Na Batida Cartonera – Entrevista com Wellington de Melo

Por Cristiane Gomes

A Malha Fina Cartonera entrevista Wellington de Melo. Nascido no Recife, Wellington é escritor, professor e tradutor. Desde 2011, coordena a pasta de literatura da Secretaria de Cultura do Governo de Pernambuco e dentre suas várias ações estão a criação do Prêmio Pernambuco de Literatura e do Festival Internacional de Poesia do Recife. Como editor do selo Mariposa Cartonera, ele organiza antologias, ministra oficinas e mostra que a literatura ainda tem um enorme poder transformador.

Wellington de Melo

Foto por: Alfonso Sánchez Martínez

Como nasceu o selo Mariposa Cartonera e qual a relação entre seu livro, O Caçador de Mariposas, e o selo?

A criação do Mariposa Cartonera está ligada à publicação do meu quarto livro, O caçador de mariposas (2013), que escrevi para meu filho mais velho, Aleph, que é autista. Eu tinha esse poema longo (que era curto para uma publicação normal) e tinha conhecido o movimento cartonero um ano antes, através de uma amiga escritora que havia publicado um livro pelo Dulcineia Catadora (SP). Pensei que seria uma forma legal de fazer o livro, porque também queria produzir cada exemplar com minhas próprias mãos. Depois do lançamento, vi que o formato tinha uma boa aceitação e comecei a germinar a ideia de um selo que publicasse autores de que eu gostava.

Na sequência, Patrícia Cruz Lima se integrou ao Mariposa, trazendo sua experiência no design gráfico e levando a qualidade dos livros a outro patamar. No ano seguinte, lançamos vários livros, oferecemos oficinas em Pernambuco e em outros estados, ajudando a multiplicar a ideia do movimento. E daí em diante só foi crescendo.

Outros colaboradores participam de projetos específicos, como outras editoras cartoneras de Pernambuco, também a Cristiane Amador, que sempre dá ideias de projetos de capas sensacionais. Em São Paulo temos duas pessoas que nos ajudam eventualmente com a busca por autores e a edição de livros da coleção: o Cristhiano Aguiar e a Tatiana Lima Faria, esta última com quem co-editamos livros em parceria com o La Sofía Cartonera (Argentina) e que foi a ponte para nossa relação com o recém criado Malha Fina Cartonera.

Enquanto o mercado editorial vive uma grande crise, surgem selos e editoras independentes, bem como eventos e feiras focados nessa produção. O  movimento cartonero chama atenção pela independência, solidariedade e engajamento. Ano passado, em conjunto com o movimento #OcupeEstelita, o Mariposa produziu o livro Inquebrável, Estelita para cima. Como se deu o processo de construção desse livro?

Não há como pensar o movimento cartonero sem o ativismo, faz parte da sua essência. Essa talvez seja uma das explicações para a vitalidade do movimento, mais de dez anos depois do seu início na Argentina, com o Eloísa Cartonera. A relação dos editores e autores vai além de uma proposta editoral comercial, se baseia em ativismo mesmo.

Antes de publicar Inquebrável, Estelita para cima, havíamos produzido a antologia Coque (R)Existe, em defesa de um movimento contra a especulação imobiliária de um bairro da periferia do Recife. Demos uma oficina para ensinar a fazer o livro na biblioteca comunitária do bairro. Quando ouvimos sobre o movimento #OcupeEstelita, achamos que devíamos fazer algo. Contatamos pessoas ligadas ao movimento e propusemos fazer uma oficina na ocupação, usando textos de autores de diversas partes do Brasil e do mundo (foram 48 autores em dois volumes). A proposta era ensinar a técnica para que eles pudessem vender os livros e reverter a renda para o próprio movimento. Uma semana depois, o Batalhão de Choque promoveu a desocupação do terreno em que os ativistas estavam acampados, mas já tínhamos os livros prontos e venderam todos. Eles seguem comercializando os livros em feirinhas, eventos do Ocupe etc. Não acreditamos em literatura panfletária, mas a ação política dos autores, essa sim é real: os textos doados não necessariamente falavam do tema, mas o ato de doar os direitos para a causa tinha tudo a ver com a ideia.

No Mariposa a produção é artesanal e as edições possuem uma tiragem pequena e numerada. Como é feita a escolha, a idealização e a produção dos livros publicados pelo Mariposa e como é a relação entre editores, autores, tradutores, revisores, artistas e catadores?

