Poetas da Isla de Cartón: Rogelio Saunders

Comentário por: Clarisse Lyra

Não sei nada do grupo Diáspora(s). Não conheço Rogelio Saunders. A própria literatura cubana me é estranha. Entretanto, pratico uma tradução selvagem. Uma antologia me chega às mãos. Folheio-a da maneira como se pode folhear um livro pelo computador: na vertical, o verbo já em seu sentido alterado, a experiência tátil domesticada à textura única do mouse, distante da surpresa do papel, que nunca é o mesmo, que recebe a marca dos dedos, que se amassa, dobra, enruga conforme a perambulação do texto, que deixa reinscrever-se ali a passagem do leitor; surpresa, aliás, que é tão significativa no projeto das edições cartoneras – e o arquivo que eu tenho diante dos olhos é apenas uma etapa gráfica, a promessa de um objeto de papel, papelão e tinta, que já circula por aí – e também na dinâmica clandestina de cópias em que se veiculava a poesia de Saunders e dos demais integrantes do Diáspora(s) na Cuba dos anos 90; no computador, tampouco se pode ser, sem dificuldade, o leitor salteado que o folhear implica – a tela e seus mecanismos nos propõem a linearidade. Mas, não me demoro. Passo os olhos rapidamente. Numa só ida sem volta, escolho dois poemas, quase ao acaso, aceitando a possibilidade do erro, do arrependimento, mas bancando o que neles me atrai. Os dois falam da loucura. Os dois são de algum modo dolorosos. Um me lembra Bolaño; outro, Pizarnik (autores caros para mim, e por aqui se nota meu sistema de associação e eleição infantil). Cada um é de um autor diferente. Me eximo de conclusões generalizantes.

A partir daqui começa o trabalho da tradução. A leitura atenta e o enfrentamento das impossibilidades, a pesquisa, as idas ao dicionário. Em “Vater Pound” me deparo com o I-Ching, as gravuras sombrias de Piranesi, o espaço euclidiano, as voltas sonoras dos planetas de Holst, bosques de abetos, e tantas outras coisas que desconheço. Chegando à edição fac-similar da Revista Diáspora(s), leio uma entrevista com Saunders: “Não basta ler; não basta comprar um livro ou tomá-lo emprestado de alguém. A leitura tem que ser um ato de reconhecimento íntimo; a evidência de uma afinidade profunda […]. Você encontrou o livro e o livro te encontrou […]. Porque é você quem lê, e o que você encontra num livro, apenas você encontra. Você é o livro”. Topar com essas palavras – como se a minha eleição do poema tivesse sido apenas um modo de chegar a elas, para a partir delas confirmar minha escolha – me faz pensar: há um sentido na aleatoriedade; há um modo de ler que não passa pelo sentido; há um sentido que passa por lugares dificilmente racionalizáveis. E “você é o livro” é uma excelente teoria da tradução.

Rogelio Saunders. Fonte: del palenque... y para...

Rogelio Saunders. Fonte: del palenque… y para…



Tradução por: Clarisse Lyra

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