As Cartoneras no Entremeio: Entrevista com Flavia Krauss

Por: Cristiane Gomes

A Malha Fina Cartonera entrevista a doutoranda Flavia Krauss, que desenvolve uma pesquisa sobre os modos pelos quais o fazer cartonero se constitui como discurso político-literário, através do estudo do fazer artístico de cinco cartoneras e seus manifestos, contidos no livro Akademia Cartonera: Un ABC de las editoriales cartoneras em América Latina, escritos pelas cartoneras a convite do congresso “Libros Cartoneros: Reciclando el paisaje editorial en América Latina” (Wisconsin, 2009).

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Flávia Krauss, aos treze anos, decidiu ser professora e matriculou-se no CEFAM (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério) de São José dos Campos, sua cidade natal. Em um cursinho pré-vestibular, idealizado por alunos do ITA, descobriu a possibilidade de cursar uma universidade pública e, em 2001, ingressou no curso de Letras pela USP. Durante sua graduação, se interessava por questões relativas à alfabetização, mas, ao final do curso, percebeu que deveria tornar-se professora de língua espanhola. Em 2006 prestou concurso para a Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT) e hoje atua como professora. Fez mestrado no programa de Estudos de Linguagem da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), analisando materiais didáticos de ensino de língua espanhola para brasileiros e a concepção linguística que sustentava a produção destes materiais. Segundo ela, eles partiam de uma mesma concepção de língua e acabavam por exotizar as variedades linguísticas diferentes da “variedade-castilla”. Após o mestrado, Flavia se interessou pelas cartoneras e decidiu estudá-las em sua tese de doutorado, que será defendida no próximo ano.

Ao final da entrevista você pode baixar o artigo “Sobre o entremeio: a escritura dos manifestos presentes em Akademia Cartonera“, escrito por Flavia Krauss.

Como você conheceu as publicações cartoneras?

Acho que o meu interesse pelas publicações cartoneras apareceu em decorrência do meu incômodo com os materiais didáticos para o ensino de língua com os quais tive contato. Isso foi em 2008, quando eu estava finalizando minha dissertação. Lembro que a primeira relação que fiz foi com Freinet, um educador francês anarquista que trabalhava com a confecção de jornais na sala de aula. É um gesto simples no plano físico, mas um baita gesto no simbólico. Foi como encontrar uma porta de papelão no meio do caminho e sentir uma vontade imensa de entrar: interpretei como uma outra porta para o mundo das letras. E eu sou professora de Estágio Supervisionado, de modo que pensar em “portas de entrada” para alunos do Ensino Fundamental, do Ensino Médio e da própria Universidade é uma questão que me interpela. A partir de então comecei a tentar entender, comecei a visitar: primeiro Dulcineia em São Paulo, depois Yerba Mala em Cochabamba e Eloísa em Buenos Aires. Mas elas estavam meio espalhadas pela América, de modo que conhecer todas era impossível. Em contrapartida, os “manifestos” estavam todos ali, escritos por elas, falando sobre elas, reunidos num mesmo livro. Interpretei como uma porta feita de letras para este mundo de papelão. E daí decidi pesquisar no meu doutorado os modos pelos quais o fazer cartonero se constitui como um discurso político-literário.

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O seu artigo trata sobre a questão do entremeio nos manifestos cartoneros, como se presentifica esse entremeio e qual a importância dele na constituição das cartoneras?

Sim, é importante entender que essa análise tem um recorte muito específico. E ando pensando muito numa citação do Wittgenstein, na qual ele diz que a linguagem é uma roupa que tem propósitos distintos ao de mostrar o corpo que cobre. Assim, o falar de si mostra sobre si, mas também esconde este “si”. Entretanto, acho que a validade do que articulo nesta reflexão se sustenta justamente no fato de que é possível reconhecer indícios da importância neste entremeio na constituição das cartoneras mesmas e não somente naquilo que elas falam sobre si. O que Eloísa Cartonera faz na sua fundação é colocar o “cartonero” no centro do seu sistema de produção. E, o que faz o “cartonero” é justamente trabalhar na fronteira daquilo que serve daquilo que não serve, é um sujeito social que habita e trabalha n/o entremeio. Ando pensando que aí existe um gesto fundacional potente, que é transmitido de cartonera a cartonera.

