poema traduzido é diferente quando sozinho e quando acompanhado do original, e isto deve ser levado em conta a depender do contexto e do tipo de efeito que se espera.

Ellen: Acho que um poema traduzido deve sustentar-se por si mesmo, e acho isso como trabalho de tradutora que quer criar um poema novo. No entanto, entendo também que ao mesmo tempo em que um poema pode ganhar com sua tradução, é possível perder em outros elementos constitutivos dele que o tradutor pode não ter captado ou simplesmente não ter privilegiado em virtude de outro caminho. Então, como leitora, se eu entendo a língua do original, prefiro ler a tradução que inclua o original… para, de alguma maneira, “cotejar” essa primeira leitura da tradução, e até mesmo já fazer um pouco o papel de crítica.

  1. De que forma o eu-escritora e o eu-crítico de vocês dialogam, interferem e tocam o fazer tradutológico?

Clarisse: Para mim, há um desejo de ler e um desejo de escrever que atravessa todas essas atividades e que é um só, provém de um mesmo ímpeto. Às vezes ele se lança numa coisa ou noutra e se formaliza de uma maneira ou de outra, mas é, podemos dizer, o desejo primordial da conversa? Do lançamento de uma voz que supõe e demanda a interlocução, o diálogo, e que é uma forma de estar no mundo? Algo por aí. No mais, considero a tradução um grande exercício de aprendizado, que alimenta e se retroalimenta da leitura crítica e da escrita livre.

Ellen: A leitura atenta de um poema que será traduzido necessariamente acompanha uma crítica. Por minha vontade, eu só traduzo poemas os quais eu leio um bom exercício de fazer poético, ou seja, que particularmente gosto muito. Dessa forma, traduzir não só faz com que o poema se torne um pouco meu (também), mas que o próprio fazer poético do autor seja fagocitado por mim. Sou reivindicadora do ato de traduzir como antropofagia, um encontro violento, um processo artístico e crítico de devoração/digestão/transformação.


(Mandrágora)

Pedro Marqués de Armas.

 

En el borde interior de la frontera, que otros prefieren llamar

callejón sin salida, -B. se mató.

 

Claro que todas las fronteras son mentales, y en el caso de B. mejor

sería hablar de dos.

 

De modo que B. se mató entre el borde interior y la cresta de un

pensamiento que ya no se le desviaba.

 

Para catapultarse, tomó aquellas raicillas de un alcaloide que había

clasificado, y, echándose sobre el camastro de trozos fusiformes, al

fin encontró la que buscaba: ésa de una sola dirección en la que

todos los números están borrados, y los blancos pedúnculos

mentales se desvanecen en una materia de sueño.

 

(de Cabezas, 2002) 


(Mandrágora)

 

Pedro Marqués de Armas

Por Clarisse Lyra

 

Na borda interior da fronteira, que outros preferem chamar beco sem saída, – B. se matou.

 

Claro que todas as fronteiras são mentais, e no caso de B. melhor seria falar de duas.

 

De modo que B. se matou entre a borda interior e a crista de um pensamento que já não lhe escapava.

 

Para catapultar-se tomou aquelas raizezinhas de um alcaloide que havia classificado, e, largando-se sobre a cama de pedaços fusiformes, ao fim encontrou a que buscava: essa de apenas uma direção na qual todos os números estão apagados, e os brancos pedúnculos mentais se desvanecem em uma matéria de sonho.


(Mandrágora)

 

Pedro Marqués de Armas

Por Ellen María Vasconcelos

 

Na borda interior da fronteira, que outros preferem chamar de beco sem saída, -B. se matou.

Claro que todas as fronteiras são mentais, e no caso de B. seria melhor falar de duas.

De modo que B. se matou entre a borda interior e a crista de um pensamento que já não se lhe desprendia.

Para se catapultar, tomou de certas raízes de um soporífero que tinha registro, e, deitando-se sobre um leito de cacos agulhados, enfim encontrou a que buscava: essa de uma só direção na que todos os números estão extintos, e os brancos pedúnculos mentais se desvanecem em uma matéria de sonho.

(de Cabezas, 2002)


Sobre os autores:

Clarisse Lyra: nascida em Feira de Santana, Bahia, poeta, tradutora e ensaísta, é doutoranda do Programa de Pós-graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana. Já escreveu uma dissertação de Mestrado sobre Roberto Bolaño, e atualmente se dedica, tanto na pesquisa quanto na tradução à produção poética das mulheres na Argentina.

Ellen Vasconcelos: nasceu em Santos, São Paulo, poeta, ensaísta e tradutora do espanhol e do inglês, é mestranda do Programa de Pós-graduação em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana, onde estuda a obra de autores argentinos contemporâneos, como Sergio Bizzio e Sergio Chejfec. Recentemente publicou o livro de poemas bilíngue Chacharitas & gambuzinos (Patuá, 2015).

Pedro Marqués de Armas: nasceu em Havana, em 1965, formado em medicina psiquiátrica, membro do grupo Diáspora(s), é autor de Los altos manicomios (1993), Cabezas (2002), Óbitos (2015), e dos ensaios Fascículos sobre Lezama (1994) e Ciência e poder em Cuba (2014). Cabeças e outros poemas (Hedra/Sibila) foi publicado pela primeira vez no Brasil em 2008.

marques-de-armas-1

Pedro Marqués de Armas. Foto por Penúltimos Diás.

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