Um engajamento cartonero: Entrevista com Patrícia Cruz Lima, da Mariposa Cartonera

Por: Pacelli Dias Alves de Sousa

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Foto por: Julia Izumino.

A equipe da Malha Fina Cartonera entrevistou Patrícia Cruz Lima, designer da Mariposa Cartonera, que recentemente esteve na USP para uma oficina de design editorial (fotos aqui). Nascida em Recife, Patrícia é arquiteta, formada pela Universidade Federal do Pernambuco, com pós-graduação em Design da Informação. Trabalha como designer e coordenadora editorial desde 2003 e foi responsável, além dos diversos trabalhos com a Mariposa e com outras cartoneras de Pernambuco, pela Coleção Educadores, do MEC. Mais do que um trabalho, a nossa entrevistada se diz “engajada ao Movimento Cartonero”. Seguimos com ela:

Patrícia, como chegou ao trabalho com as cartoneras? Antes da Mariposa Cartonera, você já tinha tido contato com esse tipo de editora?

Não conhecia o movimento antes. Fui para o lançamento do lindo livro “O caçador de mariposas”, de Wellington de Mello, que é da Mariposa Cartonera e me apaixonei. Claro, minha formação cultural incluía várias formas de publicações, como por exemplo a literatura popular, o universo do cordel, e essas “movimentações” editoriais sempre me interessaram.

Recentemente você fez o projeto gráfico de um livro infantil. Que outros trabalhos você tem feito além daqueles com a Mariposa Cartonera?

O livro infantil, especialmente no Brasil, é um capítulo à parte. Há uma péssima tradição de que o livro infantil tenha sempre algo do mundo kitsch, o papel couché, as ilustrações coloridas, etc. Claro, não há especialmente nenhuma crítica quanto a isso. Mas, um designer tem de pensar em novas formas, sempre. Um livro infantil, cartonero, era um desafio e ao mesmo tempo a quebra de uma “tradição”, pelo menos para o mercado e para o público. Um livro, como produto (não como conteúdo, porque o autor deve se preocupar menos com isso, a meu ver), mas o livro precisa se adaptar às novas realidades. É assim no mundo da tecnologia do livro, do livro digital, mas o conceito serve também para o que chamo do “design precário” das edições populares, e isso envolve o livro cartonero. Pensando nisso é que desenvolvi o projeto de “Marina e o passarinho perdido”, de Marina Negromonte, para a editora cartonera Pé de Letra, de André Arribas. Há novos projetos em andamento e desenvolvimento de novos conceitos que espero poder aprimorar a serviço da Maracajá Cartonera, Comissão Cartonera, Cartonera Do Mar, essas de Pernambuco, e agora a Malha Fina Cartonera, da USP, São Paulo.

Você diz ter concentrado sua atenção no trabalho com iniciativas autorais fora do mainstream. A que você atribui essa preferência?

Chega um tempo para o profissional que é necessário atuar mais especificamente, tanto no ponto de vista técnico como no ponto de vista da cidadã que sou, e se colocar à disposição de novas experiências. É dever do profissional melhorar o mercado, passar experiências e fomentar o meio. Notei que há não somente um mercado emergente e importante no país, fora do mainstream, fora do eixões editoriais, que podem ser abordados, de forma economicamente criativa e que demonstra resultados aceitáveis, e aponta para novas soluções. Neste mercado está o escritor e escritora que não alcançam facilmente a difusão convencional de conteúdo e que precisam de que a informação e o conhecimento desse dado momento sejam repassados. É aí que entra o design engajado.

Em sua oficina aqui na Universidade de São Paulo, você comentou que os livros cartoneros são iguais aos outros no sentido de que são feitos para serem lidos e desejados. Há alguma especificidade na criação do projeto gráfico para livros cartoneros (que talvez apareça pelas limitações e aberturas permitidas por esse tipo de publicação)?

O que eu quis dizer é que os livros cartoneros não são uns coitadinhos e nem que precisam pedir licença ao mercado para existirem. Eu quis dizer que é necessário garantir a sustentabilidade do livro cartonero, dentro dos preceitos do movimento, e encontrar a faixa certa de seu consumo. E nisso eles têm de ser atrativos tanto quanto qualquer outro livro. E nisso eles têm de ter comprometimento no conjunto, e serem pensados caso a caso, de forma única, para se alcançar o máximo deles como peça de desejo, logo, de consumo ou, como se diz nos shoppings: “sonhos de consumo”.

O Wellington, em entrevista à Malha Fina, disse que vê a Mariposa Cartonera como um coletivo artístico. Nesse sentido, como se dá a articulação entre o projeto gráfico, a obra literária e a própria confecção do livro?

Isto depende de cada editora. E de cada projeto. Um designer é um editor, também, não esqueçam, forma e conteúdo, para o designer experiente, são a mesma coisa, não andam separadas. O que serve para uma editora no interior de Pernambuco pode não servir no Pará, por exemplo, sobretudo no livro cartonero. A matéria-prima muda, o manuseio se altera, o livro tem de ser pensado para suportar condições ambientais e climáticas até diferentes, etc. Então, o trabalho do designer, nesse caso, se soma ao trabalho de arquiteta, para criar soluções que atendam tanto o livro como peça como também as formas de produção e os modos como se pode partilhar mais e com mais pessoas e de forma mais prática, sem perder a qualidade, do conhecimento.

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Foto pro Julia Izumino

A busca pela expansão do projeto é uma das características das editoras cartoneras. Para isso, é importante a função de ensinar técnicas, passar o conhecimento adiante. Como funciona isso? Como você pensa as oficinas?

Estou sistematizando isto. Venho pensando em como alcançar mais pessoas e formar pessoal na área editorial, do livro, e do livro cartonero, especialmente. Essas ações requerem planejamento, custos, e estou ainda formulando planos. Mas pensando nisso com a bicicleta girando. Quanto mais convites nos fizerem, mais aprimoraremos isso e chegaremos mais e mais longe. Sempre haverá o que fazer. Sempre haverá onde ir para ensinar. Estou aberta a essas experiências. É só convocarem.

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Foto por André Arribas

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