Coedições e outras considerações: Fuks, Pessanha, Calixto e Ferraz na Malha Fina

por: Pacelli Dias Alves de Sousa

O fim do carnaval não é feito só de tristeza. Pelo menos não para a Malha Fina Cartonera que anuncia suas primeiras publicações, quatro obras feitas em parceria com outras editoras cartoneras. O lançamento oficial já tem data marcada: dia 17 de março, às 18h, no Centro Universitário Maria Antonia, no centro de São Paulo.

Com exceção do livro de Calixto, 22 poemas, que foi feito em parceria com a Yiyi Jambo Cartonera dirigida pelo poeta Douglas Diegues em Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai e a Mariposa Cartonera, de Recife, os outros três livros (Diálogos e Incorporações de Juliano Garcia Pessanha, Os olhos dos pobres de Julián Fuks, de Fabiano Calixto e O pretexto para todos os meus vícios de Heitor Ferraz Mello) contaram com a parceria da Mariposa e da La Sofia Cartonera, vinculada à Universidad Nacional de Córdoba, na Argentina. Trata-se de autores importantes no cenário contemporâneo da literatura brasileira, (re)conhecidos por suas obras literárias e por seu papel na discussão sobre o atual status da literatura. Isto porque compartilham um posicionamento de escrita: são escritores também ligados à academia, como pesquisadores e/ou professores. Posição que não fica à parte, mas emerge nas incorporações que trazem à escritura, tanto da tradição literária quanto de outros discursos, como a filosofia ou a música.

Incorporar (trazer para o corpo, tornar parte do corpo) é próprio da literatura, que continuamente muda suas características, busca romper tentativas de definição estanques de gêneros ou estilos de escrita e assimilar novas formas de linguagem: algo já percebido de longa data pelos críticos. A forma como o fazem, contudo, costuma ser singular: responde às questões prementes na escritura, ao peso das tradições, às novas necessidades de expressão, aos ideários do momento (quiçá aos ideários futuros, para os artistas-antenas da sociedade) e aos debates intelectuais em voga, entre outras várias razões que poderiam ser elencadas. Estas questões – de presença tão forte no campo literário pelo menos desde a irrupção do regime estético nas artes, seguindo o conceito do sociólogo Jacques Rancière – estão fortemente em jogo nestas quatro obras.

Em entrevista para o programa Entrelinhas da TV Cultura, o autor Juliano Garcia Pessanha comentou que no início de sua carreira, que já conta com cinco livros publicados, buscava na escrita uma experiência outra com a linguagem, que extrapolasse o que via na literatura, em que tudo já teria sido dito. Daí talvez a raiz de sua escrita singular: não é somente uma literatura peculiar, nem uma filosofia meio literária: mas “diálogos e incorporações” entre ambos. Este é o caminho de sua obra publicada pela Malha Fina Cartonera. Dividida em quatro partes, cada uma referente a um autor de filosofia ou literatura (Nietzsche, Cioran, Rimbaud e Tsvetáieva), o livro Diálogos e Incorporações um experimento no campo da voz e do olhar do narrador em sua relação com outros discursos que constituem tanto a própria subjetividade do eu que narra (negativa, no caso do Pessanha), quanto a tessitura de toda obra literária.

Nos capítulos “Nietzsche Incorporado” e “Tsvetáieva Incorporada”, é elaborado um projeto antropofágico com estes autores:

“Eu quero ser devorado e intimizado, encontrado naquilo que sou! Eu peço assim que o meu leitor se apresente! Eu só reconheço os argumentos ad hominem! É preciso mostrar que se tem sangue para me compreender. Eu autorizo o JP a me ler e a falar sobre mim porque, quando ele me encontrou pela primeira vez, passou a noite toda em claro”

O autor assume suas vozes, escreve em primeira pessoa e elabora, de um lado, um testemunho do filósofo alemão em que analisa sua própria história intelectual em relação às leituras críticas feitas sobre ele; de outro lado, uma série de aforismos refletindo sobre a escritura e o papel da poeta russa. “Diálogos com Cioran” e “Diálogo com Rimbaud”, por sua vez, são textos parte literários parte ensaísticos em que o autor reflete sobre sua relação com os autores. Em ambos os casos, o que parece estar em jogo é a leitura acadêmica. Contra este modo de olhar, marcado pela objetificação do mundo enquanto se neutraliza o próprio sujeito, o autor cria uma relação entre ambos: de um lado há um “eu” exposto que se cria enquanto se lê o outro, processo a partir do qual também cria-se o outro literariamente, ambos enfim, personagens. A leitura está ao centro e constitui tanto o sujeito que escreve, ao inseri-lo em um novo sensível, quanto o próprio objeto outro, como construção do texto. No caso dos primeiros capítulos comentados, traz ao corpo do texto a experiência fundante do outro em si. Neste complexo jogo, o leitor se vê frente ao processo de leitura exposta, à história narrada, ao corpo autoral e aos desdobramentos deste sujeito, tudo em voltas entre si. O importante é não hesitar: frente ao eco do eu, a voz do outro, o culto conjunto de referências pessoais e às idas ao mundo (reiteradamente recusadas), é apresentado um narrador bastante lúcido, do modo que só os que enfrentam o obscuro e o complexo podem ser.

O conto “Os olhos dos pobres” de Julián Fuks (do livro homônimo) também tem como centro uma questão vinda da filosofia, da leitura de Derrida sobre o pensamento de Levinas:

“E se o próprio dos olhos não fosse olhar, e sim chorar? […] E se a sua função maior não fosse ver, e sim implorar quando as palavras desaparecem, e dobrar os rígidos, e abalar os firmes, e comover?”