Trabalhamos de forma colaborativa, então é comum que as ideias surjam de várias partes e se mesclem na concepção dos livros e na seleção dos autores. Mas nos pautamos por duas questões: estética e ética. Primeiramente, publicamos aquelxs autorxs cujas obras nos movem, nos interessam, trazem algo que cremos que merece ser publicado e, principalmente, lido. Segundo, nos preocupa que xs autorxs entendam do que se trata o movimento, queiram participar da proposta. Não nos interessa publicar autorxs que queiram seu livro pronto e não se integrem a nossa forma de pensar a circulação dos livros, a formação de leitores, a lógica da economia solidária e do comércio justo. A experiência nos mostrou que quando não conseguimos aliar essas duas coisas, não funciona.

A dinâmica entre as várias fases da produção varia muito. Não tínhamos, até pouco tempo, uma ligação direta com catadores. Mas uma coisa legal do movimento é que cada cartonera, em cada parte do mundo, encontra soluções adequadas à sua realidade. Não existem catadores na França, por exemplo. Então não existe uma cartilha de “deve ser assim ou assado”, mas alguns princípios que você sempre tenta buscar (no nosso caso e no de muitas cartoneras, sustentabilidade econômico-ambiental, comércio justo e economia solidária). Recentemente, durante a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, nos aproximamos de uma cooperativa e estamos armando coisas legais com eles para 2016, envolvendo não só a compra de papelão ou confecção de livros, mas atividades de formação de leitores. Isso se dará através da Liga Cartonera, um coletivo de editoras que está fazendo coisas bem bacanas.

O trabalho colaborativo também permite que trabalhemos numa lógica diferente da do mercado, com compensações não financeiras, troca de serviços, escambo e outras alternativas, o que viabiliza a manutenção do projeto. Acho que pensamos o Mariposa mais como um coletivo artístico de que como uma editora.

Em seu livro [desvirtual provisório] você aborda alguns aspectos delicados da relação entre homem e máquina. Considerando que a internet viabilizou um espaço livre para publicação independente, qual a importância de uma publicação física dentro da atual realidade tecnológica?

Em [desvirtual provisório] há uma discussão sobre os conflitos homem/m@quina (assim, com arroba, que não é a máquina glorificada por certo modernismo), mas não há uma demonização da tecnologia, muito pelo contrário. Nesse sentido, sou totalmente a favor de uma integração entre tecnologias para fortalecer a leitura. Vendemos muitos de nossos livros artesanais pelo site da editora. Acredito que o livro físico como conhecemos não se acabará tão cedo, por conta da relação sensorial que implica a leitura desse artefato. Ao mesmo tempo, a leitura técnica é muito facilitada por e-readers, então aqui a migração deverá ser mais rápida.

O sucesso dos livros cartoneros pode ser entendido de diversas formas: seria algo associado à exclusividade do livro (nenhuma capa é igual)? teria que ver com a fetichização do livro (e não da leitura, o que seria um problema)? haveria uma aura humana que faz o artesanato ser valorizado? tem a ver com a possibilidade de ler autores que nem sempre estão nas grandes editoras, apesar da qualidade de seus textos? seria porque mesmo autores mais conhecidos podem publicar projetos que normalmente não teriam apelo comercial em suas casas editoriais e exercitam a liberdade? seria um fenômeno que vem acontecendo com editoras pequenas (não acredito no termo independente), que tem se dedicado mais à qualidade dos textos que publica do que ao volume de vendas ou emplacar best sellers de celebridades? Enfim, não há uma resposta clara, acho. O que importa é que vejo de maneira transparente que o movimento cartonero é uma alternativa de revitalizar o livro, a leitura e a literatura, não necessariamente nessa ordem.

O Mariposa, em parceria com La Sofia Cartonera, da Universidade Nacional de Córdoba, publicou a coleção “Mar de Capitu”, fale um pouco sobre a coleção e como se dá o intercâmbio entre as editoras Cartoneras?

Como falei antes, a Tatiana Lima Faria foi a ponte: havia o projeto de publicar autores brasileiros na Argentina e, dessa forma, ampliar a recepção da literatura contemporânea brasileira naquele país; esse projeto foi coordenado pela Tatiana e pela Cecilia Pacella, da Universidade Nacional de Córdoba, com a participação de alunos do doutorado e da graduação em Letras de lá. Compramos a ideia e ficamos encarregados de produzir a edição brasileira e conceber o projeto gráfico, assinado por Patrícia Cruz Lima. O próximo passo será o caminho de volta: a coleção Céu de Beatriz, em que autores argentinos serão traduzidos para o português. Aguardamos as ordens de Tatiana para ir adiante e estamos bem empolgados.