Seu artigo também ilumina a presença da mulher na publicação cartonera, fale um pouco sobre.

Bom, muitas cartoneras têm nomes de mulher: Eloísa, Dulcineia, Sarita, La Sofía, Isidora, Olga, Juanita, La Verònica, mas talvez seja mais bacana falar em termos de feminino e masculino do que em homem e mulher. Existe uma ausência de hierarquia na organização destes coletivos, acho que este já poderia ser interpretado como um traço feminino. E há vários indícios que nos sinalizam que existe um não comprometimento com definições, o que permite que estes coletivos estejam sempre se reinventando. Acho que estes são os dois traços femininos que mais tenho notado nos distintos coletivos, mas com certeza isso é algo que merece ser melhor esmiuçado e analisado.

Quais são as influências e referências que você percebeu nos manifestos cartoneros e como isso se dá?

Sabe, durante um tempo, bastante tempo na verdade, eu fiquei tentando identificar as influências que podíamos mapear nestes manifestos. Me parecia que existia uma influencia do romantismo, porque acreditavam que a palavra era capaz de transformar o mundo, porque existia um resgate da cultura local, porque existia uma espécie de religiosidade arcaica que permeava essa escrita, por exemplo. Depois comecei a pensar que talvez essa linha de raciocínio, este pensar as influências, não me ajudaria muito a compreender o que está plasmado nesta escrita. E daí mudei minha perspectiva.

Sobre as referências explícitas… São tão poucas… Tenho a impressão que a referência a Huidobro e Vallejo que pinço do manifesto de Sarita são umas das únicas… Na verdade, o nome Sarita é já uma referência, é uma santa popular peruana não reconhecida pela oficialidade: é uma santa marginal. Eloísa Cartonera cita alguns autores que constam ou que gostariam de ter em seu catálogo: alguns bastante conhecidos, Rodolfo Walsh, Enrique Lihn e Aira, mas estes aparecem juntos com autores que constituem a própria cooperativa, como Ricardo Piña. O manifesto do Mandrágora Cartonera, por sua vez, cita Barthes pra falar do prazer do texto e também um teólogo brasileiro que diz que o lixo não saiu da mente de Deus, mas sim da mente do homem. O que acontece é que estes “manifestos” se propõem mais a descrever a própria prática do que levantar bandeiras e tomar posições, talvez por isso se explique as poucas referências mencionadas…

Fale um pouco sobre suas cartoneras preferidas e o motivo da predileção.

Hehehehehe, blog malha fina = perguntas saia justa! Não vou citar cartoneras, mas vou mencionar uma possibilidade de trabalho desenvolvido por estas cartoneras. E vou começar com Isidora Cartonera, que fica em Santiago, e este semestre se envolveu em um projeto bonito dentro da Penitenciária de Santiago, com 8 homens de 18 a 35 anos. Em janeiro de 2016 sai a publicação deste trabalho. Outro projeto que gostaria de mencionar está sendo desenvolvido por 4Nombres Cartonera, que fica em Sucre, na Bolívia, e trabalha com jovens privados de liberdade. Muitas vezes o trabalho no interior de centros de reclusão se relaciona com oficinas de escrita literária, mas outras vezes consiste em gravar as histórias aí contadas, para, posteriormente, realizar a tarefa de transcrição do relatado (é que às vezes calha dos participantes da oficina não saberem escrever). E eu sei que La Sofía Cartonera, também já realizou um trabalho parecido com estes em uma penitenciária de Córdoba, mas em anos anteriores. Interpreto o gesto de entrar em uma penitenciária para a realização de uma oficina literária como uma radicalização do trabalho realizado no entremeio: essas cartoneras escolhem trabalhar não só com materiais que haviam sido condenados ao lixo, mas também com pessoas que o sistema havia condenado ao aterro humano que é uma penitenciária. E, neste “lixo”, se propõem a garimpar relatos e relações bonitas em sua profundeza. É preciso ser forte demais pra realizar um trabalho destes.

O que você acha da criação de uma cartonera dentro da USP?

Eu queria é que ela tivesse sido criada em 2001, quando entrei na USP =)

Clique aqui para ler o artigo “Sobre o entremeio: a escritura dos manifestos presentes em Akademia Cartonera“, de Flavia Krauss.

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Flavia em uma visita à Eloisa Cartonera

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