A pergunta, em si interessante, suscita outras: o que vê alguém enquanto chora? Que efeito tem este empenho do corpo sobre a visão? De que teor é a relação entre a visão e a lágrima? Estas questões levam o texto para uma discussão entre o literário e o ético: A que(m) responde o choro? E sua estetização?

Na narração de Fuks, a pergunta surge ao narrador depois que ele vê um mendigo que lhe pede dinheiro: quando é forçado pelo olhar do outro a deslocar-se da sua cômoda posição dada por sua classe social. O conto é construído em sua maioria pelo monólogo interior do narrador (homem heterossexual, rico e culto), usado antes e depois do choque. Há caminhos para pensar aquelas questões no texto, aponto dois: um que passe pela construção performática de um hábitus de classe no narrador e em sua namorada, que deve ser interseccionado com questões de raça e gênero e outro que parta das divagações clariceanas sobre o sentido da vida e da escrita em relação a este tipo de experiência (ainda que talvez isso caia no primeiro aspecto levantado). A obra é, de certo modo, sobre a violência de uma existência sobre a outra, sobre a violência da percepção do outro, sobre a violência do outro sobre o corpo, sobre a violência de narrar frente ao outro.

O que uma pessoa vê que a leva ao choro?

A boçalidade do mal – de acordo com o termo de Eliane Brum, conjunto de atitudes violentas e ofensivas frequentes na internet, meio que as torna hipervisibilizadas – ocorre pela falta de contato face a face com o outro, o que abre o espaço da violência. O contato com o outro tampouco é o suficiente, afinal o que é visível para cada um? No conto de Fuks, o choro do narrador vem menos com o ver a face do outro, que com o responder ao choro deste, sua marca de existência humana, que sobressai ao não humano com que é enquadrado e pelas condições subumanas em que vive. Este, contudo, não é o único conto da obra de Julián Fuks, há ainda “O jantar” conto que aborda temas caros ao autor: o exílio, a ditadura, relações familiares.

Na obra de Fabiano Calixto, há uma arquitetura distinta do espaço. Ambas estão localizadas no seio das cidades, espaço onde estas contradições estão à mostra, mas de modos diferentes: a narrativa de Fuks constrói uma tensão com este mundo, uma relação parte hostil parte espelhar, enquanto que o sujeito lírico de Calixto se localiza em meio à cidade, em seu contato sensível, e aí busca lirismo.

A Malha Fina Cartonera publica agora 22 poemas, uma seleção de poemas do autor, que já tem nove livros publicados, além de outros trabalhos, como a edição da revista Modo de usar & co. Talvez os versos que melhor introduzam sua poesia sejam aqueles do poema “Da cidade”:

“O distúrbio dos espaços em
nosso campo de visão minimizado
um exagerado estrangulamento do tempo
essa é a língua
pior: essa é a linguagem”

Sua voz se cria em meio às outras vozes das pessoas ao redor, bem como aos sons da cidade, em uma sobreposição de diferentes espaços e visões, sobre os quais procura exercer uma visão aguda, fixa sobre pequenos aspectos, dos quais extrai seu lirismo. Em seus poemas urbanos, a insistência parece ser a de restituir o espírito lírico a partir do mínimo, em meio à overdose de exposição da experiência urbana. Ademais, em seus poemas como um todo, há reiteradamente uma busca anárquica pela construção de um lirismo a partir de momentos e imagens que não estejam como lugar comum da tradição poética. O foco do olhar vai ao mínimo (o travesseiro, o álbum de figurinhas), ao escatológico (como a carinhosa “mijadinha”) em vias de testar os limites do regime estético, das possibilidades do lírico.

A cidade é incorporada ao corpo dos poemas: “A canção do vendedor de pipocas”, por exemplo, é construído através de uma parataxe de situações, pensamentos, imagens, referências e trechos de falas que transcriam a simultaneidade da vivência urbana, sem deixar de fora o olhar subjetivo do eu lírico sobre este conjunto, subjetividade esta que, ao final, não é delimitada, termina em aberto, junto com o ressentimento pela noite mal lograda, ainda não superada. São incorporadas também letras de canções e um conjunto de referências pessoais, do popular ao mais culto.

A Malha Fina Cartonera publica ainda a obra Pretexto para todos os meus vícios de Heitor Ferraz Mello. Embora sua obra também esteja ancorada numa vivência da cidade, difere consideravelmente da poesia de Calixto. Em Heitor Ferraz a ênfase está mais no cotidiano dentro da cidade, nos atos de todos os dias, nos costumes: abundam cigarros, caminhadas pela cidade, bares e as pequenas coisas do dia a dia. Estas coisas, aparentemente pequenas, talvez massacrantes por sua pequenez, parecem aparecer como pretexto para questões existenciais maiores. A cidade aqui é menos tumultuosa e caótica, é um espectro, menos São Paulo (embora haja um mapeamento da cidade), que uma cidade em si, mais que como tema, sua incorporação ao poema é mais sutil, está nos pequenos choques, em um tom melancólico semelhante àquele do Spleen de Paris, de Baudelaire, referência inevitável para a leitura do autor. Desta tradição baudelairiana, que passa por Drummond, herda-se este eu lírico que se vê sempre à parte (se vê, já que é pouco visto pelos outros) e deambula pela cidade, mais do que isto, por determinados espaços, dentre os quais têm destaque a própria casa, o prédio, certos caminhos: enfim, o apego ao cotidiano que deprime, mas do qual não se consegue sair.

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