Realizamos muitas parcerias com outras editoras. Capacitamos algumas em diversos estados e ajudamos a criar outras. Como trabalhamos na perspectiva da economia solidária, não entendemos que estamos criando concorrentes, mas parceiros na rede de editoras cartoneras. Este ano fizemos uma campanha de crowdfunding para viabilizar uma coleção especial, que está sendo compartilhada com outras editoras participantes. Cedendo autores de nosso catálogo para essas editoras, esperamos fortalecê-las e gerar renda para os coletivos continuarem se mantendo.

Em seu último livro, Estrangeiro no Labirinto, um forte teor místico organiza múltiplas vozes, que transitam vertiginosamente entre um livro e um crime. O livro traz muitas referências, como foi o processo de escrita? Ele faz parte de uma trilogia, certo? Qual a previsão de lançamento do próximo livro?

A escrita do livro levou sete anos, mas o projeto mudou bastante desde a ideia inicial. Boa parte do tempo foi de leitura e pesquisa para os conceitos que entorto no livro (alguns cabalistas ficaram bem chateados com as invenções do livro, o que achei massa, porque senão  não uma narrativa ficcional). Mas não se trata de um romance policial com elementos esotéricos. Há reflexões sobre a sociedade contemporânea, a própria natureza da literatura e da realidade, a partir de conceitos da física quântica, que se transformam em linguagem; sobre a paternidade e, talvez mais, o patriarcado. Por isso que o livro é o primeiro da Trilogia do Pai. O último já foi publicado, trata-se de O caçador de mariposas, que é um poema longo. A ordem de publicação não importa porque a trilogia se organiza a partir das sefiroth da Árvore da Vida da Cabala. Por isso que o primeiro a ser publicado é o último, o segundo é o primeiro e o terceiro será segundo, que se chama À sombra do pai, um romance ambientado num Recife distópico, que envolve especulação imobiliária, conflitos familiares e terroristas anti-verticalização que cooptam suicidas em potencial para pular das torres mais altas da cidade. Nele, a discussão sobre o patriarcado se dá de maneira mais incisiva e brutal. Ainda estou escrevendo e penso lançá-lo em 2016 ou depois.

À convite da Malha Fina Cartonera, no dia 19 de novembro, você ministrará a oficina “Como Editar e Publicar Livros Cartoneros” na FFLCH-USP. Qual a importância das oficinas para difusão do saber cartonero e para o surgimento de novos selos e editoras?

Faz parte de nossa missão difundir o movimento. Washington Cucurto, um dos fundadores, diz que quanto mais editoras cartoneras no mundo, melhor, e eu concordo. Dar uma oficina é plantar sementes. Delas, podem surgir diretamente uma editora, como foi o caso da Comissão Cartonera, de um bairro da periferia do Recife, ou a Lara Cartonera, de Belo Jardim, Agreste de Pernamubuco, cujos membros participaram de uma oficina que dei num instituto federal de ensino da cidade. Às vezes a oficina abre os olhos das pessoas e só mais adiante o fruto é colhido: parte das meninas da Cartonera Do Mar fez uma oficina comigo, mas só depois, quando houve uma oficina com Andreia Joana Silva, do Cephisa Cartonera (França) na Bienal de Pernambuco, é que vingou o selo delas. Quando demos uma oficina no bairro do Cristal, em Porto Alegre, surgiu a ideia da Sopapo Cartonero, do ponto de cultura Quilombo do Sopapo, que está em gestação. Da oficina que demos em Nísia Floreta, pequena cidade perto de Natal, no Rio Grande do Norte, participou um professor que fundou a Carolina Cartonera, e por aí vai. Tenho certeza que a oficina na FFLCH-USP vai dar muitas crias. O importante é que entendam a proposta do movimento: é preciso quebrar os muros, ir para a rua e entender as vozes que vêm de lá. Voltar ao papelão e deixá-lo falar também. Será um bom começo.

Para finalizar, convidamos a todos para participarem da Balada Cartonera, que ocorre no dia 21 de novembro, em São Paulo:

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