Um logotipo só lâmina: Entrevista com Enrique Hernández

por: Pacelli Dias Alves de Sousa

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Lâminas Astra, feitas na Tchecoslováquia e vendidas em Cuba. (Fonte: Blog Cuba Material)

Da descoberta da possibilidade de “fazer a barba” com o uso de lascas de pedra, há cerca de 30 mil anos, às recentes lâminas descartáveis, houve um longo percurso histórico de sucessivas transformações. Da lâmina de barbear ao nosso logo-lâmina, um percurso metafórico: de um lado, um instrumento de teor pragmático para um uso específico – a retirada de pelos sem que a pele seja ferida. De outro, tendo como base o poder de síntese, de criação de identidade e de expressividade necessários aos logotipos, a lâmina da Malha Fina Cartonera, cujo nome social, largamente conhecido no Brasil, é também um conceito judiciário referente ao processo de verificação de pendências nos processos de declaração de renda.

Ambos os lados apresentam similitudes se os vemos, como aponta o designer do logo Enrique Hernández, como um comum processo de peneiramento e, portanto, de retiradas e desvelamentos. Tal como, de modo geral, as lâminas revelam as faces por detrás das barbas, inclusive às vezes revelam novas faces para rostos já conhecidos, a Malha Fina Cartonera pretende revelar para o seu público, tanto escritores da FFLCH que permanecem inéditos quanto obras latino-americanas pouco conhecidas do público brasileiro.

Enrique é cubano, formado em História pela Universidad de La Habana, já morou em Fortaleza e atualmente reside no Rio de Janeiro. Além deste trabalho, criou o logo do Encuentro Internacional de Poesía Hispanoamericana “La poesía como lengua franca” cuja segunda edição vai acontecer nos dias 28 e 29 de abril na Universidade de São Paulo, bem como o logo da coleção de poesia cubana contemporânea La isla de cartón, editada pela La Sofia Cartonera, e resenhada recentemente aqui no blog. O designer aceitou conversar com a equipe da Malha Fina sobre seu processo criativo e seus trabalhos.

Você fez vários logotipos com os quais temos contato na Universidade de São Paulo (como o logo do Poesía como lengua franca), Enrique. Além destes, que outros trabalhos você fez?

Faço (ou tento fazer) logotipos desde que meti a desenhista, um passatempo que acabei levando a sério, um jogo de criação divertido, mas de grande responsabilidade. Creio que faço logotipos pela inspiração ou inclinação que tenho para desenhar, para representar as ideias graficamente e querer transmiti-las através de uma imagem, um símbolo, digamos, o que nos leva à concepção de um “identificador visual”, um logotipo, neste caso. De 1996 até agora já desenhei uma boa dúzia de logos, alguns que ainda me deixam feliz, e também ilustrações, vinhetas. Ainda que tenha começado na publicidade como redator e depois diretor criativo, o que eu mais gosto é desenhar coisas como logotipos, símbolos. Imagens falam sem palavras. Mas é algo muito, muito difícil, muito mais do que escrever.

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Como você chegou ao logo da Malha Fina Cartonera?

A imagem da lâmina de barbear saiu sem querer, pela ação de cortar, refilar, de dar forma a uma encadernação, mas também pela ideia de editar, de recortar, de dar perfil a ideias e palavras. A edição necessita de um peneiramento, de uma “malha fina”, de passar em tela. As lâminas de barbear estão dolorosamente gravadas no imaginário do povo cubano. Produto sempre deficitário, o que nos levou a optar (sim ou sim) por lâminas terríveis, com as quais, barbear-se era uma experiência torturante… A marca Astra (Astra quando? nos perguntávamos) era somente superada pela crueldade das lâminas Sputnik. Uma raspada te punha em uma órbita de pura dor… A imagem da lâmina tem sido usada em outros contextos. Para mim, penso que o logo funcionou como uma catarse. Espero que seja bem recebido, que seja um barbear-se feliz…

E quanto ao logo da coleção La isla de cartón?

Quis que o logo parecesse um selo, uma marca de exportação de algo cubano que não ficasse somente no rum ou no charuto, algo que identificasse uma caixa que contivesse poesia. Usar a Ilha da Juventude¹ como centro da composição me pareceu arriscado, mas ao final acabei me convencendo. La isla de cartón também remete a um jogo de palavras bastante cubano, bem como uma ironia que também é uma expressão e orgulho pelo que é nosso (“Si te encuentras uno que sea como yo, túmbalo que es de cartón”), um chauvinismo tropical, digamos. O título da coleção é lindo, uma ilha encadernada.

Esta foi uma coleção importante, que nos apresentou escritores, já que chega pouco da literatura cubana ao Sul (com exceção de Padura). Que escritores cubanos você incluiria na coleção?

Confesso que conheço muito pouco da poesia atual em Cuba. Sou um leitor de narrativas, de ficção. Leio poesia esporadicamente, sem nenhuma ordem cronológica nem geográfica, não me arriscaria a recomendar nenhum autor, mas confio na apreciação dos editores da Malha Fina Cartonera. Ah, tampouco tenho lido nada recente do Padura… Por aqui, foram publicados, ou se vendem, outros autores cubanos: Reinaldo Arenas, Guillermo Cabrera Infante, Virgilio Piñera.

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Quais são as suas inspirações?

Minhas inspirações são muito variadas: a natureza, as formas puras ou geométricas, a caligrafia, a forma de uma folha ou de uma árvore… Tenho feito logotipos inspirados tanto no tangram chinês, como partindo de uma fonte tipográfica, transfigurando-os em algo novo, ou renovado. Às vezes intuitivamente ou por “acúmulo” visual surge uma imagem que me leva pelo caminho que quero. Com isso sim tenho sorte. Olho muitas coisas antes de me decidir por uma forma, uma estrutura que venha a ser o logo final. E claro, é preciso revisitar os mestres: Paul Rand, Saul Bass, Milton Glaser. Ver como conseguiram fazer o que às vezes parece impossível.
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Outros logotipos feitos por Enrique

Como é o processo de criação de logotipos? Que coisas você tem que ter em conta para que fiquem bons?

Costumo começar a partir de um desenho, ou melhor, um rascunho, para chegar à forma mais sintética de um logotipo. Passo dias rabiscando antes de ter algo que se pareça a um futuro logo. Uma foto ou uma gravura podem ser um bom ponto de partida, bem como uma inspiração concreta. Dedico-me a investigar sobre um símbolo especificamente em livros ou na internet para entender o que determinada imagem pode comunicar em vários níveis, em outras leituras. Mas o start é sempre um jogo, a parte divertida do assunto. Depois tenho que escolher uma fonte tipográfica, ou criar uma letra, transformar algo já estabelecido, aproveitar essa imensa bagagem que está disponível agora. Tenho uma queda por fontes tipográficas, elas têm uma força intrínseca para comunicar sensações, ideias e emoções. A única possibilidade de que “fiquem bons” é com muito trabalho, comunicar-se na medida do possível com o cliente, entender melhor o que ele quer, o que necessita e o que espera comunicar a quem vai ver sua marca. O resto é sorte.

¹ Ilha da Juventude, antes de 1978, Isla de Pinos, é uma ilha e um município especial de Cuba, no Arquipélago dos Canarreos.

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